Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
9:34. Obrigada por estar com o Observador. Hoje no ao vivo recebemos o escritor Nuno Nepomuceno. Bom dia, Nuno. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Bom dia, Maria João. Bom dia a toda a equipe e auditório da Rádio Observador.
Se gosta de romances policiais, deve ter pelo menos um dos livros do Nuno Nepomuceno na sua biblioteca. Prepare-se para juntar mais um. "A Morte do Papa" é o novo thriller do autor e chega às livrarias no final desta semana, na sexta-feira.
Sim, vai ser sexta-feira, grande dia. Nós estamos todos bastante ansiosos.
E tudo começa com um papa encontrado morto 33 dias depois de ser eleito. É um livro inspirado na vida e morte de Albino Luciano, o Papa João Paulo I.
Sim. Embora eu tenha feito uma transposição da ação para os tempos contemporâneos, o livro é inspirado nos acontecimentos da noite em que João Paulo I foi encontrado morto.
E esse episódio é assumido. E se isto acontecesse nos dias de hoje, é isso?
Exatamente, sim.
Tem aqui uma série de teorias da conspiração à volta da morte deste papa. Há várias investigações que deram também lugar a vários livros. Ataque cardíaco, envenenamento, são algumas das hipóteses levantadas. Para alguém apaixonado por policiais, esta é uma história quase irresistível de explorar.
Sim, porque a teoria ou explicação oficial que é dada pela Santa Sé deixou muitas dúvidas. O facto de ser um infarte para um homem que era relativamente jovem e saudável. Todo o relato que foi feito de o papa ter sido encontrado morto, sentado na cama com, houve quem dissesse que era um livro, houve quem dissesse que eram uns papéis com uma lista de cardeais que ele queria expulsar do Vaticano e que tinha um sorriso no rosto, deixou imensas dúvidas e na altura surgiram imensos livros, em 1978. Ainda atualmente é um tema bastante polémico dentro da Igreja Católica e que as pessoas sentem algum fascínio. E o que eu fiz foi pegar nessas circunstâncias, nas personalidades que rodearam ou que estavam dentro do Palácio Apostólico naquela noite, o camerlengo em funções, o secretário de Estado, o próprio secretário papal e as freiras que viviam no Palácio Apostólico, e depois utilizei os factos que se passou naquela noite para criar uma história ficcionada transposta para os tempos atuais.
Portanto, baseado em factos reais?
Inspirado em factos reais.
E depois ficciona os tais espaços em branco, que nós não conhecemos.
Sim, o que eu fiz foi criar um enredo para fazer as ligações entre as personagens e aquilo que nós sabemos. E, no fim, o livro acaba por se apoiar não só na história da noite da morte do papa, como também noutras histórias paralelas do Vaticano, que estão mais ou menos relacionadas com este caso. Como a ascensão de um dos comandantes principais da Guarda Suíça, que depois se tornou no homem mais forte dentro da guarda pessoal de João Paulo II. Como também um caso que foi muito midiatizado este verão, o desaparecimento de Emanuela Orlandi, uma adolescente que há 15 anos desapareceu após sair de uma aula de música e que se diz que desapareceu para o Vaticano silenciar o pai, que trabalhava para o banco do Vaticano, isto no seguimento de outros escândalos financeiros.
Portanto, as personagens que são criadas nestes espaços em branco também têm por base factos reais e pessoas reais.
Sim.
Como é que se prepara? Tem que estudar, tem que investigar, não é? Há aqui um trabalho muito importante de investigação.
Foi em duas frentes. Primeiro, eu tive que ir ao Vaticano. Eu já lá estive duas vezes e tive que me ambientar com o espaço e ver aquilo que eu podia ou não usar. Em segundo lugar, tive que ler. Li alguns livros sobre o assunto, tentei cruzar referências, procurei ver o que eu poderia utilizar, que não fosse considerado completamente fantasioso ou ilusório e que pudesse realmente ter acontecido pra eu poder colocar no livro e as pessoas não acharem que estavam a ler uma espécie de delírio, mas algo que pode ser uma explicação racional para aquilo que aconteceu efetivamente.
Que fontes são essas para ter esse estudo?
Existe um livro do David Yallop, que foi bastante famoso na altura. E depois andei à procura em artigos de imprensa, consegui encontrar, nomeadamente no arquivo da revista Time, consegui encontrar algumas coisas e foi assim que fui construindo o enredo e a pesquisa.
E acesso a documentos oficiais, que são de consulta pública, obviamente.
Não, isso não tive.
Não chega lá. Nuno, os seus últimos livros, "Pecados Santos", "A Última Ceia" e agora "A Morte do Papa", têm histórias que envolvem religião e não só a católica. Isto é intencional? É um fascínio?
Não, na realidade, isto começou com o meu quarto livro, "A Cela Adormecida", em que eu resolvi criar um livro sobre tensões sociais e depois acabei por escrever um livro sobre um ataque terrorista em Portugal, passado na comunidade muçulmana de Lisboa. Só que na altura desenvolvi uma amizade com o xeque David Munir, acabei por ir várias vezes à mesquita e comecei a interessar-me bastante sobre religião. E quando estava a escrever esse livro, pensei: "A seguir vou escrever um livro sobre judaísmo". E assim nasceu "Pecado Santos". Eu pensei: "Isto é giro". Eu não só estou a fazer aquilo que gosto, que é escrever, como ainda estou a aprender imenso. E pensei: "A seguir vou fazer um livro sobre o cristianismo". Só que na altura a ideia que eu tive foi escrever um livro sobre o roubo de um quadro, e assim nasceu "A Última Ceia". E as pessoas, no lançamento de "A Última Ceia", vieram ter comigo: "Ei, Nuno, o que eu estava mesmo à espera era de um grande thriller religioso sobre a Igreja Católica." Vai ter que ficar pra próxima.
Então é assim uma espécie de Dan Brown português. Já te chamaram isso.
Já me chamaram Dan Brown português, já me chamaram Daniel Silva, já fizeram vários tipos de comparações. Eu não me ofendo com essas comparações. De uma certa forma, até me sinto bastante honrado, porque são dois escritores com carreiras internacionais sobejamente conhecidas e que as pessoas gostam muito. Eu acho que tenho o meu próprio registro. Obviamente que há pontos de contato, quando mais não seja o tema.
O tema, claro.
Mas eu acho que tenho voz própria e as pessoas reconhecem isso.
Mas qual é a próxima religião agora? Vai agora passar pro budismo, vai passar pro zenedo.
O hinduísmo. Talvez, não sei.
Mas leva a sério a ideia de agora estudar e aprofundar outra religião e construir também um romance à volta disso.
Eu ainda não decidi o que é que vou fazer a seguir, porque eu tinha muitas ideias quando comecei a escrever "A Morte do Papa", só que tive que fazer algumas opções para não tornar o livro demasiado grande. Então houve muita coisa que ficou posta de parte e agora ainda ando a pensar o que eu poderei ou não aproveitar.
Material pra um segundo livro?
Há material pra um segundo livro, sim, mas não tem que ser forçosamente uma continuação. Embora este livro, o último capítulo, abra o caminho a uma continuação, mas pra já não é essa a intenção.
Tem que lhe apanhar o fio condutor.
Exatamente.
O Nuno disse algures numa entrevista que quando começou a publicar, tinha três objetivos: estar na Feira do Livro, ter pelo menos um livro com mais do que uma edição e ter um livro publicado em inglês. Dois objetivos já foram cumpridos, já se está a rir. Pra quando um livro em inglês?
Sinceramente, não sei. A agência está a tentar. Já fizemos um primeiro esforço com "A Última Ceia". Vai também depender muito do que acontecer com "A Morte do Papa" cá. Primeiro é preciso consolidar o público aqui em Portugal e só depois pensar nisso. Eu gostava, sinceramente, até acho que no gênero em que eu me insiro, seria mais fácil Conseguir mais leitores no estrangeiro do que propriamente em Portugal. Mas é um passo que se vier será bem-vindo. Já não é um objetivo, é apenas um desejo e o que terá que acontecer irá acontecer e estaremos cá para isso.
Escrever sobre estes temas, religião, fé, são complicados em termos de críticas ou não? Porque estes temas são sensíveis, não é?
Sim, dá sempre azo a algumas críticas. Os primeiros três livros que eu escrevi eram livros relativamente inocentes, digamos assim. A partir do momento em que apresentei "A Celula do Homicida", comecei a receber algum retorno negativo, que foi uma novidade na altura. Agora, ao fim de sete livros, eu já estou habituado. De vez em quando lá vem um e-mail mais zangado ou um comentário que aparece nas redes sociais.
Como é que digere a crítica negativa?
No início ficava bastante chateado. Ficava mesmo aborrecido e achava injusto, porque às vezes até surgem logo quando o livro é anunciado. Portanto, são pessoas que não leram o livro, que apenas se sentem ofendidas pelo tema do livro.
É um clássico. Ainda nem lê, depois critica.
Atualmente já não tem grande impacto. Já estou habituado, já estou à espera.
Não servem para nada ou significam um reconhecimento? Quer dizer, que o Nuno tem.
Acho que acaba por ser o medidor do sucesso do livro.
E do impacto.
Sim, e do impacto que o livro tem. Mais do que isso, fora isso não tem mais nenhum valor.
E agora prefere ter essas críticas ou não ter?
Eu não faço propósito para as ter.
Vão ao seu encontro.
Eu não escolhi o tema da morte de Albino Luciani para este livro para ser polémico ou controverso. Eu escolhi o tema da morte de um papa porque achei que esta história tinha todos os ingredientes necessários para um thriller. Desde a morte por envenenamento, entre assassínios, triplos homicídios, entre muitas outras coisas. E esse foi o meu objetivo.
Diz, Paulo.
Força, Maria João.
O Nuno dizia que tinha sete livros já editados. É possível viver-se da escrita em Portugal?
É possível viver-se da escrita em Portugal, mas apenas para algumas pessoas. E estou a referir-me a um número muito pequeno de escritores em Portugal. A maior parte dos escritores portugueses tem uma segunda profissão.
Que é o seu caso também.
Sim, embora a minha não seja a profissão mais comum para quem escreve.
Quer partilhar?
Normalmente, quem escreve está ligado ao meio da comunicação social de algum modo, com outro trabalho ou no jornalismo ou outro tipo de publicações. Eu tenho a particularidade de ter não só uma formação completamente diferente daquilo que se espera de um escritor, eu sou licenciado em Matemática, como também ter um trabalho muito pouco habitual. Eu sou controlador de tráfego aéreo na Torre de Lisboa e as pessoas acham isso sempre muito estranho, mas eu vou conseguindo gerir as duas coisas.
Basicamente, tem uma formação e uma profissão muito racionais.
Sim, muito virada para as ciências. Mas eu costumo dizer, e isto foi algo que me foi dito pela minha professora de Português do 12º ano. Ela achava que a Matemática e o Português não eram assim tão contraditórios e que era necessário o mesmo nível de abstração para ter um raciocínio estruturado ou para escrever um texto. E eu concordo com ela. Acho que é preciso o mesmo nível de abstração.
Desculpe, para construir um thriller também precisa muito que as peças encaixem, não é?
Exatamente, sim. Tudo é útil.
Obrigada, Nuno, por ter vindo às manhãs da 360.
Muito obrigado.
"A Morte do Papa" é o novo thriller do Nuno Nepomuceno. Uma freira, dois cardeais, um papa encontrado morto e uma jornalista e um jornalista que não desiste esta sexta-feira numa livraria perto de si.
Obrigado!
Agora, 09h45. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.