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Todas as semanas, na Rádio Observador, recebo a nutricionista Mariana Chaves para o "Aprender a Comer" com os melhores conselhos de nutrição. Olá, Mariana.
Olá, Nelson.
Esta semana, no passado dia 10, assinalou-se mais um Dia Mundial do Lúpus. A alimentação é importante nesta doença?
Sem dúvida. Esta é uma doença autoimune. E a alimentação é aqui, vamos dizer, coadjuvante. É assim que nós costumamos enquadrar.
Não cura.
É isso, não cura. Mas a verdade é que é importante, porque estamos a falar de uma doença em que o sistema imunitário, normalmente, quem não tem a doença, é aquilo que nos protege. E neste caso da doença, esse sistema imunitário fica como se fosse desregulado. E pode acabar por atacar estruturas do próprio corpo. O que estamos aqui a falar é de uma alimentação que pode ajudar em algumas frentes. Quais frentes? Pode ajudar a reduzir a inflamação, pode ajudar na proteção da saúde cardiovascular, que muitas vezes é aqui um tema, porque não há só um tipo de lúpus, e há modelos em que esta parte é ainda mais importante ter cuidado. Pode ajudar, e ajuda, em tudo o que é a gestão da saúde óssea, porque já vamos perceber aqui um pouquinho, mas nesta doença, a exposição ao sol muitas vezes é um trigger para que-
Alguns sintomas.
Sim. Estas pessoas acabam por não apanhar ou se expor muito ao sol. E nós sabemos que a vitamina D vem da exposição ao sol. E também, muitas vezes encontramos pessoas que têm perdas de energia, e às vezes terapêuticas, que podem exponenciar o aumento de peso. A alimentação cuidada, não como fonte de tratamento, porque não vai tratar a doença, mas cuidada, realmente pode ajudar. E por que eu acho que era interessante hoje falarmos aqui da alimentação no lúpus? É também porque é uma doença que nós temos que ter algum cuidado quando se ouve "alimentação que reforça o sistema imunitário, alimentação para reforçar a imunidade". Atenção que neste tipo de doença, nós não queremos reforçar o sistema imunitário. Nós queremos só ajudar o corpo a regular melhor a inflamação.
Qual dirias que seria a melhor alimentação para uma pessoa com lúpus?
O que está estudado é uma alimentação anti-inflamatória de base mediterrânica. Um pouquinho esta história da alimentação mediterrânica. O que na prática é produtos frescos. Os vegetais, as frutas, mas também com grande ênfase no peixe, na fonte de ômega 3, tem-se falado muito nisso. No azeite e leguminosas, frutos secos, ervas aromáticas, etc. Mas aqui um foco também muito importante naquilo que se deve evitar, porque estamos a falar de uma alimentação anti-inflamatória. Aquilo que for inflamatório deve ser realmente evitado. Evitado, porque uma pessoa que tem esta doença, de forma crônica, é para a vida e na verdade, tem que gerir o seu dia a dia. Não podemos também querer alcançar perfeições. É importante as pessoas entenderem os impactos. Claro que consumir menos açúcar, menos fritos, menos farinhas refinadas, especialmente menos alimentos ultraprocessados, será realmente o caminho a seguir. E depois, é muito importante pensarmos que não só para o dia a dia, compostos anti-inflamatórios, como o que temos no gengibre, o que temos na cúrcuma, e que podemos usar isso nas nossas sopas, nos nossos chás, nos legumes, tentar perceber onde é que enquadramos isto. Também pensar que a vitamina C é importante, e que temos nas frutas, em especial nos citrinos, mas também nos morangos, por exemplo, frutos vermelhos. Também temos nos pimentos, nas couves, nos brócolos. E valorizar, como eu dizia, o peixe gordo. Mas, por exemplo, quando falamos aqui em cúrcuma, é cúrcuma, raiz cúrcuma, que nós conseguimos usar na nossa alimentação, no nosso caril. Não é uma cápsula concentrada de cúrcuma, muito menos numa doença como esta. Essa parte é muito importante. Agora, também há outros temas que se calhar podemos também abordar, que é o facto de quando eu dizia que a inflamação estar estável, e não queremos açúcar, queremos uma glicemia estável. Falamos às vezes aqui no programa, que não queremos picos de açúcar no sangue. Mas para isso, tudo o que falarmos aqui. Se não tivermos bolachas açucaradas, se não tivermos refrigerantes, já conseguimos baixar bastante os picos de açúcar que podem vir daí.
Falavas aí da cúrcuma e das cápsulas. Não aconselhas suplementos naturais.
Pois.
Aqui no caso das pessoas com lúpus.
É isso mesmo que é muito importante falarmos, porque tudo isto que estava aqui eu a tentar resumir, é a base da alimentação saudável para todas as doenças e prevenção de todas as doenças. Aqui não é na prevenção, aqui é na gestão da doença. Agora, suplementos naturais, muitas vezes é uma ideia perigosa de se achar que é seguro, porque há às vezes esta associação. De que se é natural, é seguro. Se vem da natureza, está tudo bem e quase que diabolizam os medicamentos. Mas a verdade é que um suplemento para ser seguro, não basta vir de uma planta. É preciso ter dose certa, é preciso estar testado, estudado.
Imagino que de pessoa para pessoa varia muito.
Exato, compatível com a medicação. E no lúpus, há aqui realmente questões muito importantes que tem que se perceber exemplos práticos de suplementos que não devem mesmo ser tomados. E eu achei relevante falar-se disto, porque hoje com tanta informação que parece específica e parece profissional, eu acho que as pessoas se perdem. E há pouco tempo tive alguns pacientes com lúpus, e acho que as pessoas se perdem em tanta informação que parece, de repente, que cabe para todos, mas não. Nestes casos tem que se ter cuidado.
E até pode ser contraditório para a questão da pessoa com lúpus.
Certo.
Vamos então a alguns exemplos práticos de alimentos e formas como os podemos usar nesta situação em concreto.
Eu queria só fazer aqui um aparte de suplementos que temos de ter algum cuidado, como por exemplo, o extrato de alho. Porque realmente dizes bem, um alimento que podemos pôr na nossa comida que tem uma ação anti-inflamatória é o alho, que tem uma substância que é a alicina, que realmente é um composto ativo, mas que é um composto ativo que reforça o sistema imunitário. E portanto, alho na comida é uma coisa, que é uma dose normal, não é uma dose terapêutica. Extrato de alho em suplemento, que existe com essa alegação de que reforça o sistema imunitário, numa pessoa com lúpus não é aconselhado. Não é aconselhado de todo.
Há algum alimento saudável que possa não ser também adequado para os doentes com lúpus?
Sim. Aquilo que eu consegui ter acesso em dois estudos científicos que falam sobre isto, é uma coisa que se chama rebentos de alfafa. É importante eu dizer que eu sei que as pessoas que têm uma alimentação mais clássica vão achar: "Que nome é este? O que é isto? Isto não se vende".
Nunca tinha ouvido falar.
Nunca tinhas ouvido? Pronto. Rebentos existe de muita coisa. Tens rebentos de brócolos, de cogumelos e também de alfafa. Os rebentos é como se fosse a fase inicial da produção da planta e, portanto, são um grande concentrado de micronutrientes. E são vendidos como tal, ou seja, quase como se tu pudesses incorporar na tua salada aqueles micronutrientes em doses altas. Mas realmente, estes rebentos de alfafa, o que é que foi estudado? Eles têm uma substância que se chama L-canevanina, que realmente foi associada em dois estudos a sintomas semelhantes ao lúpus e agravante de sintomas em algumas pessoas. O que está identificado em todas as associações não fundamentais, todos os institutos associados ao lúpus, é que as pessoas com lúpus podem dispensar estes rebentos. Não podemos dizer com toda a certeza científica que provoca, que pode agravar sintomas, não, mas que podem dispensar para não correr esse risco, uma vez que já foi identificado em algumas pessoas. E, portanto, a recomendação é a prudência e não há necessidade, é um alimento que também não é essencial. Fica só a nota.
Só uma questão, porque há pouco falávamos do sol. Como é que funcionam as pessoas que tomam vitaminas ou os suplementos, nomeadamente o de vitamina D? Pode ser interessante para as pessoas com lúpus?
É muito importante dizer que multivitamínicos nesta doença tem que se ter muito cuidado, ponto número um. E o outro, em relação à vitamina D, deve ser medido nas análises, porque o que é que acontece? Realmente não têm grande exposição solar e a vitamina D é essencial para uma boa manutenção do sistema imunitário. Portanto, queremos valores normais, não queremos carência, porque é diferente de ter valores muito altos. E portanto, realmente tem que se ter atenção a isso e tem que se ter atenção a consumir alimentos ricos em cálcio, porque são as duas coisas que vão ajudar na densidade óssea.
Há aqui uma ideia que me surge deste programa esta semana, Mariana, é que as pessoas com lúpus são de facto especiais, porque para o caso delas o que é natural pode não ser seguro. É um pouco uma ideia que queremos deixar também.
Sem dúvida. Ter muita atenção de que em alimentos, eu penso que será este aqui que temos mais evidência, não outros. Fala-se um bocadinho sobre alimentação sem glúten também, que alguns pacientes podem ter um alívio de alguns sintomas, mas fica assim só a nota. Mas realmente em termos de: o suplemento é natural, por exemplo, equinácea. Equinácea é perigoso neste tipo de pacientes, não é para tomarem. E portanto, é realmente uma condição, um diagnóstico que tem que ter bastante cuidado nesta área e não se deixar levar pelo que é natural apenas.
Deve também ser acompanhado de uma decisão mais clínica e não uma experiência feita só em casa. Falamos de lúpus e de uma alimentação mais indicada para quem sofre desta doença, no episódio desta semana do "Aprender a Comer". O Dia Mundial do Lupus foi no passado dia 10 de maio. Para a semana estamos de regresso com outro tema, com a Mariana Chaves. Mariana, até lá. Obrigado.
Até lá, Nelson. Obrigada.