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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder a essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.

E hoje falamos de pobres e mal-agradecidos. A minha décima é mais pequena do que a tua. Não me posso rir, nem eu tossir.

Sei lá que sabes.

O almirante com pressa, mas para começar, vamos por terra. Bruno, as estradas de Portugal continuam a ser um pesadelo.

Este é um assunto sério, Maria João. Tu estás aí com piadolas. Apesar da melhoria nos números, só há uma resposta possível: sim, as estradas portuguesas continuam a ser um pesadelo. Entre 1 de janeiro e 15 de dezembro deste ano, ocorreram mais de 134 mil acidentes, dos quais resultaram 453 vítimas mortais, 2500 feridos graves e mais de 41 mil feridos ligeiros. Em relação ao mesmo período do ano passado, registraram-se mais 3000 acidentes e menos seis mortes, isto de acordo com os dados do Relatório de Sinistralidade Rodoviária, divulgado pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Para termos uma dimensão da tragédia, esta comparação fazia-se muito antigamente. Se precisamos, para ter noção do que representam 460 vítimas mortais por ano, se precisamos ter uma ilustração chocante, imaginemos que todos os anos caíam em Portugal dois aviões Boeing 737, que têm capacidade para 230 passageiros. É desta ordem de grandeza que estamos a falar e, muito além disso, de muitas e muitas famílias com vidas destruídas para sempre. Sim, as estradas em Portugal continuam a ser um pesadelo.

Sim, e estás a falar só das vítimas mortais. Falando dos feridos...

Dos feridos, claro, as vidas muitas vezes ficam incapacitadas. Exatamente, com todas as consequências para eles e para as famílias.

E para a sociedade. É isso mesmo. Entretanto, Paulo, Gouveia e Melo está com pressa.

Muita pressa, como se está a ver. O almirante não quer perder tempo e ontem anunciou que vai pedir para passar à reserva já no final deste mês ou deste ano, se quisermos, três meses antes do que aquilo que seria o calendário natural. E por quê? Diz o próprio que é para recuperar mais depressa todos os seus direitos cívicos, nomeadamente, pensamos, os de intervenção política sem limitações, que são aqueles que obviamente estão condicionados quando se usa uma farda. E faz bem, talvez até já o devesse ter feito antes, largar o cargo. O melhor é clarificar tudo o mais depressa possível, porque isto de andar sempre com dois chapéus, o chapéu de chefe do Estado-Maior da Armada e o de protocandidato presidencial, por um lado, não dá jeito nenhum, andar sempre com um chapéu debaixo do braço e outro na cabeça, depois troca aqui, troca ali. E além disso tudo, isto tem sempre tudo para correr mal, como se viu com aquele episódio da Revista da Armada. Teremos, portanto, um ano novo e um almirante novo. Isto vai ser interessante a partir de agora, não é?

Vai. E entretanto, o governo cede ou não cede, Bruno?

Carla, estás a perguntar se o governo cede, com C? Não estás a fazer nenhum trocadilho com a sede do governo?

Não me passaria pela cabeça.

Não, eu logo vi que não serias capaz de um trocadilho tão infame. Bem, então o governo não cede e mantém-se firme e hirto como uma barra de ferro. Na sexta-feira, falámos muito disso ontem, o Banco de Portugal, liderado por Mário Centeno, previu um regresso aos défices orçamentais no próximo ano. Um défice pequenino, de 0,1%, mas ainda assim um défice. E quem esperava que o governo fosse a correr alterar a sua previsão, depois de escutar o oráculo do banco, desengane-se. Como homem previdente, Joaquim Miranda Sarmento, como Ministro das Finanças, manteve a previsão de um excedente de 0,3%, respondendo assim ao pessimismo de Centeno com um otimismo moderado. Isto porque o Conselho de Finanças Públicas e a Comissão Europeia até preveem um excedente maior, cerca de 0,1% maior. Isto anda tudo à volta do 0,1. Muito gostam estes senhores de comparar décimas, mas para já, nesta luta de galos, é o atual Ministro das Finanças que leva a melhor, é ele que está no governo e leva a melhor sobre o antigo Ministro das Finanças. Agora veremos no final do ano quem é que ri melhor, quem é que afinal tinha razão.

Paulo, então e onde é que os portugueses foram buscar a ideia de perda de qualidade dos serviços públicos?

É verdade, de facto, isto é muito estranho.

É o que se lembra hoje.

É verdade, as pessoas lembram-se de cada coisa, uma ingratidão. Imaginem que o INE divulgou ontem o seu relatório anual com indicadores de bem-estar dos portugueses. É um documento extenso que agrega uma série de estatísticas quantitativas muito diversas. Estatísticas económicas, emprego, desemprego, sociais, culturais e por aí fora. E também algumas estatísticas, alguns dados qualitativos sobre a perceção da população. Uma delas é a qualidade que é atribuída pelos portugueses aos serviços públicos, que cai a pique desde 2020. O gráfico não é uma linha vertical, mas é uma linha com uma forte inclinação para uns 45 graus. Cai a pique desde 2020 e cai para um terço do valor que tinha nesse ano. Foi o ano, como sabemos, de início da pandemia. Estes lusitanos, de facto, são muito esquisitos. Têm razão de queixa de quê? Da saúde? Da escola, que funciona mal? Dos serviços de finanças? Protestam com as Lojas do Cidadão ou com os registos? Não estão satisfeitos com o quê? Com os transportes públicos? Basicamente, tudo uma cambada de ingratos. O país a funcionar às mil maravilhas e os portugueses só se queixam. Olhem, não merecem o país que têm. Essa que é essa.

A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder a essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.