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Bem-vindos ao segundo episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Nós, todas as semanas, às quintas-feiras, respondemos a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia e têm sido muitos aqueles que nos ouvem neste podcast e que nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt, ou também que têm deixado perguntas e sugestões nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. Nós continuamos a encontrar-nos todos os domingos às 9h, na Rádio Observador e sempre em podcast, mas estamos também aqui às quintas-feiras pra um episódio mais curto, que é exclusivamente em podcast, para responder às dúvidas dos ouvintes. Já sabem, todos os que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Ora bem, nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre Rute. Se não ouviu na Rádio Observador, pode sempre encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana, de certa maneira, mantemo-nos neste tema e vamos tentar responder uma pergunta difícil que nos foi colocada pela nossa ouvinte Tânia Alves. A Tânia deixou esta pergunta no YouTube, num episódio da primeira temporada em que falamos do Gênesis e da história de Adão e Eva, e o comentário é muito curto e diz o seguinte: "Gostava que se debruçassem sobre o protagonismo masculino na Bíblia e as consequências da imagem da mulher na Bíblia, na religião. Obrigada". Ora, obrigado nós, Tânia, por esta pergunta muito interessante e realmente muito importante para compreendermos o modo como os textos bíblicos impactaram também os séculos de história da religião que se seguiram. É verdade que é uma pergunta complexa e tem sido feita ao longo do tempo. Tem também um reflexo ou uma tradução em debates atuais da Igreja Católica, como por exemplo, a questão da ordenação de mulheres, só pra dar um exemplo. Não sei quem é que quer começar a tentar responder esta pergunta. Daniel, queres tentar dar aqui alguns pontos que ajudem a perceber este desafio?
Eu acho que é óbvio que as sociedades antigas não valorizavam a mulher como nós no Ocidente fazemos hoje. E neste sentido, a Bíblia, não apenas o Israel antigo ou a igreja nascente, mas também todas as sociedades antigas, no geral, são de certa forma patriarcais ou machistas, na forma como nós hoje olhamos pra estes conceitos. Basta olharmos pra certos textos, como cito aqui Êxodo 20:17, naquele momento em que Deus aparece no Monte Sinai pra dar a lei, nós chamamos os Dez Mandamentos. "Não desejarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher do teu próximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro e tudo que é do teu próximo". E, portanto, a mulher está aqui num pacote, por assim dizer, que inclui os bens e as coisas. E, portanto, a mulher é vista quase como uma propriedade. E isto é algo que percebemos que existe nas sociedades antigas e existe, portanto, também na Bíblia, uma certa percepção que pra nós é pouco aceitável do papel da mulher. Ainda assim, a Bíblia, porque também é polifônica, porque não só atravessa diferentes sensibilidades e diferentes tempos, mas também, quer no Novo, quer no Antigo Testamento, encontramos elementos interessantes de valorização da perspectiva feminina. Temos livros bíblicos cujo protagonista é uma mulher, Rute, Ester, também Judite. Temos personagens como Débora, no Livro dos Juízes, Jael também, e outras que vão assumindo algum papel de protagonismo. Isto é interessante.
Até de heroínas.
Até de heroínas e mulheres valorosas. E em muitos casos, não apenas porque foram mães e deram à luz muitos filhos, que é a crítica clássica de ver a mulher contra a Igreja ou contra a Bíblia. A mulher ou é uma mãe, ou acaba por ser uma mulher de má vida. E vemos aqui alguns exemplos de mulheres fortes. Até no Livro dos Provérbios há um elogio da mulher forte. O Livro de Rute, por exemplo, há toda uma tendência exegética de ver uma certa perspectiva feminina, de sensibilidade feminina, não só porque os protagonistas são mulheres, mas também há aqui a relação entre mulheres, uma certa perspectiva da mulher, uma certa capacidade que a mulher tem de intervir na sociedade, que é interessante.
E, portanto, a Bíblia acaba por ser também, obviamente, um produto do tempo em que foi escrito e também essas sociedades.
Que são sociedades patriarcais, mas ainda assim há uma valorização da mulher, até na forma como se concebe o ser humano. Se olharmos pras primeiras páginas da Bíblia, em que temos estes dois relatos da criação, basicamente o primeiro capítulo do Gênesis, que diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Não diz homem, diz homem e mulher. Portanto, o ser humano aí é homem e mulher. E, portanto, há aí uma igualdade fundamental do ser humano enquanto homem e mulher. Na história de Adão e Eva, Gênesis 2 e 3, aí também vemos, e talvez de forma que nos parece menos lisonjeira, Deus a criar primeiro o homem e depois é que do seu lado cria a mulher. Mas cria a mulher porque as restantes coisas, os restantes animais, não estavam ao nível da humanidade, não chegavam, não eram suficientes. E, portanto, também há uma tentativa do autor bíblico de colocar a mulher ao nível do homem e não ao nível da propriedade ou do animal doméstico.
João, depois no Novo Testamento, nos Evangelhos, encontramos alguns episódios que procuram, de certa maneira, talvez rompendo com o seu tempo, valorizar a mulher.
Sim, na linha que o Daniel já falou, no Novo Testamento e Jesus, mesmo em São Paulo, muito embora às vezes haja uma crítica de machismo a São Paulo exacerbada quando há aquele famoso texto que há uns anos até foi polémico em Portugal sobre a questão de as mulheres serem submissas aos maridos, se calhar demoraria aqui um bocadinho a descascar, não importa aqui a questão, mas realmente quando nós vamos a uma missa e ouvimos ou lemos a Bíblia e lemos a palavra "mulheres serem submissas aos maridos", por muito que nós vinhamos aqui durante uma hora descascar grego e contexto, a causa está perdida ao início. Se não é isso, façam uma melhor tradução, como diz o outro. Mas realmente, no Novo Testamento, nós temos atitudes de Jesus que rompem com a sociedade patriarcal da época. Claro que não rompem como nós hoje rompemos. É precisamente ter esta noção que uma obra literária, um texto, tem o seu contexto e nós temos às vezes que distinguir aquilo que é o momento histórico preciso e aquilo que é inovador, como é inovador o padre António Vieira na época dele, não seria na nossa. E nós temos que colocar aqui uma maneira de um contexto.
Na altura, não sei se vocês sabem, aquela questão de o adultério era só quando era cometido pela mulher, mas depois Jesus acaba por dizer que se o homem repudiar a mulher. Eu não sei, estou a citar de cor.
Sim, basicamente o que Jesus diz, não sei se vou dizer corretamente, o biblista na sala depois corrigir-me-á, mas é a ideia de que o homem, se repudiar a mulher, naquela questão que vem depois do Sermão da Montanha, que não é só uma questão de praticar adultério ou desejar a mulher do próximo, ou melhor, desejar a mulher do próximo já é uma forma de adultério, não é só o adultério em si. Jesus realmente tem uma visão sobre a mulher que é distinta, se calhar, da maioria da sociedade patriarcal onde ele vivia. Ainda assim, nós temos aqui uma questão que é: a Bíblia não é Shakespeare. As grandes personagens de Shakespeare são muitas vezes personagens masculinas, embora haja também personagens femininas. A verdade é que a Bíblia não é Shakespeare, a Bíblia é um livro normativo para muita gente. E efetivamente, durante muito tempo, infelizmente, houve leituras não só patriarcais, mas machistas, que fundamentaram o machismo através da leitura da Bíblia. Hoje em dia, quem faz isso não tem qualquer qualificativo. Quem vai buscar o exemplo de Gênesis 1 e 2 ou 3 pra dizer que, por exemplo, como há pessoas que dizem publicamente que a mulher tem um lugar subalterno ao marido, que o marido é que tem que providenciar e a mulher tem que ser submissa ao marido. Isso não faz qualquer sentido. Não há qualquer fundamento bíblico, depois de um estudo verdadeiro, que possa permitir este tipo de reflexão.
Estive a pensar que é se calhar a segunda parte da pergunta da nossa ouvinte Tânia, que pergunta também sobre as consequências que esta história bíblica teve depois na imagem que a mulher tem na religião organizada. E portanto, só pra recordar aqui alguns debates contemporâneos, a Igreja Católica ainda não admite a ordenação sacerdotal de mulheres, por exemplo, que seria vista como uma igualdade de dignidade entre os dois géneros. Por exemplo, muitas vezes com o argumento de que os apóstolos escolhidos por Jesus eram exclusivamente homens. A pergunta é: a imagem que a mulher tem na Bíblia, depois impactou a imagem que a mulher tem na religião?
Sim, eu acho que isso é um bocadinho evidente.
Inevitável.
Inevitable, quer dizer. Nós, por exemplo, mesmo na Idade Moderna, final da Idade Média, início da Idade Moderna, quando houve até um grande protagonismo de mulheres em mosteiros e até com grandes movimentos, na altura até um bocado radicais dentro da Igreja, como o caso das beguinas, o facto de serem mulheres era visto como um handicap, entre aspas. Muito embora, a história da Igreja é muito vasta e às vezes nós também temos uma leitura contemporânea de que para trás são séculos de trevas, depravacidade, machismo e sociedade patriarcal que renegava as mulheres. Isso tem uma parte da verdade, mas não é toda a verdade. Ou seja, nós temos na história da Igreja, é verdade que houve muitas vezes até um enfoque muito, pra dar um exemplo prático, nós falamos dos padres da Igreja, falamos dos padres do deserto, os primeiros teólogos e primeiros monges e primeiras pessoas ligadas ao desenvolvimento daquilo que nós hoje chamamos a dimensão espiritual. Ora, nós hoje sabemos que à época havia madres do deserto, mulheres do deserto que escreveram tanto como os padres do deserto.
Citamo-las menos.
Citamo-las menos, conhecemo-las menos, é verdade, mas existe também da nossa parte, não só enquanto Igreja, mas exteriormente, um enviesamento sobre essa realidade. Nós temos grandes místicas medievais, temos grandes místicas na Idade Moderna, grandes teólogas na época e pessoas que tinham às vezes mais poder do que os próprios homens à época. Portanto, ainda assim, as coisas não são tão claras.
E não podemos olhar isso separado do que era a sociedade e do que era o poder masculino, enfim, na sociedade, genericamente falando. No nosso caso da interpretação da Bíblia, é também importante termos cuidado na forma como interpretamos e vamos às vezes buscar, isto é uma questão mais genérica de interpretação bíblica, vamos buscar frases que justificam, isoladas, colocar mulheres ou outro tipo de grupos sociais de forma discriminada. Posso encontrar frases como São Paulo, que diz: "Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, todos são um só em Cristo". E portanto, aí ver uma dignidade fundamental também na sua avaliação da pessoa humana, seja homem, mulher, seja de uma cultura ou outra, como também encontrarei certamente frases isoladas que correspondem a uma perspectiva mais redutora do papel da mulher. Mas acho que há que valorizar também um impulso fundamental de dignificação da pessoa humana, que encontramos certamente.
O resto que há é esse.
Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procuramos responder à dúvida enviada pela nossa ouvinte Tânia Alves. Poderíamos continuar para outro episódio sobre as questões contemporâneas, por exemplo, da ordenação de mulheres na Igreja Católica, mas enfim, neste episódio mais curto, vamos ficar por aqui. Se quiser enviar uma pergunta pro podcast As Histórias da Bíblia, já sabe, pode escrever-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Não se esqueça também de seguir o programa para receber uma notificação sempre que sair um episódio novo. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio desta nossa segunda temporada, em que vamos falar sobre Ester, uma judia que chegou a rainha da Pérsia e que salvou o povo judeu. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.