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A quem é que São Paulo escreveu tantas cartas? Este é o 11º episódio de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.

Eu sou João Bastos, padre e colunista do Observador.

E todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início até ao fim. Na semana passada, estivemos a falar sobre o acontecimento mais inacreditável de toda a história bíblica: a ressurreição de Jesus. Esta semana vamos falar de outra das figuras principais do Novo Testamento: São Paulo. Metade do Novo Testamento leva o nome dele, são as famosas cartas de São Paulo, que compõem o maior bloco do Novo Testamento, e são também os primeiros escritos daquilo a que poderíamos talvez chamar as raízes da igreja cristã. Mas quem era este homem e por que decidiu escrever tantas cartas? Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Nós temos estado de volta do Novo Testamento. Já olhámos com bastante detalhe para os primeiros quatro livros, que são os quatro evangelhos que nos contam a história de Jesus. Vamos agora olhar para um grande conjunto de livros que vem a seguir. São as 13 cartas atribuídas a São Paulo. Já vamos ver se foram mesmo todas escritas por ele ou não. Mas antes disso, penso que vale a pena tentarmos conhecer melhor este homem. Para isso, temos de olhar para um livro muito especial, único, que aparece entre os evangelhos e as cartas de São Paulo, que é o livro dos Atos dos Apóstolos. Nós já falámos noutro episódio acerca disto, quando introduzimos o Novo Testamento. Trata-se de um livro muito particular. Acredita-se que foi escrito por São Lucas. Funciona como uma espécie de segunda parte desta mesma obra, do Evangelho de Lucas, e conta a história dos apóstolos depois da morte e ressurreição de Jesus. Acaba por nos dar uma ideia de como era a vida no início das primeiras comunidades cristãs. Também já falámos sobre se já lhes podíamos ou não chamar cristãos. E é precisamente neste livro que encontramos parte da história desta personagem. Primeiro chamava-se Saulo, depois parece que mudou de nome e passou a chamar-se Paulo. João Bastos, consegues ajudar-nos a perceber um pouquinho melhor quem é que era este homem, este Saulo que mudou de nome para se chamar Paulo?

São Paulo é uma das figuras mais fascinantes da história da Bíblia, é das figuras que mais talvez esteja nas nossas cabeças, mesmo de maneira inconsciente, e é para os padres da minha geração e para as pessoas que estudaram teologia na minha geração, um dos grandes demónios que nós temos, porque a cadeira mais difícil do curso de Teologia, tradicionalmente, naquela altura, não sei se ainda agora, era mesmo os escritos paulinos, que é as cadeiras de chumbar 75% da turma. Por isso, há muita gente que pode estar a ouvir com traumas desta figura.

Francisco, também tens traumas com essa cadeira?

Não, escritos paulinos, não.

Opá, pronto. São outras pessoas. Esta é pessoal de outro nível. Quem é que é esta figura? É uma figura que tem, se calhar, três mundos dentro dele. Tem o mundo romano. Ele próprio apresenta-se, em certa medida, vai haver ali uma peripécia ligada à sua cidadania romana. Apresenta-se como um homem romano, alguém muito influenciado também por outro mundo, que é o mundo grego. Ele nasce em Tarso, que é uma cidade que está ligada ao judaísmo da diáspora. Nós aqui há uns episódios falámos da versão dos setenta, a Septuaginta, a tradução da Bíblia do hebraico para o grego. Mas ele, ao contactar com o mundo grego, vai também contactar com outras correntes, como, por exemplo, o estoicismo, correntes filosóficas como o estoicismo e o platonismo. Mas também temos alguém que está influenciado também pelo mundo judaico. Portanto, é uma pessoa que é, na verdade, naquele período, a confluência de três grandes mundos. O que sabemos mais? Sabemos que ele realmente se tornou, de certa maneira, a partir de um determinado momento, um missionário itinerante. Sabemos que ele fundou pequenas comunidades, esteve muito ligado a pequenas comunidades urbanas no Mediterrâneo Ocidental, que viveu do trabalho manual. Há aqui uma certa altura a ideia de que ele trabalhou e fazia tendas. Não deixa de ser curioso que uma das pessoas intelectualmente mais influentes na história do Ocidente era um tendeiro.

Um artesão.

Exatamente, fazia tendas que hoje vamos comprar a lojas como a Decathlon. E depois que ele viveu também sobre alguns conflitos recorrentes. A ideia de que a vida de São Paulo foi uma vida tranquila, mesmo depois de uma certa conversão ao cristianismo, se podemos utilizar este nome, também está um pouquinho longe da verdade. É uma pessoa que viveu sempre em alguma tensão e violência com as autoridades locais e até com as próprias comunidades cristãs daquele período nascente da Igreja.

Mas tu estás a falar já de uma figura, quando falavas, por exemplo, das comunidades que fundou, dessa ideia de um missionário itinerante, estás a falar de uma figura já no contexto do cristianismo.Pelo que nos diz a Bíblia, concretamente os Atos dos Apóstolos, que Paulo, antes Saulo, essa mudança de nome, era um forte perseguidor de cristãos.

Eu acho que nós precisamos fazer aqui dois pontos. Primeiro, a questão do nome. Efetivamente, existe essa transição, mas era comum no mundo romano, e nós sabemos, quem visita Roma ou quem conhece um pouquinho da história de Roma conhece isso, haver um duplo nome. Há um autor, que eu agora não me estou a recordar o nome, mas que salienta que é possível que o nome de Paulo fosse mesmo Saulo Paulo ou Paulo Saulo.

Tivesse os dois.

Exatamente. Depois, a dita conversão terá levado a optar por uma identidade antiga e por uma identidade nova, que seria corporizada na ideia de nome. Agora, quando nós falamos de conversão, é um dos temas e é um dos termos, quiçá, mais discutidos quando nós começamos a falar da história de São Paulo, porque realmente nós não temos aqui propriamente um cataclismo pessoal radical. Nós não temos aqui uma imagem-- São Paulo não é Santo Agostinho, nesse sentido. Nós não estamos diante até de alguém frustrado, que se sentia colocado à margem de um certo processo de conversão, como nós entendemos hoje. Vamos imaginar: um jovem toxicodependente que de um momento pra outro se livra desse pesadelo que é a toxicodependência e passa a ser um homem novo. Por isso é que às vezes há muita cautela em chamar isto uma espécie de conversão pela ideia que nós temos de conversão. É algo até mais próximo do que acontece com Jeremias e com Isaías do que propriamente com Santo Agostinho.

Então, mas quem era Paulo antes dessa transformação?

Nós sabemos que Paulo nasceu em Tarso. Ele identifica-se várias vezes com isso. Há essas referências nos Atos dos Apóstolos. Sabemos que Paulo vai a Jerusalém, que é formado na escola farisaica. O livro dos Atos fala que ele até está presente no martírio de São Estevão, que é o primeiro mártir cristão, e que numa ida a Damasco existe uma espécie de evento, vocação, conversão, o que lhe queiramos chamar, em que São Paulo reequaciona a sua posição. Mas é possível dizer que São Paulo não se converteu do judaísmo ao cristianismo, mas que São Paulo radicalizou ou reconfigurou o seu entendimento do que era o judaísmo. Se nós queremos alguns dados a partir dessa data, sabemos que este evento terá acontecido entre 35 e 36. Que São Paulo terá tido uma permanência em Damasco de 36 a 39, que de 51 a 52 surge a primeira carta aos tessalonicenses. De 56 a 57 realiza a sua última viagem e que no final dos anos 50, 60, irá a Roma, onde será depois martirizado.

Então vamos falar um pouco sobre como foi a vida de São Paulo, Francisco Martins. Depois desse episódio, o João estava aqui a falar sobre esta complexidade de usar ou não a palavra conversão. Sabemos alguns fatos mais ou menos conhecidos sobre São Paulo. Sabemos que fez milhares de quilômetros por todo o Medio Oriente. Aliás, há muitas Bíblias que até trazem como anexo uns mapas com umas reconstruções do que podem ter sido as viagens de São Paulo pra fundar algumas comunidades. Sabemos que fundou comunidades um pouco por todo o Medio Oriente e escreveu as suas famosas cartas, que depois compõem uma boa parte do Novo Testamento. E a questão é: como é que um tipo que se dedicava a matar cristãos, depois se torna tão fervoroso na defesa do cristianismo?

Talvez dizer uma palavra primeiro sobre esta questão da perseguição aos cristãos, que é talvez um assunto que as pessoas têm muito presente. O Paulo como perseguidor e por que perseguia os cristãos. Nós ainda hoje temos dúvidas sobre a razão pela qual ele perseguia as igrejas iniciais. A explicação que a mim mais me convence, de uma investigadora, mais do que pensar: "Não, como eles declaravam que Jesus era Messias e ele não era o Messias e estava a perseguir os cristãos porque declaravam isto". Se os judeus do tempo de Paulo fizessem, perseguissem os grupos que diziam que determinada figura era o Messias, não faziam outra coisa senão perseguir grupos.

Pois.

O que parece ter acontecido é que o movimento cristão, muito rapidamente, aos não judeus, sem lhes dar a conversão ao judaísmo, e isto é, sem lhes dar a circuncisão, pedia-lhes que eles deixassem de adorar os outros deuses, os deuses das cidades. Ora, o Império Romano não podia aceitar isto por uma razão muito simples: eu não adorar os deuses da cidade e os deuses do Império, colocava em risco o Império e a cidade. Eu só tinha duas alternativas: se eu fosse judeu, estava dispensado. Se fosse circunciso, estava dispensado. Se não fosse, tinha que adorar. Ora, antes de São Paulo, o cristianismo criou aqui uma terceira figura: os não judeus que não adoram os deuses pagãos. E esta terceira figura criava problemas na sociedade e provavelmente São Paulo, com este risco de que as autoridades romanas pensassem que eles eram judeus, embora não fossem circuncisos, ia diante das sinagogas denunciar este movimento como não judeu.

Mas o que ele ganhava com isso? Qual era o interesse pessoal dele?

Não era pessoal, era a estabilidade das comunidades judaicas, porque o Império Romano podia dizer: "Então, mas isto, afinal, vale tudo". E podia isso criar uma situação de perseguição aos judeus.

Aos próprios judeus.

Aos próprios judeus. Esta é a explicação que a mim mais me convence sobre o fato de Paulo ter perseguido os cristãos antes de se tornar ele próprio. Vamos aqui usar a palavra cristão, antes de se tornar ele próprio.

Na segunda parte já vamos falar um pouquinho melhor sobre essa...

Um convencido de que Jesus era o Messias, que é isso que significaO João já disse um pouco disso. Ele, a seguir a esta experiência de reconhecer Jesus como Messias, passa um tempo na Arábia, três anos. É uma espécie de retiro. Era muito comum sair da terra para voltar a entrar na Terra Santa com uma experiência de recomeço. Isto era típico, por isso é que João Batista vai batizar no Jordão. A mesma ideia: eu vou fora da terra, volto à terra renovado. Depois torna-se missionário, primeiro ligado à Igreja de Antioquia, na Síria, uma espécie de número dois de Barnabé na sua primeira viagem. Não é ele que manda na primeira viagem, é o outro, é Barnabé. E depois torna-se o líder das suas missões na segunda e terceira viagem, antes de ser preso em Jerusalém e conduzido a Roma quando invoca a sua cidadania romana.

E o fervor com que depois nós temos São Paulo não só a difundir a fé, mas também a escrever as suas cartas, é um fervor que nós associamos aos recém-convertidos, àqueles que se convertem a uma determinada fé já em adultos? Como é interpretar esse grande fervor?

Há seguramente esse aspecto de fervor, não vamos falar de conversão, mas fervor de convencimento de uma dimensão nova. Mas São Paulo tem um enorme fervor missionário, porque ele está convencido que amanhã de manhã acaba o mundo.

Pois, isso é algo que atravessa muito do seu ser.

Essa urgência de que a história está a acabar e é preciso preparar o maior número possível de pessoas para receber este reino, é o que dá ao movimento cristão inicial todo este fervor, esta energia, esta forma de estar.

João, gostava só de perguntar aqui uma coisa que me parece importante tentarmos discernir. Ou seja, os apóstolos, os discípulos e aqueles seguidores que tinham sido fiéis a Jesus e que estavam do lado dele, tinham seguramente memória deste Paulo anterior ao seu convencimento como perseguidor, a denunciar as comunidades cristãs. Como é que eles olharam para ele quando viram Paulo a juntar-se à causa? Não desconfiaram?

O livro dos Atos relata uma desconfiança inicial, uma suspeita, um desconforto, claramente, por causa desta divisão entre uma espécie de pré-Damasco e pós-Damasco. Há também relatos claros, também no livro dos Atos, de tensões, e o próprio Paulo fala disso na carta aos Gálatas, de tensões, mas também de reconhecimentos com os primeiros apóstolos. Mas para terminar esta parte, é importante referir que na segunda carta de São Pedro, que é das primeiras referências que nós temos a cartas paulinas, referência externa às próprias cartas, a carta de São Pedro diga: "Nessa ordem de ideias, escreveu também o nosso caríssimo irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi concedida. E assim fala em todas as cartas em que se trata destes temas: há nelas alguns temas difíceis que os ignorantes e poucos firmes deturpam para a nossa própria perdição". Portanto, a ideia que se passa das cartas de Paulo é claramente de umas cartas em que: "Tenham cuidado que isto não é muito de fiar, é preciso ter cuidado que não sabemos bem como interpretar isto, aquilo e aqueloutro". Portanto, quando estamos aqui a falar da recepção de São Paulo, é uma recepção muito múltipla e que está longe de ser uma espécie de aclamação popular ao início.

Muito bem, nós vamos voltar, depois de um brevíssimo intervalo, à segunda parte. Vamos continuar a olhar para as cartas de São Paulo, as várias cartas que escreveu ao longo da sua vida, e também tentar perceber como é que a partir das cartas de Paulo começamos a olhar para o surgimento de uma nova religião distinta do judaísmo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Francisco Martins, e esta semana estamos a conversar sobre São Paulo e as famosas cartas que escreveu. Francisco, vamos lá então tentar perceber que textos são estes. Sabemos que aparecem 13 cartas no Novo Testamento associadas ao nome de Paulo. Pergunto: por que é que foram escritas? Quando é que foram escritas? A quem é que foram escritas? Sabemos que algumas estão dirigidas a pessoas, outras estão dirigidas, por exemplo, a comunidades. Qual é o contexto destes textos?

Já dissemos isto aqui em episódios anteriores, sobretudo quando apresentámos o Novo Testamento em geral. Estes escritos foram escritos sobretudo a comunidades concretas. A maior parte dessas comunidades foram fundadas por Paulo, pequenas comunidades do movimento cristão nos seus inícios, na Ásia Menor, hoje em dia Turquia, e na Grécia. A exceção é a carta aos romanos. A última carta de Paulo, a carta aos romanos, é uma comunidade que ele não fundou, mas que espera visitar. Está a caminho de Roma ou espera visitar Roma em breve e, portanto, escreve esta carta. Mas outras são aos Gálatas, aos Tessalonicenses, aos Coríntios, à comunidade de Éfeso, etc. São, sobretudo, também escritos que procuram responder a questões concretas. Já dissemos isto aqui também. Obviamente, Paulo faz aqui uma dupla coisa. Diz, por um lado: "Eu recebiIsto que vos transmito. Algumas das coisas que Paulo diz àquelas comunidades são hinos, são fórmulas, são tradições que ele recebeu e que ele transmite por escrito. E, por outro lado, são cartas onde Paulo tenta resolver problemas concretos. A questão da ressurreição para aqueles que já tinham morrido antes do regresso de Jesus em glória. A questão da liberdade na carta aos coríntios. O que significa ser livre em Cristo, o que não significa ser livre em Cristo. E estas cartas também acabam por formular o essencial do pensamento Paulo, mas de uma forma pouco sistemática. Isto que dizia, a fecharmos a primeira parte, o João, esta citação da segunda carta de Pedro, onde ele diz: "Atenção que estas cartas induzem em erro alguns que não estão preparados". Obviamente, isto já significa que estas cartas, logo desde o início, porque não são sistemáticas, acabaram por gerar um movimento de receção que nem sempre era reconhecido pelas outras comunidades.

Só pra contextualizar, e vamos recuar só um pouquinho. Estavas a dizer que várias destas cartas, a maioria destas cartas, são dirigidas a comunidades cristãs, estou a supor que ainda muito pequeninas, muito incipientes, fundadas por ele. Como é que foi esse processo de fundação de comunidades? Ele chegava a um lugar, anunciava o evangelho e conseguia convencer três ou quatro pessoas a aderirem ao movimento. Ainda era um movimento dentro do judaísmo, esse aspecto é importante. Havia já bispos? Quem é que mandava nessas comunidades? Acho que há interesse em perceber como é que era essa dinâmica.

A nossa reconstrução do fenômeno missionário do cristianismo nos seus princípios, os primeiros 30, 40 anos, dá-nos a entender que Paulo e outros missionários como Paulo, o que faziam muito provavelmente, era dirigiam-se a uma cidade e iam à sinagoga. Ao sítio onde a comunidade judaica se reunia e ali anunciavam diante dos judeus e sobretudo de um grupo de pagãos que andavam ali à volta, os chamados prosélitos, que tinham interesse no judaísmo, mas ainda não se tinham convertido, não eram ainda circuncisos, anunciava diante destes a ideia de que Jesus era o Messias esperado.

Jesus, de quem eles não tinham ouvido falar.

Não tinham ouvido falar.

Era o primeiro anúncio.

Talvez o aspecto mais interessante, e talvez até mais revolucionário, e que muda um pouco a face do cristianismo, é que naquelas sinagogas com judeus e não judeus interessados no judaísmo, foram sobretudo os não judeus interessados no judaísmo, que já conheciam um pouco a dinâmica judaica, que receberam esta mensagem de Paulo com muita força. Paulo, provavelmente, descobre no seu trabalho missionário que afinal ele é o apóstolo dos gentios.

Dos gentios, exato. Que eram os que estavam fora, portanto, não judeus.

Que eram não judeus. Mas muito provavelmente começou em contexto judaico e depois esta explosão não judaica do movimento cristão.

Só duas notas. Reparem que, por exemplo, São Paulo apresenta-se sempre como apóstolo dos gentios a favor de Israel e não como uma espécie de apóstata de Israel, um apóstata do judaísmo, a favor dos gentios. Há aqui uma espécie de linha de continuidade longe daquela visão radical. Agora, o que o Francisco falou da questão das cartas, se quisermos ter uma imagem, as cartas de São Paulo não são próximas daquilo que estamos a imaginar, por exemplo, a correspondência entre Jorge de Sena e Sílvio Romero Brenner ou entre Heidegger e Hanara. Ou seja, as cartas de São Paulo são muitas vezes escritas em cima do joelho pra resolver problemas concretos. Não é um epistolário pensado de outra maneira. Vamos pensar, por exemplo, como já referimos, na carta aos Gálatas, que foi escrita não como um tratado abstrato, mas para resolver um problema concreto.

E que problemas é que havia nessas comunidades que exigiam uma intervenção ou do fundador. Porque são comunidades muitas vezes que foram fundadas por Paulo, mas que Paulo depois já não estava lá fisicamente. E nós ao longo destes episódios, temos tocado num aspecto que é bastante interessante, que é a ideia de que pra aquela gente, naquele tempo, o fim do mundo, o fim dos tempos, o fim da história, podia ser hoje à noite ou amanhã de manhã. Ainda não havia a ideia que depois se foi consolidando de que não se sabe ainda o tempo, etc. É isso que explica a insistência de Paulo nas suas cartas, na resolução de problemas que afetavam a comunidade em cada momento? Quer dizer, amanhã isto podia acabar.

Como já referimos, o primeiro texto do Novo Testamento a ser escrito é precisamente a primeira carta a Tessalonicenses. E essa primeira carta a Tessalonicenses, aos cristãos da cidade, hoje grega, de Tessalônica, tem como um dos principais objetivos, no capítulo quarto, capítulo quinto, essencialmente, falar desta questão do fim dos temposMas realmente essa perspectiva passa por outras cartas. Se pensarmos, por exemplo, São Paulo, na primeira carta aos Coríntios, diz que o tempo se abreviou. A forma que São Paulo, por exemplo, lida, se quisermos dar aqui um exemplo muito básico, com o casamento, São Paulo diz a certa altura: "Quem tem mulher viva como se não tivesse, e quem não se casou não se case". Não se trata aqui necessariamente de um ódio ao corpo ou ao casamento, mas é: "A situação é iminente, o fim dos tempos está a chegar, portanto, não vamos agora fazer grandes alterações". Encontrei também um estudioso que diz que a forma como São Paulo lida com a escravatura, que às vezes, na nossa sensibilidade, até dentro do politicamente correto, nos pode chocar, também tem a ver com esta dimensão de que o tempo é iminente. Mas se calhar, e partindo também de outro estudioso, nós podemos interpretar essa ideia do fim dos tempos noutra dimensão. Possivelmente, a própria missão de São Paulo era motivada por esta ideia do fim dos tempos, porque nas profecias judaicas, em algumas delas, segundo este estudioso, o fim será marcado quando as nações, no sentido os pagãos, adorarem o Deus de Israel. E, portanto, ao correr o mundo para converter os pagãos, Paulo não estava apenas a fundar igrejas, ele estaria também a apressar esse fim. Ele poderia acreditar que quando o número total de gentios, estes pagãos, entrasse dentro da ordem judaica, o fim chegaria.

Chegaria por essa via.

Sim, há até uma intuição mais ou menos disto na carta aos romanos. Portanto, a pressa dele em viajar e resolver problemas não era só uma questão de impaciência pessoal ou uma espécie de turista que agora quer fazer um gap year aqui em vários sítios, na Galácia, em Tessalônica, em Corinto. Ele possivelmente estava a fazer uma tentativa teológica de completar um puzzle para que Jesus realmente voltasse.

E Francisco, um aspecto em que temos tocado em vários livros da Bíblia tem a ver com a atribuição. Gostava de fazer esta pergunta aqui também: as cartas de São Paulo foram realmente todas escritas por São Paulo? Sabemos quais é que foram mesmo escritas por ele e quais é que podem ter sido escritas por outros colaboradores que se foram juntando a ele. E há pouco também um aspecto que não tocamos, que é a ideia de que além das cartas escritas a comunidades, também havia algumas cartas dirigidas a pessoas concretas.

Sim, dizer isso. Além das cartas às comunidades, esquecemo-nos desse aspecto. Há cartas também dirigidas a colaboradores, Timóteo e Tito, duas cartas a Timóteo, uma carta a Tito. E depois esta carta lindíssima, o João já aludiu a ela, esta carta lindíssima a Filémon. Filémon é um proprietário de um escravo que fugiu e que depois Paulo acabou por se encontrar com ele na prisão, nesse contexto da prisão. E o escravo converte-se e Paulo escreve a Filémon a pedir-lhe para perdoar o escravo, para não o matar, que teria esse direito, para perdoar o escravo e para o receber como se fosse Paulo e como se fosse um irmão. Filémon também já era do movimento cristão. É verdade que se calhar podíamos esperar que Paulo fizesse uma apologia da abolição da escravatura, mas isso provavelmente é anacrônico e não se poderia esperar neste período. Mas ao menos este desejo de que Filémon receba este escravo e que o trate humanamente como irmão já é significativo.

E é curioso que um texto tão pequeno como uma carta de uma pessoa à outra sobre um assunto da vida quotidiana, como é essa carta a Filémon, depois venha a encontrar lugar no cânone das escrituras, ao lado de livros como os Evangelhos ou depois livros do Antigo Testamento. Também mostra um bocadinho a variedade de estilos literários que encontramos na Bíblia.

Sim, isso até toca este assunto sobre o qual íamos agora falar, que é as cartas autênticas e as cartas eventualmente que não são autênticas. Muito provavelmente, Filémon é uma carta verdadeiramente escrita por Paulo e por isso é que acaba por entrar no cânone e ser significativa pra comunidade. Além de ser uma carta belíssima, vale a pena ler, quem nunca leu, é uma carta belíssima. Mais do que escritas, só começar por dizer isso, Paulo provavelmente não escreveu carta nenhuma ou quase nenhuma no sentido físico do termo.

Pegar na pena.

As cartas foram muito provavelmente ditadas. Ele teria uma espécie de amanuense ou de secretário a quem ditaria, e nós sabemos isto das próprias cartas. No final da primeira carta aos Coríntios, no capítulo 16, Paulo dita e depois escreve: "A saudação é do meu próprio punho: Paulo". Portanto, as pessoas sabem que o que ele escreveu na carta foi a última parte da carta, a última saudação.

A última saudação.

O resto foi ditado. Mas há cerca de 150 anos a esta parte, começaram a surgir dúvidas sobre a origem paulina de certas cartas. As cartas a Timóteo e a Tito, primeira e segunda a Timóteo e a carta a Tito, parecem refletir uma realidade eclesial, tu já disseste isso, começam a falar sobre bispos, por exemplo, que não corresponde seguramente à realidade que São Paulo viveu, tendo morrido por volta dos anos 60. Portanto, estas cartas, que nós chamamos cartas pastorais, a Timóteo e a Tito, são quase unanimemente consideradas epígrafas, pseudoepígrafas. Escritas na tradição de Paulo para manter relevante o seu pensamento. Já falámos sobre este aspecto no Antigo Testamento, aqui é igual. Há depois três cartas que também geram dúvidas, e aqui os investigadores estãoQuase completamente divididos. Alguns dizem: "Isto não é de Paulo", outros dizem: "Isto é de Paulo". Que é a segunda carta aos Tessalonicenses, a carta aos Colossenses e a carta aos Efésios. Têm um estilo diferente e já não têm tanto aquela ideia de que o mundo vai acabar amanhã de manhã. Nestas cartas já aparece a ideia que ele é capaz de acabar só daqui a três dias. E estes investigadores dizem: "Esta perspectiva sobre o fim dos tempos não é autenticamente paulina", portanto, essas cartas foram escritas posteriormente. As cartas sobre as quais há unanimidade que são de Paulo: primeira de Tessalonicenses, primeira e segunda Coríntios, Gálatas, Filipenses, Filêmon, de que já falámos, e a carta aos Romanos.

Muito bem. Apetece-me perguntar se Paulo era diferente de outros apóstolos neste sentido, porque nós conhecemos muito esta ideia de um Paulo viajante, missionário, a escrever cartas a comunidades, a fundar comunidades. Os outros apóstolos, nisto tudo, ficaram sossegados em Jerusalém ou também andavam?

Se a pergunta é: Paulo foi o único a viajar? Não. Até porque nós temos a tradição dentro do cristianismo que os apóstolos morreram todos, grande parte deles, tirando um ou dois, fora da zona de Jerusalém.

E temos aqui na Península Ibérica o caso de Santiago.

Santiago terá morrido na Terra Santa, mas depois terá vindo o corpo. Nós apropriamo-nos do corpo de Santiago para fazer um santuário na Graliza. Mas o que sabemos, por exemplo, que Pedro esteve em Antioquia. Aliás, é lá que tem uma famosa discussão com São Paulo. Uma discussão que marcará aquele tempo, o tempo teológico, e a tradição, por exemplo, coloca São Pedro em Roma. Sabemos que o Francisco já aludiu a isso quando existe a primeira viagem, Paulo vai com Barnabé e sabemos que Barnabé também terá fundado algumas comunidades antes de Paulo lá chegar e o próprio Paulo, quando chega a Roma, já tem alguns cristãos. Paulo não funda propriamente a igreja de Roma. O que talvez diferencie São Paulo é uma questão de tecnologia, ou seja, São Paulo viaja, mas ele cria uma espécie de rede, que se calhar outros também terão criado, mas São Paulo cria uma espécie de rede e mantinha esse contacto até com a questão das cartas. Essa tecnologia, as cartas, as epístolas, permitiu criar uma unidade à distância.

Nós já estamos aqui a chegar à recta final do episódio, mas gostava de recordar como há tempos vi o lançamento de um livro em que o padre Francisco esteve, creio que na Capela do Rato. Um livro chamado "Um Judeu Chamado Paulo", justamente sobre estes assuntos, que ainda está à venda, muito interessante, de Matthew Thiessen. E basicamente o livro tinha esta ideia até bastante provocadora, pelo menos pra ideia contemporânea sobre São Paulo, que é a de que Paulo não era propriamente um cristão. Isto será mais ou menos pacífico dizer, porque Jesus também não era cristão. Mas que Paulo se manteve sempre um judeu, se manteve sempre dentro de um esquema mental do judaísmo. Se a ideia era que realmente Jesus era o Messias esperado pelos judeus, então pergunto: para São Paulo, que nós hoje vemos nas suas cartas, talvez o início de uma nova religião, do cristianismo, na cabeça de Paulo nunca houve necessidade de criar uma nova religião, bastava que todos os judeus acreditassem que Cristo era o Messias.

Judeus e gentios.

Judeus e gentios.

Este livro de Matthew Thiessen é muito interessante, "Um Judeu Chamado Paulo", vale a pena ler. É um livro curto, muito bem escrito, com uma ótima síntese, com ótimos resumos no final de cada capítulo. O livro mostra que Paulo era basicamente um judeu do fim dos tempos. Talvez seja a melhor definição de São Paulo, um judeu do fim dos tempos. Um judeu que reconheceu Jesus como Messias prometido aos judeus e que por isso se convenceu de que a história ia acabar já a seguir. E portanto, tinha uma urgência total de atrair judeus e não judeus para Cristo. Por quê? Porque Paulo lia o Antigo Testamento, o profeta Isaías e outros profetas, e percebia que no final dos tempos, não só os judeus iam reconhecer o Messias, mas os próprios não judeus também o iam reconhecer. Mas Paulo tinha um problema grave, que era as promessas que foram feitas ao povo judeu. Como é que eu posso herdar a salvação prometida ao povo judeu se eu não sou judeu? Uma solução, que é aquela solução que Paulo rejeita, é a circuncisão. Eu sou gentio, deixo de ser gentio, passo a ser judeu e recebo as promessas. Qual é o problema desta solução? Eliminamos os gentios da história. E isto contradiz as profecias.

A salvação continua a ser apenas para os judeus.

E nós precisamos que sejam salvos os judeus como judeus e os gentios como gentios. Ora, a solução de Paulo é precisamente o batismo. Esta ideia quase muito física que no batismo o gentio é habitado pelo Espírito de Jesus e o Espírito de Jesus transforma o ADN do gentio para ele se tornar herdeiro sem se tornar judeu.

Sem se tornar judeu. E, portanto, temos aí a possibilidade da salvação chegar a todos, judeus e gentios.

Exatamente. E pra terminar com essa nota, tu já referiste, neste contexto e com esta compreensão, Paulo nunca quis fundar uma nova religião. Quis consumar o judaísmo como experiência de um povo.

E podemos dizer que, mesmo pra terminar, que apesar da vontade de Paulo, as cartas de Paulo e esses textos contemporâneos dessa altura são os primeiros escritos, então de uma nova religião.

A posteriori podemos dizer isso. Quando o cristianismo se torna verdadeiramente uma nova religião, isto é, se separa do judaísmo e às vezes feliz, outras vezes infelizmente, as cartas de Paulo foram usadas precisamente para justificar um antagonismo em relação ao judaísmo. Provavelmente, Paulo teria tido vergonha do uso que às vezes fizemos dessas cartas.

Dos textos. Muito bem, chegamos ao fim do 11º episódio de "As Histórias da Bíblia". Na próxima semana, vamos pro último episódio deste podcast e, como não podia deixar de ser, vamos também pro último livro da Bíblia, que é o Apocalipse. Até pra semana. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador, com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.