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E como é que tu estás sentado aqui ao meu lado, se supostamente não ias viver este ano?
Eu, se acreditar que vou morrer aos 27, faço parte do clube dos 27, então sou especial.
Tenho até lá, então, é o meu limite para fazer acontecer.
Nós às vezes ficamos tão focados só em nós e naquilo que estamos a sentir e como estamos a sofrer, que nos esquecemos que existem outros lados da história. Começas a entrar na adolescência e tu achas que sabes tudo e que os outros é que estão completamente errados e que a tua dor é que é válida.
E nesse momento fechas-te, não falas com ninguém.
Há mesmo uma fase da minha vida que se tu me perguntares o que é que aconteceu ou quando é que aquilo foi, eu não te consigo dizer.
Como é que tu conseguiste lidar com esses anos todos até 2021, antes de chegarmos aí?
Encontrar grupos de amigos que devem ir para festas e bebes e experimentas coisas meias estranhas que te ajudam a ficar dormente.
Foi a entrada na terapia?
Não, foi uma entrada forçada.
Tu ainda te sentes culpa de não teres estado lá para as outras pessoas quando tu próprio estavas a lidar com isso tudo?
Eu consegui acabar com essas consultas, porque a minha cabeça é: "Ok, se eu começar a fingir que estou bem, que está tudo bem, isto acaba". E na verdade, eu acabei por rebentar um bocadinho nessa altura. Eu acho que nunca falei disto. E o que eu fiz foi, eu sentei-me numa zona ali perto da casa dela, liguei para o 112 e disse: "Olhe, eu não estou bem e eu estou mesmo a ponderar tirar a minha vida, portanto venham me buscar, porque eu não sei o que é que vou fazer".
Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje trago aqui o Pedro Gonçalves, que é músico. Provavelmente já viram algum vídeo, alguma música dele por aí. Ele fez parte do The Voice e também do Festival da Canção. Já lançou dois EPs, muito dinâmico no mundo da música, mas hoje a conversa não vai passar pela carreira profissional dele. Vamos falar de muita coisa da vida pessoal dele, da adolescência, do facto da mãe também ter tirado a própria vida quando ele tinha os seus 15 anos e passou por tudo isso. E vamos falar da forma como ele lidou com isso, com esse acontecimento, como é que conseguiu depois mais tarde entrar na terapia, trabalhar em todos esses traumas que tinha do passado, superar esse desafio, como é que afetou todas as relações à volta dele. Foi uma conversa muito intensa, muito interessante, em que falamos um bocadinho de todas estas fases diferentes, até à fase em que ele está hoje, que está muito tranquilo, muito em paz, como o novo álbum dele também reflete isso, e que também está numa jornada de desenvolvimento pessoal, também está a correr, a preparar agora uma maratona. Portanto, está uma conversa mesmo muito interessante e com muito sumo. Portanto, eu espero muito que vocês gostem. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Olha, e como é que tu estás sentado aqui ao meu lado, se supostamente não ias viver este ano?
Olha, boa, só começar assim.
Logo assim.
Sabes que eu até...
Estás com 28 agora, não é?
Estou com 28.
Já fizeste?
Sim, fiz no dia 3 de maio. Mas eu no dia 2, eu estava naquela brincadeira de: imagina agora isto acabar, tipo 11h59.
No dia 2 de quê?
De maio. Ou seja, fizeste dia 3, então um minuto antes era tipo, olha.
Mas tu fizeste os 28 este ano, em maio deste ano?
Três de maio.
Ok. Mas tu o ano passado fizeste aquele vídeo no final do ano.
Sim.
Porque era a passagem para 2025 para ti também tudo assustava, não é?
Sim, ou seja, era saber que eu ia entrar no ano em que eu estava quase a fazer os 28, então não sei como é que isso vai.
Mas por que tu tinhas essa crença?
Olha, eu acho que era um bocadinho o meu ego de artista musical que queria sentir-se importante, então era: "Ok, eu se acreditar que vou morrer aos 27, faço parte do clube dos 27, então sou especial".
Tenho até lá, então, é o meu limite para fazer acontecer.
Se calhar para provar a mim mesmo alguma coisa, provar aos outros. É triste, mas é quase aquela massagem de ego de se morreres aos 27 és especial, porque fazes parte desse grupo de pessoas que tu consideras especiais.
Mas tu acreditavas mesmo que ias morrer em 2024? Tu dizias às pessoas isto?
Sim, eu dizia sempre em tom de brincadeira, mas havia aquela voz na minha cabeça que é: "pá, mas se calhar vai." Isto é um bocado mórbido.
Eu nunca ouvi alguém dizer isto.
É, é para fazer parte.
Quando chegou ao final, tu fizeste uma corrida. Eu gostei bué dessa ideia. Eu até apontei nas minhas notas.
A sério?
Assim, ok, quando eu fizer 28 anos, eu quero correr 28 km. Acho bué giro, porque tu também depois estiveste a rever, ao longo dos quilómetros, o teu último ano. Conta um bocadinho como é que foi isso.
O objetivo era mesmo esse, era tentar não tornar esses 27 pesados, mas um bocadinho transformadores. Então era correr os 27 km, 1 km por cada ano. E depois uma coisa que eu acho que comentei no vídeo e que eu achei super interessante é que eu escolhi o percurso por acaso. Portanto, eu fui ao Strava e meti um percurso qualquer com 27 km para fazer ali na zona onde eu estava. E aconteceu mesmo que os quilómetros mais difíceis foram aqueles também que correspondiam às idades em que aconteceram coisas mais complicadas. Então foi interessante, porque eu sempre que passava por um quilómetro, no primeiro quilómetro não fazia ideia. Sei lá, eu não me lembro de nada com um ano de idade.
Pois é isso. E como é que tu te lembras exatamente o ano, tu tens na tua cabeça exatamente o ano, o que é que aconteceu nesse ano? Eu acho que não sei fazer esse exercício.
Por exemplo, eu tenho perfeita noção de algumas memórias com três anos de idade, que eu achava que não tinha, mas às vezes a ver fotografias ou a ver vídeos, que meu pai filmou muita coisa da minha infância. Há coisas que eu vejo e eu lembro-me daquilo, lembro-me perfeitamente ou dos cheiros ou das imagens. Eu depois consigo um bocadinho mapear por anos essas coisas, mas depois há anos que são um bocadinho mais só ao nível das sombras. Mas, por exemplo, há marcos. Eu lembro-me perfeitamente do meu décimo aniversário, porque eu estava ansioso por fazer 10 anos, porque eram duas mãos cheias de idade. Então eu lembro-me perfeitamente do meu décimo aniversário. E depois há outros marcos mais negativos. Por exemplo, eu depois associo os meus 12, 13 anos à fase de discussões dos meus pais ou divórcio Podem ser coisas boas ou negativas, mas há sempre marcos que eu vou associando a essas idades. Então era um pouco refletir ou o que esse Pedro sentia nessas idades, ou então como é que eu me via, ou como é que eu ainda me vejo e tentar conversar um pouco com essas idades diferentes.
E chegaste depois aos 27 e é: "Eu não sinto que esteja preparado pra morrer aqui nesta idade."
Sim.
E sentiste. Também tiveste um bom ano 2024, não é?
Sim.
Foi um grande ano a nível profissional.
É verdade. E acho que também foi um pouco esse renascer. Eu depois quis levar um pouco pra esse lado, que ok, o que vai acontecer aqui é que realmente vai haver uma morte, mas é da pessoa antiga que tu eras. Portanto, vais agora renascer como uma pessoa com novos objetivos, com novos valores e lutar um pouco por aquilo que tu queres e acreditares que é possível e que faz todo sentido.
Mas achas que pores esse limite na tua cabeça de que só tinhas até aos 27 te ajudou de alguma forma a tu te seres mais focado, mais proativo?
Eu acho que não.
Acho que cria uma pressão ainda pior, não é?
Sim, porque eu quando penso um pouco naqueles meus anos em que eu mais dizia isto, era também os anos em que eu estava mais perdido e deixava um pouco pro amanhã. Portanto, eu depois faço, ou então não ouvia também as pessoas que me queriam bem ou os conselhos que me davam, era um pouco: "Não, eu é que sei o que quero fazer, eu é que sei pra onde é que quero ir." Então, na verdade, eu andava era meio à deriva, a achar que tinha certeza do que estava a fazer. É um pouco como ires numa viagem que tu sabes pra onde é que vais, mas não tens o GPS pra lá. Mas tu: "Não, eu tenho certeza, agora eu vou virar aqui à direita, vou virar ali à esquerda" e na verdade, estás só completamente perdido.
Pois é, é quase como teres um mapa de: "Ok, é só até aos 27, portanto, agora só tenho que seguir este caminho."
Sim, mas estás te a perder cada vez mais. Eu acho que também aí a terapia ajudou um pouco a tentar linear isso.
Eu queria entrar por aí, porque tu foste no ano passado, estávamos a falar disso em off, ao "GoXo" contar um pouco da tua história, que nunca tinhas partilhado público. Primeiro, queria te perguntar como é que foi essa sensação de trazer cá pra fora uma coisa que pra ti é tão pessoal e tão vulnerável e como é que foi a sensação do pós, o que tu sentiste?
Olha, eu antes de ir lá, tive algumas conversas com a minha psicóloga sobre isso, porque era uma coisa que eu estava muito entusiasmado em fazer, porque eu admiro imenso o Goxo e gostava muito de ter essa oportunidade de ser entrevistado por ele, mas, por outro lado, era um pouco assustador, porque muitas das coisas que eu sabia que iam ser ali faladas, eu nunca tinha falado publicamente e às vezes nem sequer com a minha família tinha já falado ou comentado. Portanto, eu ia falar pela primeira vez de algumas coisas que eu nem sequer ainda me tinha sentado ou com meu pai, ou com meu irmão, ou com os meus avós, ou com quem quer que fosse, e falar sobre isso. Então era assustador, mas libertador nesse sentido de vai ser também o mote pra algumas conversas que possam surgir depois disso, porque a partir do momento em que estás a falar daquilo tão publicamente, é impossível não ser comentado em casa, não ser falado, também. Lá está, o que tu falas, o pós.
E como é que foi essas conversas que se desenrolaram a partir daí?
Foi também perceber que nós às vezes ficamos tão focados só em nós e naquilo que estamos a sentir e como estamos a sofrer, que nos esquecemos que existem outros lados da história. Existem outras pessoas que estão a sofrer, existem outras pessoas também que estão a passar pelo mesmo que tu e que também não vão falar contigo sobre isso.
Mas tu tinhas que idade quando a tua mãe...?
Quando a minha mãe faleceu, eu tinha 15 anos.
Pois, também eras humilde.
Era humilde.
Não tinhas idade também pra fazer esse jogo de: tenho que lidar com as minhas emoções e com as emoções das pessoas à minha volta.
Sim, eu acho que esse é um dos meus maiores lutos que eu ainda faço é em relação ao meu irmão, porque o meu irmão tinha 11 anos quando aconteceu. Por exemplo, eu não sei quando é que este episódio vai sair, mas fez ontem, portanto, do dia que nós estamos a gravar, fez ontem 12 anos que a minha mãe faleceu. E então eu pus-me a pensar que o meu irmão já viveu mais tempo sem a minha mãe do que com ela. E o que ainda é um pouco um luto pra mim é pensar que como isto aconteceu na fase da minha adolescência e eu não sabia, como tu estavas a falar, lidar com isso e pensar um pouco nos outros e quem está à minha volta, eu também, tenho aquela mágoa e aquela dor comigo mesmo de que deixei o meu irmão um pouco sozinho nisso tudo, porque na fase da adolescência, portanto, 15 anos ali a fazer 16, começas a querer sair com os teus amigos e, no meu caso, era usar um pouco esses grupos de amigos e essas saídas e o álcool e as festas pra desligar um pouco e esquecer das coisas. E ao mesmo tempo, tenho um irmão em casa com 11 anos que está a crescer, ainda nem sequer é adolescente, e que tinha um irmão mais velho com quem fazia tudo e com quem brincava e de repente ele desaparece.
Mas sentiste que ele começou a cobrar isso ou tu é que sentes contigo?
Eu acho que ele ainda guarda muitas mágoas desses tempos. Ou seja, eu na altura não conseguia ver, porque é do gênero: é a minha vida, eu quero ir fazer as minhas coisas, tu és uma criança.
Sim, eu estou mal, eu quero é não pensar.
Era o que eu estava a dizer. Pensamos tanto em nós e na nossa dor que o resto fica um pouco de lado. Ou seja, foi abandonar um pouco o meu irmão, foi zangar-me com meu pai, porque é a pessoa mais próxima que eu posso culpar e que posso chatear, porque não há outra pessoa, eu não vou me chatear comigo mesmo, portanto, vou me chatear com ele. E então, há ali uma fase em que tu te fechas, vives a tua vida, porque começas a entrar na adolescência e tu achas que sabes tudo e que os outros é que estão completamente errados e que a tua dor é que é válida.
E nesse momento fechas, não falas com ninguém, nem com família, nem amigos.
Na verdade, eu acabei por rebentar um pouquinho nessa altura. Acho que nunca falei disto, mas eu tive uma fase nessa altura em que eu estava no Porto. Eu estudava no Porto, então muitas vezes a seguir às aulas ia passear para baixo, para os Aliados. Adorava ir para lá e ia para lá estudar. E no final do dia eu apanhava o autocarro para a Maia, que era onde o meu pai morava, os meus avós moravam, e jantávamos todos em casa dos meus avós, que era a rotina que nós tínhamos, antes de ir para casa. Eu não me lembro quando é que isto foi, mas houve um dia em que eu estava a fazer o caminho de volta e isto foi tudo automático. Em vez de eu sair na Maia, eu saí um pouco antes e quando eu dou por mim, eu estou em frente à porta da casa da minha mãe. Desabei a chorar, não sabia o que havia de fazer e o primeiro impulso que me estava a dar é: "Eu não aguento isto, eu quero tirar a minha vida". E o que eu fiz foi, eu sentei-me numa zona ali perto da casa dela, liguei para o 112 e disse: "Olhe, eu não estou bem e eu estou mesmo a ponderar tirar a minha vida, portanto venham me buscar, porque eu não sei o que é que vou fazer".
Que idade é que tinhas?
Eu não sei se isto foi ainda no mesmo ano da morte, porque há uma névoa muito grande na minha memória nessa altura. Ainda hoje em dia, às vezes há pessoas que se cruzam comigo ou pessoas que eu recebo mensagens dizendo: "Lembras-te de mim?" Eu não faço ideia quem é que tu és.
Estavas tão desligado da realidade, no teu mundo.
Há mesmo uma fase da minha vida que se tu me perguntares o que é que aconteceu ou quando é que aquilo foi, eu não te consigo dizer. Ou seja, eu tenho a certeza que me lembro, eu acho é que ainda há muita coisa bloqueada.
Mas o que é que aconteceu depois nesse dia? O 112 apareceu?
Sim, chegou a ambulância, a ambulância levou-me para o hospital. Por exemplo, eu não me lembro desta viagem. A memória que eu tenho a seguir é eu já estou no hospital, estou com o meu pai ao lado. Eles contactaram, eu era menor de idade, contactaram o meu pai, ele foi lá. Sei que passei a noite no hospital, mas não tenho muito mais memórias disto a não ser depois o hospital aconselhar: "Ok, ele tem que ser acompanhado". Foi o meu primeiro contacto com o que é ter uma psicóloga.
Já foi aí a entrada na terapia?
Não, foi uma entrada forçada.
Pois.
E não era bem psicóloga, era psiquiatra, então de repente foi: "Ok, toma lá medicação para tomares" e de repente, a medicação não me fazia bem e eu comecei a ficar cada vez pior. Na verdade, a medicação até era quase uma coisa que eu tinha que me deixava um pouco mais perto do meu objetivo negativo. Houve uma noite em que eu disse: "Ok, então se eu tomar o dobro ou o triplo da dose, isto se calhar acaba hoje". Foi uma fase muito
Como é que tu ainda sentes culpa de não ter estado lá para as outras pessoas quando tu próprio estavas a lidar com isso tudo? É uma criança. Eras uma criança.
Sim, e eu tive este processo depois todo na terapia de conseguir perdoar um pouco essa criança.
Mas quando é que chegaste ao ponto de: "Ok, eu estou pronto para falar, se calhar não com os meus avós e com as pessoas perto, mas com um estranho"?
Eu nunca me senti nessa posição de: "Ok, agora eu quero". Porque eu sempre lidei com isso um pouco como: "Não, eu não sou maluco para ter que ir para um psicólogo, eu consigo tratar de mim, eu consigo resolver as coisas".
Na altura ainda era mais tabu do que é hoje em dia, ir a um psicólogo.
Sim. Felizmente, cada vez há mais uma abertura e isso depois também leva a outras coisas um pouco negativas, como acharem que qualquer pessoa pode ser psicóloga. Mas eu acho que quando eu bati mesmo no fundo, novamente, foi em 2021. Eu participei pela segunda vez no Festival da Canção e desta vez eu estava a concretizar um sonho, que era: "Ok, agora vou finalmente com uma música minha, vou ser compositor, vou ser cantor da minha própria música no Festival da Canção". E assim que a música é anunciada, começam a surgir notícias de não sei o quê, acusado de plágio, Pedro Gonçalo acusado de plágio, veja aqui a comparação. E foi uma enchente e uma torrente. Houve dias em que eu tinha a minha tia a ligar-me a dizer: "Olha, a CMTV não me para de chatear, porque eles querem entrevistas". Eles já estavam a ir atrás da minha família porque não conseguiam falar comigo, eu recusava-me a dar entrevistas. Depois ficas naquela dualidade de o que eu vou fazer? Vou falar sobre isto, não vou falar sobre isto, vou ignorar e deixar passar, vou dar a minha opinião sobre isto, mas depois vou alimentar, se calhar, um pouco. Era muito complicado. E o que é que aconteceu?
Lidar com isso tudo sozinho também, se calhar, ou tinhas suporte?
Sim, sozinho, mesmo pessoas à minha volta em que eu confiava.
Também não sabiam bem o que fazer, não é?
Sim, e algumas delas também duvidavam de mim, isso era o pior.
A sério?
Sim, era mesmo de: "Olha, tu se quiseres não me dizes, não me confirmas, mas não dá para fugir". Percebes aquela situação de mãos atadas em que o que é que eu faço? Com quem é que eu vou falar? Como é que as pessoas me vão perceber ou não? E este estado de constante ansiedade e de estresse começou a passar para o meu corpo. Eu, de repente, tinha o olho todo inchado, a cara toda inchada, não percebia porquê. Vou ao médico e ele diz: "Olha, isto é..." Já não me lembro do nome, mas nós quando temos varicela, quando passa, o vírus continua no nosso corpo e ele pode ser reativado através de altos níveis de estresse e de ansiedade. Portanto, o que estava a acontecer, eu acho que é o herpes zóster, acho que é assim que se chama. Era isso, era o estado enorme de estresse e ansiedade que eu não estava a libertar de nenhuma forma, começa-se a ver no corpo e começa o olho a inchar, começa a ficar com marcas, parece que são picadas Na altura, a minha tia, irmã da minha mãe, que disse assim: "Olha, eu acho que tu devias experimentar falar com uma psicóloga". E eu, meio reticente, disse: "Ok, não perco nada."
Mas então, até então, não tinhas nada nesse espaço?
Sim, nunca. Aliás, aquela psiquiatra que eu tive na altura em que fui para o hospital meio forçado, eu consegui acabar com essas consultas, porque na minha cabeça: "Ok, se eu começar a fingir que estou bem, que está tudo bem, isto acaba". E foi o que eu fiz. Então chegou a um ponto em que ela disse: "Ok, pronto, já está tudo bem."
Mas como é que tu conseguiste lidar com esses anos todos até 2021, antes de chegarmos aí? Refugiaste-te na música?
Na música, nisso que eu estava a dizer, encontrar grupos de amigos que te levam para festas, e bebes, e experimentas coisas meias estranhas que te ajudam a ficar dormente. Então não tens que sentir, não tens que passar por nenhum desses pensamentos, porque estás sempre em alta rotação, estás sempre a pensar noutras coisas. Então refugias-te ou no trabalho ou nisso. A minha vida era isso, era estar ou o dia todo no estúdio a fazer músicas e depois ou vais para casa e vais dormir, ou então vais curtir e vais adormecer a mente para outras coisas. Foi assim que eu fui passando. Por isso é que depois sempre que existiam estas paredes e uma pessoa esbarrava nestas paredes, ok, agora é a altura em que tu tens que lidar com isto. E como é que vais lidar? E como não lidava, começa o estresse a apodrecer-se de mim, começa a ter estas manifestações no corpo. E realmente foi a minha tia Joana que me deu esta mão de me levar a alguém. Ela vive na Madeira, então o que ela fez foi: "Tenho aqui uma pessoa que eu conheço, então vamos fazer consultas online". E para mim também, ok, estou no conforto da minha casa, também não me chateio, vou experimentar. E na altura, o que abriu aqui foi: ela nem sequer vai ser consultas de psicologia, são consultas de PNL. Portanto, isto é tipo um mês, dois meses, tens aqui uma sessão por semana com ela e é PNL, que é programação neurolinguística, vais começar a perceber como é que vais lidar com isso e daqui para frente, definir objetivos. E eu: "Pronto, também vai ser fixe". Mas começou a correr tão bem, e eu gostei tanto da Cristina e de ter aquelas sessões com ela e como ela é psicóloga, de repente, ela começou a testar-me.
E a abrir-te portinhas.
E a abrir-me portinhas. E de repente era eu que me estava a abrir com ela. E de repente começamos a falar de uma data de coisas e de repente estamos um ano, dois anos, três anos e-
E foste lá atrás.
E começas a ir lá atrás, sim. E é quando começa a doer mais, mas é também quando começas a crescer mais e começas a curar algumas dessas feridas.
E em que é que a terapia te mudou? Deu-te ferramentas, conheceste-te melhor, conseguiste sarar feridas?
Sim, principalmente isso, o conhecer-me um bocadinho melhor no sentido em que, lá está, não achar sempre que eu é que sei tudo e que está tudo bem e olhar um bocadinho para dentro e perceber que existem essas várias camadas, essas várias pessoas que foram crescendo ao longo do tempo até à criança, e saber falar com elas, saber perdoar. Eu durante muito tempo andava com uma fotografia minha com três anos no wallpaper do telemóvel, que era para sempre que olhava para o telemóvel, tentar conversar um bocadinho ali com ela, perdoar um bocadinho e olhar também para mim como olhava para essa criança, que é: tu ainda és essa criança, não tens que te tratar às vezes como tratas e falar contigo como falas, porque quando estás a falar assim nesse tom agressivo, estás a falar assim para esta criança e ela não merece que a trates assim. E eu acho que o que a Cristina me deu mais foi realmente falar sobre as coisas, porque foram anos e anos em que as coisas estavam só fechadas na minha cabeça e de repente, quando eu já estou a falar sobre elas, consigo entendê-las e consigo perdoar também. E lá está, aquilo que estavas a dizer, olhar para esse Pedro com 15, 16 anos e pensar: "Ok, mas tu ainda és uma criança, não sabes o que estás a fazer". Mas eu na minha cabeça é: "Não, tu és estúpido, és parvo, olha o que tu estás a fazer, não tens noção de nada".
É, constante julgamento das tuas decisões.
Exato. E conseguir olhar para ele e perceber: sim, está tudo bem. Eu perdoo-te, porque é isso, tu eras uma criança, não tinhas que ter essa responsabilidade porque nem sequer cuidavas de ti.
E que impacto é que isto teve nas tuas relações, seja, por exemplo, com os teus avós, com o teu pai, com o teu irmão, com as pessoas à tua volta? Acho que mudou?
Acho que comecei a valorizar muito mais, porque realmente o que passou a ser uma prioridade para mim foi sempre a família e o trabalho. Lutar pelos meus objetivos, garantir que estava a fazer tudo aquilo que eu podia para alcançar os meus objetivos e não estar sempre à espera dos outros ou depender dos outros. É não, aquilo que eu puder fazer, eu vou garantir que vou fazer. E depois disso, tem que haver a família que, um bocadinho por causa daquela culpa que eu te estava a dizer, parece que ignorei durante tantos anos e pus lá durante tantos anos. Não, eu quero aproveitar ao máximo o tempo que eu tenho com eles e que vou ter com eles. Há ainda conversas que são difíceis de desbloquear e conseguires ter essas conversas 100%, mas-
Porque se calhar as pessoas também não fazem todas esse trabalho que estás a fazer.
Sim.
Ou seja, a dificuldade também pode partir do outro lado, ou não?
Claro. Eu acho que nunca pode partir tudo de ti 100%. É tudo uma balança.
É abertura para estas conversas acontecerem.
Ya. Mas eu acho que mesmo quando as pessoas não o sabem fazer ou não têm também essa força para ter esse tipo de conversas, quando elas veem o trabalho que tu estás a fazer ou a forma diferente como tu lidas com elas, elas também mudam contigo um bocadinho. Por exemplo, no caso dos meus avós, principalmente a minha avó, que era a pessoa que estava sempre hiperpreocupada comigo e não sabia o que eu ia fazer da minha vida, porque ainda por cima sendo o primeiro neto dela, ela sempre teve grandes expectativas e então eu ia ser ou médico ou engenheiro, de repente vou para música e ela começa a não perceber nada do que está a acontecer ou o que eu vou fazer com a minha vida. O mês passado fiz a apresentação do meu segundo álbum nos nossos estúdios e foi a primeira vez que eles lá foram. Foram ver o concerto acústico e no final eu fiz uma tour pelos estúdios e mostrei onde é que eu trabalhava. Um ou dois dias depois estávamos a falar por chamada e ela disse uma das coisas que eu mais gostei de ouvir até hoje, que foi: "Olha, fiquei muito feliz de ver o local onde trabalhas, é muito bonito. E a avó tem muito orgulho em ti. Eu amo-te muito e tenho muito orgulho em ti". Fiquei superfeliz, porque há uns anos se eu lhe falasse disto da música era um bocadinho: "Oh filho, o que é que estás a fazer?"
Mas também é importante mostrar, dar a conhecer e explicar.
É isso.
Se calhar não apoiam porque não sabem o que é.
E muitas vezes não temos a paciência para também estar a explicar e também perceber que são mundos diferentes e são gerações diferentes. É o que tu dizes, é levar, mostrar, explicar mesmo como se fosse uma coisa do zero, que às vezes para nós já é: "Mas isso é tão banal." Não, mas para uma pessoa é a primeira vez que estão a ouvir, a primeira vez que estão a descobrir.
Mas foi tão fofo. Eu fui ao concerto do Art Club e o teu avô.
Sim.
Ele é um fofo. De repente eu estou a olhar para a minha amiga e estamos as duas a chorar. O que é que se está a passar?
Isso também foi muito giro, porque foi mesmo ele que me pediu para ir fazer a abertura. Ele ligou-me.
E ele tem muita piada.
Tem muita piada. Ele sempre foi um senhor que sabia falar muito bem e escrever muito bem. Para uma semana antes do concerto, nós tivemos uma das chamadas mais longas de sempre, uma hora e meia, duas horas ao telefone. Estivemos a falar de tudo e mais alguma coisa e mais para o final da conversa ele diz-me assim: "Olha, eu gostava muito de dizer umas palavras antes do teu concerto no Porto. Deixas-me?" "Deixo, claro que deixo." Depois disso, falei com o meu pai, falei com a minha avó, eles estavam um bocadinho preocupados e sequer sabiam se queriam deixar, porque tinham medo ou que de repente aquilo corresse mal ou ele bloqueasse, porque preocupam-se também com a idade que ele já tem, com coisas que já foram acontecendo e que pudesse não correr tão bem. E eu disse: "Olha, mas eu gostava mesmo muito que isto acontecesse. Ainda por cima foi ele que pediu e se ele quer fazer, eu gostava muito de ter este momento no concerto." Mas mais ninguém sabia. Então, eu tenho família que estava lá, que disseram assim: "Eu quando vi o teu avô entrar no palco, eu pensei que ele se tinha enganado no caminho."
Mas foi tão giro, eu amei.
Eu acho que foi muito giro.
Achei mesmo que foi o início perfeito.
Obrigado.
Notava-se mesmo o amor e o orgulho, tudo aquilo que estavas a falar, notava-se totalmente.
Sim.
E mesmo quando tu entraste, estavas radiante.
Eu estava babadíssimo atrás do palco a vê-lo a falar. E tenho muita sorte também de ter aquilo tudo gravado. Estava o áudio a ser gravado na mesa, o vídeo também. Lá está, são coisas que vão ficar para sempre. E mesmo um dia que eu queira mostrar aos meus filhos ou aos netos, aquilo fica eterno e eu acho que é tão fixe. E lá está, foi a abertura dos concertos, foi o primeiro concerto dos últimos dois concertos do álbum, então foi tudo mega especial.
Sim, o ano passado e este ano achas que são os teus melhores anos de carreira?
Sim. Até porque o ano passado acho que foi o meu melhor ano de sempre a nível do digital e da música, concretizar muitos sonhos e de conseguir ter as músicas cá fora e começar esta jornada. Este ano eu acho que é o ano em que estou realmente a fazer aquilo que eu gosto e a mostrar aquilo que eu sou, porque foi o lançamento do segundo álbum, é um álbum também muito mais maduro e muito mais aquilo que eu já sou na música e quero ser na música. É quase um ano de paz, porque o ano passado foi aquele ano em que eu estava a lançar o meu primeiro álbum e tinha aquelas músicas que representavam um bocadinho a minha adolescência, turbulência e as coisas que foram correndo menos bem, mas eu tinha sempre aquela necessidade de ter a paz que eu sinto hoje em dia, eu quero tê-la na minha música também, não estar sempre a ir para essas situações mais negativas. E quando lancei este álbum, parece que fiquei mais em paz, que foi ok.
Representa a tua fase agora também.
Sim, também.
A nova fase, o recomeço que tu falaste.
Ya, é isso mesmo. Sinto mesmo que estou em paz e que estou a fazer o caminho que eu já há imensos anos queria construir.
Mas demorou até sair o primeiro álbum, tiveste percalços.
Muito tempo. Percalços e depois também aquilo que eu te estava a dizer, que é culpar tanto os outros e estar sempre à espera dos outros e depois dizer: "Isto não acontece por culpa daquela pessoa", e depois deixas tudo como responsabilidade dos outros.
Mas também estás numa carreira, principalmente tu, que envolve muita gente. É difícil ter tudo no teu controle, não é?
Sim, mas por exemplo, a questão de teres um álbum definido, tens de ter as músicas escritas. Às vezes há coisas que dependem mesmo de ti, que é tu teres as músicas ao teu gosto. E no meu caso, eu faço mesmo um bocadinho de tudo, ou seja, desde a composição à produção, ter as maquetes finalizadas antes de ir a estúdio. E durante muitos anos eu andava naquela coisa de "ok, mas agora eu vou esperar que alguém chegue aqui ao pé de mim, que me ajude a fazer isto. Isto não vai acontecer enquanto não tiver essa ajuda."
Estavas sentado no lugar do passageiro.
Sim, a ver se alguém me pegava no carro para me levar na viagem que eu queria fazer. E hoje em dia é um bocadinho o contrário.
E depois viveste muito para a música, para os álbums, para tudo isso, e depois o ano passado tiveste ali um momento que é tipo: "Calma, é preciso tratar de mim também."
Eu sinto que estou sempre um bocadinho nesse mood de tentar ter calma, porque eu acho que tu também sabes isto perfeitamente, que é muito fácil nós ficarmos tão presos a este trabalho e a ter sempre que criar coisas novas, que às vezes nos esquecemos um bocadinho de nós e pomos um bocadinho para trás das costas.
E a terapia ajudou-te. Foi em 2021 que começaste a terapia?
Comecei, sim.
Ou seja, ajuda-te a tu teres as ferramentas para lidar com momentos depois mais low que tenhas na tua vida. Mas no teu dia a dia também precisas fazer coisas para que consigas te pôr como prioridade. Porque senão estamos sempre refugiados no trabalho, depois aquilo vai chegar um dia em que explodimos.
Sem dúvida. E eu encontro um bocadinho isso no desporto, acho que tu também.
Estava a dizer que começamos a correr mais ou menos no mesmo mês.
Na mesma altura.
Eu estava a dizer que começou a correr em agosto, eu também foi mais ou menos em maio do ano passado.
Naquela altura do verão.
Por que é que começaste a correr?
A motivação para fazer a minha primeira prova, os 10 km na São Silvestre de Coimbra, mas também um pouquinho de: "Eu gosto tanto disto e estou a desleixar-me e a deixar isto tudo para trás, por que eu não faço?" E então foi mesmo pegar nas sapatilhas, nos calções, numa t-shirt e bora, fazes o que conseguires. E na altura era megafrustrante, porque eu tentava correr um, dois quilómetros e já estava: "Ok, vou parar, já não consigo mais."
Sim, ou seja, continuaste também para querer evoluir e sentir-te melhor, não é?
Sim. E o giro depois também na corrida é isto, que é eu tinha aquele objetivo dos 10 km na São Silvestre, que me parecia impossível correr 10 km seguidos. Eu estava sempre naquele objetivo de "ok, agora tenho que conseguir um pouquinho mais". Quando cheguei aos 5 km seguidos, eu estava: "Sou um campeão, já corri 5 km". E hoje em dia, parece que depois é frustrante, eu agora quero é correr mais e não consigo correr mais. E fazes os 10 km, fazes a meia maratona. E estava a falar contigo há bocadinho que vou fazer também a maratona do Porto. Nunca corri tanto na minha vida, portanto o máximo que eu corri até hoje foram os 27 km.
E vais fazer 28 km no final deste ano?
Sim, eu agora tenho o objetivo de todos os anos, no final do ano. Aliás, eu gostava mesmo que fosse sempre no último dia do ano, que é quase fazeres a retrospetiva do teu ano todo, também poderes ter um cadinho destes anos todos que foram passando, mas sim, acabares o ano com um quilómetro por cada ano da tua vida até hoje. Eu acho é que ali a partir dos 50 anos vai começar a pesar.
Mas vai estar imensa gente a correr. Se não estiveres, eu acho que é tudo consistência.
Achas que sim?
Eu acho que sim.
Achas que eu aos 60 anos vou correr 60 km?
Eu imagino.
Eu gostava, não te vou mentir. Se calhar quebrava alguns recordes. Imagina.
Não é fácil, eu sei. E vamos falar do patrocinador deste episódio, a Hiwell, que já falei aqui várias vezes, que é uma plataforma de saúde mental e como puderam ver através desta conversa, a terapia tem um impacto e teve um impacto muito importante na vida do Pedro, na minha também, e acaba por continuar a fazer parte da nossa vida, mesmo estando nós os dois numa boa fase neste momento. A terapia ajuda-nos a encontrar ferramentas, a lidarmos com coisas que aconteceram, com traumas de passado e com coisas que acontecem no nosso dia a dia hoje, ajudar-nos a passar por isso, a conseguir ter uma pessoa que vê de fora, que consegue ter outra perspectiva e que não é influenciado como só falarmos com os nossos amigos e família, que é superimportante, mas ajuda profissional ainda mais em tudo isto, em todas as fases da vida, em todos os altos e baixos que vamos tendo. Portanto, eu tenho um código de desconto para a Hiwell, que é 15MARIANARIBEIRO, que dá 15% de desconto ao fim da primeira consulta. A primeira consulta de 15 minutos é gratuita para ver se vocês gostam do psicólogo que vos calhou e a partir daí, para as consultas seguintes, podem usar o meu código 15MARIANARIBEIRO, que assim têm desconto e conseguem ter o processo de terapia tudo online, tudo feito na própria aplicação, muito prático e fica aqui a minha recomendação. Amiga, faz parte. Mas tu sentes que estiveste em algum altura em piloto automático, em que, imagina, o treino não era prioridade, tratar de mim não era prioridade ou sempre tiveste um equilíbrio?
Muitas vezes. Eu sinto sempre até que estou no vai, não vai. Ainda não consegui desbloquear este conseguir ter, porque eu sinto que sou muito do oito ou 80, que é ou de repente deixo de fazer tudo, ou de repente estou a fazer tudo ao mesmo tempo.
De repente estás a fazer uma maratona.
Ya. Por acaso agora tem sido gradual, porque eu estive quase tentado.
E um Ironks.
E um Ironks, é verdade. Esse aí foi um bocadinho por impulso, não te vou mentir, mas vai dar certo. Mas a maratona eu até tentei ser aquela consistência de: "Ok, vou para a maratona no final do ano, vou fazer três ou quatro meias durante o ano, vou treinar bem até lá. Não, no início do ano faço uma maratona." Não, estás maluco. Vai com calma. Mas, por exemplo, a nível de conseguir ter um estilo de vida mais ou menos saudável e conciliar isso com o trabalho, muitas vezes é difícil, principalmente quando estamos sempre a viajar, ir de um lado para o outro e depois não me apetece andar com marmitas de um lado para o outro.
E quando falha uma, depois entras no oito, em que se calhar falha tudo, não é?
Ya, é muito fácil cair nesse oito. Principalmente, eu digo isto a mim muitas vezes. Ou seja, eu estou num fim de semana, é na segunda-feira, vou começar outra vez, comer direitinho, sempre as minhas marmitas. Chega segunda-feira, falho, pronto, agora para a semana volto a experimentar.
Fazes isso muitas vezes?
Faço isso muitas vezes. Por exemplo, no final do ano passado, quando fui fazer a São Silvestre de Coimbra, eu estava a fazer três meses. Não sei se ouviste falar do Winter Arc.
Sim.
Que foi assim ganda trend no TikTok. Pronto, eu comecei a fazer o Winter Arc, um bocadinho adaptado aos meus moldes.
Mas dentro das tuas regras.
Exato. O que estava a acontecer era, eu não comia nada ultraprocessado, só comia o máximo natural possível na comida. Estava a treinar todos os dias, só me focava no trabalho.
Estavas no 80.
Exato, estava no 80, era mesmo isso. Estava com o chip no máximo ligado e estava-me a sentir mesmo muito bem, porque a alimentação faz a diferença.
Sim, as coisas são assim quando tu estás focado.
Eu acho que a comida faz mesmo toda a diferença, porque quando eu estava nesse modo em que estava a comer o menos processado possível em tudo, parece que estás mais focado, consegues te concentrar, o corpo trabalha melhor e é normal que assim seja. Mas o que é que aconteceu? Depois, no final desses três meses, ainda tens ali um, dois meses em que te aguentas e de repente é: "Olha, alguém faz anos, come ali um bolo e come não sei o quê."
Sempre chega o Natal, a altura de festas e descamba.
E quando começa a descambar, é muito fácil no dia a seguir: "Ok, mas agora é só este bocadinho e agora é só não sei o quê". E de repente, quando dás por ti, já voltaste outra vez ao ritmo.
E é difícil encontrar o equilíbrio no meio disto tudo.
É difícil, porque lá está, eu sinto que estou sempre nesse oito e 80. Não consigo estar ali no 42, 40.
Mas cobras-te muito por isso?
Hoje em dia, não Houve uma fase em que sim. Hoje em dia, não, eu consigo lidar bem com isso e estou ok, mas fico sempre com aquela coisa de: "Caramba, eu sei que tu consegues melhor do que isto." E eu acho também não faz mal nós sabermos isso e tentarmos ser sempre um bocadinho melhores. Mas também tento sempre pensar: "Ok, esta semana realmente estiveste a semana toda fora, podias ter feito umas escolhas melhores, certo, já passou, agora focas-te daqui para frente." No entanto, não deixo de ter sempre uma vida muito ativa, eu não deixo de ir ao ginásio. Eu depois também meti-me um bocadinho em tudo. Portanto, eu neste momento faço ginásio, faço natação e faço corrida. Então quando não faço um, consigo fazer outro.
E vais comprar uma bike.
E quero comprar uma bike.
E iron rox e maratona, pronto.
Ya. Eu há uns tempos estava a falar disso também no meu podcast, que é, eu sinto que a malta que chega aqui aos 28 anos já está a casar e está a ter filhos, não sei o quê. De repente, estão a meter em tudo, estão a meter na maratona, estão a meter no iron rox, estou a comprar uma bicicleta, vou meter em tudo.
Mas é que é literal aqueles TikToks que aparecem que é, estás entre os 25 e os 30. Ou estás a correr uma maratona, ou estás a casar e ter filhos, ou estás a sei lá, e para lá ali o...
Eu sinto que é mesmo isso. Olha, e eu estou nessa fase do correr a maratona, fazer iron rox, agora quero comprar uma bicicleta e andar aí a fazer...
E tu não sentes a pressão de sociedade de ter de assentar e casar, ter filhos antes dos 30?
Eu sentia muito isso naquela fase em que estava mais perdido. Por quê? Porque meu pai também casou aos 27, aliás, casou aos 26, teve-me aos 27. Eu sempre pedi isso a mim mesmo na adolescência, de: "Não, eu vou ter filhos na mesma idade que o meu pai." Depois cheguei aos 27, não tinha filhos e eu: "Bem, se calhar está..." E tinha também aquela ideia que é, eu se tiver filhos depois dos 30, já vou ser velho. Mas hoje em dia já lido bem com isso.
Como é que foste construindo isso, essa ideia?
Não quero que isto soe negativo, mas foi focar muito nos meus objetivos e saber que eu também não sinto que vá conseguir ser o melhor pai do mundo se tentar forçar uma coisa antes de conseguir cumprir com aquilo que eu quero fazer para a minha vida. E eu sinto mesmo que isto é verdade, ou seja, eu também tento não planear isto ao máximo, do gênero: "Ok, então agora não, tem que ser mesmo aos 30, aos 31." Não, eu sinto que é quando tiver que acontecer.
Então estás numa fase focada no teu desenvolvimento pessoal e na tua carreira.
Sim.
E tu cobras-te muito na parte profissional? Estamos a falar de encontrar o equilíbrio no desporto, mas na tua vida profissional, tu cobras: "Tenho que fazer mil TikToks e Instagram e isto e aquilo, e se não faço, estou a falhar."
Eu sinto que já tenho uma boa gestão, em que eu já consigo ter alguns conteúdos programados e estar, por exemplo, uma ou duas semanas sem me preocupar, porque sei que tenho vídeos para publicar. O que depois sinto é, por exemplo, nessas semanas, se vejo algum conteúdo que sai que eu acho muito giro ou muito criativo, eu fico: "Fogo, estou a ficar para trás." Porque eu devia ter aproveitado esta ideia, devia ter feito esta ideia. É um bocadinho essa luta. Eu depois também sinto que há esta guerra interna quando, se nos focarmos demasiado nisto dos números, pode ser difícil sairmos deste poço.
Dos números e da comparação, para tudo, seja comparar nível profissional, números, seja comparares com aquela pessoa que está a casar, como estávamos a falar antes.
Sim, também.
Eu acho que o maior problema é olhar para o lado, constantemente.
Ya. Sim, sim.
Em vez de estarmos a olhar para dentro e para os nossos objetivos, como tu estavas a falar.
Pois, lá está, para os objetivos, porque às vezes mesmo olhando para dentro, para o nosso passado, podemos também entrar numa depressãozinha de, por exemplo, olhamos para vídeos que lançámos há dois meses e estávamos com grandes views, e de repente aquilo já não tem as mesmas views e ficamos: "Epá, o que é que eu estou a fazer de diferente? As pessoas já não querem saber de mim, já não gostam de mim." Às vezes há essa luta.
E como é que tu fazes para contornar esse tipo de pensamentos? Eu acho que falaste uma vez sobre isto, se um crescimento é ser pequenos passinhos todos os dias, mesmo na parte profissional, e que isso é que depois vai dar, ou seja, em vez de se focar no que vai ser viral, no que vai dar hoje, e isto aplica-se a tudo na vida, não é mesmo, sei lá, fazendo uma dieta agora. Tudo que seja de forma muito mais gradual, vai ser muito mais sustentável a longo prazo.
É verdade. Ya. Tentar dar esses pequenos passinhos e também lembrar-nos por que estamos a fazer. Ou seja, não fazer com o intuito de: "Eu estou a criar conteúdos para ficar viral." Não, por que estás a criar? "Porque eu quero poder promover o meu trabalho." Ok, então se é para isso que estás a fazer, não interessa se vais ter um milhão de views ou se vais ter 10 mil.
Mais uma vez é ter um mapa, não é?
Ya, é teres um mapa.
Te explica onde é que estás a ir.
Sim. Mas às vezes há essa luta interior.
E tu continuas a fazer terapia?
Sim, menos regular, porque depois também chega uma altura em que vais percebendo, ok, se calhar não preciso fazer todas as semanas, posso fazer uma vez por mês. Eu também já não sinto bem que é tanto o terapia, mas quase um checkup de: "Olha, vamos trocar ideias, vamos trocar coisas que são..." E às vezes se forem coisas muito negativas, aí sim, começas a ir mais aos porquês ou de onde é que isso pode ainda vir. Porque isto é um trabalho contínuo, tu não é: "Eu vou ter terapia durante um ano e vou curar tudo e agora sigo em frente."
E estás alta e nunca mais precisas.
Sim, claro. Porque mesmo que tu consigas lidar com certas coisas e perdoar algumas coisas, há outras que te vão aparecer para assombrar e que vais ter que aprender a lidar com elas. Por isso é um trabalho que eu acho que vai ser mesmo para a vida inteira, porque vão surgir novos desafios e às vezes nesses novos desafios vão buscar outros fantasmas que tu não conhecias ou não te lembravas. E vêm de outros moldes. Por exemplo, eu tenho a certeza que, estávamos a falar disto de criarmos objetivos e focarmos muito em nós, mas se calhar quando chegas a uma altura em que, por exemplo, és pai ou és mãe e tens uma pessoa para criar, vão surgir outros fantasmas que não te lembras da tua infância, da relação que tiveste com os teus pais. Por isso, lá está, nessa altura há outros desafios que vão aparecer, há outras coisas que tens que lidar.
Mas hoje em dia tu sentes que és uma pessoa mais capaz de lidar com esses momentos mais low?
Sim, se bem que vamos ter sempre falhas. Eu ainda hoje, e vou ter sempre, há coisas que vão acontecendo e que não vão acontecer da maneira que tu queres, e quando sais dessa situação, olhas para trás e pensas: "Espera, mas Isto não está certo e tens que fazer a análise, tens que perceber porque é que aconteceu. E há dias em que simplesmente acordas ou mais mal disposto ou mais triste e há momentos que vão puxar por lados mais emocionais teus e vais reagir de uma forma que não querias reagir. Não quer dizer que sejas má pessoa, não quer dizer que estejas a regredir, não quer dizer que estejas a voltar ao teu eu antes de entrares na terapia. És um ser humano e estás a errar.
Em construção, exatamente.
Sim, claro.
E tens algumas formas de escape no teu dia a dia? Ou seja, tens a terapia que continuas a fazer, tens o desporto, que é uma grande fonte de escape, mas tens outras coisas que tu costumas fazer? Imagina, estás num dia mau ou uma coisa assim, o que é que te costuma trazer para cima?
Escrever.
A sério?
Ya.
Não sabia que escrevias.
Adoro escrever. Ir analisando coisas do dia. Por exemplo, tens uma discussão com alguém ou estás a falar uma coisa qualquer de trabalho, de repente aquilo começa a escalar e começa a haver um stress maior. E analisar o porquê. Mas porque é que a pessoa reagiu assim? Porque é que eu reagi daquela maneira? Porque é que a reação daquela pessoa me fez também entrar nesse...
Ou seja, consegues analisar melhor os teus pensamentos quando pões por escrito?
Sim, conseguir escrever. Não sei, a mim ajuda-me.
É onde tens melhores ideias.
Sim. E o escrever à mão, ou seja, o papel, caneta, ajuda-me.
Por acaso, estava ontem num podcast com uma psicóloga e ela estava-me a dizer que às vezes partilha uma dica com os pacientes, que é em vez de escrever, passar para o next level, que é mandar áudios para ti próprio. Eu achei uma grande dica, mas não sei.
Eu não consigo fazer isso ainda, é difícil.
É tipo, estás a mandar um áudio a contar aquilo que aconteceu e depois tu ao ouvires é tipo: "Isto está a ser ridículo."
Ya. E eu acho que ainda há depois um outro next level, que eu esse não consigo mesmo de todo ainda fazer, mas gostava muito, que é olhares-te ao espelho nos olhos.
E falares para ti.
E falares para ti. Ya, esse eu ainda não consigo. Não consegui desbloquear. Há uns tempos, por acaso, tive uma conversa sobre isso, uma pessoa que me diz: "Olha, eu faço isso todos os dias."
Há pessoas que fazem mesmo tipo afirmações.
Sim.
"Tu és o maior, tu vais conseguir."
Ya. E lá está, também acho que passas muito por essa cura, consegues mesmo perdoar-te 100% e estás mesmo de boa.
Mas isto dos áudios, ela recomenda até depois tu releres mais tarde. Passou bué tempo. Eu gosto imenso de reler coisas que eu escrevi. Eu tenho os meus journals todos e gosto de reler, porque lembra-me as alturas em que eu estava.
Ya.
Mas ouvir áudios deve ser chill. Deve ser demasiado. Olha, estamos aqui já a chegar ao final. Eu queria te pedir uma recomendação de um livro, eu sei que tu vais lendo coisas.
Sim.
Um livro que tu aches que toda a gente devia ler.
Eu costumo falar quase sempre deste livro, porque foi mesmo um livro que mudou muita coisa na minha vida, mas não é um livro muito fácil de ler, porque é gigante, mas é o "Reality Transurfing". Não sei se tu conheces. São cinco livros, mas há uma edição que tem os cinco juntos. Basicamente, contexto muito rápido da teoria deste livro é que existem muitas realidades paralelas a acontecer neste preciso momento e que tu na tua vida vais navegando entre elas, conforme as escolhas que tu vais fazendo. E então, basicamente, o livro vai te dizendo coisas que tu vais sentindo na tua vida, que é os momentos em que estás a dar shift entre essas realidades e como tu próprio podes perceber como é que também podes controlar mais ou menos isso.
Ok. Interessante.
Eu sei que isto parece muito estranho, mas juro-te que é muito interessante. Depois há uma parte, que esta é mais estranha, mas que eu também gosto muito, que é: todos os nossos sonhos, na verdade, não são sonhos. Estás a ser transportado para essas realidades paralelas que existem. Eu sei que isto já é mesmo next level, mas quando lês o livro e começas a entrar nesta filosofia deste autor, acaba por ser muito giro. Isto é como todos os livros, não tens que levar nada a 100%, nem levar tudo cegamente para a tua vida. Mas há muita coisa neste livro que eu acho que são mesmo pensamentos e maneiras de ver certas coisas na nossa vida que são muito interessantes e que eu nunca vi em mais livro nenhum ou noutros autores. E é muito fixe. O autor chama-se Vadim Zeland, acho que é ele, é russo. Portanto, há uma versão inglesa deste livro, que às vezes tem alguns erros, porque isto foi traduzido por uma data de malta na internet e foi juntando tudo num livro só.
Acho mesmo interessante, fico mesmo curiosa.
"Reality Transurfing".
Fogo, boa recomendação.
São cinco volumes, se tiverem tempo e disponibilidade.
Tu na tua vida costumas tomar essas decisões mais por intuição ou tipo gut feeling? Ou ponderas muito?
Ya, eu pondero sempre, mas cada vez mais vou naquela de se eu sinto que é o correto, é pá, bora e que se lixe, vamos ver o que é que vai dar.
Ya, eu também sou bué assim.
E sinto que também traz frutos.
E cada vez que traz frutos, tu pensas: "Ya, tenho que continuar a fazer isto desta forma, seguir só aquilo que estou a sentir."
É um bocadinho isso, se é o teu instinto, bora. Por alguma razão tem que ser por isso.
Um conselho que tenhas recebido recentemente e que tenha marcado e queiras deixar aqui.
Isso é uma pergunta difícil.
Pode ser alguma coisa que leste, que ouviste num podcast, qualquer coisa que te tenha ficado na cabeça.
Olha, por acaso, não sei se foi a mais marcante, mas foi uma que eu ouvi há pouco tempo. Aliás, vi num filme e ficou marcado, que foi: as folhas nas árvores crescem juntas, mas quando caem, caem sozinhas. E aquilo de certa forma marcou-me e deixou-me a pensar e a fazer a reflexão.
E é um bom resumo para esta conversa também. Obrigada, Pedro, por estar aqui.
Gostei muito de estar cá.
Também eu.
Tens aqui um espaço muito giro.
Quando quiseres.
E estás a fazer um ótimo trabalho.
Sempre bem-vindo. Obrigada.
Obrigado.
Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?