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Vivemos numa altura em que parece que estamos sempre a viver contra o relógio e a correr atrás de não sabemos bem o quê. E em constante comparação com toda a gente à nossa volta. E eu queria muito discutir este tema, principalmente com a Bruna Martioli, que é quem se vai sentar aqui comigo hoje, porque é brasileira, de 28 anos, e que discute muito estes temas através da literatura. Ela é professora de Literatura, está a fazer agora um doutoramento também nesta área, e para além de usar as redes sociais para partilhar sobre as leituras dela, leituras clássicas e todas estas obras que ela acaba por analisar, ela transporta isso para a vida real e de que forma é que isso se relaciona com a vida dela. Portanto, faz muitas vezes reflexões profundas da forma que eu também gosto de fazer aqui no podcast. Portanto, tenho a certeza que vocês vão gostar muito desta conversa. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à ordem do costume. E já está, já estamos. Pronto. Porque tu também falas muitas vezes, e por isso é que eu também te quis trazer aqui, porque eu acho que falas muitas vezes desta questão de estarmos nos 20 e estarmos bem perdidos, e não sei o quê, e qual é que é o caminho. E queria fazer uma reflexão contigo sobre isso, sobre também a procrastinação, que é uma coisa que tu falas imenso. Até vi um vídeo teu há uns tempos também que adorei no YouTube. E queria refletir um bocadinho sobre isto, sobre o que é que é isto de estarmos nos 20 a tentar descobrir o nosso caminho, porque eu acho que tu sempre foste uma pessoa, pelo menos daquilo que eu acompanho, que tinhas bem definido aquilo que tu querias desde nova. "Eu quero ler todos os livros que existem, quero ser professora." E por que tu fazes estas reflexões? Achas que sempre teres o caminho definido sempre te ajudou a não teres estas questões internas ou sempre foste dividindo aquilo que querias?

É que eu acho que a literatura mostra mais as perguntas que a gente precisa ter ao longo da vida do que te entrega respostas. Eu inclusive pouco leio autoajuda, porque eu acho que eles me dão muitas respostas e nos 20 e poucos eu não preciso de tantas respostas. Eu acho que é momento-

Precisas de questionar mais.

Exato. E a literatura me faz ter essa visão de mundo. Então eu consigo me acalmar através da história do outro, da empatia com o outro. E acho que na internet, esse circuito ficou muito paralelo com a minha vida. Então eu pego situações do dia a dia e aí quando eu estou lendo, elas aparecem ali nas páginas e aí eu falo: "Ok."

Consegues te relacionar e fazer o paralelismo com a tua vida, é isso?

Sim, é porque a ficção é feita para isso, para que a gente enxergue a nossa vida, enxergue a vida do outro. Então eu acho que as perguntas que se levantam são mais importantes do que respostas a serem encontradas.

E tu disseste há uns tempos que sempre sentiste que aos 30 era o marco do sucesso.

Sim, mas agora eu já quero os 42, 45.

Tu também disseste que sentias que ser mais velha é mais fixe, por quê?

Como não?

Eu concordo, mas por quê?

Porque você já passou pelo trailer do filme. Sabe quando a gente está no cinema esperando o filme começar e aí a gente pensa assim: "Se calhar vou agora à casa de banho ou espero. Ah, não, o filme vai começar." Daí a gente fala: "Vou." Aí vai correndo, volta e senta e fala: "Ai, não perdi o início." Eu acho que os 20 e poucos anos são esse momento que a gente está na sala de cinema.

Está à espera que o filme comece.

Isso. E aí quando vai começar, você já se acomodou, você já foi na casa de banho, você já está com a pipoca, você está mais calma. Eu não sei, eu não tenho muito aquela visão também de curta adolescência. Eu acho que a cultura que se faz com relação à nossa vida nos 20 e poucos é uma cultura que te leva para caminhos até que não são tão gostosos de serem vividos. E aí eu vejo as mulheres mais velhas tão seguras.

Leves.

Tão calmas.

Mas dizes isso em relação a quê? Álcool, festas, coisas assim?

Não, isso nem passa na minha cabeça.

Sobre o quê?

Eu digo sobre as próprias inseguranças, sobre a relação que eu tenho com o meu corpo, que é horrível.

Estás constantemente a comparar.

É, você se compara e é uma fase difícil, porque eu tenho amigas que já são mães do terceiro filho, e eu tenho amigas que ainda não sabem nem que graduação vão fazer e a única certeza que eu tenho é que pronto, sou professora. Agora, tirando isso, eu sinto que é uma fase que não dá para aproveitar ainda.

Estás com 28, não é?

28.

Mas, por exemplo, o fato de já saberes aquilo que queres desde sempre, ajudou.

Sim.

Porque eu acho que a maior parte destas questões surgem quando tu nem sequer sabes qual é o caminho. É tipo, nem sequer sei o que eu quero fazer profissionalmente. Tu teres isso é quase como uma âncora.

Eu acho que a docência me salvou em muitos sentidos da vida, porque eu não venho de uma família, de um lugar bacana. Então quando os livros chegaram para mim, me fazendo questionar a vida e me fazendo pensar sobre o que eu vivia, eu senti com eles essa espécie de dívida. Eu pensei: "Como eu vou retribuir isso aqui que eu estou vivendo? Como eu vou devolver para a literatura o que ela me deu?" Então eu cheguei na conclusão assim: "Ok, eu vou ser professora e dedicar a minha vida a eles, assim como eles dedicaram esse tempo para mim." Foi uma coisa compensatória.

Mas desde sempre que lês?

Eu comecei a ler com oito anos, o que é até tarde para uma criança. Mas assim que eu comecei a ler, eu lembro que eu dizia assim: "Nossa, imagina ser escritora." Eu tinha aquela ideia de ser escritora

E nunca pensaste nisso agora?

Não.

Não?

Não.

Mas por quê? Porque achas que não é o teu caminho? Achas que não tens jeito pra escrever?

É que como eu escrevo muitas teses, artigos, como eu estou dentro da academia, parece que eu separo os universos. Eu tenho uma professora que já falou pra eu parar com isso, mas eu ainda estou nessa fase de descobrir o meu tipo de escrita, o meu tipo de aula, a minha personalidade enquanto professora, porque não é só descobrir a carreira que a gente quer. É descobrir quem a gente vai ser lá. Então é difícil também, eu passo por esse lugar.

Então ainda estás também a perceber se a escrita no futuro será pra ti.

É, mas eu tenho certeza que eu não quero ser ficcionalista, escrever ficção.

E estavas a falar antes que sentias que não te davam respostas, davam-te perguntas, mas tu achas que usas a leitura como refúgio pra fugir à tua realidade? E que encontraste isso nos livros?

Não, eu não acho que a ficção é uma fuga. Pelo contrário, eu acho que talvez a vida seja a fuga. A ficção pra mim é muito mais real do que as nossas máscaras.

Desenvolve.

Eu acho que na vida a gente consegue mentir, a gente consegue ser falsa, eu acho que a gente consegue se camuflar, usar uma roupa, mudar de personalidade, mudar um cabelo. A gente tem fases, agora ficção, não. Kafka é Kafka, Agustina Bessa-Luís é Agustina Bessa-Luís. Eles são fixos, eles não mudam, eles são reais.

Como é que convencerias uma pessoa como eu que lê autoajuda e desenvolvimento pessoal, de que a literatura vai mudar a minha vida?

Se você lê autoajuda, você já lê literatura.

Sim, literatura clássica.

A autoajuda inteira é montada na literatura clássica. Se você leu "Meditações" do Marco Aurélio, você leu todos os livros de autoajuda possíveis. Se você lê Agustina Bessa-Luís, "Sermão e Fogo", você leu "A Coragem de Ser Imperfeito", eu gosto muito. Você leu uma infinidade de outros livros.

Por acaso eu queria ler esse.

O "Sermão de Fogo"?

Não, o "A Coragem de Ser Imperfeito."

Ai, é muito bom!

Mas qual é o problema dos livros de autoajuda comparados com os que tu lês?

Eu não acho que eles têm problema. Eu acho que eles dão as respostas que a ficção te pergunta. Isso não é um problema, mas é que eu me interesso mais pelas perguntas, porque eu acho que é muito chato você ser acabadinha. "Ah, estou aqui, encontrei as respostas, estou redondinha, desculpa, Vasco, estou perfeita." Eu acho que a ficção me amplia o olhar pro mundo. E eu acho que nos 20 e poucos é o que eu mais preciso, porque eu não sei quem eu sou, não sei quem eu vou ser. Eu não entendo ainda da vida, passo por dilemas, então eu preciso saber perguntar, mas não é qualquer pergunta, é fazer as perguntas certas.

As séries e os filmes também te fazem essas perguntas? Ou de uma forma diferente?

Eu acho que são artes muito diferentes e os resultados vão ser diferentes.

É ficção na mesma.

Mas eu acho que são artes diferentes. O filme te projeta cores, sensações, o audiovisual. A literatura te obriga a criar aquele universo.

A imaginar, desenvolver a tua imaginação.

É.

Pra tentar visualizar aquilo que estás a ler, ou não? Não é por aí.

Você faz isso?

Faço.

Sério?

Eu imagino as personagens.

Você imagina o cabelo, a roupa?

Sim.

Não consigo.

A sério? Achei que toda gente fazia isto.

Não, nunca vi. É sério? As pessoas imaginam as cenas?

Eu imagino.

Ah, você tem a cadeira, aí você vê a cadeira.

Vejo a cadeira, vejo a cena, vejo tudo. E depois quando, imagina, sai um filme sobre esse livro. É uma desilusão, porque eu já tinha uma imagem criada na minha cabeça de como é que seria. E não tem nada a ver, percebes?

Nossa, então você tem que fazer um trabalho semiótico. Tem que ir pra academia. Começa o mestrado amanhã.

Mas eu acho que isso tem a ver com a forma como tu consumes conteúdo, a forma como tu processas informação. Há pessoas que são muito mais visuais, outras que não.

É, mas você é muito criativa também.

Eu acho que sim.

Então tem isso. Não, eu sou cética.

Ok.

Eu leio e penso no texto mesmo.

Engraçado, achei mesmo que toda gente fazia isto.

Não, eu sempre pergunto isso pras pessoas, porque elas se frustram. "Eu vi agora o filme da Colleen Hoover, daí a personagem era ruiva, não era loira, ou era loira, não era ruiva." Eu fico: "Nossa, mas eu nem imaginei isso."

Eu imagino as personagens. Olha, e em termos de conteúdo que tu consomes, tu filtras muito aquilo que tu consomes digitalmente?

Não. Eu não sou uma pessoa que consome muito conteúdo.

No dia a dia, não. Ou seja, passas mais tempo a criar do que a consumir.

Não, é que normalmente os conteúdos que eu consumo na internet vão mais pra questões da minha área. Eu vivo numa bolha mesmo. Eu assisto muito conteúdo de humor, pronto, é diferente. Podcasts não, é stand ups.

Mas estás muito no book talk, então.

Não.

Não? O que achas sobre isto? Porque eu acho que é um bocadinho polémico, pelo menos tem se falado muito sobre esta questão do book talk, porque, por um lado, incentiva muito as crianças e os jovens a ler, só que depois são livros, romance, thrillers, portanto é Colleen Hoover, é Frida. Isto aqui é leitura? Faz sentido valorizar também este lado do book talk porque está a ajudar as crianças a lerem mais? Ou achas que isto não é considerado boa leitura?

Eu acho que existem duas respostas. A primeira resposta é: o que é ler mais?

Porque a nossa sociedade imagina que ler muito é ser inteligente, mas eu posso estar lendo 10 rótulos de xampu. Não necessariamente. Agora, a segunda resposta, como educadora mesmo, é que eu penso muito nessa questão do acesso à literatura e à cultura. Eu não descarto totalmente as leituras, eu faço leituras diferentes dos clássicos com os meus alunos, porque isso os aproxima do texto literário, mas eu acho que não se pode só ler do mesmo, inclusive clássicos.

Você só vai ler clássicos. Só vai ficar com a cabeça ali, não vai sair dali.

Você está ficado ali naquele loop de Colleen Hoover e não lê mais nada.

Eu li muito, estava até falando com a Marta, eu li muitos livros da Colleen Hoover nos últimos anos, porque os meus alunos pedem pra me sacanear. Mas aí eu vou no texto e comparo: "Olha, esse texto aqui está descrito dessa forma. Vamos pegar um texto da Jane Austen, já que vocês gostam de romance romântico. Vamos analisar como ela descreve a cena tal. Compara, vê o que está melhor estruturado, vamos trabalhar uma coisa com a outra". Não é comparando autoras, nem linguagem, é só pra dar a eles a perspectiva das diferentes situações. Eu acho que a questão é quando a gente não se pergunta, novamente: por que eu estou lendo? O que eu estou lendo? Qual o sentido disso na minha vida? Porque eu posso ler só por lazer. Eu posso fazer tudo. Vivemos em um mundo livre.

Eu costumo dizer que os livros é quase como ver uma série da Netflix, pelo menos pra mim é o que eu sinto. Quando eu estou a ler Colleen Hoover, pra mim é como se eu estivesse a ver uma série.

Sim, vai até ter o filme do "Verity".

Vai. Eu sinto que é isso. Ou seja, sinto que é um hobby, é um escape, é uma coisa divertida.

Sim, é uma coisa divertida e que também te entrega uma certa moralidade, te ensina alguma coisa, te faz pensar, por exemplo.

E faz-te desligar, estás onde vive.

Sim, eu acho que é muito bom, mas mais uma vez, eu acho que se você lê, por exemplo, Clarice Lispector, você também faz isso de uma maneira mais profunda.

Mas não achas que é uma boa porta de entrada pra quem diz que não gosta de ler, nunca leu, não consegue ler?

Eu não sei se uma pessoa que diz que não gosta de ler está apta, inclusive para ler Colleen Hoover.

Por quê?

Quando uma pessoa pensa assim: "Eu não gosto, eu não faço, eu não me interesso, eu não ligo". Essa pessoa está num atravessamento da vida que-

Não está preparada para.

Eu não sei se nós estamos na mesma página. Então quando alguém me pergunta: "Olha, me indica um livro, porque eu não gosto de ler, me dá ali um livro que vai me fazer gostar de ler". Eu digo: "Não".

Não leias.

Não lê. Se você não gosta de ler, não lê. Não vou te convencer, não é meu papel. Meu papel é dar aula.

Mas eu acho, e também tendo passado por uma fase em que não está apto a ler, não estou nesse mood. Eu sempre gostei de ler quando era criança, lia aqueles livros juvenis, Anne de Green Gables, coisas assim, eu amava. Mas depois tive ali uma fase em que adolescência eu não queria ler e dizia que não gostava de ler. E sinto que também, por exemplo, olhando pra minha irmã, que também nunca leu nada até agora ter começado a ler os romances, por exemplo. E eu acho que ela agora começa a explorar outras coisas, porque na porta de entrada teve um livro que gostou. "Ah, afinal, até gosto". Percebes? Porque eu acho que muitas vezes nós temos estas crenças quase paralelamente com a corrida, por exemplo. Tu és tipo: "Não gosto de correr. Sempre fui assim. Vou fazer uma corrida. Ah, afinal, até foi giro."

Exato, mas você percebe que é o encontro seu com a coisa. Não adianta alguém te empurrar goela abaixo.

Não, tu tens que estar preparada pra ouvir isso e querer experimentar.

Eu acho que precisa ser o Chapeleiro Maluco. Então virar e falar: "Não, não vou te indicar, procure você". Se você não gosta, quem tem que saber por onde começar é você.

Nós muitas vezes procuramos as respostas em outras pessoas, porque é mais fácil, não é?

Sim, inclusive nos influenciadores. E eu digo, eu não tenho todas as respostas pra minha vida, que dirá pra vida de vocês.

Tu deves receber muitas perguntas desse gênero: "Dá-me um livro pra eu ler."

Não, pra mim as piores perguntas são sobre que graduação eu faço. Eu fico ou eu saio do direito, vou pra letras? Eu faço isso, eu faço aquilo? Eu me separo. E eu falo: "Espera aí, eu tenho 28 anos, não é comigo. Por favor, vamos fazer terapia."

Eu também sinto muito isso, principalmente falando aqui destes temas no podcast. Também tenho muitas abordagens desse gênero de virem procurar respostas.

Mas é por isso que eu acho que pras pessoas é tão difícil ler ficção, porque principalmente na era da digitalização, nós estamos mais interessados em respostas prontas. Haja vista o sucesso do ChatGPT. Eu fico ali na frente daquilo e eu penso assim: "Mas e daí?"

Tu usas?

Eu uso pra finalidades pontuais. Compara essas referências. Eu pego interpretações de artigos meus que eu já fiz, por exemplo, coloco pra ele e falo: "Como você resumiria esse texto?" E é de uma maneira que eu não acho que a máquina se sobrepõe ao pensamento crítico.

Como ferramenta, no fundo.

Como ferramenta pra mim na Letras não serve, porque está aí, ele te entrega muitas coisas fechadas, que no plano das ciências humanas, não servem como resposta.

Sim, porque é muito mais na base da opinião, não é?

É, ele ainda faz isso. E ele tem todo um sistema. Eu tenho uma amiga que trabalha com o ChatGPT, ela estava tentando me explicar como é que funciona. Então ele faz pesquisas e tenta ir resumindo os assuntos.

Sim, junta de vários sítios e tenta condensar num, dando uma opinião.

É, eu não me interesso muito por coisas resumidas.

Sim, até porque, lá está, se fosse uma ciência exata Faz muito mais sentido.

É.

Sim, usar como ferramenta. No meu trabalho também faço isso. Tudo aquilo que me consiga automatizar tarefas e me ajude nesse sentido, melhor. Mas na parte em que é preciso haver essência por trás.

Eu tenho usado muito ele, sabe para quê? Para receitas, porque é mais rápido do que ficar aí pesquisando.

No TikTok.

Aí eu pergunto assim: "Como é que faz uma tapioca fit com tantas calorias?" Aí ele vai lá.

Sim, mas estamos numa era em que é difícil filtrar, tem tanta informação em todo lado.

É, mas eu tenho uma sensação boa. Eu acho que uma hora as pessoas vão se cansar. Sociedade do cansaço, está todo mundo ficando esgotado.

Você que está toda a correr, não é?

É, eu sinto que a internet se resume ao coelho da Alice: "Estou atrasado." E aí no final do livro a gente percebe que não tinha nem o tempo para que ele estivesse atrasado, porque no País das Maravilhas são sempre seis horas. Então se são sempre seis horas, tu estás correndo do quê? Eu acho que a internet é mais ou menos isso. Então eu levo muito essa parte da literatura para a vida mesmo, como se fosse um guia, um mantra, uma religião, não sei, em que eu consigo, de fato, viver a vida aqui e agora. Apesar de eu querer ter 42.

Queres ter? Não queres nada.

Quero muito ter 42 anos. Eu sou muito assim.

E por que especificamente 42?

É porque já passou dos 40, mas também não é 41 que é sem graça, agora os 42 é aquela coisa do tipo: "Estou vivida."

Eu estou entusiasmada pelos 30, agora 40?

Estou muito entusiasmada. E imagina, já vai ter vários outros procedimentos quando a gente tiver 40, está avançando rápido. Vai ser bom.

Sim, as pessoas de 40 anos hoje em dia não parecem que têm 40 como as outras há uns anos atrás.

Não, eu sigo uma miúda, chama Felipa no TikTok. Ela não é influenciadora, acho que ela trabalha em um banco, enfim, que ela compartilha a jornada dela deixando de ser fumante. Eu acho interessantíssimo a maturidade que ela tem com 40 e poucos, 50 e poucos, de fazer as análises e raciocinar sobre as próprias compulsões e a vida, enfim, fico ali vendo aquilo.

Eu também quero ser assim quando eu tiver 42 anos.

Exato. E as minhas professoras de 42, 43 anos. Ave Maria! Eu vou ser uma ótima professora.

Mas tens de viver o aqui e agora, não é no futuro, Bruna.

Pois é. Tenho que fazer igual o Chapeleiro, arrumar o relógio. Dá para ser legal aqui e lá também.

Sim, é isso. Não gostas da tua vida agora?

Eu amo a minha vida agora. Depois que eu fiz 25 anos, nossa, a minha vida melhorou de um jeito.

Fizeste aquele vídeo da procrastinação há dois anos atrás.

Sim, eu estava no Brasil.

Ainda não tinhas mudado para Portugal?

Não, eu já tinha mudado e desmudado.

Ok.

Eu passei quatro anos em Braga, fiquei 2023 no Brasil e voltei para o doutoramento.

E nessa fase, sentias que estavas um bocado...

Perdida, completamente.

Pouco focada?

Completamente.

Por quê?

Porque eu tinha largado um relacionamento, terminado o mestrado e aí eu fiquei naquela: "Vou fazer doutorado, não vou. Vou ou não vou." E aí fazia muitos anos, porque quatro anos, para mim com 28, são muitos anos. Então eu não sabia quem eu era fora de Portugal, porque eu cheguei aqui com 22 para 23 anos e de repente eu já tinha 25, e aí eu fiquei assim: "Como que seria a minha vida no Brasil? Quem eu seria adulta, responsável, professora no meu país? E como eu seria agora perto da minha família?" Várias coisas. E aí eu voltei para lá e assim que eu parei, olhei para o apartamento que eu tinha alugado, com tudo devidamente no seu lugar, eu olhei e falei: "Não é isso."

Não é isto.

Não é. Eu lembro da cena, eu estava tirando o embrulho da geladeira, eu olhei para o meu pai: "Pai, eu quero ir embora." Meu pai olhou assim para mim: "Envelopa de novo, vamos."

É sério?

É que meu pai é um espírito livre. Ele é outro patamar.

Mas não tiveste medo de voltar para trás com a tua decisão, no fundo?

Tinha muito medo na época, porque eu também não sabia se eu ia passar no processo de doutoramento. Foi um tiro no escuro. A minha avó, na época, ficou doente, veio a falecer, então foi um ano de muitas transformações. E no Brasil eu trabalhei em muitas cidades diferentes nesse ano que eu fiquei lá, então eu fiquei muito dispersa, mas uma coisa que meu pai sempre fala é: "Só temos uma vida, vai."

É não conseguir viver com o e se, e se der certo.

É, o meu pai sempre me diz isso, que eu preciso parar de ficar pensando e se. Ir lá e fazer, e olhar e falar assim: "Não deu ou deu." A vida é isso.

E achas que é isso que depois nos causa este loop de procrastinação? É nós sabemos que queremos fazer uma coisa e não estamos a fazê-la? Achas que é isso?

Sim, eu acho que, na verdade, o problema da procrastinação é que escolher um caminho te faz abrir mão de todos os outros caminhos que você não escolheu. Assim como a carreira. Se eu sou professora, eu não sou dentista, eu não sou médica, eu não sou astronauta, eu não sou nada. Sou professora. Porque a gente só pode viver um caminho. Então você fica muito confusa. Por exemplo, o tempo que eu estou aqui em Portugal, é o tempo que eu não estou no Brasil. E eu levo isso até para relacionamentos, porque eu penso assim: "O tempo que eu estou com esse rapaz é que eu não estou com outros." É tudo na vida é sacrifício.

Mas viver a vida assim, meu Deus, nunca aproveitamos nada.

Pois, é por isso que eu parei.

Sempre olhar para o lado, sempre pensar: "E naquela vida que eu podia ter." Nunca estar satisfeita com aquilo que tens.

É por isso que eu falo, se eu assumir a responsabilidade, se eu escolhi conscientemente, quero estar na casa X, então eu vou arcar com os problemas e com as responsabilidades e com as felicidades da casa X. E isso que é difícil, bancar as próprias decisões.

Isso é que é difícil de sermos jovens adultos. Porque chega aquela altura em que estamos a tomar decisões.

Pois é. Por isso que o pessoal com 40 e poucos é mais feliz. Eles já tomaram.

Sim, mas agora hoje em dia já podes tomar as tuas decisões também.

Pode. Ainda bem. Inclusive meu pai tem 70 anos e está descobrindo a vida agora, viajando, agora está lendo Tolstói, todo empolgado. Tolstói, uhul! Então nunca é tarde.

E estás feliz agora hoje em dia com as tuas decisões todas?

Hoje eu estou, mas eu estava falando com a Marta, comecei a ficar com o coração na mão, porque eu entreguei quatro capítulos da tese e eu disse assim: "Ok, falta só mais dois. E aí?"

E depois?

Então, e depois? Mas eu não vou pensar nisso, vou pensar agora.

Mas qual que é o teu plano agora, depois é ficar a dar aulas em Portugal?

Isso aí é muito difícil. Eu não sei se isso rolaria.

Viverias só das redes sociais?

Hoje eu vivo.

Mas pós, ou seja, não exercer?

É que é um-

Estás a exercer na mesma. No fundo, mas estás a educar as pessoas que te seguem sobre literatura na mesma.

Eu sinto muita falta do dia a dia da universidade, da sala de aula, do contato. Eu sinto muita falta do que hoje é ordinário por conta da performance. Porque às vezes eu estou dando aula para 4 mil pessoas e uau, isso é tão legal. Juro para você que o que eu gosto é de dar aula para 40, para 10. Saber quem são aquelas pessoas, vê-las.

Sempre consegues ter um contato muito mais próximo.

Sim, eu sou meio carente com a sala de aula. Então eu gosto dos meus alunos, do dia a dia. Eu gosto de me arrumar para ir dar aula.

Sim, por acaso, isso foi uma coisa que tu falaste na altura de sentir que estavas numa fase em que nem sequer te apetecia te arranjar e trataste-te.

Nossa, eu estava em uma fase, ali foi muito complicado para mim, em termos emocionais. Existem problemas maiores, claro, mas eu estava em uma fase muito complicada de alimentação, de autocuidado, não penteava o cabelo.

Enquanto estás mal, parece que até o básico fica de lado.

Nossa, era muito difícil para mim aparecer minimamente sorrindo, era difícil para mim fazer coisas básicas, tirar a roupa de cama e por para lavar. O dia a dia era mesmo um saco. Aí chegou o doutorado e iluminou a minha vida.

Foi isso que fez dar a volta?

Foi, porque quando tu tens um propósito, aquilo te motiva. E eu sei que é o processo até oposto, porque a maioria das pessoas me botava medo. "Ih, se você já está assim no doutorado, então-

Vai dar em louca.

Não vai mais estar aqui, porque o pessoal se afunda no doutorado. Pois não, eu comecei a pensar assim, eu tenho que estar bem para estudar, então eu vou fazer exercício. Eu tenho que estar bem para estudar, então eu tenho que comer bem. Eu tenho que estar bem para estudar, eu tenho que estar bem para ser uma boa professora, então eu vou cuidar de mim, cuidar do meu cabelo. A docência como um todo, foi o que me motivou a seguir em frente.

Sim, é isso, tens um objetivo, então tu queres estar no teu melhor para ter a melhor performance possível naquele que é o teu objetivo.

Sim.

Como é a tua rotina hoje em dia?

Ixe, eu não tenho muita rotina.

Isso é bom, eu também não.

E você sente falta de ter rotina?

Não, eu vivo bem assim. Mas eu tenho certas coisas que eu tenho que fazer para estar bem. Ou seja, fazer exercício todos os dias, mas não precisa ser de manhã. Ou às vou ao final do dia. Ou seja, eu estou bem com o mudar e ajustar a minha rotina, o meu horário. Mas há certas coisas que eu tenho que fazer todos os dias para me sentir bem.

É o obrigatório, o básico.

Sim, non-negotiables.

Exato. Para mim também.

O que tu tens assim de inegociável para ti?

Inegociável para mim é acordar, ler meia hora.

A sério?

Inegociável.

Logo a primeira coisa do dia?

É a primeira coisa do dia. Enquanto eu tomo água, tomo café, enfim, eu leio.

Mas tu lês o quê? Livros que estás a estudar sobre?

Não, é aleatório. Agora, por sinal, eu estou lendo um livro técnico.

Ah, ok.

Que é um livro de teoria da literatura do Aguiar e Silva, um grande professor, que a minha orientadora pediu para fazer a leitura dele como se fosse um romance. E eu fiquei assim: "Diva. Não, mas ok, agora eu já percebi." Então estou lendo meia hora por dia e aí depois depende. Normalmente, a parte da manhã é a parte que eu faço exercícios. Aí à tarde eu sempre arranjo um problema na minha vida à tarde. Então é aula, é alguma coisa em alguma universidade, alguma coisa para fazer, gravar, internet também. E aí à noite eu tenho mais desporto mesmo. Faço ioga, agora comecei a fazer pilates. Até acho que foi num sítio que tu recomendou.

Aqui no Porto?

Sim.

Qual é?

Que é um verdinho, agora não lembro o nome.

Verde.

Que eu marquei. Eu vou lá pela primeira vez.

Verde, não sei.

Pronto, foi num vídeo teu.

Ok, eu tenho ido a muitos sítios. Aqui no Porto também tem aberto cada vez mais.

Mas era um que as aulas são em inglês, inclusive.

É o VARD?

Deve ser, não sei. Não lembro.

Mas verde, não sei. Não estou imaginando nenhum verde.

Mas eu vi, aí eu coloquei e falei assim: "Não é tão longe de casa."

Então é o exercício, a leitura, mais alguma coisa que pra ti é...

Inegociável? Ligar pro meu pai, senão eu surto.

Todos os dias?

Todos os dias. Conversamos bastante.

Sentes que consegues ter uma relação próxima com ele na mesma, estando longe?

A distância não mudou em nada. E ele também vem bastante pra cá. Ele não tem muitas chances. Eu falo: "Venha." Aí ele tem que vir, não tem o que fazer.

E dos teus alunos, sentes que as pessoas leem mais em que altura do dia que arranjam tempo pra ler? Imagina, isto o meu caso pessoal, e sinto que há muita gente assim, que é aquelas alturas em que estás no verão, tens bué tempo na praia, vais ler montes de livros, mas depois na rotina, difícil.

É, mas eu acho que é porque não tem essa coisa do inegociável. Por exemplo, à noite antes de dormir, eu estou lendo.

Lês também à noite?

Inegociável. Nem penso mais sobre o assunto. Só sento e leio. E às vezes eu não leio durante o dia. Muitos dias, acho que a maioria dos dias. É difícil eu pegar um bloco de duas horas pra ficar lendo. Bem difícil.

Mas não achas que as redes sociais também ajudam muito nisto, na romantização do hustle e de ter as rotinas perfeitas?

Ah, mas é muito chato isso.

É preciso fazer tudo, Bruna, é preciso irmos treinar todos os dias, ler todos os dias. Estamos aqui a dizer que cada uma de nós tem inegociáveis diferentes. Porque também já nos conhecemos e fomos construindo esta lista de inegociáveis pra nós. Mas ao estarmos constantemente nas redes sociais e ver isto, imagina pra quem quer começar, entrar, dizer um momento pessoal, se encontrar, não sei o quê, pode assustar um bocado à partida, percebes? Por ser tanta coisa. E estar a pôr a leitura, e depois o journaling, a escrita.

Eu acho que todo mundo tinha que ler Byung-Chul Han, "A Sociedade do Cansaço". Aí depois você pensa na sua rotina. Primeiro, lê Byung-Chul Han.

Ok.

Depois você vai pensar na sua rotina, porque não tem pra quê, não tem lógica, não existe a razão pra que você acorde e faça tudo igual todos os dias e escove o dente, faz o barulhinho tec, tec, tec e não sei o quê, põe a lente, pinga isso e faz isso, aí a banana, aí o avocado perfeito e não sei o quê. Gente, que chato. Aí vai pra academia, volta, vai pro trabalho, vai pra isso, vai pra aquilo. Eu acho que a internet dá uma ideia muito errada sobre como funciona uma rotina.

Inclusive reclamam muito. Mas como nós, tenta partilhar sua realidade, não é?

Sim, reclamam muito.

Só depois é que temos que filtrarmos, não achas?

Ah, mas as pessoas não têm essa maturidade.

Pois. Mas isso então é responsabilidade de quem? Quem está a partilhar ou quem está a consumir?

A responsabilidade é dos pais, pra início de conversa. Mas depois, é de nós. De assistirmos àquilo e achar que aquilo ali é a verdade absoluta. É, eu sou radicalmente contra, inclusive nos meus vlogs o pessoal reclama muito, porque eles dizem assim: "Ai, você fala de vlog de rotina, mas você não mostra a rotina." Por quê? Porque na cabeça da galera, a rotina é eu dizer assim: "Dei aula sobre Cesário Verde e agora eu vou na academia." E eu só apareço fazendo. Porque tem aquela coisa, sei lá, da narração, não sei. Enfim, as pessoas reclamam muito. Eu digo: "Pronto, então a minha rotina é não rotina." É isso.

Sim, eu percebo essa perspectiva, mas acho que também há a responsabilidade da nossa parte, de quem está a criar, de não vender como verdade.

Sim, e eu acho que no mundo da influência, uma coisa extremamente preocupante, é que no meio desses discursos de rotina, entra-se sempre num ponto que é a normalização também da futilidade. 10 passos de skincare. 500 passos de não sei o quê.

Eu acho que tens de filtrar as pessoas que tu segues, se não te identificas com pessoas que partilham diariamente hauls da Zara. Percebes? Acho que é uma filtragem que também tens de fazer.

Sim.

Tu própria.

É, o meu algoritmo já não me trai mais, nesse sentido.

Sim, mas eu acho que este mundo do fitness e de saúde acaba por ser muito intenso muitas vezes, principalmente pra quem está a sofrer uma mudança na vida e a querer mudar e a querer implementar novos hábitos.

É, o mundo fitness tem isso mesmo, porque você acorda e você vê a influenciadora que já foi nadar, correu meia maratona, fez não sei o quê, comeu pão com ovo, a meia de poliéster e não sei o quê.

Mas é preciso tu pensares que esta pessoa fez isto este dia, se calhar amanhã não vai ter essa rotina. Se calhar não são os sete dias.

E se calhar aquela pessoa faz aquilo porque é o trabalho dela.

Também.

Por exemplo, se você vai acompanhar uma mulher que canta lírico, você vai ver ela cantando todos os dias. Você não pode cantar todos os dias, por quê? Porque você não trabalha com lírico. Então, tem isso também.

Sim, mas isso, lá está, as redes sociais é todo este loop de comparação constante.

Mas eu acho que não é só as redes sociais, não. Não é, as pessoas são assim.

Sim, nós somos assim, eu acho que as redes sociais levam pra outro nível.

É, deixa ainda...

É tão fácil de se comparar.

De se comparar, claro. E ainda as pessoas comentam: "Ai, eu não consigo ler como você." Aí eu falo: "Pô, mas nem eu leio como você está imaginando que eu leio."

Pois.

Tua imaginação é muito fértil. Não é assim. E outra, ninguém tem que ler como eu, nem fazer os exercícios como você.

É, isso eu acho que passamos uma pequena porcentagem do nosso dia. Parece que é tudo, mas não é.

Sim, e às vezes eu até acho estranho, porque se calhar vou conhecer alguém assim, e aí as pessoas me dizem assim: "Nossa, porque eu acompanho toda a sua vida e não sei o quê." Aí eu fico Toda a vida é muita coisa. Mas eu entendo que dá essa sensação para as pessoas de que você conhece a totalidade de alguém, porque você está vendo. Até porque, querendo ou não, isso é uma ferramenta nova. Acho que daqui uns anos isso vai ser mais normalizado.

Mas achas que vamos continuar tão consumidos pelas redes no futuro?

Eu acho que não. A nova geração, os meus alunos agora do 12º ano, já têm pavor de redes sociais. Eles acham ridículo fazer vlog.

É sério?

Muito!

Eu já vi que esta geração não publica tanto no Instagram.

Sim, não publicam no Instagram, não publicam no TikTok. Eles acham que aparecer é vulgar.

A sério? Sim. Eu não tinha consciência disso.

Sim, eles acham. Eles consomem, mas eles acham que aparecer é vulgar.

Então achas que no futuro vai haver cada vez menos criadores de conteúdo?

Nossa, isso é uma aposta muito difícil.

Ou menos pessoas normais a fazer conteúdo.

Não faço ideia. Eu acho que a questão do tempo que nós passamos em tela, porque, por exemplo, no Brasil foi feita uma pesquisa que o brasileiro chega a ficar nove horas na frente de uma tela. É muito tempo, são muitas horas da vida de alguém.

Sim, eu vi ontem uma porcentagem que era em Portugal, nós já passamos mais horas no telemóvel do que a dormir.

Nossa, dormir é tão bom.

Em média. Portanto, se dormimos, se calhar, em média, é um pouquinho menos de oito horas. É oito horas, nove horas.

É porque eu acho que isso é novo, então está no hype. Você pode ver, eu acho que o grande boom das redes sociais.

Tu achas que é por ser novo? Isto é o que é, é a vida. Imagina, apareceu a internet, agora não vives sem net.

Mas eu acho que a gente vai se moldando. Por exemplo, quando o Google apareceu, todos os pesquisadores começaram a falar: "As bibliotecas não vão mais existir, porque agora todo mundo só vai ficar no Google." Não, a gente se adaptou ao Google e à biblioteca. Então a mesma coisa com o ChatGPT. Ninguém mais vai escrever. A gente vai se adaptar. E eu acho que com as redes sociais vai ser igual.

Sim, acho que sim. Acho que não vão deixar de fazer parte da nossa vida.

É.

Pode ser uma forma diferente, um formato diferente, mas acho que nós todos queremos estar ligados. E no fundo é isto, a questão é esta. Estarmos mais próximos uns dos outros.

Aquela questão do FOMO também.

O FOMO ou encontrar as pessoas que fazem as mesmas coisas que tu, que gostam das mesmas coisas que tu, é mais fácil disso acontecer hoje em dia. E é bom. Agora, em que moldes é que isto vai ser no futuro? Não sei.

É, eu espero que melhore, porque eu acho que muita gente adoece mesmo.

Sim, mesmo em termos de ansiedade, burnout, tudo isso, vês os números tão ridículos hoje em dia e obviamente que se associa muito a esta época digital que vivemos.

O Byung-Chul Han fala disso no livro "Sociedade do Cansaço."

Ai, quero ler esse livro.

Nossa, você vai amar, porque ele vai falar que no século XX nós vivíamos na era da negatividade, negando doenças virais, bactérias, vírus, enfim. E agora nós vivemos na era da positividade. Aí você vai falar: "Hã? Era da positividade?" Ele vai dizer que sim, porque nós adquirimos doenças mentais, o burnout, a depressão, a ansiedade, de uma maneira que elas coexistem no nosso corpo. Então, o que seria a negatividade e a positividade? A negatividade seria, primeiro, no século XX, o meu corpo nega o vírus, a doença, a malária, enfim, as doenças bacterianas, mas agora o meu corpo convive com as doenças mentais.

Aceita como normal isso?

É, estou deixando de um jeito muito chulo, muito burro, mas quando você for ler, você vai falar: "Uau, Byung-Chul Han, tudo." Porque ele vai, de fato, explicar para a gente a sociedade do cansaço que está à nossa volta. E por que nós nos sentimos tão doentes, por que nós nos sentimos tão cansados. Inclusive, por que nós sentimos a necessidade de ver a vida do outro. É muito legal.

Eu acho que vou gostar deste livro.

É curtinho.

Se tivesses de dar duas recomendações de livros, uma, o teu livro favorito, sim, vais ter que escolher um livro, e outra, uma recomendação que darias daquele público que tu imaginas que é de o "Amiga, Faz Parte," uma rapariga, nos 20, que sente que está um pouquinho mais perdida, que livro é que tu recomendavas logo?

Eu vou recomendar para as meninas do podcast "As Estações da Vida" da Agustina Bessa-Luís, porque ela vai passando de estação em estação aqui no norte de Portugal, pensando sobre as estações da vida. Isso é tanto metafórico com relação ao tempo, o verão, inverno, outono, primavera, mas também com a vida. Uma divagação, é um livro desse tamanho, curtinho, tem 47 páginas.

Ok.

Agora, o meu livro favorito da vida, eu tenho uma tatuagem do "Desassossego", do Fernando Pessoa, mas meu livro favorito da vida é "O Grande Sertão: Veredas." Eu estou tentando não falar da Clarice Lispector. Vocês perceberam que eu estou aqui há quase uma hora, eu não falei a palavra Clarice Lispector, mas seria "A Hora da Estrela", claro.

Estamos a chegar aqui ao final. Tenho só mais duas perguntinhas para ti, que é: qual é o conselho mais inútil que tu já recebeste sobre ser adulto?

Que eu precisava morrer de trabalhar. Se mate de trabalhar.

Só assim é que vais ter sucesso.

É. A gente não precisa de sucesso. A gente precisa ser feliz.

O que é sucesso para ti?

Para mim, sucesso é difícil falar isso. Estava falando isso na terapia, por isso que eu fiquei emocionada. Para mim, sucesso hoje, depois de perder minha avó, é ver o meu pai saudável. Tens mesmo. Desculpa.

É isso que te faz querer trabalhar e querer ser melhor?

Não, meu pai não me dá nenhum tipo de obrigação na vida, de ser uma boa filha, de ser uma boa profissional. A gente não tem essa relação.

Não te cobra. Quer que tu sejas feliz, no fundo. Isso é que também, se calhar, te dá tanta liberdade para tu poderes mesmo escolher o teu caminho por ti.

Sim, nossa, eu estou muito feliz que eu consegui chorar e sair uma lágrima de mim, porque faz muito tempo que eu não consigo. Pronto, vou mostrar para a minha terapeuta. Olha, eu fiquei emocionada. Pronto.

Isso é ser feliz.

Sim, com certeza.

Se tivesses de ouvir hoje alguém dizer-te: "Bruna, amiga, faz parte." Sobre o que seria?

Que trabalhar no mundo acadêmico é insalubre, mas faz parte. Também te molda para ser uma professora melhor, também te molda para ser uma pessoa mais séria. É necessário levar uns puxões de orelha dos nossos professores. Faz parte.

Boa. Obrigada, Bruna. Gostei muito de te ter aqui. Foi muito bom.

Obrigada tu.

Não é fácil, eu sei, mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?