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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Então, Paulo, o governo está preocupado. Quer ajudar o Marcelo a terminar o mandato com dignidade. É isso?

É o que parece. Esta expressão não é nova.

Não é fácil.

Não é fácil.

Tarefa fácil.

E a expressão não é nova na política portuguesa. A expressão foi cunhada pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva, isto nos anos 90, foi dirigida ao então também presidente da República, Mário Soares. António Costa já usou a mesma expressão em relação ao próprio presidente Cavaco, e agora parece que se repete deste governo em relação a Marcelo. O atual presidente da República tem dado alfinetadas regulares ao governo, ainda hoje há mais uma no público.

Ainda hoje há mais uma no público sobre a saúde. Com prazo para-

Com prazo até setembro, senão vem juízo.

Para que os problemas da saúde fiquem resolvidos.

Parece o Trump a impor prazo, ultimatos.

Exato. Não se sabe ao certo o que o presidente fará se continuarem a fechar urgências em setembro.

Agarrem, senão...

Vamos ver. Além desta de hoje que está no público, outra delas foi quando disse na semana passada que a maioria será oportunamente julgada pelas alterações à lei dos estrangeiros. E ontem, Leitão Amaro, ministro da Presidência, disse que seria capaz de dizer exatamente a mesma coisa que Marcelo sobre este tema. Portanto, o governo claramente não quer entrar aqui em confronto nem criticar o presidente, alinhará com aquilo que ele for dizendo, porque também palavras leva-as o vento. E esta é uma atitude diplomática do governo em relação ao presidente, que tem sido tudo menos diplomata nas relações institucionais. Portanto, vamos ver o que isso vai dar.

Mas até essa reação tão oposta dá o tom. Também ajuda a ir alimentando essas coisas. Com tudo isto, onde é que se está bem? Onde é que se está bem com este calor?

Olha, Carla, aqui não se está nada mal. Quando entramos estava um bocadinho quentinho.

Ainda não está bem, diria eu.

Pronto. Mas de resto o ambiente é bom.

É muito bom.

Muito bom. Mas com a pobreza energética das casas portuguesas, em que temos muito calor no verão e muito frio no inverno, onde é que se está bem com este calor? No centro comercial, por exemplo, ou na secção de congelados de um supermercado, também não se está nada mal. Às vezes, também se está bem nos transportes, mas só se o ar-condicionado funcionar, quando não funciona, é dos piores sítios para se estar. E é isto que acontece nos comboios do metrô do Porto, que nos dias de maior calor, este sistema de ar-condicionado, que não funciona, tem motivado inúmeras queixas dos passageiros. A empresa veio agora dizer que não há nada a fazer. É aguentar, porque a renovação total do sistema implicaria diminuir a lotação dos comboios ou então a descontinuação dos 72 comboios. O problema, segundo a empresa, isto passo a citar, é mesmo a capacidade de arrefecimento dos equipamentos. Ora, quando estamos a falar de ar-condicionado, a capacidade de arrefecimento dos equipamentos eu diria que é fundamental para cumprir o-

É para aí o fator número um. Talvez.

Está no top um dos fatores importantes para um ar-condicionado. Mas também diz a empresa, a forma como estão desenhados dificulta muito possibilidades de melhoria. Pronto, então não há nada mesmo a fazer. Eu sugiro que a Metro do Porto distribua leques, os abanicos, aos passageiros. No verão, é a única coisa a fazer. No inverno, é dar uma mantinha.

Olha, é uma boa ideia.

Una mantita.

Já que são os abanicos.

Os abanicos.

Olha, agora vamos então aos Estados Unidos. Já que aqui está muito calor, como é que é? Estão cada vez mais parecidos com uma autocracia.

Começa a ser cada vez mais difícil distinguir o exercício de poder da administração Trump com o de alguns autocratas disfarçados de democratas, porque são países onde se realizam eleições regulares, que não são postas em causa, distingui-lo desses autocratas que há por esse mundo fora. Vamos só rapidamente recordar os sintomas dos últimos tempos, e estamos aqui a falar de duas, três semanas. Trump despediu a responsável do INE, lá do sítio do Instituto de Estatísticas, porque não gostou das estatísticas de emprego, disse que ela fez aquilo de propósito para deixar mal a Casa Branca. Tem uma guerra aberta ao presidente da Reserva Federal, o Banco Central, que é independente, porque acha que os juros devem baixar, mas a Fed, segundo as contas que faz, não baixa os juros. As pressões que ele vai fazendo para o despedimento de jornalistas e apresentadores de televisão, a pressão para mudar a fórmula da Coca-Cola, portanto, intervenção claríssima em empresas privadas e agora há mais uma. Ontem veio pedir a demissão do CEO da Intel. A Intel é um dos maiores produtores mundiais de chips para aparelhos eletrónicos, por alegadamente ele, o CEO, chefe da empresa, colocar em causa a segurança nacional com as ligações comerciais que terá à China. Intervenções destas em empresas e órgãos supostamente independentes não são próprios de uma democracia, não costumam acontecer. E nos Estados Unidos há aqui uma normalização já. Já encolhemos os ombros quando olhamos para isto, de facto, que nos tiraria do sério se víssemos isto noutro tipo de países.

Absoluto abuso de poder.

Absoluto abuso de poder. Portanto, vamos ver pra onde é que aquilo vai.

E como é que estamos no outro tipo de abusos, os da amamentação?

Tem sido uma das polémicas dos últimos tempos, Maria João, esta questão da redução do horário para amamentação. Há vários relatos, mais ou menos episódicos, de pessoas que sabem, que já viram alguém que abusou deste direito. Ora, a Autoridade para as Condições de Trabalho veio dizer que nos últimos anos detectou um total de, preparem-se, zero casos em que as mães tenham beneficiado ilegalmente da licença de amamentação. Por outro lado, desde 2021, a mesma autoridade já autuou 10 empresas por incumprimento do direito de redução do horário e outros três empregadores foram advertidos.

Portanto, é o outro lado que não está a cumprir.

Parece que sim. Se calhar podíamos começar pelos prevaricadores, ou não? Eu acho que sim.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer