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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir pro céu, mas são as más que mudam a história. Como uma nova doença contagiante, o cinema propagava mitos, modelos, modas. A arte suprema da coquetrice. As senhoras fitavam o ecrã com a mesma ansiedade com que se miravam no espelho. Nessa época, Virgínia instituiu um prêmio de 5 mil francos para galardoar o melhor filme francês do ano. Tornou-se produtora de filmes. Pretendia provar que tal tarefa estava ao alcance de uma mulher portuguesa. "As Desobedientes", episódio sete: luzes, câmera, ação. Virgínia de Castro e Almeida foi a primeira mulher portuguesa a escrever e a produzir cinema, muitos anos antes do que provavelmente imagina. Mas para lá chegar, primeiro teve de viver o filme da sua própria vida. Eu sou a Margarida Vila Nova e tenho comigo a Maria João Lobo de Carvalho e o Alexandre Borges, que é como quem diz: uma atriz, uma escritora e um guionista entram num bar. Olá, Maria João. Olá, Alexandre. Quem foi esta menina má, de boas famílias, e por que eu suspeito que a história dela nos toca particularmente?

Isso vamos saber no fim.

Ah!

Não, ela de fato nasceu num berço de ouro e era uma predestinada. Imaginem lá o nome com que ela veio ao mundo. Virgínia Folque de Castro e Almeida Pimentel Siqueira e Abreu, filha mais velha do primeiro Conde de Nova Boa. Chega para vos impressionar. Mais beta, não há.

Nem era preciso tanto.

Nem era preciso tanto, exatamente. Tal como todas as meninas do seu meio e da sua geração, ou seja, privilegiadas, tinham a sua instrução em casa feita por mestras contratadas pelos pais, umas melhor do que as outras, mas todas tentavam ser desembaraçadas, sobretudo em francês. Primeiro alemão, depois inglês, costura, piano, um pouco de tudo. Só que ela era um bocadinho diferente. Ela, a nossa querida Virgínia, trocava as brincadeiras normais das crianças por escrever com uma caneta da Paro, por inventar histórias, por contar histórias aos outros. Tudo isso era o que a distraía mais. Entretanto, arranjou um petit nom para ela própria, Gi. E Gi ficou até o fim da vida nas cartas para os seus amigos, em toda a correspondência dela. Ela, quando é mais íntima, assina sempre como Gi.

E só um parêntese, é que ela, a certa altura, também se apelidou de Menina das Tranças Pretas, que eu ainda fiquei a pensar se isto estava relacionado com o fato. Quer dizer, o fato estaria relacionado com algo ou se nada a ver.

Não, isto era ela. Acredito que ela, vimos nas fotografias, é bastante morena, o cabelo bastante encaracolado. Certeza que tinha umas tranças com os laçarotes encarnados.

Ok.

Bom, mas com oito anos põe-se a escrever peças de teatro. Na altura, era muito comum as crianças das casas ditas chiques irem representar. Muito vimos, por exemplo, no "The Sound of Music", "A Música do Coração", que eles vão representar as canções perante as visitas.

Nas festas de família.

Nas visitas. Era o que elas faziam. Vinham visitas e elas representavam a peça de teatro para os adultos.

Eu acho que também ainda me pedem: "Olha, tu não podes dizer aí um poema, não podes vir cá dizer umas coisas? Faz lá a cena não sei o quê". Acho que ainda hoje as pessoas-

Faz lá um pouquinho de um monólogo.

Essa coisa dos artistas. "Vai lá brincar aos artistas".

Entretanto, é muito engraçado. Os pais tentam arranjar uns amigos, filhos de amigos dos pais para eles brincarem, mas a nossa Gi não tem qualquer interesse nos amigos que lhe são impostos e o que ela gosta mesmo é de escutar à porta dos salões onde os adultos se encontravam. Isso tem graça porque isso aconteceu comigo tal e qual em pequena, que tinha a sorte de ter um pai escritor, amigo de outros escritores dessa geração, David Mourão-Ferreira, por exemplo. E lembro-me de estarem a recitar poemas e ao mesmo tempo a contarem anedotas picantes entre eles e nós estarmos a escutar à porta. Mas ela não era com o intuito de ouvir anedotas picantes, era com o intuito de ouvir as opiniões deles. Por exemplo, acredito que não falassem abertamente sobre a República, mas talvez do papel da aristocracia nessa altura, ou não sei, ou do rei, ou as políticas de João Franco, não faço ideia. O fato é que ela tomava a posição. Ouvia uma pessoa que lhe interessava, porque gostava mais dessa pessoa. Por exemplo, ela gostava muito do que a Margarida estava a dizer. Gostava muito da Margarida como pessoa. E gostava muito do que a Margarida estava a dizer. E então adotava as opiniões da Margarida para depois, noutro contexto, noutras pessoas e noutros grupos, expressar a sua opinião. No fundo, era o grilo falante da Margarida Vila Nova, ou seja, como gostava muito dela, adotava por suas as tuas opiniões e transmitia-as, sem muitas vezes perceber o que é que as opiniões queriam dizer exatamente ou o que é que estava por trás delas todas. Portanto, temos aqui uma menina que escrevia peças de teatro, que se chamava Gi, que tinha tranças pretas, que gostava muito mais do mundo dos adultos, que não se achava especialmente bonita, que não gostava das coquetries típicas da época, que se interessava por ler, mas mais do que por ler, era aquela menina que representava. Ok? Gostavas de representar, Margarida, quando eras pequena?

Gostava.

Gostavas de fazer peças de teatro?

Gostava. Gostava. Ainda hoje gosto, vê tu bem.

Olha, misturou.

Ainda não te passou.

Ainda não me passou.

Isto porque depois vai ter a ver com o que a Virgínia escolhe, não é?

Claro.

Bom, tal e qual como nas outras meninas de família, com 20 anos ela casa-se com o João Prego, também um beto, 15 anos mais velho, nascido numa família com muitos títulos de Guimarães, e é claro que lhe foi atribuído.

15 anos deve ser uma coisa-

Exatamente.

Para quem tem 20, é quase o dobro.

Tinha 35.

Exato.

Mas este marido foi-lhe atribuído Atenção. Era um homem enérgico, respeitador.

Bom pai.

Supostamente seria um bom pai. Bom, tudo isso iria dar bons frutos.

Deu três frutos.

Deu três frutos. Um chama-se Luiz, outro se chama José Lopo, não tem nada a ver com o meu nome, Lopo é o nome próprio, e Luísa. Dois rapazes e uma rapariga. E a verdade é que quando se casaram, realmente os dois, isto a Emília toujours en prégo, contavam histórias às crianças antes de adormecer. Não era muito comum neste tipo de famílias. Tinham as empregadas, as amas, que contavam, que se ocupavam disso. Não, eles próprios brincavam com eles, contavam histórias, inventavam histórias e, portanto, podemos dizer que os primeiros anos de casados até correram sobre rodas. Iam viajar, como era típico da classe. Viajavam pela Europa do Norte, faziam cruzeiros, com certeza. Mas às tantas, este desencanto acontece muitas vezes quando os filhos já chegam a uma idade mais razoável e em que começa a haver um cansaço do casamento. Pronto, e foi o que aconteceu.

Maçou-se.

Aborreceu-se. Aquela história do papel de anjo do lar, que era ela que era a responsável pela harmonia e pela paz, isto não batia muito certo com as ideias que iam começando a fermentar na cabeça dela. Bom, ela começou a perceber que de alguma maneira e de alguma forma, talvez a escrever, talvez com outro tipo de arte, pudesse ser útil à sociedade e pudesse, no fundo, retribuir a educação privilegiada e o meio privilegiado onde ela tinha nascido e, portanto, tinha mais responsabilidades em passar.

Achas que a escrita foi um refúgio para a maçada que ela começou a sentir do casamento que vivia? É porque fica aqui uma solução. Começamos todos a escrever, para sermos capazes de aguentar um casamento longo.

Não, é o que ela dizia. Os pares dela, as amigas dela e para todas elas, ela tinha que ser irrepreensível. Como mãe, como dona de casa, como isto, como aquilo. E isso não era a Virgínia Castro Almeida. Tanto que ela escreve assim, num dos livros mais importantes dela, chamado "A Mulher". História da mulher, a mulher moderna, educação. Isto é um livro fundamental, em 1913, em que ela se liberta um bocadinho dos seus próprios preconceitos. Mas voltando atrás, o que ela diz nesse livro, por exemplo, isto é muito engraçado o que ela diz: "Por uma evolução lenta e segura, habituei-me a julgar o que se me apresentava, não através do que os outros pensavam, mas sim através do meu próprio raciocínio, que me foi libertando de preconceitos."

É o tal amadurecimento, em contraste com a tal história de quando era pequenina, ouvia e adotava as ideias dos outros.

Sim, e então começou a pensar que de fato ela tinha que se libertar do meio. Isto é muito típico, a gente pensa assim. Ela, para as amigas dela, conservadoras, era uma libertina e uma revolucionária. Para as amigas revolucionárias e libertinas, era uma beta tradicionalista. Lembram-se do Lawrence da Arábia?

Sim.

Para os árabes, ele era inglês, para os ingleses, ele era árabe. E isto é um bocadinho do que acontecia à Virgínia, pertencia a um meio, mas nesse meio era excluída. No outro meio, também era excluída pelos lados opostos. Não se enquadrava, era uma carta fora do baralho.

Para os meus amigos de esquerda, sou sempre o fascista, para os meus amigos de direita, sou o esquerdalha. É tão difícil.

É isto mesmo, é mesmo difícil. Hoje trouxemos uma surpresa para quem nos estiver a ver em YouTube. Onde é que está a nossa fada tentadora, minha amiga? Está ali.

Está aqui.

Pronto. Então mostra aí para a câmera, Alexandre. Para quem não esteja a ver, é o primeiro livro publicado da Virgínia Castro Almeida, em 1895, tinha ela 20 anos e escreve "A Fada Tentadora", claro que assinando com o pseudônimo Gi. E quem é que faz o prefácio para este livro, Alexandre?

A nossa querida Maria Amália Vasto Carvalho, a nossa primeira protagonista. E como temos visto também uma das primeiríssimas entusiastas da literatura infantil em Portugal. E ela escreve nas primeiras linhas do prefácio: "A juvenil, simpática e talentosa autora deste conto pede-me que o apresente ao público, ante o qual pela primeira vez aparece trazendo nas mãos um feixe de flores. Não posso recusar-me ao gentilíssimo convite". Referindo-se à Virgínia de Castro Almeida. E depois mais à frente e de forma mais lapidar, diz: "O que as crianças pedem a um livro é que seja inverosímil, que seja imprevisto, que seja divertido e que mude muitas vezes de cenas". Gosto imenso desta frase, que mostra de fato um conhecimento pragmático do que é a escrita e o storytelling.

E do conhecimento que é para a criança.

Exato, podes crer, é mesmo isso. Que mude muitas vezes de cenas é um bom conselho. Antes de haver argumento, antes de haver guionismo, ela já tinha esta noção, mas sobretudo estas duas primeiras, que seja inverosímil, que seja imprevisto. Isso é magnífico, tem muito a ver, de fato, com a forma como se consegue entrar no imaginário.

E como tu estás a puxar para a imaginação das crianças.

Exato.

Por essas e por outras, é que ela conseguiu logo um contrato com a Livraria Clássica Editora, ainda em 1917, e criou uma coleção gigantesca chamada Biblioteca para os Nossos Filhos. Foi logo a primeira. Claro que os filhos eram o laboratório dela.

Claro.

Para onde ela se expressava. E, na verdade, nunca mais deixou de escrever para crianças. Ou escrevia histórias, como vai escrever mais para o fim da vida, mais instrutivas, digamos, sobre história, sobre literatura ou sobre personagens importantes. Lembramos que fez uma coleção chamada Grandes Portugueses, em que biografou, entre aspas, de uma forma simples para as crianças perceberem com muito espírito de aventura, o Dom Fuas, por exemplo, a Rainha Santa, a Inês de Castro. Se formos ver à Wikipedia a quantidade de livros que ela escreveu, estávamos aqui três horas só a ler os nomes.

E havia uma preocupação pedagógica?

Neste caso, havia. Houve um muito engraçado, que se fosse hoje Se eu escrevesse hoje um livro destes, era apedrejada, chamado "A Mulatinha". E o valor do livro foi oferecido à Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Mas ela própria é meia mulata.

É, é nova goa.

É nova goa, exato. Mas mesmo assim ela podia ser apedrejada hoje, por causa dessa questão sobre quem é que tem direito a usar esta palavra.

Era apedrejada na mesma. Mas o facto é que ela escrevia tanto estas histórias mais sérias de heróis que existiam em Portugal para ensinar as crianças, como se passava para o outro lado da vida e escreveu aquele livro que eu li muitas vezes. Esta é uma edição moderna, já da Clássica Editora também, mas já é uma edição de capa dura, que se chama "Dona Redonda" e que eu acho que é muito baseado na Alice no País das Maravilhas. A Dona Redonda e a sua gente.

Há que dizer que estes livros são teus, Maria Joana.

Estes livros são todos meus. Estavam nos estantes dos meus pais e depois meus. Um deles está dedicado ao meu pai, pela Virgínia de Castro Almeida, que é A Fada Tentadora, logo o primeiro, precisamente. E já vamos explicar porque isto tem uma razão. Escreveu o livro, por exemplo, O Céu Aberto ou Em Pleno Azul. O Céu Aberto era uma viagem que eles fizeram de barco e explicava os sítios por onde passava. E Em Pleno Azul era o que infelizmente vai acontecer depois aos dois filhos dela, que foram internos num colégio na Suíça. Claro que isto era para gente que tinha muita capacidade financeira, mas os miúdos foram levados para a Suíça e ficaram num colégio interno. E o que ela conta em Em Pleno Azul é exatamente a experiência de dois rapazes num colégio interno. E isto já o fez numa altura muito tardia da sua vida, muito depois de ter acontecido isto aos filhos. Escreve As Lições de André, escreve Pela Terra e Pelo Ar, narra tudo o que há para narrar, de sítios, geografias, faunas, floras, heróis, tudo. Era, de facto, uma super contadora de histórias. E no meio disto tudo, com quem é que ela se ocupa muito a escrever, na altura em que havia correio, cartas para cá, cartas para lá, fazia parte da excitação juvenil e infantil, receber cartas e mandar cartas, a grande amiga Ana de Castro Osório.

Com quem mantém longa amizade e troca cartas até o final dos seus dias.

É giro porque nós hoje em dia, o Alexandre, que é guionista e escreveu livros, e eu dentro das minhas amigas, toda a comunidade literária em Portugal se conhece uns aos outros. Acho que conheço todos os autores meus contemporâneos. Já estive com eles mais que uma vez. As pessoas conhecem-se, apesar de sermos muito mais. Agora imagina, neste meio pequenino, nesta altura, eram as amigas delas, eram as únicas que pensavam, liam pela mesma pauta da música. Queriam as mesmas coisas, como antes. É claro que há ali o began, como já contámos no episódio anterior, entre o Luís, o futuro Conde de Nova Goa e a Ana de Castro Osório. Imaginemos que não ia dar certo. Como é que ela continuava a desfrutar os seus múltiplos interesses, mas a verdade é que o namoro acabou, não correu nada bem, mas elas as duas ficaram para sempre amigas para a vida. E em matérias feministas também se encontravam, embora a Ana muito mais na cabeça do touro, passe a metáfora, muito mais na vanguarda e a Virgínia um bocadinho mais recatada, muito ciente das questões de educação e da formação da mulher. Mas aliás, ela escreveu uns livros nessa altura que tinham um título engraçado: Como Devo Governar a Minha Casa. Eu devia ter aprendido se lesse isto.

Não é nenhum destes, espera.

Não, não é nenhum destes, que eu não tinha lá em casa, por isso é que eu fiquei uma péssima dona de casa. Como devemos criar e educar os nossos filhos. Mas enfim, era uma luta diferente. A da Virgínia não era propriamente a mesma luta do que as grandes feministas.

Em 1913, Virgínia sente que nada mais aprende ao marido. Convicta de que a realidade, e não apenas a teoria, mudou com a recém-aprovada lei do divórcio. Torna-se uma das primeiras mulheres a requerê-lo em Portugal. No entanto, na prática, ainda só é concedido a mulheres consideradas profissionalmente ativas, com meios de fortuna próprios e poucos filhos. E ainda assim, com sérias consequências para as suas vidas pessoais. Como ia Virgínia enfrentar as más-línguas das boas famílias? E que twist vai levá-la, afinal, na pequena intriga ao grande e cá? Para descobrir na segunda parte das Desobedientes. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Segunda parte das Desobedientes. Estamos a acompanhar a história de Virgínia de Castro e Almeida, a primeira guionista e produtora de cinema em Portugal e uma das primeiras mulheres portuguesas a pedir o divórcio. As más-línguas queriam fazer dela a má da fita, mas não estavam bem a ver o filme.

Ela depois de tanto João Prego na vida dela, meteu prego a fundo. E resolveu pedir o divórcio, só que não é pedir o divórcio, não é aqui beber um café. Para já era todo um processo, depois era preciso muito dinheiro e depois aguentar a sociedade a esfaqueá-la em praça pública. Basicamente, estamos a falar disto. E o processo era lento, no fundo, não havia nenhuma razão plausível, era só porque se fartou, tinha a sua vida e tinha outros planos e provavelmente, deixou de sentir o amor palpitante ou provavelmente cria outros amores, como vamos ver a seguir. Mas a coisa não estava fácil. E é claro que ela foi pedir logo uma cunha à Ana Castro Osório, cujo pai era juiz, para dar uma palavrinha aos juízes do processo. Enfim, típico da Virgínia Castro Almeida, que é meter sempre cunhas e ir sempre pelos caminhos das pessoas e das influências que ela conhecia. E então, contrata para advogado do divórcio, nada mais, nada menos do que Afonso Costa. Devia ser o mais poderoso dos advogados e capaz de conseguir. Mas agora a nossa Margarida vai ler a carta que ela escreve à Ana, que ela estava já desesperada e precisava mesmo que o processo avançasse rapidamente e sobretudo, o que ela queria era ficar com os filhos, coisa que não conseguiu, como vamos ver. A Luísa ficou com o pai e ela ficou com os dois rapazes, mas mesmo assim não foi muito fácil.

"Apesar de ter para mim a razão, a justiça, as leis, o direito e todas essas coisas que eu ingenuamente julgava formidáveis, o meu processo está longe de se poder considerar ganho. Eu não tenho, como a Ana, jeito nenhum para conduzir rebanhos. Vejo que há correntes que me prendem, ferrugentas e pesadas, que nunca poderei requebrar. Sirvo apenas para sonhar, o que é pouco, pelos tempos que vão correndo. O caminho que escolhi é cada vez mais árido e solitário. Como única e imensa riqueza, tenho uma consciência tranquila. Não me queixo. De que serve? As lamúrias enfraquecem e eu preciso ainda de uma grande força de resistência para ir até ao fim." Isto foi a luta da vida dela.

Pois, sim. Foi, com certeza, sobretudo pela forma como era depois olhada pelos seus pares. As próprias amiguinhas da classe beta, todas voltaram contra ela. Ficou sozinha.

E perde o processo, fazem-lhe pagar as custas e é acusada de ter raptado os filhos, de sequestrar os filhos, e por aí fora. Foi uma data de calúnias e injúrias feitas e que foi, imagino que avassalador.

Deve ter sido um escândalo à época.

Feito com que ela embarcasse para Paris. Mas pronto, isso veremos mais à frente.

Vamos ver já.

A ideia foi mesmo isso, logo depois, 1900 e..., quando ela acaba de separar, já devia ser a entrada dos anos 20, que isto demorou anos. Eis que se muda para a França e que passa longas temporadas em Genebra, muitas vezes para ir ver os filhos que estavam no colégio interno na Suíça. Mas, entretanto, por cá, ela já tinha uma companheira de seu nome Mathilde, com quem ia por vezes passear à Nazaré ou passear por outros sítios, e já começava a ser olhada um bocadinho de lado. Mas a coisa esmoreceu até que chega a Paris, no princípio dos loucos anos 20, e agora tem a palavra o nosso querido Alexandre Borges.

Tal e qual. No início dos loucos anos 20, pós-guerra, música, festas, estupefacientes, que é aquela palavra que eu digo sempre para tentar parecer um agente da PSP, que não tem nada a ver com isto. Chega no início dessa época formidável e que é também, naturalmente, uma época de desenvolvimento das artes e, em particular, de uma, que é o cinema. E queria partilhar convosco isto que é um dado curioso, que de facto se fala muito pouco e que acho que é bem ilustrativo das questões de género, que é: no cinema, nos últimos anos só que se começou a dar Oscars a mulheres. Às vezes até podemos achar estranho que, de repente, por exemplo, aquela classificação da Sight & Sound, que faz de 10 em 10 anos o melhor filme de sempre, durante anos foi o Citizen Kane, depois foi o Vertigo, e de repente, na última, passou a ser a Jeanne Dielman, da Chantal Akerman, que nunca tinha estado sequer na tabela dos 100 primeiros. Às vezes vai um bocado para o outro lado. De repente, às vezes quer fazer-se justiça de uma forma eventualmente exagerada. Mas a verdade é que a maior parte dos filmes, isto é, mais do que não lhes dar prêmios, a maior parte dos filmes não é, como sabemos, dirigida ou escrita por mulheres. Há um documentário de duas realizadoras francesas, muito bom, de 2016, chamado E a Mulher Criou Hollywood, a brincar com o E Deus Criou a Mulher, com a Brigitte Bardot, que faleceu há poucos meses. E segundo os cálculos delas, isto foi há 10 anos, terá melhorado um pouco, só 8% dos blockbusters e 20% do cinema independente era realizado por mulheres. Mesmo no cinema independente. Pouquíssimo. No entanto, nos primórdios de Hollywood, e lá está, aqui mais ou menos no início dos anos 20, cerca de metade dos filmes eram realizados por mulheres em Hollywood, 50/50. Portanto, o que é que aconteceu entretanto? É muito giro ver que-

Não havia homens, estavam na guerra.

Exatamente. O cinema começa, como nós sabemos, ali mais ou menos no fim do século XIX, mas Hollywood começa em 1911, o primeiro filme feito em Hollywood, porque quando a indústria se começa a desenvolver, vão para Hollywood porque têm imensa luz natural. Os dias são muito longos, é por causa disso. É um planalto, portanto, tem essa enorme vantagem, está na costa oeste e podem filmar durante mais horas. E a guerra começa em 1914. Primeiro, sem o envolvimento americano, mas depois com o envolvimento americano. Obviamente, na Europa é o coração da guerra, portanto, muitos homens estão na guerra e no início do cinema. Portanto, há muitas mulheres a serem guionistas, a serem atrizes, a serem realizadoras. Quando é que a coisa muda? No final dos anos 20, há a Grande Depressão, o grande crash bolsista de Nova York. E depois começa a era da Grande Depressão, muitos homens vão pro desemprego e a indústria do cinema já é uma coisa fluorescente, já começa a dar dinheiro. E é aí que os homens vão inundar a indústria cinematográfica e tomar conta dos postos de trabalho.

Mais uma vez foram os meninos maus que mudaram a história do cinema.

Exatamente, particularmente os mais bem pagos. E aproveitava a deixa, também porque anda a descobrir este tema, para falar de duas ou três mulheres que foram importantes nesta altura do cinema e que nunca são faladas. Com menos razões de queixa é a Mary Pickford, que era uma estrela, uma atriz e é uma das criadoras da United Artists. Normalmente, só falamos do Chaplin, falamos da United Artists como a produtora do Chaplin, mas também tinha o Griffith, o Douglas Fairbanks e lá está a Mary Pickford. Há uma senhora francesa chamada Alice Guy-Blaché, pioneira do cinema francês, argumentista, realizadora.

Devia ser amiga desta.

Devia ser, podes crer.

Com certeza. Não encontraram-se.

Usava elencos interraciais, que é alguma coisa engraçada. Terá feito das primeiras experiências sonoras. O primeiro filme sonoro considerado é o "The Jazz Singer", que é o primeiro em que as personagens já falam, não é? Ao invés de terem os intertextos. Mas ela já gravava alguns sons, não as falas, isso era difícil, mas alguns sons ambientes e já os colocava nas fitas. E fez uma coisa mais importante: é possível que tenha dirigido o primeiro filme de ficção ou o primeiro filme narrativo da história. Ela conheceu os irmãos Lumière, nós normalmente pensamos nos Lumière. Mas os filmes dos Lumière eram aquelas coisas: a saída dos trabalhadores da fábrica de não sei onde. Ou o comboio. Eram coisas documentais, no fundo. Portanto, o primeiro filme narrativo seria um filme chamado "La Fee Aux Choux", que não é lindo em português, em português é a fada do repolho. Mas é preciso começar por algum lado. É de 1896 e terá sido o primeiro filme narrativo. Por exemplo, "A Viagem à Lua", do Georges Méliès, é só de 1902, baseado no Júlio Verne, como sabemos. E depois há mais duas, três fundamentais. Louise Weber, que terá sido uma das pioneiras do cinema a cores. Francis Marion, dois Oscars para melhor argumento. Escrevia, de resto, muito para a Mary Pickford, que eu falava há pouco. E depois há uma Dorothy Arzner, que nos anos 30 e 40 já seria a única mulher a realizar em Hollywood, uma resistente. Tudo isto para nos dar o contexto surpreendente em que vai aparecer a nossa Virgínia Castaldim.

E em que institui logo um prêmio de 5 mil francos, que era uma loucura, portanto, estão a ver que pobrezinha ela não era, mesmo pagando as custas altas do divórcio, para galardoar o melhor filme francês do ano. Foi aí que ela começou.

E é assim que se torna produtora de cinema.

Sim, mas de certeza que ela conheceu algumas destas que o Alexandre falou. Garantidamente. A partir de então, como a Margarida diz, resolve: "Deixa cá ver, se elas são capazes, eu também sou capaz". E vai se tornar produtora de filmes. Foi a primeira mulher portuguesa, não só a produzir, mas como o Alexandre também dizia, a fazer tudo.

Isso.

Era ela que escolhia os atores, realizava, que dava uns toquezinhos na máquina.

Exatamente.

Era ela que via os planos e tudo. Portanto, no fundo, era uma faz-tudo do cinema. Isto estamos a falar em 22, que inaugura a tal empresa, Fortuna Filmes, em Paris.

Gostava só de saber se Fortuna é porque é fortuna, que é a fortuna que lhe permite fazer aquilo.

É sorte.

Se é a sorte. Engraçado.

Não sei.

Deve ser. Deve ser um bocado a fortuna. Exato. A felicidade, no fundo.

Com capitais próprios, portanto, estão a ver. Algumas instituições culturais fortuna. Parisienses lá ajudaram. Monta uma sede da empresa na Rue de Montmartre, em Paris, coração dos artistas, e abre uma delegação em Lisboa também. Na Rua de São Bento, aqui mesmo no centro de Lisboa. Ela estava determinada a levar a público filmes muito bons, de grande qualidade. Para a época, até deviam ser. Não sabemos, porque um deles, foram só dois.

Um deles a partir de um conto dela.

Isso.

Um deles, Margarida, exatamente, "A Sereia de Pedra", a partir do conto com o título fascinante "Obra do Demônio". Sobre uma criança que foi abandonada num convento e depois pelo amor dos outros, procura encontrar um caminho, etc. E o segundo, que se chama "Os Olhos de Alma".

Escrito pelo filho.

Escrito pelo filho. É tudo em família.

Fica em família, com certeza.

Que era o gerente da produtora também.

Exatamente, eram todos eles. E este sim, quem quiser e tiver interesse, "Os Olhos d'Alma" está disponível na Cinemateca. Não está online, tem que ser lá, mas podemos ver este registo. Mas de fato, foi uma pedrada no charco ela ter conseguido fazer estes dois filmes, e eu fui ver. Ela nunca pensou que aquilo ia custar tão caro.

Exato.

O primeiro custou 400 contos e o segundo custou 600. Eu fui fazer, com a ajuda da inteligência artificial, uma continha rápida, descontabilizando a moeda de hoje e com a inflação, com todas as variantes. E dá a módica quantia de cerca de meio milhão de euros cada filme.

Pois, na verdade, é mais ou menos o apoio base do ICA nos tempos que correm.

Sendo que eu não sei o segundo, mas o primeiro é uma curta-metragem. Portanto, é muito dinheiro para uma curta. Claro que naquele tempo era muito mais caro fazer.

Foram só 400 contos, o outro foi 600, foram só mais 200. Ou seja, à volta disto. Estão a ver o que isto significa. Mas parece que não correu assim tão bem a ideia dela como produtora, guionista, argumentista e tudo isto, porque de facto os atores, tu conhecias este realizador?

Não. O Roger Lion? Confesso-te que não, mas achei graça a umas coisas que encontrei.

É um dos mais bem pagos de lá.

Pelos vistos era. Já tinha 15 boas fitas no currículo. Mas ela disse: "Os filmes portugueses até agora produzidos não são perfeitos". Achei graça de já haver esta consciência. Não são perfeitos. Por vezes a ação é arrastada. Já estava a criar um estilo. O entranho banal, para os grandes plateias acostumados a ter sob os olhos beleza e arte, ouvindo uma música feita expressamente para o que estão vendo. Com o Lion vem ainda a sua própria mulher. Ela foi contratar o Roger Lion porque queria fazer a coisa em bom. Mas o filme, apesar de tudo, é bem recebido.

Sim, na crítica em França.

Exatamente, é isso mesmo.

E atenção que como distribuidora ela colocou os filmes a serem passados nas mais diversas salas da Europa, não só em França como em Portugal também. Nós como portugueses que somos, claro que tivemos que sempre dar uma espetadinha e dar uma facadinha e fazer uma crítica péssima, mas lá fora, pelo menos fez um circuito, não foi atirado pra gaveta.

Até vai ao Brasil o filme e é engraçado que, isto é em 1923, só tem estreia comercial em Portugal. Teve antes estreia no Olímpia, em Lisboa, mas só tem estreia comercial realmente 10 anos depois, em 1933. Depois também vamos perceber um pouco porquê em 33. Mas é bem recebido, acho que em Cannes, um dos filmes dela vai a Cannes, e há uma crítica, pelo menos na Cine Magazine, a dizer: "A novidade e a originalidade empolgantes e aliciantes do assunto e das imagens, a perfeição de toda a realização suscitaram, com efeito, vivo interesse e proporcionaram aos atores e aos seus intérpretes o mais franco dos sucessos".

Aplausos para a nossa amiga cineasta. Gostaríamos que ela estivesse aqui e ter muito orgulho aqui na nossa Margarida.

Tal e qual.

E no nosso guionista de serviço, o Alexandre, iam ser uns partners dela ótimos. Mas a coisa não correu bem. E o sonho acabou. Sem dinheiro, sem podes fazer mais filmes, achar que também era uma loucura um bocado alta demais, tanto dinheiro que ela metia na produtora, e resolveu dar-se a outra vida. O que ela aceitou? Primeira coisa foi trabalhar, arranjou um emprego, um ofício na Sociedade das Nações. Já estamos no Estado Novo. Entretanto, lá em Paris cria um salão, estes salões literários, todas elas tinham, onde reunia toda a gente, portugueses e franceses e sei lá o quê, aristocratas, buqueses, diplomatas, artistas, pintores, sei lá, tudo o que ali passasse. E acontece que ela, nessa altura, através duma amiga comum, e que também podemos já dizer, era amiga de quase todas as nossas revolucionárias, de seu nome Olga Morais Charmento. Era uma portuguesa influente, uma portuguesa feminista, talvez não tivesse tido o estrelato das outras todas, mas era quem estava por trás de muitas das lutas das feministas. E baronesas à parte, artistas à parte, eis que ela fica de olho numa escultora de seu nome Pam Bodan, inglesa, pintora, aliás, com quem trava uma amizade muito forte e muito próxima.

E com quem vive até o final dos seus dias.

Ali em Paris ainda vá que não vá, mas depois a coisa complica-se. Entretanto, ela estava a escrever, aí é que é, o verdadeiro arregimentar-se ao Estado Novo, e ao António Ferro, porque o António Ferro lhe encomenda uma série de obras. Os grandes portugueses, as histórias da minha pátria, pede-lhe para ela traduzir livros portugueses para francês e para inglês, pede para ela traduzir, ao contrário, bons livros de literatura francesa para português. E ela tem quase ali um full time job com os livros que o Estado Novo, através do António Ferro.

António Ferro, para quem não saiba, o responsável pelo Secretariado Nacional de Propaganda, ou de Informação.

E pai da nossa grande escritora Rita Ferro.

Avô, não é?

Desculpa, avô. António Ferro que é o pai. Agora avô, apanhaste bem, o avô da Rita Ferro. E ela era suposto receber um X pelo trabalho dela, pelos livros, era uma encomenda do Estado Novo. E a gente não percebe como é que uma mulher que tinha esta capacidade econômica e financeira tão boa, acaba os últimos anos da vida dela a suplicar ao António Ferro que lhe pague o trabalho que lhe encomendou. Isto o Estado demora a pagar, há a desvalorização do franco, há tudo isso.

E com aquela ideia de que é um favor que lhe faziam. Olha que sorte que tens que te encomendam aqui umas obras.

Mantém-te relevante.

Mantém-te relevante.

Uma licença, uma arrogância.

A arrogância dele, põe-te aí a escrever que já tens muita sorte. E de nós pagarmos isso, porque muitas das publicações eram depois oferecidas às crianças portuguesas, no fundo, como uma cartilha. Da nacionalidade, da pátria, de todos os valores que ele queria incutir. De facto, foi injusto ela ter este trabalho todo e depois ter uma luta insana para conseguir receber. Dá-se a Segunda Grande Guerra e Paris não é o sítio ideal para ela estar.

Regressa a Portugal.

Regressa a Portugal. E aí, meus amigos, vamos ter outro problema. Como é que ela regressa a Portugal com a sua querida Pam? Aqui, para além do que já foi mal vista anos atrás, agora aparecer com uma dama de companhia, que não era mais do que uma amante. Não foi fácil, não deve ter sido nada fácil. Assume totalmente a casa.

Mas sem medos. Fiquei com a ideia de que ela vinha sem medos de desafiar a sociedade.

Ela estava com medo.

Já tinha idade para isso.

Já tinha idade para isso. Tem 60 anos.

Não, ela foi para a Quinta da Marinha.

Foi para a Quinta da Marinha, a história dramática.

Não, pobrezinha na Quinta da Marinha. Não, a Quinta da Marinha também não era. Não, mas as pessoas podem pensar, eu também pensei.

Não era assim uma coisa...

Não era a coisa. Não estava ainda nos tops. Ainda era um subúrbio. No fundo, era longe da sociedade. Era em Cascais, lá no meio de um pinhal, e lá podia ter a sua suposta, suposta não, namorada. E muito importante, estamos aqui a ver os livros todos dela. Os pouquíssimos que têm ilustrações, são as ilustrações dela. A capa da "Dona Redonda", que também estamos aqui a ver, um cavalo alado.

É da Pam?

Também é da Pam. Ela ajudava a Pam ao máximo possível para conseguir que ela tivesse um trabalho. Até que houve uma exposição muito importante surrealista aqui na Casa REP, no Chiado, onde a Pam mostrou a sua obra, mas infelizmente a história morreu na praia, porque ela não teve qualquer fama, a dita Pam, e voltou para a Inglaterra. Importantíssimo dizer que o primeiro quadro português de um casal homossexual, mulheres, duas lésbicas, é pintado por António da Costa. E eu vi o quadro, é lindíssimo, e está presentemente no Museu de Angra do Heroísmo.

Pois, ela é da minha ilha natal, ou eu sou da ilha do António da Costa.

Isto é muito importante.

Não sabia.

Muitos episódios depois, a Pam acaba por ir para Inglaterra, depois não pode ficar em Inglaterra, porque a casa de Inglaterra é onde vivia a irmã, estavam lá vários refugiados, crianças refugiadas da guerra, e lá a pé dela outra vez ajuda o António Ferro para a Pam voltar. A Pam volta, tem uma história de amor lindíssima, que só depois da Virgínia morrer, sem ser reconhecida, este é que é o ponto, porque não foi nunca uma primeira estrela desta luta, então a Pam volta seguramente para a América e por lá acaba os seus dias. No fundo, é muito triste ver tudo isto que ela construiu e depois, mais uma vez, ser apagada das pessoas.

Caiu muito no esquecimento. Eu tenho de confessar que foi mesmo daquelas personagens que eu só descobri por nos termos metido neste bonito projeto deste programa, porque eu não conhecia de todo a Virgínia de Castro.

Eu conhecia um bocadinho melhor, porque um dos filhos dela esteve internado onde é o Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, e que era o Hospital da Convalescença nessa altura, e foi o meu avô que tratou da tuberculose do José Lopo. E por isso que eu tenho os livros que estão dedicados ao meu pai, porque era o filho do médico que salvou o filho dela, o José Lopo. Não é por isso que ele é Lopo. Mas foi aí que eu conheci, tinha os livros todos, tinha lá em casa.

Virgínia de Castro e Almeida foi sempre uma rebelde entre rebeldes. Se outras revolucionárias a viam como original, excêntrica ou dissonante, também Virgínia não se identificava com elas, as outras, as carrancudas de mangas arregaçadas, que se batiam pela igualdade e pelo sufrágio feminino. Até que uma delas a fez mudar de ideias. Foi em maio de 1911, quando lhe trouxeram a notícia de que a amiga Ana de Castro Osório se passeava pelas ruas de Arroios com outra mulher, bem vestida e de flor na lapela. A médica Carolina Beatriz Ângelo. Atravessada por uma ponta de ciúme, Virgínia mandou comprar o jornal. Mas essa é uma história para o próximo episódio. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.