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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Ando um pouco baralhada, Paulo.
Diz lá.
Pode alguém ser demasiado socialista e pouco ou nada socialista ao mesmo tempo?
Claro que pode.
Pode?
Qual é a dúvida, Carla?
Explica-me.
Qual é a dúvida? Basta olharmos para António José Seguro, que neste momento é a prova disso mesmo. Na primeira volta, Seguro ouviu a esquerda mais à esquerda, ouviu dessa esquerda o que mais ou menos não disse o Toucinho. Que ele não era de esquerda, que muito menos era socialista, que tinha sido amigo da troika e lesa pátria, até se tinha abstido num orçamento de Estado apresentado pelo governo Passos Coelho. Bom, agora tudo muda. Agora na segunda volta, é acusado de ser um socialista de pior, da linha de soca de António Costa, imagine-se, e de querer estatizar a economia. Claro que quem faz uma e outras críticas não são as mesmas pessoas ou os mesmos setores, vêm de áreas políticas diferentes, mas cá está tipicamente aquele preso por ter cão e preso por não ter, aplicado à política. Isso também mostra que a vida dá muitas voltas.
Oh, se dá, Paulo, voltas.
Neste caso são duas voltas.
Exato. Nuno, então o silêncio de Passos Coelho é de ouro?
É de ouro para o próprio. A começar e o ouro está caro, está a valer muito. A direita na primeira volta dispersou os votos por vários candidatos e todos lá no fundo sabiam que só havia um que, se apresentasse a eleições, conseguiria o pleno do seu espaço político. E todos pensaram, mesmo que não o tivessem assumido, que uma declaração de voto de Passos Coelho seria o trunfo capaz de limpar a mesa ou fazer inclinar a mesa para algum dos lados. Mas Passos Coelho, já todos sabemos, não fala quando os outros querem e nunca se iria comprometer com um candidato que não fosse mesmo o seu candidato, que fosse apenas um candidato do seu partido. E também sabe que mesmo que fosse essa a sua vontade, nunca poderia apoiar André Ventura, porque a maioria do eleitorado da AD não está com o líder do Chega, não esteve com o líder do Chega e muito provavelmente não estará com o líder do Chega numa segunda volta. Este é daqueles silêncios que dizem muito e que pelo menos fazem acreditar que ainda não teremos visto a última dança política de Pedro Passos Coelho.
Há silêncios e há os "nim".
Exato.
Neste caso o de Montenegro para a segunda volta vai ser mantido até o fim, Paulo.
O primeiro-ministro até pode, de facto, manter essa posição até o fim, andar durante três semanas a passear-se com um simples vestido preto. Aqueles que dizem com o qual eu nunca me comprometo. Entre Seguro e Ventura, Montenegro escolhe aqui o silêncio, de facto, e a neutralidade institucional. Bom, mas isso é posição do partido. Porque uma a uma várias personalidades do PSD vão anunciando o apoio a Seguro. Começou com Poiares Maduro, depois Pedro Duarte, Cristóvão Norte. A lista, entretanto, hora a hora, vai por aí. Já é maior. Carlos Carreiras também já o fez. Aliás, vamos tê-lo daqui a pouco no Explicador. Rui Moreira, embora não seja do PSD, mas também já anunciou. São só alguns nomes, isto falando apenas social-democratas, podíamos ir para o campo da IL também. Ou seja, o partido não toma posição, mas há quem tome posição por ele ou apesar dele. Talvez esta tática também estivesse nas contas de Montenegro. O partido não se compromete.
Não parece muito incomodado.
Certo, mas depois cada um faz o seu trabalho, digamos assim, em termos de dirigentes.
Entretanto, as eleições obrigam a fazer contas.
E não apenas contagem de votos. As campanhas são caras e a subvenção estatal era fundamental para que alguns candidatos não se vissem em braços com uma despesa avultada, acima de 1 milhão de euros em alguns dos casos. Já aconteceu a outros candidatos no passado, como Maria de Belém Roseira, mas desta vez os cinco primeiros ultrapassaram todos a fasquia dos 5% e por isso podem respirar de alívio, pelo menos no que diz respeito às contas. Não à contagem dos votos. Os restantes, prevendo uma votação como a que acabaram por ter, fizeram continhas à vida, gastaram pouco, foram poupadinhos. E nós sabemos que a democracia é cara e as campanhas em si também não são nada baratas, por muito que se fale nas redes sociais. Montar uma campanha, levar a campanha para a rua ainda é caro. E em geral, ninguém entrou aqui em loucuras que depois não pudesse pagar. Fosse sempre assim quando se trata de gerir a coisa pública.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.