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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Isto agora é quase um tema de verão. O Livre vai entrar na piscina dos grandes?

Vontade não lhe falta. O Livre, desde que foi fundado, quer entrar na piscina dos grandes, mas para isso não basta ter vontade, é preciso ter votos. E apesar de ter ultrapassado Bloco de Esquerda e PCP, o partido não conseguiu o número suficiente de votos e de mandatos para conquistar o direito a brincar com os mais crescidos. O que não impede o Livre, até ontem liderado formalmente por Rui Tavares, de dizer o que os grandes devem fazer quando entram na piscina. E essa será a estratégia. Sem deputados para oferecer uma maioria à esquerda, o Livre procura, através do discurso, influenciar o único partido à esquerda que tem o direito a entrar na piscina, e esse partido é o PS. E o PS, enquanto não depender dos votos do Livre, também não se importa de alimentar a ficção de uma frente progressista que, mais do que uma frente, é um casalinho muito díspar nos resultados, embora, como vimos agora neste fim de semana, não nas ambições.

E Bruna, a necessidade aguça o engenho?

E continuamos a falar de água.

Pois é.

A meter água por todos os lados. É o que diz o povo, mas não só aguça o engenho, como também apressa as soluções. E perante a catástrofe da falta de água, os serviços municipalizados da Câmara de Almada conseguiram pôr em funcionamento um furo cujo arranque só estava previsto para o final deste mês. Juntaram esforços com empresas parceiras e voilà, um furo prontinho a abastecer o conselho e contribuir com mais 60 metros cúbicos por hora de água. Para mal dos moradores da região, a solução vem com algum atraso, o que é habitual nos nossos serviços, e não só nos públicos. É preciso que o problema se torne insustentável para que as soluções apareçam. Planeamento e antever os problemas são coisas que ainda nos fazem muita confusão.

E por falar em problemas, o VAR dos exames compensa?

Compensa, de acordo com os números de um estudo, mas são poucos os alunos que pedem a revisão dos exames. Mas este ano, com todos os problemas com a correção, é provável que haja mais alunos a recorrer a este VAR. Um estudo feito pelo Centro de Economia da Educação da Nova SBE concluiu que a porcentagem de provas revistas se situou nos 2%, mas que em 70% dos casos em que é pedida a revisão, a nota aumenta e só em 10% dos casos se verifica uma redução. Sabendo nós que o acesso ao ensino superior em alguns cursos é decidido à décima, qualquer aumento pode ser decisivo e a diferença entre entrar no curso que se pretende e na faculdade que se pretende, e uma segunda escolha. E isto faz toda a diferença. Outra das conclusões do estudo é que são os filhos das famílias economicamente mais favorecidas que mais pedem a revisão, o que indica a importância do resultado dos exames para a entrada em certos cursos. Matemática é a disciplina com mais pedidos de revisão, e isto acaba por não ser muito inesperado, e também indicia a existência de barreiras ou desincentivos, sejam eles financeiros ou burocráticos, para pedir a revisão das notas. Mas este estudo revela isso mesmo: compensa pedir a revisão, recorrer aqui ao VAR dos exames.

Agora vamos para um tema mais levezinho, menos polémico.

Menos?

Muito menos. A seleção de França é mesmo francesa.

Isto é uma discussão recorrente sempre que há um mundial, já não é de agora. Talvez tenha começado de forma mais intensa em 1998, quando a seleção francesa conquistou o mundial, que nesse ano se disputou em França. E quando se olha para seleções como a Alemanha, a Noruega ou a Suécia, e se vê a presença, que antes era inexistente, de jogadores negros, isto acende logo os alarmes racistas. "Já não é a Alemanha, aquilo é uma seleção africana", e nenhuma seleção sofre tanto com estes ataques como a seleção francesa. Ataques que vêm de africanos, que acham que França rouba os melhores talentos de África, e ataques de pessoas como o antigo primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que afirmou que a seleção de França não tem franceses. Em primeiro lugar, é verdade que muitos dos atuais jogadores da seleção francesa poderiam ter optado por representar os países de onde os pais são originários. E aliás, isso já acontece com frequência, basta olhar para a seleção de Marrocos. Em segundo lugar, estes jogadores de França são tão franceses como Michel Platini, filho de imigrantes italianos, Charles Aznavour, filho de imigrantes armênios, ou Nicolas Sarkozy, filho de um imigrante húngaro. Eu sei, é a cor da pele que faz confusão a muita gente, mas têm de se habituar. Esta seleção, que tem muitos filhos de imigrantes, filhos esses que já nasceram em França, foram criados em França e futebolisticamente foram formados em França, é mesmo francesa.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus