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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar dos primeiros filhos. Olá, Eduardo. Esta ideia de que o primeiro filho é mais filho da mãe é verdadeira ou é apenas uma impressão que repetimos?
Olá, Judite. Dito dessa maneira, pode não ser a coisa mais simpática do mundo. Mas é capaz de ser um pouco verdade, porque a forma como uma mãe vive um primeiro filho, por mais que as mães digam o contrário, não é de todo idêntica à forma como vivem o segundo ou o terceiro. Não tem nada a ver e compreende-se por quê. Porque é um deslumbramento sem fim quando se tem um primeiro filho nos braços. É de uma exigência enorme quando uma pessoa tem finalmente a noção que tem um conjunto de responsabilidades que ele lhe traz pra toda a vida. A dedicação é diferente, a maneira como se está horas e horas a olhar pra ele e se vão trocando olhares e se vão conhecendo mutuamente acaba por ser única e, portanto, é tudo tão diferente, que não é por acaso que habitualmente o primeiro filho é sempre mais frágil, mais dependente, mais menino da mamãe, porque tem uma sensibilidade tão inacreditavelmente educada que quando se vai ver, evidentemente, não é igual à forma como a mãe se liga a um segundo ou terceiro filho. Aliás, o clássico é as mães quando têm o segundo filho, ficarem muito contentes, na maior parte das vezes, evidentemente, mas um bocadinho delas fica triste, porque sente que é quase uma traição para o primeiro aparecer um segundo.
Mas até que ponto aqui é biologia, a gravidez, o parto, a amamentação, e até que ponto é cultura?
É uma coisa, chame de cultura se quiser chamar, Judite, mas a biologia está lá. É das muitas circunstâncias em que nós percebemos que somos animais racionais e que, portanto, a biologia tem um peso grande em tudo isso, mas é uma aprendizagem recíproca. Eu não me canso de recordar que aquilo a que nós chamamos de linguagem materna não é bem a linguagem da mãe, a linguagem da mãe que o filho aprende. A linguagem materna é, no fundo, a linguagem daquela mãe, naquele momento, com aquele bebê, que depois, obviamente, é reformulada segundo as circunstâncias de crescimento de cada um. E, portanto, a linguagem materna com um e com outro não são obviamente iguais, dependem de muitas circunstâncias e dependem do crescimento, como não podia deixar de ser, de uma mãe, com tudo o que isso também traz de bom. Nós somos capazes, até tenho medo de dizer isto, Judite. Nós somos capazes de ser melhores mães e melhores pais, apesar desta dedicação toda no segundo e no terceiro filho, porque vamos aprendendo, vamos apanhando o jeito, vamos nos adequando de uma outra forma e isso acaba por fazer uma enorme diferença. Agora, é uma ternura ver a maneira como uma mãe vive um primeiro filho e a forma como vive um segundo ou terceiro. Eu chamo sempre a atenção da relação que a mãe tem com a chucha. Quando a chucha cai no primeiro filho, esteriliza essa chucha. No segundo e no terceiro, a mãe põe na boca dela, se for preciso, sopra e toca a andar. Ou, por exemplo, o álbum do bebê, que é uma coisa que já teve menos impacto, mas que ainda assim, no primeiro filho, tem lá até o lugar pra primeira madeixa de cabelo que se corta do bebê e no segundo e no terceiro, as fotografias estão na nuvem, estão muito bem, vai se lá buscar sempre que de alguma forma se precisa, sendo certo que um segundo e um terceiro filho, muitas vezes perguntam timidamente por que o irmão mais velho tem mais fotografias, com todos os embaraços que isso traz às mães e aos pais.
Há mães que, sem se darem conta, ocupam o bebê por inteiro e deixam o pai de fora. Isto acontece mais com o primeiro?
Judite, isso acontece sempre com o primeiro, ninguém ouviu, pois não? Há um grandessíssimo "chega pra lá" em relação ao pai. Não é por mal, Judite, porque evidentemente que o bebê é da mãe e do pai, mas é sobretudo da mãe, naquele primeiro bebê. A mãe quer incluir o pai, mas aquela relação é tão intensa, tão insubstituível, tão mágica, em boa verdade, tão mágica, Judite. Por mais que a mãe racionalmente queira dividir aquele bebê, aquilo é muito mais dela do que dos dois. E o pai habitualmente colabora, às vezes até colabora bem demais, para dizer a verdade, Edite. Porque eu percebo que o pai se anula um bocadinho de si, mas às vezes aproveita a boleia e afasta-se por muito tempo, às vezes por vários anos. E portanto, não é fácil e não vale a pena estarmos de dedo esticado em relação à mãe, porque se o pai bater o pé e disser: "Ei, isso é meu." O bebê ganha muito, porque tem duas maneiras de falar pra ele, dois colos diferentes, etc. E a mãe também, porque manifestamente a mãe, sem se dar conta, empurra o pai um bocadinho pra longe, mas depois sente-se muito sozinha, porque ele anda em parte incerta e se calhar não é tão presente, tão dedicado, tão terno como ela gostaria que ele fosse.
Errar no primeiro filho leva a que a mãe queira controlar tudo. Esse medo de errar.
Sim, as mães querem ser perfeitas. Querem ser, no mínimo, melhores que as mães delas, como se as mães delas fossem um horror de erros, o que não é verdade. As mães acabam por pôr muita pressão sobre si próprias, porque um primeiro bebê tem que valer por ele, pelos pais que nós não tivemos, pelos pais que nós desejamos ter, pelos pais que nós nos imaginamos capazes de ser, pelos filhos que nós nos imaginamos a construir, etc. O que faz com que um primeiro bebê tenha um pacote de responsabilidades sobre os seus ombros que seguramente um segundo e um terceiro não têm.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço pra si, Edite. Até amanhã.