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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

45 anos depois, Bruno, continuamos a falar do mesmo.

Parece incrível, mas é verdadeiro. Continuam a falar do mesmo e o mesmo é Francisco Sá Carneiro. A morte trágica do então primeiro-ministro transformou-o numa lenda e não há figura de direita que não se reclame herdeira do legado de Sá Carneiro. A pergunta é: o que é que Sá Carneiro hoje dirá, enquanto político, na prática, à maioria dos portugueses e em especial às novas gerações? Invocar o nome de Sá Carneiro tornou-se entre uma facilidade e um ritual a que quase ninguém escapa, embora não se perceba muito bem quais serão os ganhos políticos desta invocação. E mesmo aqueles que protestam contra a invocação extemporânea do nome de Sá Carneiro, fazem-no com muita reverência, diria até uma reverência desmedida, como se viu pelo artigo publicado no Observador por Cavaco Silva. E a dada altura já não se sabe exatamente do que se está a falar. Se é do pensamento político de Sá Carneiro, se é da sua prática política. Para André Ventura, por exemplo, Sá Carneiro até é um exemplo do combate à corrupção. De facto, dá para tudo. Os ganhos deste culto, mais ou menos tétrico, não se percebe muito bem quais são.

Paulo, então as sondagens negativas também podem ajudar um candidato?

Podem, e Marques Mendes ontem é um exemplo disso mesmo. Em vez de desvalorizar os dados da sondagem, que o coloca em quinto lugar, e embarcar em teorias da conspiração, o que é muito habitual, o candidato resolveu usar esses dados para tocar a rebate, para juntar o grupo e para fazer mais um apelo. Marques Mendes assumiu, disse ele: "Se houver grande dispersão, corro o risco de perder." Grande dispersão de votos, como é evidente. E a partir desta ideia, voltou a reforçar o pedido de voto útil, de concentração dos votos à direita em si. As sondagens podem, de facto, ser um pau de dois bicos. Tanto podem desmobilizar a base eleitoral por duas razões, ou porque são muito boas, ou porque são muito más. As muito boas podem gerar um excesso de confiança, que é a base do "isto está ganho", e as pessoas não vão votar depois no dia das eleições, ou então podem ser um sinal de alerta para os eleitores. Marques Mendes tenta obviamente pegar nos resultados que lhe são desfavoráveis e dar-lhe esta utilidade.

E voltamos às perceções?

Foi uma das palavras no ano passado muito usada a propósito de criminalidade. De um lado, havia as estatísticas, do outro, as famosas perceções. Agora foi o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, a falar sobre perceções, isto a propósito de pessoas em situação de sem-abrigo. O número de sem-abrigo no Porto tem diminuído, ao contrário do que tem acontecido a nível nacional, mas o autarca diz que existe uma perceção de um aumento do número de pessoas a dormir na rua. Uma das explicações avançadas por Pedro Duarte, será o facto de alguns dos sem-abrigo não serem originários da cidade, mas as estatísticas até indicam que a maioria é mesmo do Porto. Seja como for, com maior ou menor diferença entre estatísticas e perceções, o que importa é reconhecer que o problema existe. E aqui a perceção até ajuda ao reconhecimento do problema. E foi o que Pedro Duarte fez numa reunião camarária. E importante, mais até do que reconhecer o problema, é mesmo tentar resolvê-lo.

E agora isto parece a história da carochinha. Quem quer? Quem quer ser advogado do José Sócrates?

Sim, claro. Isso, aliás, ontem numa reunião alguém sugeriu que podia dar um bom formato televisivo. Ao quem quer casar com o agricultor, neste caso, quem quer casar com a carochinha. Pelos vistos, é uma tarefa que agrada a poucos advogados, neste momento, de defender José Sócrates. José Preto, que é no fundo o seu advogado oficial, aquele que foi escolhido pelo próprio, está doente, está internado no Hospital Santa Maria com uma pneumonia. Não cuidou até agora da sua substituição, não indicou ninguém para o substituir no julgamento. E ontem a juíza que está com o caso decidiu que o julgamento seria retomado sem mais demoras. Era a data que estava prevista, depois da interrupção, já para o próprio advogado se inteirar do processo. E como ninguém pode estar numa sala de tribunal a ser julgado sem o advogado de defesa, recorreu-se à escala de oficiosos. A primeira, Inês Louro, alegou objeção de consciência por ser do Chega. No passado foi do PS, mas a objeção de consciência não era essa, era por ser atualmente do Chega. E a segunda, Ana Velho, quis recusar pela complexidade do processo. A juíza deu-lhe cinco dias para estudar. Eu não sei quantos caixotes é que aquilo são de papelada para estudar o caso, e as sessões vão ser retomadas agora no dia 13. Portanto, aqui não se trata de ser advogado do diabo, mas é o que parece. Lá perto, ninguém quer.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.