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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Paulo, este orçamento de Estado é um orçamento Marie Kondo?

Estas são umas metáforas engraçadas.

Diz umas piadas novas.

Exato. É bem visto. Podemos dizer que sim.

Aquela japonesa.

Aquela japonesa que fez sucesso há uns 10 anos, talvez. Te estranha, não é?

Sim, às vezes estranha.

Arrumações, espaços minimalistas.

Só ficas com aquilo. Eu tenho o livro, sei.

Pronto, exato. Então estamos bem.

Só ficas com o livro daquilo que te faz feliz.

Exatamente. Portanto, este orçamento é minimalista nas alterações, não contém medidas que não sejam estritamente necessárias e está mais arrumadinho do que era habitual, nomeadamente a arrumação da despesa, como é apresentada a despesa por programas ministeriais, tem objetivos para uma série de medidas. Portanto, nesse sentido, pode-se dizer que há aqui uma inspiração Marie Kondo nas arrumações. Mas depois também é uma Marie Kondo, se quisermos prolongar a metáfora com o fato apertado, porque o excedente previsto é de apenas 0,1%. Se nós olharmos para os dois últimos anos, foi 0,5, 0,3 e agora o previsto é 0,1. Portanto, há aqui uma tendência claramente descendente. Estamos a chegar ao zero. As contas são apertadas, não há espaço para grandes habilidades na discussão parlamentar, ou pelo menos o governo com este número quer fazer parecer isso aos partidos da oposição, e vai exigir uma execução muito atenta por parte do ministro das Finanças. Digamos que foi feito também para não causar grandes embaraços. Esta limpeza de medidas grandes embaraça a oposição, quando agora decidirem viabilizá-la no Parlamento. Portanto, não tendo grande coisa, não há muito para implicar.

Então e será que Pedro Nuno Santos também quer evitar embaraços?

Certamente que sim. O deputado socialista vai suspender o mandato de deputado a partir do dia 24 de outubro, dias antes da discussão e da votação na generalidade do Orçamento de Estado para o próximo ano.

Eu creio que 24, Paulo, é o dia em que Miranda Sarmento vai apresentar à comissão. Sim, acho que é nesse dia que ela anuncia e depois o debate na generalidade é dois dias depois.

Portanto, Pedro Nuno Santos já não estará para a votação.

Sim, nem se quer candidatar para esse anúncio, para a primeira apresentação.

A suspensão de mandato é por meio ano. Pedro Nuno Santos ontem indicou isso publicamente, invocou motivos pessoais e profissionais que certamente existem, a questão não é essa, mas já agora talvez se junte o útil ao agradável, porque a ausência de Pedro Nuno Santos evita colocá-lo numa situação que podia ser difícil, entre aquilo que é uma certa disciplina de voto de PS, que vai dar uma indicação, não sabemos se o PS se vai abster, se vai votar a favor. Votar contra é difícil pelas indicações que já foram dadas. Mas entre essa disciplina de voto e no fundo, aquilo que em política se chama a ingestão de sapos vivos, isto é, ter que votar contra medidas em que ainda há um ano ele como líder do PS tanto batalhou e tanto se opôs, nomeadamente a descida do IRC que vai estar neste orçamento. Portanto, é melhor não estar do que ver naquilo que para Pedro Nuno Santos poderão ser desgraças políticas, basicamente.

Vamos ver se também suspende a sua atividade nas redes sociais.

Pois, vamos ver como é que ele se posiciona depois publicamente em relação ao orçamento.

Entretanto, Paulo, a campanha eleitoral está a chegar ao fim. São mais umas horas hoje, até à meia-noite. É hoje. Vamos ter uma noite eleitoral animada?

Sem dúvida. Animada, imprevisível.

Muito indefinida.

Muito indefinida. Aliás, olhando aqui para o mapa, há muitas incertezas em conselhos importantes. Dizemos isto à boleia das sondagens que vai havendo. Ontem estive a passar uma vista de olhos pelas últimas sondagens, que não há para todos os conselhos, obviamente, mas há para uma mão cheia. E quais são aqueles em que, olhando para a última sondagem, há situações de empate técnico a dois ou a três, muitas vezes. Em Lisboa, no Porto, em Sintra, Aveiro, Marinha Grande ou Faro, por exemplo, e não estou a ser exaustivo. Neste momento é muito imprevisível o desfecho.

E até aqui na margem sul, Setúbal também.

A margem sul, logo aqui Setúbal, embora Dos Meira surja com alguma vantagem, mas também não é uma vantagem confortável que indicie uma vitória folgada, se ela acontecer, ou fácil.

É ficar agarradinho aqui à Rádio Observador para saber como é que isto fica.

É mesmo para acompanhar passo a passo. Imaginem que esses conselhos que estão empatados nas sondagens, que caem todos para o mesmo partido, seja ele qual for. Esse partido vai ter uma grande vitória e o outro vai ter uma grande derrota. Aqui falando entre o PSD e PS, claro. E depois há a dúvida sobre o Chega. O Chega vai ganhar alguma câmara, não vai, vai desaparecer ou vai continuar ausente das autarquias, como o Francisco Assis disse ontem à noite, no programa do Chega. Outras questões: até que ponto é que o PCP resiste? Tem 19 câmaras ainda, é um partido importante em termos autárquicos, até que ponto é que resiste e continua num campeonato importante. Portanto, há muita coisa em aberto, muita indecisão, e eu acho que vai ser uma noite política imprópria para cardíacos.

E provavelmente a acabar tarde.

A acabar tarde.

Porque, por exemplo, Lisboa, cada voto vai contar. Sintra.

Sintra, que tem a freguesia com mais população e eleitores do país, que costuma ser das últimas a ser apuradas e, portanto, temos conselhos com muita população, com demora na contagem e muito empatados.

Portanto, pipocas e café.

E Rádio Observador.

E Rádio, é claro. E acaba a hora que acabar, segunda-feira estamos cá. Sei lá se eu hei de ser com olheiras ou sem olheiras.

É verdade, vai ser uma noite mal dormida, essa é segura mesmo.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.