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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta essa.
Hoje falamos de discussões eternas. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Fui clara?
Bastante.
Não percebi, Maria João.
Não?
Não.
Eu fico mais à frente.
Não diria melhor.
Bem dito. Mas começamos com uma adaptação daquele provérbio famoso, Paulo: quando avança um militar português, avançam logo dois ou três?
É verdade, é o que parece. E aqui falamos das eleições presidenciais. Agora é Isidro Morais Pereira, major general, que está a ponderar seriamente concorrer à Presidência da República. Foi isso que disse numa entrevista ao Observador. Diz que está seriamente a pensar ser candidato, diz que nunca enjeitaria também o apoio do Chega, se ele aparecer. Vai mesmo reunir-se com André Ventura proximamente. Isidro Morais Pereira é militar na reforma, é comentador regular de temas militares na comunicação social, sobretudo na CNN, por vezes também aqui no Observador. E se isto acontecer, o Chega pode ter aqui resolvido o seu problema presidencial e Govem e Melo ganham um concorrente militar, embora de outro ramo. E a direita divide ainda mais o seu eleitorado. Portanto, as presidenciais prometem, não é?
E ainda não foi desta que a Constança entrou na festança?
Ainda não foi desta. Sempre que há festança, a Constança aparece, como uma vez o próprio António Vitorino ironizou, mas também aqui se repete o clássico: ela até aparece, mas nunca entra, fica sempre à porta. Vitorino chegou, viu quem estava a entrar e não entra na festa. Não terá gostado do ambiente e resolveu dar meia-volta e regressar a casa.
Quem nunca?
Quem nunca? É verdade, quem nunca? E com mais ou menos entusiasmo, o PS está cada vez mais condenado a apoiar António José Seguro.
Sendo que na política, Bruno, quem perde ganha?
É assim que jogávamos em pequenos, Carla. Quando perdíamos, bastava dizer que tínhamos jogado ao quem perde ganha. O Aiatolá Khamenei, o guia supremo do Irão, apareceu a falar numa mensagem gravada e a garantir aos iranianos e ao mundo que o Irão ganhou e que se os Estados Unidos não tivessem interferido, Israel teria sido destruído. É um resumo um pouco enviesado de tudo o que aconteceu nas últimas semanas, isto depois dos ataques de Israel e dos Estados Unidos terem atingido as instalações nucleares do Irão, com a extensão dos danos ainda por conhecer, de terem eliminado vários chefias militares e cientistas responsáveis pelo programa nuclear e ainda de terem matado centenas de civis. Mas numa coisa o líder iraniano, de 86 anos, tem razão: o Irão mostrou ter capacidade para atingir não só Israel, mas também bases militares norte-americanas no Médio Oriente. E ter sobrevivido pessoalmente também pode ser visto como um triunfo. Será isto suficiente para cantar vitória? Isso é que é capaz de ser já um bocadinho exagerado.
Mas eu estou muito baralhada, muito perdida. Ajuda-me, Paulo. O que afinal os partidos defendem sobre transportes públicos nas grandes cidades?
Podem defender uma coisa e o seu contrário. Isso depende se estamos a falar do Porto ou de Lisboa. Por exemplo, Pedro Duarte, que é candidato do PSD ao Porto, promete transportes gratuitos para os residentes no Porto, mas Manuel Pizarro, que é seu adversário, candidato do PS na Invicta, critica a medida, diz que não entende porque vai custar muito dinheiro. Isto é no Porto, mas se descermos a Lisboa, aí já é a candidata socialista, Alexandra Leitão, que tem essa mesma promessa de transportes gratuitos, que Pizarro, seu colega de partido, critica no Porto. Não se sabe ainda o que Carlos Moedas, potencial candidato do PS em Lisboa, pensa sobre isto, mas vai ser curioso, de facto, ver candidatos do mesmo partido a defenderem propostas opostas em cidades diferentes. Cá está, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
É bom que fique claro isto.
É a política em espelho.
Exatamente. Não façam confusão e depois também não venham dizer que a política é aborrecida, ok?
Bruno, a discussão sobre a RTP é eterna?
É eterna, é infinita e nunca mais acaba. Há quem defenda o fim do serviço público de televisão, há quem defenda que é para manter para todo o sempre. Há quem defenda alterações, há quem defenda que tudo se mantenha como está. Mas aquilo em que todos concordam é nas críticas à instrumentalização da televisão pública e da informação em particular, que só variam essas críticas consoante o partido que está no poder. E qualquer acontecimento serve para se iniciar uma guerra de palavras, seja uma entrevista a um líder partidário, tempo dedicado a uma candidatura em detrimento de outras, ou como acontece agora, a demissão da direção de informação, que tinha António José Teixeira como diretor. Enquanto a RTP estiver nas mãos do Estado, enquanto a tentação de uma interferência, de uma palavrinha ou de um recadinho for maior do que o respeito pela autonomia da estação, nunca, mas nunca mais vamos sair desta discussão. Os governos mudam, as direções mudam, os problemas permanecem. Será que fica tudo na mesma? Não, exatamente porque às vezes as audiências caem.
A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta essa.