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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir pro céu, mas são as más que mudam a história. Eram 10h da manhã e todos os olhos do Clube da Estefânia pousavam em Carolina. Ia vestida de escuro, saia comprida, chapéu de abas enorme, luvas brancas, cravo branco ao peito, o emblema da Associação de Propaganda Feminina. Quis parecer confiante e segura, embora por dentro a atravessasse um nervoso miudinho. Depois de agradecer as palmas, vivas e manifestações de apoio, saiu da assembleia em lágrimas, dizendo que participaria às sufragistas de todo o mundo civilizado, que os mais inteligentes homens portugueses partilhavam com elas um mesmo ideal. Nunca se vira tanto alarido em redor de uma mulher, pois, na verdade, Carolina tinha sido a primeira mulher a votar em toda a Península Ibérica. Eu sou a Margarida Vila Nova e estas são as Desobedientes da Rádio Observador, também disponíveis em podcast. A protagonista de hoje é especial. Já nos cruzamos com ela várias vezes em episódios anteriores. Era ela quem cosia à pressa com Adelaide Cabete as bandeiras da República que vemos hasteadas na varanda da Câmara Municipal de Lisboa nas fotografias do 5 de outubro de 1910. Era ela também quem acompanhava Ana de Castro Osório rumo a um acontecimento importante e que suscitou o filme de Virgínia de Castro e Almeida. Maria João Loupo de Carvalho, Alexandre Borges, bem-vindos mais uma vez. Todas as nossas meninas foram revolucionárias, mas talvez nenhuma tanto como Carolina Beatriz Ângelo. Nasceu na Guarda em 1878, chegou com a primavera, era filha da terra. Vem ao mundo sã e robusta, esta nossa desobediente.

E nasceu na Guarda, a cidade dos meus avós, bisavós, trisavós. Nós todos somos da Guarda.

Os meus avós também, pelo menos do distrito.

Olha, vês?

Cruzaram-se todos.

Bom, e então o pai já era jornalista e dono de uma grande tipografia, senão ela não teria acesso a isto tudo. E na verdade, ele imprimia o órgão do Partido Progressista, o distrito da Guarda, e portanto, era uma pessoa ligada às letras, uma pessoa que tinha livros em casa. Quando não tinha, fazia por ter e comprava no Porto ou comprava em Lisboa. E a Carolina, como sabemos, a mortalidade infantil era qualquer coisa de impressionante nesta altura, e quando ela veio ao mundo, já os pais tinham visto morrer nada mais ou nada menos do que dois filhos. Depois da Carolina nascer, entretanto, nasceu um rapaz, o Viriato, e a primeira memória que a Carolina tem é deste irmão. E mais de três anos passados, Corina, com quem a Carolina vai ter uma relação muito estreita e muito próxima, enorme cumplicidade.

Eu ia dizer que Viriato era mesmo o nome daquela zona. Mas depois Corina destruiu o meu argumento.

Destruiu o teu argumento, não é o nome da zona, de facto. E entretanto, claro que ela tinha pilhas e pilhas de livros, como já dissemos, era muito interessada por estudos, o que era muito mal visto na cidade. É estranho, não é? Mas um meio pequeno na altura, apesar de ter bastante gente, a cidade da Guarda, penalizava estas raparigas que queriam de alguma forma contrariar o destino ou estudar ou serem as chamadas sabichonas. Que era quase um insulto.

De certa forma, um certo bullying.

Um total bullying.

Para usar um termo de época também.

Sim. Era para contextualizar.

Mas entretanto, ela entra no liceu, o que já era de si próprio uma coisa estranhíssima, com mais duas miúdas. E a parte divertida, que eu achei quando fiz um pouquinho de investigação sobre a Carolina e sobre os meus bisavós também, é que o meu bisavô, que tem uma estátua lá na Guarda por ter sido o fundador do sanatório, foi professor de Matemática da Carolina.

Foi ele o grande impulsionador para a Carolina ir estudar no liceu.

Sim, porque ele era o chamado médico das aldeias, daqueles que era mesmo por vocação médica, não tinha nenhum intuito em fazer doutoramentos ou em salientar-se, era uma pessoa discreta, ao contrário da bisneta. Que discreta não sou nada, não é verdade?

Sim, não herdaste esse gene.

Não, mas pronto, a persistência, talvez. E ele dizia que a Carolina tinha um jeitão, ou seja, agora estou usando também uma linguagem muito de época. Era muito habilidosa.

Isto no fundo não é um podcast, é uma reconstituição histórica, praticamente. As pessoas viajam no tempo.

Tudo é uma narrativa, não é verdade? Esta é a nossa. Como professor de Matemática dela, via-lhe algum talento e incentivou-a. "Não fiques por aqui, vai estudar", mesmo apesar das más línguas que diziam: "Lá vai ela com os livros, o que esta pensa que é? Esta sabichona, o que é que não é, o que é que é, o que ela quer? Não sigam este exemplo". Eu lembro-me disto correr na família, da nossa bisavó dizer isto, que achava um péssimo exemplo para as filhas. Esta miúda ali vizinha, filha do tio Viriato, andar de estudos. O que era isto? Uma pessoa andar de estudos. Para quê? Não era preciso, bastava um bom casamento.

E quando se mete nos estudos, também uma palavra da época, eu achei curioso esse momento que para conseguir conquistar o seu sonho, ou para correr atrás do seu sonho, traz a família toda atrás para Lisboa.

Sim, e o pai teve olho, eu acho que o pai percebeu. Sim, é lindo, porque era a única forma.

E vulgar, imagino eu.

Sim, imagina o pai mudar-se com a mãe, com os filhos, com tudo para Lisboa, porque a menina mais velha tinha este capricho.

Este capricho de estudar.

Mais uma vez, é a tese da Margarida. Há sempre aqui um homem porreiro qualquer.

Há sempre um porreiro, um pai ou um marido.

Vai lá.

Que conseguem perceber.

Que patrocina, de facto, um pouco a desenvolvimento.

E à mãe preocupava muito que ela nunca seria uma boa dona de casa, que era completamente desinteressada das prendas domésticas, não se arranjava, não se alindava, que ia ser um estorvo para a sociedade e para todos, porque ela não sabia gerir um lar. E isso era o principal: agradar ao marido, seja nos lençóis, tendo filhos, seja a pôr uma boa comidinha à mesa. E isso ela não sabia nem onde era a cozinha, digo eu.

Agora estávamos a citar ali résvés Marco Paulo.

Marco Paulo.

Mas...

Também é da época.

Também é da época.

Tenho dois amores.

Era o Otares e Manias, mas deixemos os nossos ouvintes sugerirem.

Mudam-se para Lisboa e é claro que isto, mais uma vez, não é pertença de nenhum meio, porque ela se na Guarda era estigmatizada por ter ido a estudos, em Lisboa era estigmatizada porque era provinciana, era boçal, fazia assim o s sibilado, como na Guarda, era desmazelada.

Isso na palavra chabichona realmente é complicado.

Chabichona, é isso.

E aquilo, no fundo, imaginem uma miúda vinda daquele meio, naquela altura. Imaginem entrar na Escola Politécnica como fizeram as outras, primeiro a ter Matemática e Filosofia, depois entrar na Escola Médico-Cirúrgica para tirar Medicina. Imaginemos o que era os cabarés, os teatros, as revistas, as jogatanas, as mulheres da má vida que também andavam lá sedentas.

Mas ela fugia desses...

Ela queria estudar. Estamos a falar do bullying, mas era estranho. Era estranho por ser mulher, era estranho por não ser de Lisboa. Todo aquele buliço da vida de Lisboa, a azáfama, os entretenimentos, tudo aquilo, não existia nada na Guarda.

Não deixava de ser uma outsider em Lisboa.

Completamente, sim.

E no meio desse percurso acadêmico...

Não, a história da dona Carolina também é muito boa. Ela ficava furiosa, mais piúça mesmo, porque lhe chamavam a ela, dona Carolina, e aos colegas do sexo oposto, senhor doutor.

Senhor doutor, claro. Diz tudo.

Claro.

Sete anos de curso e de estudos afincados e entretanto conhece um colega.

Quem é este jovem, atlético, Alexandre? Quem é este jovem atlético com quem Carolina partilha estudos e vai cruzar não só os caminhos da vida, como mesmo os atalhos.

Os atalhos da vida, é ótimo. Parece o nome de uma novela, é ótimo. Os atalhos da vida, daquelas antigas, tipo Palavras Cruzadas. Era o grande Januário Barreto. Januário Barreto não era um homem qualquer. Não, querido auditório que nos escuta. Januário Barreto era...

Era um sportsman.

Era um sportsman.

Agora imagina o corpinho dele.

Era um desportista. Estudava Medicina com ela, há que dizer, era um médico, mas é também alguém que ficou órfão muito cedo. E portanto, estudou na Casa Pia, mas por ser tão bom aluno e também ter as suas capacidades desportivas, conseguiu uma bolsa, que é aquilo que lhe permite estudar Medicina, o que desde logo é muito meritório. E depois eleva essas coisas todas para a sua vida e vai ser, nem mais nem menos, do que o primeiro presidente eleito do Sport Lisboa.

Antes de juntar com o Benfica.

Antes de juntar com o Benfica, exatamente. O sorriso da Margarida é priceless, portanto, eu espero que vejam. Espero que acompanhem este episódio no YouTube.

O curioso começou pelas mãos do nosso Januário Barreto e Cosmo Damião.

Começou, exatamente. Se me permitem este bocadinho sobre essa franja paralela, que realmente tem graça e é engraçado como isto depois entronca com toda a história que estamos a contar, que é: toda a gente sabe que o Benfica está associado a algo mais popular e o Sporting a algo mais elitista, embora, como é lógico, hoje em dia, seja tudo futebol e há gente de todas as classes, de um lado e do outro, e ainda bem. Mas o início é que explica muito isto. O Sport Lisboa começou em 1904 com gente, de facto, muito pobre. Era muita gente da Casa Pia, daqui a ligação ao Januário Barreto. E não tinha estádio próprio, não tinha estádio, não tinha campo, não tinha nada. Jogava nos terrenos públicos militares que havia na zona de Belém, lá está, porque era perto da Casa Pia e é por isso que se fala sempre da Farmácia Franco, que era onde trabalhava o tesoureiro do clube, onde é assinada a ata, digamos, fundadora do Sport Lisboa. O que é que acontece em 1906? Isto tem graça, lá está, por causa do Januário Barreto, porque os dois primeiros presidentes do Benfica não foram eleitos. Foram escolhidos, designados. Em 1906, que é quando chega o terceiro presidente, que então é o primeiro a ser eleito, e é Januário Barreto, o nosso noivo da Carolina Beatriz Ângelo, é porque justamente nasceu o Sporting. O Sporting nasce no Lumiar. É óbvio que não havia rivalidade nenhuma, é um clube que nasce e simplesmente tem dinheiros, porque era do Visconde de Alvalade, essas coisas. Então tem terreno para ter um campo próprio e tem luxo, extravagâncias do tipo banho quente, duches quentes. Então alicia a malta do Sport Lisboa, tadinhos, que jogam bem à bola, mas não têm nada, a irem para o Sporting. E vão, sete dos 11 principais, vão, incluindo o primeiro presidente do Benfica, o José Rosa Rodrigues dos irmãos Catataus. Vão, portanto, não havia este complexo. E é aí que o Cosmo Damião emerge como uma figura importante, porque é ele que permanece no clube, é ele que vai arranjar a fusão com o grupo Sport Benfica, que esses tinham um campo, não tinham jogadores, mas tinham um campo, e isso depois dá-se esta fusão do Sport Lisboa e Benfica. Januário Barreto é então eleito primeiro presidente, porque o Sport Lisboa sempre precisa de alguém Com uma certa importância social que dê essa dimensão. E ele já começava a ser uma figura prestigiada na sociedade de Lisboa.

Por ser médico.

Por ser médico.

Porque médico era o topo da carreira, o topo da escala social.

Exatamente. E agora notem esta pequena questão que tem piada também, que é: já falámos aqui das cores da bandeira nacional, da bandeira da República, e isto vai ter a ver com a nossa protagonista de hoje.

As papoilas?

Quase. Mas já sabemos que eram as cores da Carbonaria e dos conspiradores da República. O Benfica, lá está, o Sport Lisboa nasce em 1904, fusão em 1908 com o Benfica. Januário Barreto é um ativista republicano. Reparem, se se lembrarem do símbolo do Benfica, o lema do Benfica é E Pluribus Unum, está escrito numa faixa de que cores?

Carnário e verde.

Exatamente. Antes da República.

Explica muito.

Isto é cultura.

Isto é cultura do melhor.

Muito bem.

Mas há uma curiosidade sobre o Januário, e isto pela importância que ele dava ao desporto. É ele que introduz no liceu o desporto como uma cadeira. E é interessante perceber que já na altura, o desporto e a importância que o desporto tinha na vida de qualquer um.

Que era uma coisa novíssima.

Era uma coisa novíssima, exato. Associado a um médico, perceber que o desporto é algo fundamental.

É ele que leva o desporto para os liceus.

Exatamente.

E leva também a nossa Carolina de amores.

E leva a Carolina Beatriz.

Casam-se os dois pela igreja. Agora reparem o contrassenso. Dois republicanos convictos e que casam pela igreja, na Igreja de Santa Justa, e vão morar aqui para Lisboa, em Santa Isabel, o bairro de Santa Isabel, aqui bem perto das amoreiras. É aqui que eles começam a sua vida. Entretanto, a Carolina achava que, pelo fato de ser médica, não ia de certeza cingir-se a ser uma boa esposa, uma boa mãe e uma dona de casa. Isso não ia acontecer. Ela queria ter uma vida ativa, queria trabalhar. É claro que se irritava porque o Januário às tantas dava mais importância, achava ela, tinha ciúmes do futebol, portanto, a Carolina. Ele dava mais importância ao futebol e tudo que tivesse a ver com desporto e tudo que tivesse a ver com os jogos e com os treinos e com tudo. E ela começou a achar que estava um bocadinho passada para segundo plano e que ele gostava mais do Benfica. Com certeza que os nossos ouvintes também se irão identificar.

Tinha o comando na mão sempre a trocar. Se tivesse televisão lá, o Januário estava sempre a procurar os programas de futebol. Entretanto, casa-se, como acabámos de dizer, e começa a exercer como médica de senhoras. Lá está a tal história, que era mais fácil para as senhoras irem à médica mostrarem o seu corpo do que ao médico. Começa no Hospital de São José e com consultório sempre na Rua Nova de Almada. Já percebemos que aqui a zona do Chiado era um centro de alta conspiração republicana. Os consultórios serviam para muito mais do que apenas consultórios. Eram muitas vezes as reuniões das feministas. Margarida, quem era a melhor amiga dela? Pergunta para o milhão de dólares. Ana de Castro Osório, as outras também, a Virgínia também, a Adelaide Cabeta também, é verdade, todas amigas, todas republicanas convictas e todas com as notícias que o nosso Alexandre vai explicar melhor, dos exemplos das suffragettes inglesas que não se calavam.

Tal e qual. Começa a entusiasma-las muito este movimento do sufragismo, das sufragistas em Inglaterra, em favor do sufrágio feminino. Enfim, no fundo, do sufrágio universal, da ideia de que toda a gente maior e vacinada, maior, não precisa de ser vacinada, pudesse votar. É espantoso, nós já percebemos no início do programa, pela voz da Margarida, que a nossa protagonista de hoje, Carolina, vai ser a primeira mulher a votar na península Ibérica, mas posso antecipar que é algo mais do que isso. Ainda só havia, nesta altura, portanto, na Inglaterra, as mulheres estavam a lutar muito ativamente por este direito. Vão demorar a consegui-lo. Nesta altura só havia um país no mundo onde as mulheres já podiam votar.

Qual?

Nova Zelândia.

Não!

Distantíssimo e aparentemente tinha a ver com o poder entre as tribos Maori, as mulheres já eram consideradas proprietárias das suas terras, quando era o caso. Quando eram herdeiras ou viúvas, já eram proprietárias. Isso dava-lhes um poder que depois se refletiu pela luta das sufragistas neozelandesas, se refletiu na sua lei. 1893. A Finlândia vai ser o primeiro país da Europa, é nesta altura, o primeiro país do mundo, digamos, ocidental, que vai conseguir isto em 1906. Portanto, são os únicos países no mundo onde as mulheres podem votar quando Carolina Beatriz Ângelo, Ana de Castro Osório iniciam esta luta.

Ou seja, ficamos a saber que somos as terceiras, o terceiro país.

Vamos ser o terceiro país, que é uma coisa notável.

Para calar os estudantes revoltosos contra os abusos do governo, a universidade é encerrada, os jornais são censurados e o Partido Republicano encontra a oportunidade de ouro para congregar os descontentes com a monarquia. Miséria, fome e doença iriam a breve trecho minar o país. A altura de agir está a chegar na segunda parte das Desobedientes. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Segunda parte das Desobedientes. Carolina Beatriz Ângelo está prestes a entrar na história. Maria João.

Pois é que aqui, nesta altura, ela em 1903 tem a filha, a única filha, Maria Emília Ângelo Barreto Fagundes. E engraçado, Margarida, esta é especial para ti e para todos os sportinguistas que nos estão a ouvir.

Muito bem.

A dita Corina, irmã da Beatriz Ângelo, casa com um arquiteto famoso chamado António Couto, que foi nem mais nem menos o arquiteto da estátua do Marquês de Pombal. Ora o Marquês de Pombal, como sabem, tem lá um leãozinho.

Com certeza.

Então ainda hoje, na família da Carolina Beatriz Ângelo, nos seus descendentes, que eu conheço alguns, sempre brincam com a história do leão ter entrado em Lisboa pela mão dos antepassados de Beatriz Ângelo. Portanto, não foi só a águia do Benfica, foi o leão que está ali bem no centro de Lisboa a provar que o Sporting está presente. Margarida, espero que tenhas gostado desta boca.

Gostei, vou guardar.

Guarda. Eu vou reconhecer antes de dizer que o Marquês não é importante para o Benfica. Ultimamente não tem sido tanto. A tal ponto as coisas na altura eram diferentes neste início, que o Januário às tantas acumula e vai ser o primeiro presidente do conselho fiscal do Sporting.

Pois se calhar também o cunhado-

Era mesmo um homem dedicado ao desporto.

O cunhado também andava no desporto.

Pode ter sido.

Entretanto, ela tem a filha e o que é que a apelidam? Imaginem as vizinhas ali em Santa Isabel: "Má mãe, desgovernada, tola, ambiciosa, lá vai a louca", diziam elas. "A desvairada, a irresponsável, que deixa a filha sozinha, sabe-se lá com quem. Coitadinha da menina, fica órfã de mãe, então não tem rei dado." Tudo isto elas diziam porque a nossa Carolina ia trabalhar.

Mas é curioso uma mulher profundamente comprometida pessoalmente e profissionalmente a salvar outras mulheres, ser justamente acusada dos seus pares.

Estás a ver o que era a força das circunstâncias e da pressão social, como estava entranhado que uma mãe era uma mãe e não tinha nada que trabalhar fora de casa. Isto num determinado nível social, obviamente.

Mas a par da opinião pública, segue caminho.

Segue caminho, ela não liga nenhuma ao que as pessoas dizem, acha que está a fazer tudo bem. A Corina foi muito importante para ajudar com a Emília quando nasceu a filha. E lá se orientaram e a coisa seguiu para a frente. Entretanto, ela começa como cirurgiã no Hospital de São José.

A primeira cirurgiã do Hospital de São José.

A primeira cirurgiã mulher em Portugal.

Mulher.

Sim, ela diz que tinha as mãos a tremer como se fosse entrar numa premiere, que estava super nervosa, mas que pensou: "Eu sei fazer isto, eu vou conseguir, eu tenho que me concentrar, eu faço isso melhor que os homens, se for preciso, e eu vou conseguir." E assim fez, só que tinha aquela prática que nós hoje achamos completamente normal, nem pensamos nisso.

Essa ideia louca de desinfetar as mãos antes de entrar num bloco operatório. Isso passa pela cabeça de alguém.

Higiene, acima de tudo. Lavar as mãos.

E ainda deve ter sido gozada.

Claro, obviamente que foi gozada. Óbvio.

Coisas de senhora, que dizem.

É, coisas de senhora, doenças de senhora e hábitos de senhora. Lavar as mãos, que serve para quê? Mas em 1904 ela entra também, aqui é a parte favorita do Alexandre.

Não é? Ui, ui, está a parecer muito suspeito. Exato, 1904, lá está, é aquele treino especial que eu já invoquei há pouco. Sim, entra na maçonaria, onde lá está, já estão as nossas famosas Ana de Castro Osório e Adelaide Cabeta, entre outras, que são essa câmara conspirativa de republicanismo e de feminismo, porque aparentemente as duas causas estavam muito associadas.

Sim, para já era as causas do costume. A separação entre o Estado e a Igreja, o divórcio, o casamento civil, os direitos das mulheres, tudo isto fazia com que elas fossem chamadas os monstros de saias.

Que simpático. E nesse caminho que ela vai fazendo, também ela como tantas outras desobedientes que já fomos falando, também ela se esconde atrás de um pseudônimo, um nome masculino, estrategicamente escolheu um nome masculino, para poder falar abertamente de todas estas questões.

Claro, não podia escrever, sobretudo escrever, porque é diferente quando é de viva voz. Sendo uma mulher, não era simplesmente respeitada, nem lida, era mais um monstro de saias, como eles diziam. E então ela escolhe o seu pseudônimo é Afonso. E como Afonso, continua na sua luta sem tréguas, também pelos direitos da mulher. Por que as mulheres não hão de votar? Por que não podem entrar no serviço militar? Por que não podem estar nas ambulâncias a ajudar? Por quê? Tudo pôr o dedo na ferida.

A questão, ainda por cima, parecia tornar-se mais pertinente colocada por um homem. Ser um homem a dizer: "Então, mas por que as mulheres não podem votar?" Era mais fácil entrar na conversa assim.

E todas aquelas 1001 associações que nós fomos vendo nas outras revolucionárias desobedientes, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, neste caso a Associação de Propaganda Feminina, todos os organismos que servia de associativismo, às vezes tropeço, para juntar mulheres numa causa e para juntas terem uma voz mais forte, ela estava em todas. Muito amiga da Ana Castro Osório, sempre, estava em todas.

Uma coisa curiosa é que ela diz: "Não fomos nós, as feministas, que usurpamos as calças do homem. E desde já afirmo que essa deplorável moda das saias calções será por nós repudiada. Abomino e troço das mulheres que se julgam revolucionárias por usarem vestimenta excêntrica, cabelos curtos, coloridos altos. São ridículas e não prestam grande favor à causa."

Sabes como é que chamam os cabelos curtos?

Como?

Eu acho graça porque é o meu nome. Cabelos à Joãozinho.

Ah, pois é.

Os cabelos à Joãozinho. Eram os cabelos assim, à rapazinho.

Mas de repente

Uma tragédia. O Januário morre-lhe literalmente nos braços com encefalite, mesmo antes da República ser implantada.

Exato. Estamos em junho de 1910. É um jovem de 33 anos, Januário, e morre deixando a Maria Emília órfã com seis anos de idade. E à Carolina, já não lhe bastava ser mãe e trabalhadora, fica viúva, fica sem o seu companheiro.

Eu digo uma coisa, as nossas desobedientes dão cabo deles. Porque é Carolina Beatriz Ângelo, é Ana Castro Osório, é Carolina Michaelis, é Adelaide Cabeta, é Micaela Bastos Carvalho. Todas elas enterraram os maridos, sobreviveram, arregaçaram as mangas e continuaram a sua luta.

Tens razão, há aqui um padrão.

É notável. Aqui um padrão que eu assim: "epa, mais uma!" E dizia ela: "As feministas portuguesas são feministas femininas." Esta é muito gira.

Muito.

Isto é por causa do escolhinho. Sim, femininas, feministas, o que fosse, enterraram todos, seguiram em frente, arregaçaram as mangas e aqui vamos nós pra luta. Poucos meses após a morte do Januário e já em vésperas do 5 de Outubro, onde para a nossa Carolina, ali às portas do 5 de Outubro de 1910?

É isso, vamos encontrá-la onde já a deixámos no episódio quatro desta saga. Com a sua colega em tantos planos, Adelaide Cabeta, colega médica, colega da maçonaria, colega feminista, colega republicana.

E costureira.

Exatamente, e colega costureira, tal e qual. São aquelas tais duas mulheres que encontramos espantosamente para lá de toda a sua dimensão intelectual e política, ainda a terem de ser as mãos que costuram as primeiras bandeiras da República, enquanto está a decorrer o golpe, porque foi o Afonso Costa que lhes pediu, creio eu.

Sim, claro, pediu.

Mas há aí uma história gira.

Há uma história gira, porque eu entretanto conheço a bisneta da Carolina Beatriz Ângelo, e ela contou-me isto: a pequena Maria Emília, de repente, elas estavam fechadas na sala de costura da Beatriz Ângelo e a Maria Emília irrompe pela sala de costura e vê a mãe, ali há tantas horas, já cansada, com a Adelaide Cabeta a costurarem panos encarnados e verdes, e pergunta: "Mas o que estão a fazer? Que panos são esses?" "Ai, filha, estamos aqui a fazer os bibs para os meninos do asilo." E diz a Maria Emília: "Coitadinhos dos meninos, que bibs tão feios, encarnados." Agora, curiosidade. A menina já tinha opinião.

Já tinha, já tinha, pode crer.

Já com seis anos, já tinha opinião como a mãe. E agora, cereja em cima, no topo do bolo, nasceu no dia 5 de outubro de 2023, a tetraneta da Carolina Beatriz Ângelo, que se chama Carolina. Uau! Ok, não é uma história querida? Continua a perpetuar e nós temos aqui muitas fotografias publicadas no livro, que foi a família que emprestou. Entre elas a minha preferida, que é a Carolina no meio da turma de rapazes médicos. Esta fotografia é linda. É linda.

Queres mostrar aí pra uma câmera? É muito gira.

Estamos aqui a mostrar como é que ela teve coragem no meio destes homens todos e de ter sempre vingado. E por isso continua a republicana acabada de nascer a 5 de outubro de 2023, a fazer jus e honrar a sua tetravó.

E estamos a chegar aqui ao grande momento da...

Minha parte favorita da história.

Exatamente.

Esta é a parte favorita.

Tal e qual. Ou seja, então, implantação da República, passam aqui mais uns meses, ela está há um ano viúva e de repente aproxima-se a primeira eleição. As eleições constituintes da República que serão em maio de 1911. E a lei ainda não reflete de todo a luta feminista e a suposta abertura ao voto feminino. Mas diz a lei eleitoral o seguinte: que podem votar os cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família. E a Carolina vai aproveitar-se de duas questões linguísticas, que de fato têm piada. Já agora, daquela coisa muito patriarcal de se fazer sempre o plural no masculino, ou seja, a palavra cidadãos abarca, por natureza, cidadãos e cidadãs. Tem caber. Portanto, tinha que admitir ambos. E depois, já agora, o facto da palavra chefe ser neutra, ser de gênero neutro. Ela era a chefe de família, era mãe de uma criança, agora com sete anos, tinha ficado viúva, sabia ler e escrever, sabia muito mais do que isso, era médica. E era obviamente maior de idade. Portanto, vai lutar pelo seu direito a votar, que lhe querem negar, mas...

Primeiro, a ser inscrita nos cadernos.

Exatamente, nos cadernos eleitorais, como hoje em dia ainda tens que estar inscrita nos cadernos eleitorais pra votar.

Só que não.

Só que não. Não lhe queriam dar.

Pronto, não lhe queriam dar e isto não é desculpa, chefe, é uma mulher, caso nunca visto, como é que vai votar? Não é suposto. Realmente ficaram um bocado aflitos com esta trapalhada da língua portuguesa.

Não estava ali a processar.

Mas houve alguém que a ajudou. Isto é um país de cunhas. Mas de cunhas, neste caso, mais do que justas.

A Carolina recorre para o tribunal, depois da decisão negativa do Conselho de Ministros. Ou seja, é o governo que chumba frontalmente o pedido e ela recorre para o tribunal, onde o processo vai parar às mãos de um juiz já nosso conhecido.

Sim, o pai da Ana Castro Osório.

Exatamente. Portanto, já muito sensibilizado desde tenra idade lá em casa para estas matérias.

Era mais do que justo.

Claro.

Nem se discutia. Agora imaginem a cena. São Jorge de Arroios, aqui em Lisboa. Imaginem ela e a Ana Castro Osório, as duas muito bem vestidinhas, com a sua flor na lapela. Faço ideia como é que elas se sentiam Faço ideia como é que elas se sentiam. Agora se calhar estamos a ver à distância, mas já pensaram o que era na altura?

É isso, imagino.

Na altura, já tinha de ser a primeira cirurgiã.

Sabendo que basicamente o mundo não permite, tirando a Nova Zelândia e a Finlândia, que as mulheres votem.

Como é que é possível?

Já agora, podem ir rua abaixo ao som das palavras da sentença do pai da Ana Castro Osório, porque são interessantes. Ele podia ter-se limitado a uma formalidade, a esta questão linguística, mas o que ele diz mesmo é: "Excluir a mulher só por ser mulher é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo Partido Republicano."

Olha, venha ele outra vez, se faz favor, para o Portugal do século XXI.

É isso mesmo, podes crer. E portanto, aí vão elas.

Votar na lista de Afonso Costa, Bernardino Machado e Magalhães Lima, do Partido Republicano, obviamente. Agora, já pensaste a quantidade de jornalistas que estavam ali à porta?

Sim.

Estava lá o Observador, sabes?

O Observador. Na altura ainda não tínhamos o site no ar.

Mas estava todo o tipo de gente. O Réu da Manhã estava, o Joshua.

Estava o Joshua Benulo e ele que faz a selfie photo.

Um dos grandes. E no fundo, o que a Carolina Beatriz Ângelo foi, foi a primeira influencer da história. Portanto, ela criou o gosto por votar. Por isso, quando hoje vimos 40% da abstenção nas eleições, enxerguem-se portuguesas e portugueses.

É verdade.

A Carolina rasgou as vestes para nós todas podermos votar.

É verdade.

Agora ficamos em casa, mulheres do meu país. Então, como é que é?

A notícia corre mundo, porque de facto era perfeitamente insólito o que se passa. Mesmo as sufragistas britânicas, por exemplo, em 1913 vai haver um episódio dramático, há uma mártir da luta pelo voto feminino, que é a Emily Davidson, que se atira para a frente do cavalo do rei. E morre. O Reino Unido só em 1918 vai consentir o direito de voto às mulheres, e por quê? 1918 é o fim da Primeira Guerra, portanto morreram muitos homens, as mulheres adquiriram um determinado poder até financeiro.

Chefes de família.

Exatamente, chefes de família. E então lá é concedido. Os Estados Unidos vêm a seguir, em 1920. Espanha só em 1931 e vai voltar atrás, depois no franquismo. Brasil, 32. França, 1945, já após a Segunda Guerra, pelas mesmas razões que a Inglaterra após a Primeira. E até aos dias de hoje, vale a pena dizer que a Suíça só em 1971 concedeu o direito de voto às mulheres. 1971, é chocante.

É chocante.

E julgo que o último país a ter concedido foi a Arábia Saudita em 2015 e apenas a nível local.

Oh, meu Deus! E ó Sandro, explica só aqui um bocadinho esta imagem linda da República, que nós temos a mulher de bustos.

Sim, é verdade. Nós temos o símbolo da República em Portugal, é uma mulher de peito desnudo, digamos, baseada na Marianne francesa. Há uma série de outros países. A Marianne francesa foi após a Revolução.

Que é uma mulher nua.

É uma mulher nua, exato. E por que é uma mulher nua? Porque era a República.

Feminina, "a".

Era "a", e era a mãe, e era protetora, e era guerreira, e providenciava, e era esta série de coisas.

Podemos falar, fumada.

Exato. E é curioso, porque é este símbolo que é encontrado para a República e na verdade, a República vai resistir muito a dar direitos à mulher.

É verdade, porque depois reverte.

Reverte.

Dois anos depois, em 1913.

Sim, rapidamente. É muito polémico este episódio. Começa a haver uma grande discussão para rever a lei. A própria Carolina vai recuar e tentar lutar então, pelo menos, que o direito de voto fosse concedido às mulheres mais instruídas. Isto, aliás, vai ficar uma cisão dentro do movimento feminista.

Dentro das mulheres.

Exatamente. E ela refugia-se disso, destas questões, deste debate político, concentrando-se na sua profissão, no seu consultório. Até que, Maria João?

Até que acontece aqui o que no fundo é o reflexo da vida louca que ela tinha para trás e para diante, e para diante e para trás, com tudo. No dia 3 de outubro de 1911, quando ela chega a casa, depois de uma reunião da Associação de Propaganda Feminina, que demorou até altas horas da noite, ela só tinha 33 anos. Damos a noção que é a mais nova de todas estas nossas desobedientes. Estava esgotada, durante a viagem de carro elétrico, sente-se mal e acaba por morrer de cinco por cardíaco nessa mesma noite, deixando a Maria Emília órfã de pai e de mãe, com apenas oito anos.

Órfã de pai e mãe, aos oito anos.

O que é absolutamente...

Ela chegou a ficar cansada, revoltada, como nós vimos tantas outras que acabaram por baixar os braços, só não teve idade para isso, não chegou a ter tempo.

Acho que não teve tempo.

Vive muito em pouco tempo.

Como ela dizia. E também muita gente foi enterrar precisamente no dia 5 de outubro de 1911.

É curioso, ela morre dia 3 de outubro de 1911, portanto, o seu enterro decorre durante o dia 5 de outubro de 1911, exatamente um ano após a implementação da República.

É incrível. Parece uma coisa de filme.

Na última carta que ela escreveu à amiga, à Ana Castro Osório: "A nossa associação continua com toda a força e vigor. Já temos 70 e tantas sócias e algumas de valor. Nas assembleias gerais da loja, têm sempre palavras elogiosas para a nossa associação. Não imagina como elas estão de volúpia para nós."

Verdade. E acrescentando aqui, a propósito da pergunta da Margarida, ela chegou a ficar um bocado desiludida com a República. Acho que não teve tempo para se afastar dessa luta, mas teve tempo para ser crítica e escreveu: "A não ser o nosso Afonso Costa, o resto não vale dois caracóis".

Não teve tempo.

A linguagem intemporal. Este direito morre com ela. Mas como dizia a Margarida, é uma coisa de filme. Ela vai enterrar com a imensa gente que vai ao funeral, em simultâneo com as comemorações do primeiro aniversário da República.

É uma celebração, é uma festa.

Tens razão. Se é para ir, que seja assim. Este direito morre com ela, o direito de voto das mulheres. A lei é alterada em 1913 para especificar que eram cidadãos do sexo masculino. Certo?

Alexandre, por quê? Porque elas tinham um pouco de medo que os padres influenciassem o voto feminino, as pessoas menos cultas.

Essa é a teoria republicana, eles eram anticlericais, isso sabemos. Então diziam: "As mulheres são muito influenciadas pelos padres".

Mais vale não irem, ficarem em casa.

Isso, então, no mínimo, era preciso ceder ao argumento da Carolina, que era ao menos as instruídas que pudessem ir. Acho que é uma desculpa de mau pagador. Fazendo uma síntese rápida de como é que foi, para terminarmos já pertinho do final da nossa conversa, de como é que foi esta evolução do voto em Portugal. É a Adelaide Cabete, que vimos no episódio quatro, que vai ser depois a mulher seguinte a votar em 1933.

33.

33.

O tempo que passou.

O tempo que passou, porque no Estado Novo é consentido o direito de voto às mulheres em determinadíssimas circunstâncias. Tem que ser viúvas ou legalmente separadas, ter determinada instrução, ter determinadas posses financeiras. E depois estávamos no Estado Novo, não havia provavelmente muitas eleições, certo? Portanto, era ditadura, não dava muito para exercer. Em 1946, alarga-se o direito de voto às mulheres, esta é a ideia, aos homens que sendo analfabetos, pagassem ao Estado pelo menos 100 escudos de impostos e às mulheres, chefes de família e casadas, que sabendo ler e escrever, tivessem bens próprios e pagassem pelo menos 200 escudos de contribuições.

Ou seja, tudo uma questão de dinheiro.

Tudo uma questão de dinheiro, exato. Em 68 vai sendo mais alargado até 74. Mas queria só deixar com esta nota. Um século antes, eu não sabia disso, achei isto brilhante. Em 1822, estávamos no início do regime liberal em Portugal, da monarquia liberal, quando estão a fazer a Constituição, há um senhor deputado chamado Borges de Barros, fiquei contente porque era Borges, mas há aqui uma reviravolta. Borges de Barros apresenta uma proposta para o direito de voto das mulheres com seis filhos legítimos. Isto é genial. Diz ele, mas isto é muito modernista: "Às mães não se deve negar o direito de votar naqueles que devem representar a nação, pois que ninguém dá mais ao país do que quem lhe dá os seus cidadãos". E diz mais, ele até diz: "Como é que a chefe de Estado, que é a rainha, pode ser uma mulher e não pode votar?" E então percebendo que isto é difícil socialmente, ele diz: "Que se consinta, pelo menos, o direito de voto às mães de seis filhos, enquanto não for permitida a participação nas eleições das outras mulheres que tiverem os requisitos que a lei exigir." Não sei como é que ele chegou ao número seis, acho brilhante.

Sim, o mínimo possível.

É isso, devia ser.

A meia dúzia.

A proposta acaba chumbada, lamentavelmente, pelo deputado Borges Carneiro, outro Borges. Diz ele que se trata de um exercício de um direito político e deles são as mulheres incapazes.

Muito bem, somos incapazes de um direito político. Ficamos a saber.

Quem revisitar a história de Carolina Beatriz Ângelo com os olhos do século XXI, dificilmente a entenderá, como nenhuma outra mulher da sua geração. Carolina temeu que a voragem dos tempos apagasse a luta das revolucionárias. Gostava de acreditar que, talvez um dia, as suas conquistas tivessem o poder de inspirar as raparigas do futuro a serem destemidas, a suscitarem respeito e consideração, a não se deixarem embalar na cantilena do sexo decorativo, o sexo que se usa e se espözinha. Na verdade, já uma outra jovem mulher despontava na mesma luta, levando-a para as páginas dos jornais. Chamava-se Virgínia Coresma e, também para ela, o feminismo era ação. Logo em agosto de 1906, protagoniza um duelo nas páginas do Vanguarda contra a guerra social. Para Virgínia, tal como para Carolina, a emancipação da mulher não se fazia por decreto. Era urgente sair à rua e dar o corpo às balas. A desobediência continua no próximo episódio. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota.

E quem era ao certo esta mulher?

Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.