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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Então Rúbio veio vender aviões, Bruno.

E dá vontade de cantar: "Anda comigo vender aviões." Mas não foi só isso que o secretário de Estado norte-americano veio fazer a Lisboa. Ele também veio defender a NATO, jurar o amor dos norte-americanos pela Aliança Atlântica. Normalmente não é isso que se ouve desta administração. Veio também dizer que quando a América pede aos europeus para investirem na defesa, é precisamente por se preocupar com a segurança da Europa e por gostar muito da NATO. É capaz de ter razão aqui em alguns dos aspectos do investimento europeu, que é necessário na defesa. Mas no final ficou aquela sensação de que os Estados Unidos querem mesmo é que o reforço do investimento europeu na defesa signifique mais compras aos Estados Unidos, a começar pelos caças F-35. Quando foi questionado sobre o assunto, Paulo Rangel engasgou-se. Disse: "Essa não é uma decisão do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Há outras propostas, vamos ver." Mas no rosto de Marco Rúbio, naquele momento, brilhou logo um grande sorriso comercial de quem acabou de vender um carro ou então uma frota de aviões.

Temos orçamento. A questão, Paulo, é se é um bom orçamento.

Este é o orçamento fruto do contexto e das circunstâncias. A margem de manobra é cada vez mais estreita e o reflexo disso é o excedente mínimo de 0,1% do PIB. Mais pequeno era impossível. A despesa estrutural é cada vez maior. Há também riscos muito importantes no radar e um deles já está materializado também na fatura com juros. No próximo ano, o Estado vai, previsivelmente, pagar 1550 milhões de euros em juros a mais do que pagou este ano. E esta é uma das despesas que o governo não controla, temos que pagar e ponto. Outros fatores que escapam à vontade do ministro das Finanças são, por exemplo, o preço de petróleo e o impacto que isso tem na inflação. Portanto, tudo motivos para ter muita cautela na execução do orçamento e também para recomendar agora na discussão parlamentar, para recomendar às oposições prudência no habitual leilão de medidas.

Linda especialidade, não é, Paulo? O orçamento diz-nos porque é que os combustíveis são essenciais?

Os números estão lá todos, e vamos olhar apenas para o ISP, o Imposto sobre Produtos Petrolíferos. Vamos deixar de lado o IVA, que não é discriminado por produtos e serviços e, portanto, o Estado sabe, o governo sabe, mas nós não sabemos qual é a parte do IVA que vem dos combustíveis. Ora bem, o ISP, só ele, vai render ao Estado no próximo ano 3,8 mil milhões de euros. Este montante serve para quê? Por exemplo, paga todo o orçamento anual do ensino superior ou, em alternativa, paga todo o orçamento da defesa. Ou ainda, se quisermos uma outra medida, a receita do ISP é igual à soma dos orçamentos da segurança interna, portanto, tudo que é polícias e por aí fora, mais a cultura. E de novo, aqui não estamos a contabilizar toda a receita fiscal dos combustíveis, o IVA está de fora. Por aqui percebemos que não é fácil tomar decisões que ponham em causa esta receita sem haver alternativas. Por aqui também podemos adivinhar que o Estado não está preparado para a transição energética que tanto apregoa.

Bruno, então e os bancos são os forretas?

São, Maria João, não há dúvidas disso. Nem vale a pena discutir isso. Quando se trata de remunerar os depósitos, sabemos como é que são os bancos. É mesmo um fraco incentivo à poupança, as taxas de juros. Mesmo com o dinheiro em depósitos a prazo, quando os portugueses julgam que estão a fazer render o seu dinheiro, as suas poupanças, estão a perder poder de compra por causa da inflação. Mas o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, diz que isto pode estar prestes a mudar. Disse que há margem para se subir as taxas dos depositantes e há margem para aumentar os tais incentivos à poupança. Diz que a banca portuguesa está robusta, a respirar muito bem, e que os principais bancos em Portugal têm uma rentabilidade que é, de longe, palavras do governador, maior do que a de outros bancos europeus. Por tudo isto, Álvaro Santos Pereira garante que os supervisores financeiros estão atentos e que vai haver novidades em breve. Já estamos todos a esfregar as mãos. Os depositantes estão cansados de ver os bancos no papel Tio Patinhas. Quando aumentam os juros, por exemplo, tem impacto nos empréstimos da habitação, não sobem as taxas de juro dos depósitos. Portanto, aquilo que se pede aos bancos é que sejam um bocadinho mais generosos, menos Tio Patinhas e abram os cordões à bolsa.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.