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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Eu acho que a convidada de hoje dispensa apresentações. Hoje vamos ter aqui conosco a Fátima Lopes. Vamos falar de muita coisa, mas eu quis trazer aqui a Fátima, principalmente pra nós termos uma visão de uma mulher que tem uma coragem descomunal pra escolher o próprio caminho, tomar as próprias decisões e ir em frente com medo, sem seguir o que os outros vão pensar, as expectativas que os outros têm de mim, sem seguir todas estas vozinhas que nós temos constantemente na cabeça, que eu acho que nesta fase que nós estamos, a minha audiência e nós, e eu, estamos todos a passar um bocadinho por esta crise existencial de qual é o caminho melhor a seguir, por onde é que eu devo ir, a pessoa certa a escolher, etc. São tantas questões que parece que nesta fase nós temos. E a Fátima tem uma visão de vida que eu acho que nos faz falta. E esta conversa está uma conversa incrível, eu acho mesmo que vocês vão gostar. Falamos de todos estes temas. Também falamos um bocadinho do livro mais recente que ela acabou de lançar, que é "Entre o medo de te amar e a dor de te perder", que é um livro em que basicamente uma mulher mais velha se apaixona por um homem 20 anos mais novo e que sofre este julgamento da sociedade. Portanto, falamos um bocadinho também destes amores proibidos, deste julgamento que nós, especialmente mulheres, acabamos por sentir um bocadinho mais na pele. E de que forma é que nós devemos viver a vida e olhar pra estas coisas e conseguir, mesmo que o sistema não esteja montado para nos favorecer a vida, mesmo assim conseguirmos tomar as nossas próprias decisões. Portanto, espero mesmo muito que vocês gostem desta conversa e tenho certeza que sim. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. Olha, vieste de carro, conseguiste estacionar aqui?
Claro, sim, segurança, eu entrei, eu vinha ao telefone e ele disse-me: "Ó, estaciona lá embaixo, a Fátima vem." Muito querido.
Querido.
Logo, nem foi preciso dizer nada. Eu já lhe digo pra onde é que tenho que ir.
Boa. É sempre assim? As pessoas te reconhecem logo, imediatamente?
Quer dizer, se for gente mais nova, não. Gente muito nova não sabe quem eu sou. Voltei a ser anônima pra essas pessoas.
A sério? Mas mais nova, se calhar, não é da minha geração, é?
Não, mais novo que tu. Tu tens o quê? 20?
Eu tenho 28.
Sim, mais novo que tu. Abaixo dos 20, muitas vezes não sabem quem eu sou. E às vezes, porque são pessoas de outros países, que não sabem. Eu digo Fátima Lopes e é a mesma coisa que dizer Francisca Manuel, é igual, não fazem ideia. Mas as pessoas também não têm que saber. Eu simplesmente digo o meu nome, digo ao que vem. Os que me conhecem ficam muito contentes, os que não me conhecem, dizem é pra ali, pronto.
Mas tem sido difícil?
Já estamos a gravar ou não?
Eu acho que sim. É difícil lidar com isso, de ser sempre reconhecida ou tem sempre pontos positivos a tirar daí?
Comigo não é difícil. Sabes que eu estou tão habituada. Isto é assim há tantos anos, há quase 33. Quase 33 anos é muito tempo, não é? Mais do que tu tens, Mariana. Que eu acho que se calhar a dificuldade é imaginar como é que seria a minha vida sem esse reconhecimento. O que acontece é que com a mudança dos hábitos das pessoas, nomeadamente em termos de televisão, porque as gerações mais novas não veem televisão, para umas certas idades, eu voltei a ser anônima. Ou seja, imagina, quando eu comecei a minha carreira, se eu fosse a um infantário, as crianças de quatro e cinco anos sabiam quem eu era. Porque me viam na televisão, porque a avó estava a ver o programa e eles também estavam a fazer companhia, o que fosse. Portanto, em todas as idades, toda mundo me conhecia. Agora, se tu, ali abaixo dos 16, muita gente não sabe quem eu sou, porque não vê generalista, porque não apanhou a fase de eu fazer programas diariamente. Então eu vou aos sítios e entro e saio anonimamente. E às vezes até é uma sensação boa. Às vezes é bom, é um bocado libertador, tipo: "Pronto, ok, ninguém sabe."
É como se estivesse no estrangeiro.
É mais ou menos como se estivesse no estrangeiro, sim. Mas pronto.
Mas isso é engraçado.
É difícil, se tiverem, imagina, 12 jovens nessas idades, é difícil os 12 não me conhecerem. Há sempre um que diz: "Ai, aquela é." Ok? Ou porque a minha avó me punha a ver ou por qualquer coisa deste género. Mas sim, mas há um certo anonimato que entretanto se recuperou por mudança de hábitos das pessoas.
Mas acredito que sendo já o normal, já nem sequer te lembras como é que era a vida antes, porque, por exemplo, eu tenho o meu público muito restrito e quem me segue é muito pessoas da minha idade. Ou seja, quando eu vejo um grupo de raparigas da minha idade, normalmente conhecem-me. E eu consigo perceber que ou estão a falar de mim, ou então vêm ter comigo. Mas pessoas de outras idades, essas de gerações diferentes, já não me conhecem de lado nenhum. E eu sinto-me sempre anônima, a não ser que esteja num contexto em que tenha muita gente da minha idade.
Certo.
Mas acredito que deva ser difícil lidar com ser tão conhecida por todos os públicos. Parece que já não dá pra sair à rua sem te preocupares com como é que eu estou.
Isso necessariamente. Mas primeiro estranha-se, depois entranha-se. Ou seja, ao princípio era muito difícil, até porque antigamente, nós íamos a qualquer lado e tu não imaginas como é que era. Tu não imaginas. Agora é superpacífico, porque há muitas figuras públicas e não é só isso. As redes sociais normalizaram uma série de coisas e, portanto, tu saberes um bocadinho da vida de uma figura pública ou cruzares-te com ela passou a ser uma coisa mais ou menos normal. Portanto, isso deixou de ser tipo uau! Mas antigamente não era assim. Nós íamos a qualquer sítio e parava. A localidade parava, tu ias a um restaurante, o restaurante parava, toda gente vinha cumprimentar.
Tirar fotos e oferecer.
Tirar fotos, na altura não havia telemóveis para tirar fotos, tens de lembrar disso.
Ok, estamos a falar bem para trás.
Estamos a falar de 1800. Portanto, era pedir autógrafos, que às vezes até eram no guardanapo do restaurante ou num pedacinho de papel do restaurante. O que é tirar fotos, Mariana? Não havia telemóveis.
Mas já havia máquinas fotográficas.
E as pessoas andavam com a máquina fotográfica no bolso? Não. Portanto, isto era um contexto muito diferente. A questão das fotografias veio depois. Depois eu acabei por me habituar completamente. Eu não sei imaginar a minha vida de outra maneira. E se me perguntares: é um problema? Não, não é um problema. A única coisa que efetivamente tu passas a lembrar quase automaticamente é quando saes de casa, tu lembras que és figura pública, portanto, à partida não saes de uma maneira que, por exemplo, seja motivo de conversa. Não vais para a rua nua, estou a levar um pouquinho para o limite, mas para as pessoas perceberem. Mas depois, com a idade, vais ganhando uma liberdade que te estás um bocadinho nas tintas. Por exemplo, eu de manhã vou passear o meu cão. Eu vou passear o meu cão, eu pego as primeiras calças de fato de treino que apanho, a primeira t-shirt, ponho uma mola no cabelo, lavo a cara e vou, como estou, com as olheiras, com tudo, com ar desfalecido, se for o caso disso. Antigamente eu ficava um pouquinho mais preocupada e pensava: "Não posso ir para a rua assim, estou com ar tão cansada, tenho que pôr óculos, se calhar tenho que pôr óculos de sol para não se perceber tanto." Agora estou cansada, é a realidade minha e estou contente.
As pessoas percebem o contexto.
Pronto, mas isso é a cena boa da idade. A cena boa da idade é que tu passas a relativizar. Há muitas coisas boas da idade. Uma delas, relativizas imenso. Há muita coisa que tu não estás nem aí. Já não te tira o sono de maneira nenhuma. Nem pensas. Isso é maravilhoso.
Eu acho que nas nossas idades, os 20, ainda estamos muito na fase de achar que somos as personagens principais da vida de toda a gente. Está toda a gente a olhar para nós. Ninguém, está toda a gente a olhar para si.
Sim.
Mas nós estamos constantemente na nossa cabeça a achar que está todo mundo.
Que toda a gente vai reparar, que toda a gente vai criticar. Mas isso é normal. Eu acho que é normal. Por isso eu te digo, eu com a tua idade se calhar também pensava nisso mil vezes. Não posso ir para a rua assim, o que as pessoas vão dizer quando virem? Olhar a Fátima Lopes, olha que ar tão despencado que ela traz ou o que for. Agora, se virem e disserem: "Ai, que horror, como ela vai de manhã." Sim, é como vou passear o meu cão antes de tomar o meu duche, me arranjar e sair para trabalhar.
Sim, mas eu concordo que as redes sociais ajudam muito nisso.
Normalizam.
Porque vemos um bocadinho da outra parte e associamos que é uma pessoa. É uma pessoa real.
Sim, normal.
Também vais fazer as coisas normais que nós fazemos da forma que nós fazemos.
Absolutamente. Não estás a ver eu maquilhar-me, pentear-me, vestir um vestido comprido e pôr um sapato alto para passear o meu brownie. Não vai acontecer, certeza absoluta.
Já pensaste num ir para a paragem tirar foto? Hoje em dia já não há muito disso, ou há?
Já não há tanto como havia. Ainda há alguma coisa, mas pouco. Antigamente era um inferno. Era um inferno mesmo. Hoje em dia já não. Na verdade, porque qualquer pessoa pode ser paparazzi. Repara, tu tens um telemóvel. Tu queres apanhar uma situação qualquer de alguém. Apanhas. E infelizmente há pessoas que fazem isso, ou seja, ficam muito contentinhas porque conseguiram apanhar uma coisa qualquer e depois às vezes até partilham só entre as suas pessoas e os seus grupos, mas ficam muito contentinhas com o facto de estarem, no fundo, a invadir aquele espaço daquela pessoa.
E dá para perceber que estão ali com o telemóvel assim embaixo.
Como é que não dá?
A fingir que não estão a olhar.
Esquece. Eu vou te dizer que é das coisas que mais me zanga. Não me irrita, zanga-me mesmo. Porque se tu vieres ter comigo e disseres: "Fátima, não se importa de fazer uma fotografia?" Eu faço a fotografia contigo. Mesmo quando às vezes estou com a minha família, que não gosto muito de interromper porque estou com eles, eu afasto-me e faço a fotografia com a pessoa, mas pede-me. Não faças à socapa, tipo, ver se ela não vê, vou agora aqui, como num restaurante, estar sentada com a família para almoçar e tu de repente olhas para a mesa em frente e vês que a pessoa levantou o telemóvel e está te a filmar. Calma.
Parece que é como se tivesse a ver alguém num zoo e pode estar a filmar à vontade.
É a sensação que eu tenho. Já me aconteceu em dias que eu estou virada, porque tem dias que eu estou virada como toda a gente.
Mas fizeste alguma coisa?
Sim, levanto-me e vou lá.
Vais.
Vou lá e com um sorriso digo: "Se me tivesse pedido uma fotografia, eu teria feito." "Ai, desculpe." À próxima peça, não custa nada, porque o que fez não é bonito. É uma questão de estar a invadir a privacidade do outro.
As próprias pessoas não iam gostar de sentir, de ter essa sensação.
Olha, e pedias-me, eu dizia que sim. Agora assim, é chato, e mais, estás ao lado dos teus filhos. E se os teus filhos não querem aparecer? Estás a filmar e não pedes autorização? É assim? Filmas e pronto, porque a ti te apetece? Calma lá. À vontade não é à vontadinha.
Sim, limites. Bom senso, um bocadinho de bom senso.
Sim, eu aí reajo mal.
Eu como tenho um público, eu acho que muito mais controlado, o tipo de reações que eu tenho é muito mais as pessoas sentem que são minhas amigas, porque eu falo sempre muito abertamente, converso como se fossem minhas amigas em casa, e o tipo de reação é muito virem ter comigo. "Gosto disso, daquilo que tu disseste, identifico-me com isto." Ou seja, uma reação muito de proximidade e muito mais normal. Portanto, imagino que para massas, muitas vezes apanha-se contactos que se calhar são um bocado mais-
Mas sabes que eu também tenho muito isso, Mariana, e isso deixa-me muito feliz. Por exemplo, agora com a questão dos podcasts, muita gente essencialmente ouve podcast. E portanto, é muito normal vir uma pessoa ter comigo e dizer: "Olhe, ouvia no podcast tal, não sabia que não sei o quê, ouvi-me fazer perguntas." "Fátima, ouvia falar num livro não sei o quê, mas não registei. Pode-me dizer o quê?"Portanto, isto é uma coisa que hoje em dia me acontece muito. Esta situação que tu reproduziste desagradável, acontece muito esporadicamente. É só porque me perguntaste se isto acontecia. E sim, acontece, mas muito esporadicamente, graças a Deus. Ou seja, por norma, as pessoas são extremamente educadas e sou muito abordada mais nesse sentido, de virem falar de qualquer coisa que viram ou que gostaram, ou de que têm saudades.
Sabe bem.
Sabe muito bem. As pessoas são muito carinhosas comigo. Em geral, as pessoas são muito carinhosas comigo. Eu sou, por norma, muito bem tratada em todo lado. Mas eu também sei que sou bastante simpática com as pessoas, a menos que eu esteja com algum problema e esteja de cara fechada porque estou com algum problema, mas eu também sou uma pessoa como as outras. E às vezes estás ali no meio de um desafio qualquer, estás pensativa, estás com um ar mais introspectivo, porque estás a resolver qualquer coisa na tua cabeça. Mas isso é sermos todos pessoas. Faz parte, eu acho que faz parte.
Sim, e eu acredito também fazer programas diários também cria muito essa relação de proximidade que eu estou aqui a falar também, porque as pessoas veem todos os dias, ouvem opiniões todos os dias e acaba por ser ali uma relação que se vai criando ao longo de muitos anos. Então também se calhar sentem que também têm essa abertura para poder chegar ao pé de ti e falar sobre coisas, sobre temas que têm em comum, que gostam.
Eu sinto isso porque, repara, programas diários foram durante 27 anos. Portanto, durante 27 anos eu estive todos os dias no ar. É muito tempo. Então tu ganhas aquilo que se chama uma relação de intimidade com as pessoas, de proximidade. Às vezes as pessoas dizem uma coisa que eu acho muito bonita quando se cruzam comigo, dizem assim: "Fátima, eu tenho a sensação que a conheço desde sempre. Parece que é uma pessoa da família. Agora quando a vi, a minha reação foi como se eu encontrasse uma irmã ou uma prima."
E até se me dá um abraço.
Sim, e pedem muitas vezes um abraço, porque eu sou uma pessoa muito de abraço. Eu gosto muito de dar abraços. E às vezes dizem-me isso: "Dê-me um abraço. Eu sempre pensei, um dia gostava de a conhecer para lhe dar um abraço." E isto é por quê? Porque tu estás durante muito tempo ali, durante muitas horas, a falares de coisas que são muito próximas das pessoas, coisas que as pessoas muitas vezes sentem também nas suas vidas. E então isto cria aquilo que se chama uma relação de proximidade e às vezes até de alguma intimidade.
É uma companhia.
É ótimo.
Se calhar em momentos piores também, está sempre lá. É aquela rotina que sabemos que quando lá vamos encontrar isto da Fátima.
E às vezes as pessoas partilham até isso, que é, às vezes vão um pouquinho na sua vida. Nestes encontros vão um pouquinho à sua vida e dizem: "Sabe, eu passei ali uma fase difícil da minha vida, tive uma doença, fiquei desempregada." Ou seja, retratam num determinado momento que foi um momento difícil da vida delas e que tinham no programa uma companhia que lhes dava um pouquinho de força, um pouquinho de ânimo, que as fazia acreditar que "eu vou superar isto." E talvez seja dos feedbacks que me deixam mais feliz, saber que aquele tempo de conversa era um tempo que podia ser inspirador para alguém. Eu procurei sempre que cada testemunho, mesmo que o testemunho fosse um testemunho pesado, que terminasse com palavras de esperança. Tentava sempre que isso acontecesse, mesmo quando às vezes não sabia muito bem como fazer, porque há coisas que tu não sabes que palavra de esperança podes dar a uma pessoa cuja história é tão difícil. Mas eu acho que o espetador percebia que eu me estava a esforçar para encontrar qualquer coisa que animasse aquela pessoa. Nem sempre conseguia, é preciso dizê-lo. E para quem está em casa, às vezes a viver uma situação que também é muito desafiante, ouvires uma palavra de "não manda a toalha ao chão, amanhã vai ser melhor, não sei como, mas temos que acreditar." Às vezes é suficiente para aquela pessoa dizer: "Ok, vamos lá." Eu acho que nós não temos noção, e tu no trabalho que fazes, provavelmente também não tens noção ainda, como eu ainda não tenho totalmente a noção, e estou nisso há muito tempo, nós às vezes não temos a noção do quanto as nossas palavras podem impactar positivamente a vida de alguém. Às vezes nós dizemos sem saber, sem querer, exatamente o que aquele ser humano específico precisa de ouvir naquele momento para agarrar a tábua. E dizer: "Não, não vou ao fundo."
Mesmo que a história não tenha nada a ver.
Não tem nada a ver.
Tu consegues sempre relacionar com uma coisa ou outra?
Às vezes não tem nada a ver. Mas repara, tu estás a dizer uma coisa que achas que quem te está a ouvir eventualmente vai colher daqui uma coisa positiva se a pessoa tiver a situação A, e provavelmente é a pessoa que tem a situação C, que ao ouvir as tuas palavras, diz: "Não, esta é a tábua e eu vou me agarrar a ela."
Relativiza as coisas.
Porque depois depende da história de cada um.
Sim, e eu acho que muitas vezes associamos a televisão e esta comunicação muito a entretenimento, mas não é só entretenimento. Tem todo um outro impacto por trás. Tu quando entraste em televisão, tu sempre soubeste aquilo que querias fazer, sempre tiveste um propósito de eu quero impactar as pessoas desta forma, ou como é que foste gerindo? Porque eu estou nesta fase em que nós temos muitas questões na nossa cabeça, estamos sempre com crises existenciais.
Podes-me sempre telefonar com as tuas dúvidas existenciais, eu juro que eu sou boa nisso.
Tudo parece muito intenso, todas as decisões parecem mega importantes e parece que se eu escolho o caminho A, o B e o C deixa de acontecer e isto é demasiado importante esta decisão na minha vida aos 27 anos. Se calhar não é assim tanto. Como é que tu foste fazendo a tua vida, a tomar as decisões e como é que foste descobrindo o teu caminho?
É tão giro tu fazeres a pergunta dessa maneira, porque de repente estava a te ouvir, Mariana, e a lembrar-me dos meus 27, 28 anos, onde era assim como tu estás a dizer. Era tudo tipo .
Tudo é um problema.
E hoje a pessoa pensa vamos lá respirar, vamos lá olhar para isto, vamos lá pensar nos prós e nos contras, vamos lá relativizar, tentar pôr a balançaRealmente certa, porque o problema é que numa certa idade, quando nós vamos para cima da balança, nós não partimos do zero, achamos que a balança já está no 15. E depois aquilo vai do 15 logo para o 48. E com o passar do tempo, nós conseguimos levar o ponteiro da balança, de forma que quando nós nos vamos pesar a vida, ela está mesmo no zero. Vemos as coisas de outra maneira, completamente diferente. Em relação ao que me estavas a perguntar de tomar as decisões. Primeiro, eu comecei a fazer televisão por acaso. Eu não escolhi a televisão, a televisão escolheu-me, porque eu não fui à procura disso. Apesar de ter tirado o curso de comunicação social, eu não escolhi as cadeiras de televisão. Tive na altura em que era obrigatório, no primeiro ano ou segundo ano, já não me lembro, mas depois quando foi preciso escolher a área, como eu achava que televisão era gira, era à frente das câmaras e eu achava que não era bonita o suficiente para um dia me escolherem, eu não escolhi televisão, fui para marketing e publicidade. Quando isto acontece, foi porque o Emídio Rangel achou, ao cruzar-se comigo muitas vezes na SIC, porque eu ia lá, porque trabalhava numa empresa em que a SIC era meu cliente, ele achou que aquela miúda tem características para ser apresentadora. Foi ele, completamente. Estás a ver aqueles homens que há no futebol, aquelas pessoas que há no futebol.
Sim, temos olho para a coisa.
Sim, que são os olheiros. Não sei se olheiros.
Acho que é olheiro.
Se não é uma palavra parecida. Ele foi isso, mas no meu mundo, e portanto foi ele que disse: "Não, a Fátima, eu acho que ela tem características para ser apresentadora." Portanto, eu entrei com a expectativa zero. Eu fiz o primeiro programa, o "Perdoa-me", achei piada, gostei, gostei bastante, mas entrei um bocadinho o que eu tenho a perder? Olha, se não correr bem, não me convidam para mais nada e eu continuo na vida que tinha, tanto que eu acumulei. Ou seja, eu fiz o "Perdoa", mas continuei na empresa onde eu estava. Eu não deixei logo a empresa onde eu estava, porque pensei: então e se isto não corre bem? Não corre bem, eu gosto muito do trabalho que tenho, até sou bem paga, não me vou embora assim. Só que depois, como correu muito bem, no dia que eu gravei o último episódio do "Perdoa-me", convidaram-me para o "All You Need is Love" e aí já era full time job, não via hipótese. Eu precisava de fazer exteriores, etc. Portanto, eu não podia acumular com uma empresa. E eu tive que tomar uma das tais decisões que aos 27, 28 a pessoa fica em apneia. E eu lembro-me de pensar assim: "Ok, eu sou muito pragmática." Ajuda-me imenso, Mariana, ser pragmática. Eu acho que talvez seja das minhas características, que eu aprendi com a minha mãe, que mais eu agradeço ter. A par do meu lado humano, que eu sei o lado humano que tenho e a sensibilidade que tenho, acho que em igual proporção, eu agradeço ser uma pessoa muito pragmática, porque não faço problema. Para já, o foco é logo na solução. É na solução, não vale a pena, não pões a navegar na maionese. Não tenho tempo, nem tenho maionese, nem tenho prancha para navegar na maionese. Prático. Então, nessa altura eu lembro-me de fazer a seguinte reflexão, para tomar a tal decisão. Ok, então, se eu deixar a empresa onde estou, onde ganho bem e tenho projeto de ascensão, e portanto, isto é uma coisa que eu gosto, se eu deixar esta empresa, é para fazer este projeto. Já percebi que gosto muito de televisão. Se comparar entre televisão e esta empresa, eu gosto mais da televisão, neste momento, do que gosto de trabalhar nesta empresa. E por outro lado, se isto não correr bem, se este programa, o "All You Need is Love", onde eu fui substituir a Lídia Franco, não correr bem, ok, não me convidam para mais nada, mas eu sou uma pessoa nova. Repara o pensamento, sou uma pessoa nova, hei de encontrar alguma coisa. Não tenho filhos, por isso não tenho essa responsabilidade de ter filhos para criar, por isso eu acho que me safo. E eu pensei isto, por quê? Como eu tinha consciência que eu era muito trabalhadora, eu tive sempre esta consciência e isso a mim ajudava-me. Quando as pessoas têm a noção que são muito trabalhadoras, isto baixa o estresse. Agora, quando a pessoa sabe que é preguiçosa e calona e que trabalha sempre aos mínimos olímpicos, é natural que às vezes fique um bocado mais estressada, porque sabe que nunca se esforça. E, portanto, a possibilidade de correr mal.
Esta realidade parece melhor, parece mais confortável.
Pois, mas é que a pessoa que é muito trabalhadora sabe que se tiver um cão, caça com o cão, não tem o gato, caça com o gato, não tem o gato, caça com o periquito, mas ela caça, pode-se te garantir que ela caça. E eu acho que tinha esta consciência que é: pronto, se eu não arranjar nada na minha área, vou fazer outra coisa qualquer. E isto é o tal lado pragmático. Portanto, vou dizer que sim. Despedi-me da empresa onde estava e apostei as fichas todas na televisão. Mas a partir do momento em que eu tomo uma decisão, eu posso levar um tempo a tomar essa decisão. Uma vez tomada, primeiro, não volto atrás. Penso primeiro bem, reflito, meço as coisas, peso. Está decidido? Está decidido. Não sou Maria-vai-com-as-outras. Agora vem a amiga e diz: "Mas não devias." Depois vem o outro.
Mas tu não és uma pessoa de pedir opiniões às pessoas, na altura foi, vou tomar a decisão por mim?
Por mim, sempre. Com a minha cabecinha, sempre. Não, porque isso só traz muito ruído. E não é só trazer muito ruído, desfoca-te de te ouvires a ti. Porque em qualquer idade, nós conseguimos ouvir o que a nossa intuição nos diz. Tu com 28 anos, a tua intuição sabe o que é melhor para ti. Tu podes achar que não sabes, mas a tua intuição sabe. Tanto que às vezes, quando nós paramos para fazer uma reflexão e fazemos uma determinada pergunta no nosso silêncio, tu hás de reparar no teu corpo, na parte física. Quando é uma coisa que tu não queres de todo, tu sentes logo um desconforto. Às vezes é no estômago. Isso é cá dentro a dizer: "Não faças isso, não vais trabalhar com essa pessoa, por amor de Deus." E nós muitas vezes contrariamos. Lá estou eu, lá vem o mental. Toda a gente.
E aí é que se calhar recorremos às outras pessoas para ouvir coisas que se calhar queremos ouvir, mas nós cá dentro já temos a resposta.
Umas vezes sim, outras tu nem recorres. Ficas é a rebater aquilo que a tua intuição te disse e decides o contrárioNão faz mal. Vais lá, fazes na boca e depois voltas para trás.
Pode ser medo e principalmente é medo e julgamento das pessoas, porque as pessoas criam expectativas sobre nós de que nós vamos seguir um determinado caminho e quando não seguimos esse caminho, depois as coisas podem correr mal. E era aquilo que estavas a dizer: tu não tens medo, tu não tens medo que corra mal, porque eu sei que depois vou me desenrascar. Mas depois assumires que não deu certo-
Deixa-me dizer-te uma coisa, Mariana, não é que eu não tenha medo. Eu tenho medo.
Sim, mas vais com medo na mesma.
Mas vou na mesma, porque às vezes ouço algumas pessoas falarem como se o medo não fizesse parte da vida delas, como se elas tivessem conseguido esta coisa absolutamente extraordinária e difícil que é conseguir viver sem ter medo nenhum. Eu tenho muita dificuldade em acreditar nisso. Eu não estou a dizer que as pessoas não estão a dizer a verdade, mas estou a dizer que acho muito difícil, porque o medo é uma coisa que faz parte da natureza humana. Aliás, é o medo que às vezes nos permite defendermos de determinadas coisas. Exatamente porque temos medo. Portanto, ele tem lado protetor. É o medo que nos ajuda, às vezes, a pensar as coisas com alguma racionalidade, que temos que ter. Portanto, o medo tem ali um papel importante na nossa vida, põe-nos em sentido. Quando andamos aí, põe-te em sentido. E tu és obrigada a parar e a pensar. Por isso, o medo tem um papel importantíssimo. A questão é: ficas parada nele ou mesmo cheia de medo, vais? Pronto. E eu, algumas decisões da minha vida, tomei-as cheia de medo, mas achei que tinha que ir na mesma. Se correr mal, assumo que correu mal e volto para trás. E olha, não caio de parentes na lama, porque a todos os seres humanos já aconteceu decidir coisas que depois não correram exatamente como nós tínhamos esperado. Mas isso também é vida, a vida é assim, a vida não é sempre cor-de-rosa, não é sempre da cor deste meu vestido. Há dias que é de outra cor qualquer, faz parte do caminho. E até porque nós, seres humanos, normalmente, nós só aprendemos, assim à séria, quando corre mal. Porque quando corre muito bem, nós ficamos muito contentinhos, muito felizinhos, e nem sequer tiramos dali as lições que às vezes devíamos tirar, que é: o que é que tu fizeste para correr tão bem? Para a seguir poderes repetir. Estás a ver? Repetir. Ok, então já sei que correu bem.
Para ser ainda melhor.
Para ser ainda melhor, para ser uma coisa eventualmente menos esforçada, porque já aprendi. Normalmente, o ser humano é quando corre bem, já está noutra. Delírio, tal. Já não está. Todos nós, por norma, somos assim. E eu lembro-me de aprender com uma psicóloga com quem trabalhei, a Ana Ramires, e ela me dizer assim: "Ó Fátima, é tão importante pensar e refletir quando as coisas não correm bem para tirar daí ensinamentos, como é pensar e refletir quando as coisas correm bem para saber o que se fez de acertado para que tivesse aquele resultado. É igualmente importante."
Nunca tinha pensado dessa forma.
Pois, e eu a partir daí, aos poucos, fui ensaiando este comportamento. E por que eu digo ensaiando este comportamento? Porque não era um comportamento normal em mim. Eu não tinha hábito de quando a coisa corria bem, pôr-me a pensar sentadinha: por que isto correu bem? Correu bem, correu bem.
Foi sorte. Muitas vezes associamos a isso.
Não.
"Foi sorte."
Há sempre um bocadinho de sorte, eu acho, mas depois tem a ver com o que tu fazes. Mas eu nem chegava aí, eu não parava para pensar. Já correu bem, é o próximo. Exatamente.
Nós temos muito esta tendência de querer mais e mais, seja profissional, seja na vida. Agora tenho que sair de casa, depois tenho que comprar uma casa, depois isto e aquilo, e estamos sempre à procura do next.
Está sempre no passo a seguir. E o que ela me disse foi: "Fátima, tem que começar a treinar-se, não é no passo a seguir. O passo a seguir tem que ser pensado, projetado, que trabalhe para lá chegar. Mas quando um determinado passo é alcançado, tem que se deter nesse passo, tem que olhar para ele, tem que perceber tudo o que a Fátima fez para ter conseguido realizar aquilo que queria, porque só assim é que ganha consciência das suas competências e capacidades. Caso contrário, nunca sabe daquilo de que é capaz." Isto é muito interessante.
E achas que neste caminho tu tiveste muitos altos e baixos? Tiveste muitos momentos de ensinamento? Porque quem olha para a tua carreira, foram muitos anos estável. Apesar de ser uma carreira fora do convencional, é uma carreira bastante estável, bastante sólida.
Eu percebo o que tu estás a dizer, e sim, ou seja, são quase 33 anos de carreira onde eu fui subindo devagar, fui fazendo o meu caminho. Nunca tive quedas catastróficas, não. E talvez o mais difícil seja depois tu manteres-te lá. Ou seja, manter-te tantos anos todos, tu ainda teres oportunidades, ainda teres convites, ainda considerarem que tu tens coisas para fazer, tu tens coisas para dar. Mas o importante no meio disto é, quando tu me perguntas "não tiveste quedas?" Sim, e pensa no seguinte, Mariana: em televisão, tudo é medido por audiências, ok? Um programa que tenha uma audiência líder é um programa de sucesso. E muitas vezes confundia-se um bocadinho o sucesso do programa com o da própria pessoa. Portanto, se o programa tem sucesso é porque aquela é uma apresentadora de sucesso. Depois, se o programa tem uma queda ou perde a liderança, há quem também apressadamente confunda as duas coisas, quase como se aquela pessoa tivesse perdido competência. E às vezes o apresentador em questão não perdeu competência nenhuma, mas surgiu ao lado, no outro canal, um programa mais inovador, mais surpreendente ou com uma forma de comunicar que surpreende mais o espectador. E, portanto, do outro lado, há um produto que se tornou mais apetecível, o que não tira valor a esta pessoa, mas ela não está a conseguir fazer os valores de um vencedor. Então eu tive vários programas que saíram do ar porque eu deixei de ter números de programa vencedorE sim, não é uma coisa fácil, são os chamados baixos na tua conversa. São chamados baixos, porque tu tens que te confrontar com isto de por melhor que seja o trabalho que tu apresentas, ele não chega nunca para ganhar. E isto tens que ter estofo psicológico, estofo emocional, para saberes que não é isso que te define a ti, nem como pessoa, nem como profissional. O facto de tu não conseguires ganhar, de ficares em segundo ou até em terceiro lugar, que também já me aconteceu muitas vezes, e eu hoje falo disso muito bem resolvidinha, o que me deixa muito feliz, mas isso não quer dizer que eu tenha perdido competências. Simplesmente, neste momento não tenho o produto que mais agrada as pessoas e está tudo bem.
Mas nós enquanto sociedade também associamos muito sempre: "Olá, sou a Fátima, sou apresentadora."
Sim.
E descolar um bocadinho disso, dessa label, e perceber que o meu valor não está só na minha profissão e aquilo que eu faço, também não é um trabalho fácil.
Não.
Mesmo hoje em dia, eu sinto que fazer aquela pergunta: quem é que é a Fátima, quando ninguém está a ver, quando não pode usar as palavras televisão, apresentadora, quem é que é a Fátima? É uma pergunta difícil de responder, porque na nossa cabeça, e pessoas ambiciosas, principalmente, a carreira é um dos pontos principais da vida. E que define, mesmo que não queiramos, o nosso valor na sociedade.
Sim, para a sociedade confundem muitas vezes, e eu até compreendo, porque é o lado público. Portanto, é aquilo que as pessoas conhecem, é um lado público e a partir desse lado público formam uma determinada ideia desta pessoa. E este lado público tanto pode ter a ver com a parte profissional, como pode ter a ver até com a tua parte cívica, aquilo que tu és na sociedade. Eu, por exemplo, fui sempre uma pessoa muito ligada a causas solidárias, desde sempre. Estive sempre envolvida nalguma causa, sempre. Não me lembro, só talvez no primeiro ano de carreira ou segundo, mas não mais do que o segundo, porque lembro-me que quando fui convidada para ser madrinha da APEDEMA, que é a Associação de Pais e Amigos de Deficientes Mentais Adultos, eu estava no segundo ano de carreira. E eu mantenho-me madrinha da associação até hoje e já passaram mais de 30 anos. E eu fiz sempre muito trabalho solidário, porque é uma coisa que é minha, ou seja, talvez por isso também me convidem tanto para participar em projetos, etc. Mas isto não deixa de ser um lado público também. Há o lado do trabalho, depois há este lado de responsabilidade cívica e que as pessoas também conhecem mais, mas depois de porta da minha casa para dentro não conhecem. Agora conhecem o lado das receitas, porque eu faço muitas receitas e partilho com as pessoas, mas não conhecem mais do que isto. Mas eu às vezes brinco quando alguém pergunta: "Mas quem é a Fátima, a Fátima, a Fátima?" E eu dou uma resposta muito pouco interessante, mas que é verdade, é uma pessoa normal. E é o melhor elogio que alguém me pode fazer. Quando me conhece e diz assim: "Mas a Fátima é uma pessoa normal." Eu digo: "Não me poderia elogiar de melhor maneira." Porque eu não quero ser outra coisa. Eu não quero ser outra coisa, Mariana, é mesmo isto. Eu quero ser uma pessoa normal, que pode fazer a vida normal e faço, que posso ser eu, eu autêntica, não tenho que andar aqui com uma personagem, não tenho que fazer de conta de nada. Posso ser sempre eu. E eu sou atrás dos ecrãs e à frente, a mesma pessoa. Podes me cruzar nas duas situações, eu sou a mesma pessoa.
É muito difícil manter uma personagem durante anos. Seria muito difícil lidar no dia a dia, de tentar sempre mudar o chip, agora entra esta Fátima, agora entra aquela.
Sim.
Que acaba por se perder um bocadinho no caminho.
Eu acho que seria terrível para mim. Eu acho que ia ser muito infeliz se tivesse que andar a fazer uma personagem. Porque ainda por cima eu sou muito transparente. Eu quando não gosto, vê-se logo que eu não gosto. Eu quando não aprecio uma pessoa, tenho muita dificuldade em disfarçar que não aprecio aquela pessoa.
Ia ser difícil fingir.
Ia ser muito difícil. Eu ia ser uma má atriz. Eu acho que ia ser uma má atriz. Portanto, não ia conseguir fazer isso como deve ser. Então não há nada melhor do que poder ser a mesma dentro e fora dos ecrãs.
É uma leveza, uma autenticidade que é maravilhoso.
É maravilhoso. Repara, eu continuo a fazer televisão, faço menos, trabalho muito mais com empresas, dois terços do meu trabalho é com empresas, é um trabalho completamente diferente, sem visibilidade pública, é um trabalho nos bastidores, mas eu vou dizer que eu estou a adorar esse lado também. Estou mesmo a adorar, porque todos os dias conheço pessoas diferentes, entro em equipes diferentes, com dinâmicas diferentes, isto está a ser um crescimento para mim como pessoa e como profissional, que tu não imaginas. E o que me deixa a mim, se calhar, mais feliz no meio deste processo, é perceber que eu continuo a entusiasmar-me como uma miúda, completamente como uma miúda. Eu continuo a ser uma sonhadora como uma miúda, como se eu tivesse acabado de chegar agora à profissão. Imagina, não tenho a profissão de comunicadora como tenho. Um exemplo: ok, desdicam-me começar a trabalhar com uma determinada empresa numa área de negócio que eu não conheço, porque são áreas de negócio completamente diferentes. Eu quando vou à primeira reunião e vou conhecer as pessoas com quem depois vou trabalhar regularmente, eu vou com o entusiasmo da criança a quem deram um doce.
Primeiro dia de aulas.
Sim, só que no primeiro dia de aulas mais uma camada de nervos. Eu vou só entusiasmada. Não vou nervosa, vou entusiasmada. Vou entusiasmada, eu quero conhecer aquelas pessoas, quero ouvi-las. Acima de tudo, vou sempre para ouvir, porque nos primeiros encontros, tu tens que ir só para ouvir. Porque tu não sabes nada daquilo. Tens que perceber que aquelas pessoas estão naquele negócio, se calhar há muitos anos, estão naquela área há muitos anos, estão naquela empresa eventualmente há muitos anos, sabemMuito mais do que tu. Tu estás a chegar. Por isso, humildade primeiro. Escuta, observa e faz perguntas para colheres tua informação, para ires devagarinho entrando. Não é chegar e: "Porque sou a Fátima Lopes, porque sou especialista em comunicação, porque não sei o quê", saca dos galões todos. Esquece. Estás a chegar.
Mas então nestas empresas fazes uma espécie de consultoria de comunicação?
Faço consultoria em comunicação.
Que giro!
Sim, faço consultoria em comunicação, faço parte das equipes que, por exemplo, estão a pensar um determinado evento. Vou dar um exemplo. Uma empresa entra em contato com quem trabalha comigo porque me quer contratar para eu apresentar um determinado evento. E esse evento tem lá pelo meio, um conteúdo que eles ainda não sabem bem definir que conteúdo é que será, mas que eles gostavam que resultasse nas mensagens X, Y ou Z. "Nós queremos que a Fátima apresente. Também temos aqui um momento em palco, se calhar de meia hora, de uma hora, gostávamos que fosse a Fátima a falar eventualmente com algumas pessoas, porque queremos trabalhar este tema, mas não sabemos como é que o vamos inserir no evento." E eu a partir desse momento digo: "Ok, então não contrataram só a pessoa, contrataram também a especialista de comunicação e por isso eu vou integrar a vossa equipe de marketing e comunicação e eu vou desenhar convosco as soluções para os vários momentos."
Que giro!
E portanto, eu passo a trabalhar naquela equipe, a agilizar e ajudar em tudo, ainda antes da minha parte estar em cima do palco, entendes?
Sim.
E portanto, ajudo a criar esses momentos, se é um momento de entrevista, preparo os guiões, sugiro o que eu acho que faz sentido, não faz, as dinâmicas, os ritmos, se entram com vídeos, se não. Está tudo pensado. Chega o dia e eu entro em performance em cima do palco, mas eu já fiz parte do trabalho desta equipe este tempo todo. Portanto, quando eu subo ao palco, eu sou mais um elemento daquela equipe. E tenho aquelas pessoas comigo e eu com elas. E isso é uma experiência muito gratificante, porque não é um fast food, de chega, apresenta, diz adeus às pessoas e vai embora. Também já o fiz, já não me apetece. Eu agora preciso muito de contacto humano.
A parte estratégica, a parte criativa.
A parte estratégica, a parte criativa.
E teu trabalho em equipe.
E de trabalhar com as pessoas, de fazer parte da equipe, não ser só a apresentadora de um evento. Também posso ser, mas para mim é pouco. Eu gosto de fazer parte. Quando me adjudicam um trabalho, para tu perceberes, assim que o trabalho é adjudicado, a pessoa que me representa sai de cena. O contato do cliente é todo direto comigo. Tudo o que é conteúdo, o cliente fala diretamente comigo, para o meu telemóvel. Ligam-me: "Ó Fátima, estamos aqui não sei o quê com esta situação." "Ó Fátima, amanhã não se importa de entrar na nossa reunião, porque nós temos aqui esta questão que ainda queremos decidir, queremos ouvir a sua opinião." Ok, estou na reunião, entro na reunião, participo, dou ideias. Portanto, quando eu lá chego, eu sou mais um elemento daquela equipe. E isto é tão bom, Mariana, porque até humaniza o contato com as empresas. E para as empresas é uma experiência que eles gostam muito, porque normalmente não há este acesso à figura que vai apresentar o evento. Ela é a pessoa que chega, apresenta e vai-se embora.
E é cocriação, ou seja, depois quando estás ao palco, sentes que também é um bocadinho teu, também construí isto.
Sim, já me aconteceu num evento, numa das empresas com quem trabalhei, ajudá-los a preparar um determinado momento em palco, que era uma entrevista a uma pessoa, uma pessoa só, e a entrevista ia ter 40, 45 minutos. Eu pedi a informação toda, preparei eu a entrevista que achei que fazia sentido e depois disseram: "Bom, mas a pessoa está bastante nervosa, Fátima." Eu disse: "Não faz mal. Eu terei ao telefone conversas com esta pessoa e vou lhe dar algumas ferramentas de coaching para ela estar à vontade." Portanto, eu preparei esta pessoa. Quando ela chegou lá, estava completamente à vontade comigo. Eu era a pessoa com quem ela tinha falado várias vezes. Estava calma, estava serena. Eu já tinha partilhado o guião com ela, já a tinha ajudado a resolver na cabeça algumas perguntas que ela não sabia muito bem como é que poderia responder de forma a fazer sentido dentro do evento. Ela estava completamente preparada, por isso ela fez equipe comigo. Ela não foi ser entrevistada por mim. Ela fez equipe comigo, entendes?
Sim.
E por isso foi muito bom. E depois é bom para todos. Quando tu trabalhas assim, toda a gente junta. Todos de mangas arregaçadas, toda a gente a trabalhar. Depois vamos para o evento, toda a gente brilha, mas para trabalhar, toda a gente tem que trabalhar igual. É super gratificante. É mesmo muito bom.
Acredito que seja um desafio bem grande, bem diferente daquilo que tens feito até agora.
Completamente.
Mas quando tu tomaste esta decisão de largar os programas diários, acredito também não tenha sido uma decisão fácil de tomar.
Não.
Nada fácil. E agora que vês a tua vida pós e aquilo que está a acontecer, se calhar ficas muito mais contente e à vontade para partilhar este processo. Mas na altura, como é que estavas a sentir antes de tomar essa decisão? Quanto é que te custou?
Olha, o deixar os programas diários foi na altura uma sugestão que a TVI fez e que eu concordei imediatamente a 100%. Eu disse: "Sim, eu estou muito cansada. Eu preciso mesmo deixar de fazer programas todos os dias." Fazer um programa semanal, que era na altura a proposta, eu disse: "Concordo a 1000% convosco." Portanto, a decisão nesse aspecto foi facílima, porque estávamos todos de acordo. Eu queria deixar, eles também achavam que estava na altura de descansar um bocadinho, porque eram já muitos anos, todos os dias. Portanto, estávamos de acordo, foi tranquilo. Essa parte foi tranquila. Depois, não nos entendemos na forma de negociar o pós, e por isso é que eu saí. Talvez aqui a decisão difícil foi o sair da televisão, porque na altura eu só saí da televisão. Eu não sabia o que é que eu ia fazer.
Estavas assustada?
Claro que estava assustada. Já falámos aqui de medo. Claro que eu tive medo. E nessa altura eu ponderei, pensei: "Tu estás preparada para, não tendo tu um plano B ainda, que não tens, não sabendo tu o que vai ser a tua vida, tu estás preparada para dizer, pelo menos por agora, não vou fazer televisão?" Eu sabia que não era para sempre, a menos que o mercado não me quisesse mais, e aí seria para sempre. Mas no meu interior, o que eu pensei foiEu preciso sair um tempo do métier da televisão, para eu poder olhar para isto de outra maneira, se calhar até reinventar-me, quem sabe. Mas para já, preciso de sair para respirar. Depois logo vemos. Agora, plano B, que a minha psicóloga tantas vezes me disse: "Fátima, é importante ir te construindo um plano B, mesmo enquanto está na televisão todos os dias". E eu ouvia, sabia que ela tinha razão, mas não fazia nada para acontecer. Portanto, quando eu disse: "Vou sair, porque preciso de sair, porque não me sinto feliz", eu não tinha nada. Se me perguntares se eu tinha medo, claro que tinha medo, eu tenho contas para pagar. Eu não sou rica, primeiro. Sou uma rica pessoa, mas não sou rica. Tinha as minhas contas para pagar, os meus filhos para criar e, portanto, sim, estava assustada. Estava muito assustada. Mas aí tu tens que, de novo, ser muito pragmática e tens que ter consciência dos teus recursos. E eu lembro-me que na altura fiz um exercício que foi perguntar-me a mim mesma o que é que eu achava que tinha de capacidades e competências que extravasassem a televisão. Ou seja, se fora da televisão, o que eu acho que posso eventualmente, não tinha a certeza, posso eventualmente ter competência? Posso eventualmente fazer bem? Isto foi na altura a minha reflexão. Eu acho que com tantos anos que eu tenho de televisão e sempre a falar com tantas pessoas diariamente, eu acho que tenho uma noção do que é uma comunicação humanizada como poucas pessoas terão. Não aprendida na faculdade, mas aprendida no terreno, feita de prática. Não tem parte teórica, tem só parte prática. Será que eu consigo construir alguma comunicação, quero eu dizer, alguma palestra à volta deste tema, comunicação humanizada? Eu acho que consigo, vou tentar. E comecei a pensar, comecei a escrever, comecei a escrever o que é que para mim seriam os conceitos e as ferramentas de uma comunicação humanizada, de que forma que isto se podia empregar numa empresa. Estávamos em pandemia, a primeira formação que eu dei foi online. Eu era uma criatura bastante infoexcluída. Hoje em dia sou menos, mas era muito infoexcluída. Portanto, eu tive que pedir ajuda a uma amiga minha para ir lá a casa quando me contrataram para a primeira formação. E eu dei através do meu telemóvel no ring light para ela, se acontecesse alguma coisa, ela me resolver o problema, porque eu depois não saberia sair dali. Estás a imaginar o drama? Pronto, tudo isto para mim eram dificuldades. Uma coisa é a pessoa que está à vontade com os computadores, com os programas.
Sim, com as redes sociais, já está habituada a tudo isso.
Com tudo, e faz PowerPoints. Eu nunca soube fazer um PowerPoint, ainda hoje não sei fazer. Pronto, mas hoje em dia temos inteligência artificial que nos ajuda nesse aspecto. Mas pronto, portanto, eu tinha ali muitos handicaps. E eu pensei: "Ok, como é que resolves cada um dos handicaps?" Primeiro, a questão da infoexcluída. Eu pedi a uma amiga minha, que já trabalhava comigo a minha parte das redes sociais. Disse: "Por favor, se puderes estar lá em casa, porque se acontecer alguma coisa, tu vais saber como resolver." E ela estava sentadinha no meu sofá, ali a ouvir a conversa, e eu com o ring light à frente, a dar a minha primeira formação. E a minha primeira formação chegou-me através de uma pessoa que me conhecia bem, que já tinha trabalhado as minhas redes no passado e que calhou a ser contactada por uma pessoa de uma multinacional, que lhe disse: "Nós sabemos que a Fátima Lopes saiu da televisão. Nós estamos em pandemia, precisávamos de dar aos nossos clientes aqui algumas ferramentas que os permitisse dar a volta de como comunicar com os clientes nesta situação tão difícil, as pessoas com máscaras". E ela disse: "Olha, por que vocês não contratam a Fátima Lopes? A Fátima deve ser das pessoas que mais deve saber disto pela prática, não é?" A minha amiga também mandou assim ao ar. E ela disse: "E como é que eu chego à Fátima Lopes?" "A Fátima Lopes é minha amiga." E fez a ponte. Ok, eu fui contratada, cheia de medo. Mariana, é que podia correr mal. Estava contratada para fazer uma palestra de uma hora sobre comunicação humanizada. E eu lá fiz. Portanto, do outro lado tinha muita gente, profissionais na área da saúde. E eu estava aterrada. Os primeiros minutos foram de nervos, depois é uma coisa que está em mim. Isto é tão natural como respirar. Falar de comunicação humanizada, de ferramentas de comunicação humanizada, Mariana, é tão natural como eu beber um copo d'água, porque é a minha vida, é o meu dia a dia. Isto é o quê? É só natural. Pronto. Em vez de uma hora, depois com as perguntas, estive lá quase duas e pediram para eu voltar. Quando eu desliguei, eu chorei. Não tenho vergonha de dizer, eu chorei. Disse: "Uau, isto correu bem." Foi à noite depois de jantar. Já eram 23h30 e as pessoas não desligavam, estavam lá todas. E no final, quando foi para se despedir, a pessoa da empresa que estava também a mediar, disse: "Bom, parece-me que a Fátima vai ter que voltar." Passaram cinco anos e são meus clientes ao ano. Sendo que eu trabalho é dentro da equipa do marketing e da comunicação. E depois há coisas que apresento para os clientes. Apresento aos clientes, nos eventos estou lá eu. Conduzo os eventos, faço algumas sessões que fazíamos mais privadas em determinados conteúdos, o que for, mas eu trabalho com eles o ano inteiro. E estou te a contar isto porque foi um passo de arriscar, deu-me muita confiança de ter corrido bem, ajudou-me muito, porque eu lembro-me que chorei e pensei: "Se calhar, eu consigo." Não é: "Sou a melhor, isto correu mesmo bem." Não, é: "Se calhar, eu consigo. Esta vez ter corrido bem dá-me ânimo, dá-me coragem, então eu vou tentar mais vezes."
E se calhar também percebeste uma coisa que gostas, uma coisa nova. Porque estamos aqui a falar de ferramentas e de ter capacidade paraMas o gostares daquilo que estás a fazer.
Eu adoro o que faço, digo-te já.
Faz toda a diferença.
Eu adoro o que faço. E depois, a partir daí, foi indo aos bocadinhos, até dando a conhecer ao mercado que eu fazia isto. É muito engraçado, às vezes no outro dia estava a fazer esta reflexão. Ao princípio, por exemplo, se eu aparecesse num evento só de empresas, as pessoas ficavam surpreendidas de me ver ali, mas era um bocadinho: "Está cá por quê? É a apresentadora. O que ela está cá a fazer?" Quando eu não ia apresentar, não ia fazer nada. Estava lá, porque me convidaram para um evento e eu ia. E tipo: "A Fátima Lopes, mas ela é apresentadora, o que ela está aqui a fazer?" Nestes cinco anos, como eu sou apresentadora, mas também sou comunicadora, sou mestre de cerimônias, sou especialista em comunicação, uma série de coisas que entretanto foram competências que eu fui desenvolvendo. Quando eu vou a um evento empresarial, é só: "Ah, Fátima, que bom que veio." Esta evolução, eu levei anos a conseguir a fazer. Eu levei anos a plantar devagarinho. No outro dia disse isto às diretoras da Executiva, do site Executiva, que fazem um evento anual, que é um evento importantíssimo para as mulheres empresárias, e que eu apresento já há uns quatro ou cinco anos. E eu no outro dia disse à Isabel e à Maria: "Gostava de vos dizer o seguinte: vocês contratam-me há estes anos todos. No primeiro ano, eu apresentei, mas senti que as pessoas olhavam para mim como se fosse contratada uma apresentadora. No ano a seguir, uma apresentadora que começa a perceber um bocadinho do nosso métier. E o último ano que eu apresentei, eu depois no coffee break e tudo, eu vou sempre junto das pessoas, não fico lá atrás escondida, é coffee break para todos, para mim também. Portanto, eu vou fazer networking, ando sempre por ali, falo com as pessoas, etc. Eu gosto muito desta parte do contacto com as pessoas que estão nos eventos. E então eu disse-lhes: "Eu agora apresento e sinto que sou mais uma delas." E isto foi uma conquista tão saborosa. Levou cinco anos, Mariana. E eu também digo isto porque às vezes queremos tudo rápido, não é? Tipo, eu quero já amanhã que me vejam como? Tens que ter paciência. Tens que ter muita paciência, tens que ir fazendo o teu caminho devagarinho. Uns dias corre melhor, outros dias corres melhor. Há dias que impactas muitas pessoas, há dias que és só morninha, não impactas nada.
Mas tens de ter o estofo para ir aguentando esse caminho.
Sim, até estar lá.
É o crescimento gradual, porque muitas vezes tomamos estas decisões cheias de medo, não sabemos como é que vai correr e a cada passo que vamos um bocadinho para baixo: "Não é para mim, se calhar está na altura de voltar atrás. Na altura de ir para o meu porto seguro."
Não, eu percebo o que estás a dizer, mas em vez de desistires logo, porque nestes cinco anos eu também tive momentos mornos. Eu tive momentos em que fiz coisas com empresa que foram "uau", mas "uau", e tive momentos que fui só competente. Entendes? Fui só competente, ou seja, fiz aquilo que era suposto, fiz aquilo para o qual fui contratada, mas não deixei marca nenhuma. Não deixei, não consegui. Ou porque não consegui furar aquele público, que era um público mais difícil, ou porque eu não consegui construir uma comunicação que realmente os surpreendesse assim tanto. Houve ali qualquer coisa que fez com que tu fosses só competente, mas não foste o "uau", porque não és sempre o "uau", e nós temos que saber isso. E não é porque tu não és o "uau" que dizes: "Pronto, então agora vou mandar toalha ao chão, olha, isto já não é para mim." Não, não foste o "uau", por quê? Tens é que fazer a seguir uma reflexão. O que aqui não correu tão bem? O que aqui eu podia ter feito de diferente, que eventualmente conseguisse um resultado um bocadinho melhor? Essas são as reflexões que eu normalmente procuro, principalmente se for uma empresa com que eu trabalho de forma continuada, porque tu não podes ir achar que são favas contadas, porque aquelas pessoas já te conhecem. "Já me conhecem, já não tenho que me esforçar com aqueles clientes, eles já me conhecem, já sabem". Não. Até porque a seguir há muitas pessoas que estão tão competentes como tu. Portanto, convém que tu no fim de cada evento penses: "Ok, o que eu posso tirar daqui, o que eu posso aprender daqui e o que no próximo eu posso fazer de diferente, que os leve de novo a dizer: 'Olha, eu não estava à espera que a Fátima fizesse isto ou que dissesse isto.'" Tens que trabalhar para isso. Tens sempre que trabalhar para a excelência. Se tu não trabalhas para a excelência, vais ser sempre só mais uma.
Concordo perfeitamente. E sendo também uma pessoa que eu acredito também-
Só se às aguinha.
Claro que sim.
Esta já mata onda.
Um bocadinho ambiciosas e que levamos a carreira a sério. Não acreditas que nestes recomeços também traz um bocadinho de, para mim, uma emoção, uma beleza em recomeçarem uma página em branco, de construir uma nova imagem. Por muito que tenhamos medo e receios e que temos expectativas para cumprir, também traz ali um fogo.
Traz adrenalina.
Não é? De eu quero conseguir começar uma coisa nova.
Para mim traz adrenalina.
E descobrir novas partes no caminho.
Sim. Sempre que me fazem um convite que eu não estou à espera, eu fico como uma criança. É o que eu disse há bocadinho, eu fico como uma criança. Eu fico tão feliz que não imaginas. A minha cabeça começa logo a desmultiplicar. A desmultiplicar em sonhos, em possibilidades, em caminhos, em não sei o quê. É muito engraçado, porque eu fiz, mais recentemente, o trabalho com uma psicóloga, com a doutora Cassiana Tavares, à volta da identidade, porque eu quis trabalhar a minha identidade. E então eu lembro-me que isto foi talvez há dois anos. E a determinado momento que o trabalho que estávamos a fazer, ela pergunta-me assim: "A Fátima tem consciência que uma das características que mais a define é a sua criatividade?" E eu olhei para ela e disse: "Eu?"
Sou tão pragmática, tão racional.
Isso mesmo! Eu juro-te, Mariana, que se alguém me pedisse para definir a característica "criatividade", eu não conseguiria. Eu poderia dizer competente, dedicada, trabalhadora. Criatividade eu não ia escrever, posso te garantir que não ia escrever. E ela assim: "Não é criativa?" E eu: "Não reconheço como uma coisa que me defina tanto." E como ela já me acompanhava em algumas sessões, nós não fizemos muitas sessões, fizemos umas quantas, ela pega em coisas da minha vida, ela pega em casos reais da minha vida e diz: "Muito bem. Então, nessa situação assim, a ideia não sei o quê foi de quem?" E eu digo: "Foi minha." E começa a fazer uma lista das coisas e diz: "Então, é criativa ou não é criativa?" Eu disse: "Sou bastante criativa." E ela: "Pronto. Então assuma isso, não como uma coisa de ego, eu sou supercriativa. Não, mas como uma característica sua, que a tem ajudado muito, porque muitos dos saltos que deu foi porque é criativa e aqui pensou como é que salta para ali." E não imaginas como isto me ajudou.
O sair da televisão e descobrir o caminho de eu agora quero se calhar ir fazer uma palestra sobre isto. Isto aqui é um movimento criativo, só isto. De repente descobriu uma nova carreira.
Mas descobri mesmo.
Do nada.
Por isso é que quando as pessoas dizem: "Então como é que eu a defino? Ponho apresentadora?" E eu digo: "Não, ponha comunicadora, porque comunicadora é a pessoa que pode ser apresentadora, mas é também mais alguma coisa, não apresentas só, tu fazes parte dos elementos criativos de." Entendes? E isso foi um salto, mas olha que eu tive que fazer um trabalho com uma profissional da área para eu conseguir fazer um update da minha identidade.
Que engraçado.
Sim, porque senão eu própria ficava ali: "Então, mas eu defino-me como? Sou o quê? Sou escritora, ok, também sou escritora, mas apresentadora? Mas eu não apresento só, eu faço parte das equipes e crio o que vai acontecer em cima do palco com eles, eu crio os momentos com os clientes. Não sou só apresentadora." E trabalho. Então chegamos a esta conclusão, eu disse: "Já sei quem sou, sou comunicadora."
E como é que surgiu a parte da escrita aqui no meio disto tudo?
Olha, a parte da escrita surgiu-
Mais uma vertente criativa.
Exatamente. Surgiu há 20 anos, no outro dia que percebi que passaram 20 anos.
Fogo, meu Deus!
Minha filha tinha seis, já tem 26. Vinte anos. Na altura, de novo, não fui eu que fui à procura, foi como a televisão, eu não fui à procura de uma editora. Eu escrevia para um jornal de distribuição gratuita em Lisboa e escrevia crônicas sobre aquilo que me apetecia. E então, a editora, na altura, a Esfera dos Livros, que neste momento já nem existe em Portugal, mas a Esfera dos Livros, que era uma editora espanhola, estava a implantar-se, estava a chegar a Portugal. E então a política deles era: chegamos a um país e nós temos que encontrar novos nomes desse país para publicar. Portanto, não é convidar os autores que já estão aí, é descobrir novos autores. E bateram a pestana nas minhas crônicas e pediram uma reunião. Eu disse: "Ok, muito bem." Eu fui à reunião e eles: "Pronto, queremos convidar a Fátima para escrever um livro de crônicas, porque já percebemos que tem crônicas muito próximas das pessoas e tal, vamos sempre bater à humanização." E eu disse: "Está bem." Nunca tinha pensado em escrever um livro, mas está bem, ok. Só que depois fui para casa pensar: "Não, não vou escrever crônicas. Não. Eu vou escrever histórias, vou contar histórias." Eu já estava no daytime, fazia programa da manhã. Eu vou contar histórias e quero contar histórias de mulheres, porque eu gosto muito de ser mulher e acho que o universo feminino é muito rico, portanto, vou contar histórias de mulheres. E propus-lhes. E eles disseram: "Ok, é mais ambicioso, mas ok." Eu disse: "Só há aqui um senão, vocês têm que me ajudar, porque eu nunca escrevi um livro. Eu não sei como é que isto se faz." Imagina, coisas básicas como os diálogos. Eu não sabia como é que se estruturava um diálogo. Um diálogo, às vezes, começava e acabava muito rapidamente, quando eu sei que no nosso dia a dia, um diálogo não é necessariamente uma coisa rápida. E, portanto, o meu primeiro livro foi a minha editora a ajudar-me e a formar-me como escritora, dando-me as ferramentas necessárias para saber escrever um livro, que eu não as sabia, e eles é que me explicaram. Imagina, quando tu estás na caracterização de uma personagem, tens que fazer uma caracterização mais completa, tens que dar aqui uma noção de tempo e de espaço. Eu recebi formação à medida que fiz o primeiro livro, o "Amar depois de amar-te". Correu muito bem, foi o meu livro campeão até hoje. Vendi mais de 110 mil exemplares, foi assim uma loucura, fiz não sei, 16 ou 17 edições, nem sei. Foi lançado em Espanha também, foi assim uma loucura esse livro. Depois o livro a seguir eu já tinha um bocadinho mais à vontade, mas sempre a aprender. E repara, eu lancei 12 livros e fiz 11 com a mesma pessoa, com a minha editora, que é a Sofia Monteiro, porque estabeleceu-se uma relação de confiança, e isso é muito importante. A pessoa que te ajuda a pensar os teus livros, a pessoa que tem capacidade de fazer críticas construtivas aos teus livros e que te é capaz de dizer: "Olha, eu acho que a história é boa, mas tem isto e isto que eu não acho que seja bom, ou eu acho que falta aqui, falta isto ou falta aquilo." Tem que ser uma pessoa que tu primeiro reconheças competência, muita competência, e que seja uma pessoa capaz de ser frontal e verdadeira e que te faça uma análise crítica, construtiva ao teu trabalho.
E se calhar, hoje em dia já te conhece também muito bem. Então já deve saber: "Tu, Fátima, consegues ir um bocadinho mais aqui, consegues fazer um bocadinho mais por ali." Ou seja, já sabe as tuas capacidades e consegue te ir guiando no caminho. É um trabalho em conjunto, é um trabalho de equipa.
É um trabalho em conjunto. Um editor é suposto ser um trabalho em conjunto com o escritor. Um bom editor é um elemento de equipa do escritor, completamente. Hoje, a Sofia já não precisa, enfim, já há uns bons livros, de me dar as técnicas nem a estratégia, até porque entretanto eu encontrei o meu próprio caminho na escrita, que é escrever como faloQue é o que dizem os meus leitores: "Quando lemos os livros da Fátima temos a sensação que estamos a ouvir."
É que já toda a gente conhece a voz da Fátima, então estamos ali a ouvir.
Então as minhas amigas é demais, dizem: "Bem, é que parece mesmo que estás ali a falar." Mas eu encontrei a minha maneira de me expressar na escrita e é a minha, pronto, aí a Sofia não mexe, mas a Sofia continua a mexer no sentido de continuar a desafiar-me, a pôr-me ideias em cima da mesa, a dar-me sugestões para eu melhorar. E é suposto ser assim, tu não sabes tudo só porque lançaste 12 livros.
E este é o 12º?
Este é o 12º.
"Entre o medo de ter mágoa e a dor de perder."
Esse já está na quarta edição.
A sério?
Sim, já está na quarta edição e tem estado nos tops todos, o que me deixa muito feliz, naturalmente.
E por que este tema?
Porque eu ainda não tinha falado do tema da idade. E eu acho que é mesmo muito importante. Ou seja, ainda há muitos preconceitos em relação ao tema da idade, por variadíssimas razões, mas o tema da idade continua a ser um peso para muita gente, sendo que este peso não é igual se for uma mulher ou se for um homem. E em relação a uma relação entre um homem e uma mulher, se o elemento mais velho for o homem, ok, normal, se se olhar de lado é para a mulher, porque se acha que ela está naquela relação por interesse. Ele é o campeão e ela tem ali uma relação de interesse ou porque está a dar o golpe do baú ou o que for. Não estou a dizer nunca, mas muitas vezes não se consegue ver que aquela pessoa realmente ama aquele homem. Ama, ela está naquela relação, não tem interesse nenhum, é mesmo por amor. Mas se a relação for com uma mulher mais velha e um homem mais novo, estou a falar de diferenças grandes, neste livro é uma diferença de 20 anos, aí a sociedade tem mesmo muita dificuldade em compreender. Acha que ela está numa crise da meia-idade, acha que deve estar com um problema qualquer, quer dizer, deve estar meio desequilibrada, então agora vai se meter com um miúdo. E isto é uma coisa que é feia. É feia porque estas duas pessoas podem realmente estar numa sintonia qualquer em termos amorosos e terem uma história para viver. Não sei quanto tempo é que vai durar, mas o tempo que durar é delas, não é teu nem é meu. Então eu achei que valia a pena falar disto e portanto, em reunião com a Sofia, ela disse-me: "Olha, é um tema muito atual. Lá fora já existem muitos autores que agarraram neste tema. Em Portugal, nem por isso, e tu nunca agarraste este tema. Acho bem, lança-te nisso."
É um desafio novo.
É um desafio novo.
A Patrícia tem 50 anos, não é?
Sim, e o Daniel 30.
Tem 30. Portanto, uma grande diferença. E enquanto sociedade, nos relacionamentos, principalmente, acredito que esse julgamento exista muito, mas também em outras áreas da vida, as mulheres são sempre julgadas por decisões de carreira, por decisões disto ou aquilo. E parece que se calhar, acho que as mulheres mais velhas ainda mais, porque têm toda outra responsabilidade ou expectativas a cumprir. Não sei, diz-me tu, mas se calhar sentem-se um bocadinho a viver em caixas que têm de cumprir com aquilo que sempre foram. E sair um bocadinho da caixa, parece que vão chocar toda a gente.
Eu acho que esta personagem, a Patrícia, e o que eu vou dizer tem por base os feedbacks que me têm chegado, não só de leitoras que me mandam mensagens, e-mails, etc, mas até de muitas das booktokers que leram o livro e que muito generosamente escreveram longos posts a dizer o que sentiram com este livro e o que este livro significou para elas. E portanto agradeço-lhes imenso, porque algumas coisas que li, fiquei profundamente emocionada, mesmo. Mas uma das coisas bate no que tu estás a dizer, ou seja, é um livro que te faz perceber que muitas vezes tu não decides por ti, tu decides aquilo que achas que os outros estão à espera de ti. Tu não decides aquilo que o teu coração está a pedir, tu decides porque achas que se escolheres o caminho à esquerda, toda a gente vai apontar o dedo, toda a gente vai achar que tu não és uma pessoa assim ou és uma pessoa assado, então tu privas-te, cortas aquilo que tu achas que vai ser uma fonte de felicidade para ti, seja ela durante quanto tempo for, isto é válido para a vida amorosa, é válido para o trabalho, é válido para tudo. Privas-te, cortas, às vezes abruptamente, dizes: "Não vou viver isto", e escolhe outra coisa. E no fundo, uma das mensagens fortes deste livro é: escolhe aquilo que tu achas que faz sentido tu viveres agora, não adies, porque a oportunidade não passa duas vezes. Não passa duas vezes, Mariana. Pode vir outra coisa qualquer, eventualmente melhor, mas aquilo que tu tens à tua frente e que tu tens vontade de agarrar, não vai voltar a passar. Então vive isso. Não deixe que sejam os outros a dizer se está certo, se está errado, se tem que ser ou não tem que ser. Eles que cuidem da vidinha deles, que tu cuidas da tua. Vive isso. E o livro é muito forte nessa mensagem. E portanto, eu tive jovens booktokers na casa dos 20, dos 30. No outro dia recebi um e-mail lindíssimo de uma senhora de 55 anos que me disse: "Eu agora estou tranquila depois de ler este livro."
Sei que sou normal.
Sim. "Eu agora fiz as pazes com uma das minhas decisões." Não me disse qual, não me cabe a mim perguntar-lhe. Se ela quiser partilhar, ela partilhará noutra mensagem. Portanto, eu não sou bisbilhoteira. Eu vou até onde as pessoas me permitem ir. Se ela não disse qual foi essa decisão, eu também não vou perguntar. Mas o que ela disse foi: "Eu estou em paz com aquilo que eu decidi." E foi depois de ler o livro. Eu fico superfeliz, porque no fundo é um bocadinho isso que eu gostaria, que as pessoas levassem daqui esta reflexão. E vivam a vida, vivam, por favor.
O Daniel tem muito essa postura no livro de vive o presente, aproveita o agora.
Sim.
E se estás feliz agora e se estás a gostar agora, vive.
Vive.
Porque estamos cá tão pouco tempo, não é? Para estar a viver coisas, para tentar preencher essa imagem, a expectativa que os outros têm nossa.
Sim.
Mas no momento da decisão é difícil de tomarDe conseguir ter essa coragem de deixar-me viver como me apetece.
Mas é preciso ter essa coragem por uma razão muito simples: a vida é nossa, não é de mais ninguém. E acho que honrar a vida é conseguirmos decidir aquilo que a nós nos faz sentido. Não quer dizer que corra sempre bem, às vezes não corre, mas pelo menos ficas com a consciência que foste tu que decidiste, não foram os outros.
Eu acho que mesmo nisto, no que toca a relacionamentos, aquilo que faz um bocadinho em linha com aquilo que estávamos a falar no início também de profissional, portanto, tem tudo a ver com as decisões que vamos tomando ao longo da vida. E eu sinto que a minha geração também tem muito esta pressão de idade, de tentar encontrar a pessoa certa e tem de ser a pessoa certa no momento certo, que as pessoas têm todas de gostar e parece que é uma decisão gigantesca, em vez de só tentar perceber se naquele momento aquela pessoa faz sentido e nos faz feliz. Que isso é que é o mais importante, mas nós criamos todo um filme de que é uma decisão. E é uma decisão importante da pessoa que vais ter ao teu lado. Mas temos de perceber primeiro o que nós estamos a sentir e se esta pessoa faz sentido para nós.
E não é só isso, vamos bater outra vez na questão da idade. Mariana, tu quando nasces, o teu pai e a tua mãe não receberam um caderninho a dizer que até aos 30 ela vai encontrar o seu príncipe encantado, até aos 32 ela vai ser mãe e vai casar.
Mas parece, honestamente.
Mas as pessoas comportam-se como se nós tivéssemos todos nascido e ao lado temos um caderninho, e o caderninho tem a mesma coisa para toda a gente, obviamente, ninguém pense fazer ao lado, o que é isso, então? Não.
Existem umas normas a seguir. Se estás a fazer diferente, tu é que estás mal, tu és o anormal.
Mas não faz sentido.
Vinte anos de diferença numa relação? És o anormal. O que estás a fazer? Procura alguém da tua idade.
Mas isso não faz sentido, porque esta pessoa pode te fazer sentido, esta pessoa pode te dar aquilo que tu, aos 50, nunca viveste com ninguém. Esta pessoa pode ser a peça do puzzle, que quando tu pensas em amor, ela nunca lá esteve esta peça, está agora. Então põe essa peça. Uma vez na vida preenche o puzzle todo.
E não estás a fazer mal a ninguém.
Não estás a fazer mal a ninguém. E em relação à questão da pressão que põem para tu dares determinados passos na tua vida. Por exemplo, quando dizem a uma pessoa, ou uma mulher, principalmente uma mulher, que tenha 35, 36 anos, ainda viva sozinha, não tenha um companheiro, não pense em ter filhos, para muitas pessoas nasceu com defeito de fabrico.
É a tia dos gatos.
Pois, exatamente. E repara uma coisa, tu podes não ter ninguém, porque realmente não te cruzaste com ninguém que faça sentido tu construíres um projeto de vida, isso não faz sentido, mais vale sozinha que mal acompanhada, não tenham dúvida nenhuma disso, mas também pode ter acontecido tu até teres te cruzado com alguém, ok, viveste aquela relação e tu pensas: "Mesmo que eu venha a ter alguma relação com alguém, maternidade não faz sentido no meu caminho." Eu tenho várias amigas minhas, jovens mais ou menos pelas tuas idades, algumas um bocadinho mais, que dizem: "Fátima, pelo menos por agora", e uma delas tem 35 anos, tivemos esta conversa há duas semanas, e ela disse: "Eu pelo menos por agora e até agora não me faz sentido ser mãe. Eu não sinto esse apelo, eu não sinto essa vontade." E, portanto, eu não vou olhar para ela tipo: "Esta é anormal, ela não tem sensibilidade nenhuma." Por quê? É uma excelente tia, é uma pessoa com uma relação do mais carinhoso que há com crianças, conheço poucas pessoas com a sensibilidade e com a facilidade que ela tem de interagir com crianças e com jovens. Então não tem espírito nenhum porque não tem filhos e porque não os quer ter. Não quer ter, não quer ter, é uma escolha dela. Entende?
É um objetivo.
De novo, começarmos a pôr atenção nas nossas vidinhas e deixar as vidinhas dos outros para os outros, porque os outros têm que fazer o seu caminho, as suas escolhas, como tu vais fazer as tuas, Mariana, e como eu faço as minhas.
Sim, mas nós mulheres temos essa pressão acrescida.
Temos o relógio biológico sempre a apertar.
E parece que viemos ao mundo só para ser mães. Ou seja, esse é o nosso papel. Então mulheres ambiciosas e tudo mais, ainda está a ser um processo de aceitar que as mulheres querem mais e querem fazer por si também. E se calhar uma pessoa que se chega à frente e diga que não quer ser mãe, é: "Então, mas estás bem?"
"Qual é o teu problema? Não queres ser mãe? Como assim? Não queres por quê?"
Deixa-me ajudar-te a resolver esse teu problema.
Olha, deixa-me ajudar-te a querer. Como é que eu consigo que tu queiras ter filhos?
De que forma é que tu vês a minha geração? Achas que nós estamos a mudar um bocadinho isso?
Eu vou te ser franca. Eu primeiro, gosto muito de gente jovem. As pessoas que trabalham comigo, tirando na televisão, onde é quase tudo gente mais velha, não mais velha do que eu, eu sou por norma a mais velha. Neste momento, qualquer equipe que eu entro na televisão, eu sou sempre a mais velha, o que tem imensa graça. Mas mal está a começar. Até isto tem graça, eu estou a trabalhar com filhos de colegas meus.
Uau, que giro!
E que diziam: "Tia Fátima." Claro, tia Fátima, pois com certeza, tia Fátima. Imagina tu. Eles têm 22, 23, 24. Eu comecei na televisão com os pais deles quando tínhamos as mesmas idades. Isso tem imensa graça. Eu gosto muito de trabalhar com gente jovem, primeira coisa. Mas indo ao encontro da tua pergunta, eu acho que a geração como a tua geração, tem coisas maravilhosas. Maravilhosas, mesmo. Vejo gente muito criativa, vejo gente bem formada, vejo gente responsável, vejo muito boas pessoas. Tenho tido a felicidade de me cruzar com muita gente da tua geração, que são mesmo boas pessoas, que são pessoas que dá gosto conhecer, que dá gosto conversar. Portanto, eu sou uma otimista o mais possível em relação à tua geração. Qual é a parte que me preocupa na tua e nas abaixo da tua? Uma coisa que já falámos aqui. É o facto de sentir que sãoUm bocadinho reféns demais daquilo que os outros pensam e esperam de vocês.
Mas vocês não eram?
Se calhar menos, porque não havia a pressão das redes sociais.
Certo.
Havia menos pessoas a ver, havia menos pessoas a saber, havia menos pessoas a julgar. Entendes?
Menos expectativas a cumprir.
Sim, tu tinhas um universo mais pequeno. Quem te podia ver julgar o que fosse? Os pais, a família, eventualmente os amigos, acabava ali. Agora não acaba ali. Agora ampliamos o número de pessoas que acham que podem opinar e que podem dizer e que aumentam, muitas vezes, a pressão sobre gerações mais novas. Repara que os números de pessoas com ansiedade na tua idade é assustador. Pessoas com crises de pânico e ataques de pânico na tua idade é assustador. Eu estou a dizer isto e estou completamente à vontade, porque eu como trabalho muito com psicólogos e falo muito com psicólogos, são eles que me dizem: "Fátima, tu não imaginas, eu tenho o meu consultório cheio de miúdos com crises de ansiedade que não conseguem fazer coisas mínimas, que no dia de um teste bloqueiam completamente e não conseguem sair, que para ir a uma entrevista de trabalho, a mãe fica na sala de espera."
Estamos a perder capacidades sociais, eu acho também, por estarmos muito a viver no digital.
Isso é a parte que me preocupa. Entendes, Mariana? Ou seja, grande parte, não são todos, graças a Deus, mas há uma grande parte de jovens que está demasiado refém das avaliações dos outros e deixou que isso resultasse em pressão sobre eles próprios. E como nem todos têm ferramentas para lidar com níveis de pressão tão elevados, porque a vida não expôs à prova antes, porque não trabalharam com ninguém que desenvolvesse essas competências, portanto, não é que tenham nascido com defeito de fabrico, nada disso. A vida não expôs à prova suficientes vezes para eles terem mais resistência e mais resiliência. Por um lado, nós pais, também não fomos extraordinários nesse aspecto. Nós não vos ajudamos muito. E vou te dizer por quê. Porque nós, como vimos de uma criação muito diferente, onde tivemos privados de muita coisa, não são todos, mas grande parte de nós, nós depois fizemos o oposto com os nossos filhos, quisemos dar tudo aos nossos filhos. Quando eu digo tudo, não estou a falar das coisas materiais, é facilitar-lhes a vidinha em tudo. Nós fazemos a papinha toda aos nossos filhos. E como fazemos a papinha toda aos nossos filhos, eles ficam menos capazes, ficam menos resilientes, porque depois não sabem como fazer. Pois se antes de fazer, o pai ou a mãe já tinha feito, tu não desenvolveste essa competência. Portanto, nós pais, temos uma grande responsabilidade nesta coisa que foi facilitar demasiado a vida aos nossos filhos, por amor, sublinho. Nós só fizemos por amor, porque amamos infinitamente os nossos filhos, porque queremos poupar determinadas dores de crescimento, porque queremos que eles não passem algumas coisas que nós passamos, só que esquecemos que é nesses tropeções, nessas quedas e nessas dores, que estão as grandes lições da vida e a resiliência que hoje, algumas pessoas apressadamente dizem logo: "Pais, não são capazes de nada." Eu não tenho essa visão. Eu acho que vocês são capazes de tudo. Precisam é das ferramentas certas e, portanto, temos que ter esta consciência e vos ajudar. E também vos ajudar a não darem o corpo às balas desta maneira com o digital, não irem para o digital como se tivessem uma camisa aberta e dissessem: "Agora podem disparar." Se queres ir para o digital, tens que ir para o digital e pensar que tu tens uma carapaça e tens que trabalhar para ser como uma carapaça, para que não te atinja. Se não tens capacidade de construir essa carapaça, vai o menos possível, expõe-te o menos possível e não leias nada sobre ti. É o que posso dizer.
Eu acho que no que toca ao digital e às redes sociais, os próprios pais, isto evoluiu tão rápido e está a evoluir tão rápido, que não têm sequer as ferramentas, os próprios pais, para educar os filhos no caminho certo.
Mas não, não temos.
Nós estamos a tentar descobrir, mas vocês também estão a tentar descobrir.
Eu disse já terminadamente esta conversa, até há pouco tempo eu considerava-me uma pessoa infoexcluída. Quando digo infoexcluída é porque a maior parte das coisas eu não as dominava. Hoje já não é assim. Mas por quê? Porque fiz por aprender, porque trabalho com gente muito jovem e peço-lhes para eles me ensinarem. Eles já se riem. Quando algum faz alguma coisa e eu não sei o quê, eu digo: "Espera". E eles riem-se, normalmente dão uma gargalhada e repetem a minha frase: "Ensina-me como é que isso se faz", porque é sempre o que eu estou a dizer. Ensina-me para eu poder aprender.
É sempre importantíssimo ter essa cabeça, essa mente aberta.
Mas tem que ser, Mariana, se eu não souber.
Ensina-me, deixa-me saber mais. Porque o mundo está a mudar e eu também tenho que aprender com isso.
Completamente. Eu digo: "Ensina-me, mostra-me lá, isto faz-se como?"
Não é olhar para os jovens: "São jovens. Tu não devias brincar aos telemóveis, tu não queres saber isso." Não, temos que querer saber.
Ensina-me. Nem que depois eu diga assim: "Olha, já sei como é que é, mas sinceramente acho que não vou usar essa funcionalidade." Já me aconteceu. Virem me explicar uma coisa um bocado mais rebuscada e eu digo à pessoa que, por exemplo, trata das minhas redes, à Carol. Digo: "Carol, já vi como é que se faz, mas honestamente, eu não acho que eu vá usar essa funcionalidade. Se for preciso usar, eu depois peço para tu me lembrares outra vez como é que se faz, que eu vou me esquecer." E vou me esquecer, esqueço-me completamente. Por quê? Como acho que não é importante, empurro lá para aquela zona do cérebro onde está o "não é preciso ser usado". Vai lá para o caixote. Mas eu estou sempre a pedir para me ensinarem as coisas, sempre, porque acho que é mesmo importante. Se eu não percebo, o mais fácil quando tu não percebes, repara, o ser humano quando não percebe uma coisa, critica. Por quê? Porque não domina. Então como não domina, para não se sentir inferior, o que faz? Critica. Antes de criticar, percebe. Se depois de perceberes continuas a achar que não faz sentido, diz: "Olha, já percebi, mas sinceramente não me interessa." Quantas vezes, quando vêm com coisas muito rebuscadas de digital ou muito rebuscadas de inteligência artificial, eu digo: "Meus queridos, esse campeonato não é para mim, que eu vá. Aí os meus 57 não me permitem ir tão longe. Desculpem lá, não sou uma pessoa que tenha nascido propriamente com computador nas mãos, portanto, se calhar isso eu deixo para vocês."E também às vezes é importante tu saberes dizer que há coisas que podes deixar para quem realmente sabe disso. E está tudo bem.
Sim, mas eu acho que há muita tendência para julgar a minha geração, especialmente as mais novas. "Eles não querem fazer nada, são pouco proativos, estão sempre em casa." Isto é um sistema que nos está a levar a todos. Não são as crianças que acordaram e se lembraram: "Ah, vou agora agarrar o telemóvel. Não vou sair de casa." É preciso também nós mais velhos tentarmos contrariar um bocadinho isso e não estar sempre com aquele discurso que as novas gerações estão perdidas. Estamos sempre a ouvir isto em todo lado.
Pois, eu ainda não tinha pensado nisso. Ainda não tinha feito o exercício empático, que estou a fazer agora aqui à tua frente, de pensar o que sentem os jovens que estão sempre a ouvir isso. Mas deve ser muito desanimador, digo-te já. Porque as gerações não estão perdidas. Estas novas gerações estão com falta de orientação, é uma coisa diferente. E essa orientação cabe-nos a nós mais velhos dar. Ou seja, se nós estamos uns capítulos à frente, nós temos que dizer lá atrás quais são as ferramentas e quais são as fronteiras para os voltar a balizar, porque aqueles que nós dizemos perdidos, vamos pegar na palavra perdido. Perdido pode ser desorientado. O que é que estas gerações podem estar? Desorientadas. Por quê? Porque lhes faltam novas fronteiras. Quem é que estabelece essas fronteiras? Se calhar temos que ser nós que estamos cá há mais tempo e que temos que estabelecer essas mesmas fronteiras. Que temos que se calhar os desafiar para coisas diferentes. E repara, eu tenho um filho de 17 anos, eu sei que tenho a adolescência em casa. Tenho uma mais velha, independente, etc. Mas tenho um adolescente em casa. Portanto, às vezes nós para conseguirmos quebrar isso, nós temos que lhes proporcionar alguma coisa que eles experimentem e percebam que também é bom. Se nós não fizermos isso, quer dizer, estar só a criticar, mas não mostrar onde é que está a diferença, de novo, tu ficas desorientada. Se eu simplesmente te criticar, tu estás nas redes, mas eu não te mostro, nem te levo a fazer nada diferente, nem te levo a experimentar nada, tu estás bem. Ok, não serve, mas e onde é que está a outra fronteira? Eu não vejo mais nada. Eu olho à minha volta. É isto, não estou a ver aqui mais nada. Então está me a dizer para onde é o caminho, afinal não estou a ver. Entendes? Este perdido é perdido de pessoa que está dentro do labirinto e não sabe qual é a saída.
É liderar pelo exemplo.
Exatamente. Mas se tu sabes qual é a saída ou uma possível saída, vai lá, pega na mão e leva a pessoa até a saída do labirinto. Orientar.
Fátima, estamos a chegar ao fim da nossa conversa.
Olha que bom!
Se pudesses falar com a Fátima de 25 anos, o que tu lhe dirias hoje em dia?
O que eu lhe diria é que vai correr bem. Não tenhas medo, vai correr bem e tudo vai fazer parte do caminho.
Acredita em ti.
Sim.
Obrigada, Fátima.
Obrigada eu.
Adorei esta conversa.
Também eu, foi ótima mesmo.
Obrigada.
Obrigada.
Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?