Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Muito bem-vindos ao primeiro episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Todas as semanas, às quintas-feiras, vamos responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. E já são muitos aqueles que nos ouvem todas as semanas neste podcast, que já vai na segunda temporada. E são também muitos aqueles que nos têm enviado perguntas, comentários, sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt, ou que as têm deixado, por exemplo, nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast onde ouvem o nosso programa. Foi justamente por causa deste interesse dos ouvintes que decidimos criar este e-mail para nos poderem contactar directamente e que decidimos agora começar a fazer estes episódios especiais todas as semanas. Já sabem, continuamos a encontrar-nos todos os domingos às 09h00, na Rádio Observador e sempre em podcast. E agora estamos aqui também às quintas-feiras para um episódio mais curto, exclusivamente em podcast, para responder às dúvidas dos ouvintes. Portanto, já sabem, todos os que quiserem colocar perguntas aos padres João Bastos e Daniel Nascimento. Olá aos dois.
Olá.
Todos os que quiserem colocar perguntas sobre a Bíblia aos nossos dois membros deste programa, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre Sansão e Dalila, portanto, se não ouviu o programa na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Agora vamos recuar um pouco e vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte Luís Correia. O Luís enviou-nos este e-mail logo depois de ter saído o episódio sobre Caim e Abel, o primeiro desta segunda temporada. E diz assim o e-mail do nosso ouvinte: "Dúvida sobre os conhecimentos de Deus. Por que pergunta Deus a Caim: 'Onde está o teu irmão?', se Deus, conhecendo tudo, o sabia? Felicito-vos pelo tom cordial em que decorre o vosso interessante programa. Luís Correia, um agnóstico". Obrigado, Luís, por esta pergunta. É, na verdade, uma pergunta que toca num dos dilemas mais complexos destes debates sobre a fé, a questão da omnisciência de Deus e até nos pode levar, por exemplo, a questões como o problema do mal. João, queres começar a responder a esta pergunta? Deus sabe tudo?
Obrigado ao Luís Correia por esta pergunta, que é uma pergunta muito interessante e que entronca num tema também muito castiço, que é esta questão de quem é Deus e até a evolução da imagem de Deus na Bíblia. Haveria uma resposta rápida para este episódio ser curto, que era dizer que isto trata-se de um texto literário e, portanto, isto é um dispositivo literário e ficámos por aqui. Mas vamos tentar problematizar um bocadinho, até porque isto acontece com Caim e Abel, mas podemos dizer que acontece no capítulo anterior com Deus a perguntar a Adão: "Onde estás?" E acontece no Novo Testamento, por exemplo, com Jesus, que sendo Deus para os cristãos, também deveria saber tudo, a perguntar a Pedro: "Pedro, tu amas-me?" O que parece que até que Jesus é assim um bocadinho tóxico e narcísico, que precisa que as pessoas digam: "Sim, sim, sim, senhor, eu amo-te muito, gosto muito de ti". A Bíblia claramente tem uma obsessão. Já falámos dela ao longo de vários episódios, que é lutar contra uma ideia que faz de Deus um objeto, a chamada idolatria. E por isso a Bíblia até multiplica as imagens, metáforas e analogias que faz, até os próprios títulos que dá a Deus, para que não se consiga possivelmente falar de Deus de uma maneira definitiva. Nesse sentido, a omnipotência de Deus na Bíblia não é uma espécie de superpoder. Deus não é um super-homem, não é o nosso Action Man ou o nosso Iron Man. Mas parece que fica claro ao longo de alguns relatos da Bíblia que se nós podemos falar aqui de omnipotência, nós estamos aqui a falar de algo mais próximo de uma autorretração ou uma contração de Deus. Um dos nomes hebraicos, que nós até podíamos traduzir para Todo-Poderoso, tem a palavra basta dentro de si, como a dizer que Deus é aquele que diz basta a si mesmo. E nós quando falámos no segundo episódio, na primeira temporada, da criação, nós falámos precisamente desta ideia de Deus descansar, de se autolimitar. No caso de Caim, Deus não está propriamente a pedir ali uma informação. O que está a pedir é que Caim reconheça aquilo que fez, porque na narrativa, Caim só será humano se nomear o seu ato.
Ou seja, Deus não está a fazer uma pergunta a Caim porque precisa de saber a resposta, está a fazer uma pergunta porque quer que Caim verbalize a resposta.
Verbalize. Há um comentador, um padre da Igreja, aqueles primeiros filósofos, teólogos, pensadores cristãos, que diz que Deus faz esta pergunta, ou a Bíblia narra esta pergunta para mostrar que Deus cria o espaço para que Caim responda. Deus não esmaga com a sua omnisciência os outros. Deus podia chegar lá, fulminar Caim com um raio, ir-se embora. Ele tinha matado Abel, portanto, era mais que justo. Deus não faz isto. A narrativa mostra claramente que o nosso Deus, o Deus cristão, o Deus judaico, é um Deus diferente. Se nós quiséssemos depois falar até da omnipotência, a verdade é que o conceito de omnipotência é um conceito muito difícil. Nós associamos Deus ser omnipotente a poder fazer tudo quando quer. E daí a questão até do problema do mal, porque é que ele cura X pessoa e não cura Y pessoa. Quer dizer, Deus parece que ou é um palhaço, um sujeito ridículo que cura umas pessoas e não cura outrasOu não sabe todas ou não existe. A verdade é que o conceito de omnipotência, a primeira vez que é usado no contexto cristão é em grego e não quer dizer o homem todo-poderoso que pode fazer tudo. Quer dizer, antes, aquele que abraça tudo, o omniabraçante. E se calhar temos de fazer esta conversão, que leva muitas pessoas ao ateísmo e até ao agnosticismo, que é a ideia de que Deus é omnipotente e, portanto, esse Deus forte é facilmente até descreditado por nós, o maximal God, como às vezes na linguagem técnica nós dizemos. Na verdade, o Deus cristão não é este maximal God, é mais o Deus débil, o Deus da cruz, o Deus omniabraçante, que deixa espaço ao ser humano e que se autorretrai.
Daniel, queres acrescentar algum ponto a esta resposta?
O João hoje está forte no hebraico e no grego, mas eu não apanho essas categorias. Talvez só dizer que precisamente porque a Bíblia é literatura e porque é uma biblioteca e reúne em si diversas sensibilidades e diversas formas de falar de Deus. Nestes relatos, em particular este de Caim, este de Adão e Eva, até podíamos dizer Gênesis 1, este relato da criação em sete dias, com Deus a descansar, mostra-nos uma forma de falar de Deus muito humana, ou seja, Deus como um personagem entre outros, como Caim e Abel, que estabelece diálogo, que faz perguntas, que dá respostas, que percebemos que é uma forma literária e muito humana de representar Deus. Muito antropomórfica, ou seja, coloca Deus como um personagem humano, que é algo que nós já estamos habituados noutro tipo de sensibilidades religiosas. Basta lembrarmos destes deuses dos romanos e dos gregos, que no fundo são uma espécie de seres humanos com muito poder e também muitas qualidades e muitos defeitos. No caso da Bíblia, é esta forma de também narrativizar este encontro de Deus com o homem. Como o João bem dizia, este "onde estás?" não quer dizer: "Não sei onde é que estás, diz lá, para eu te encontrar". Até percebemos pela lógica da narrativa, é mais um: "O que é que fizeste?" Este "onde estás", mais do que geográfico, é existencial. Onde estás? Onde está a tua vida? Onde está o teu cérebro? Onde está o teu coração? Como também o tal descanso de Deus, que descansa num sétimo dia, não porque está cansado e precisa de uma pausa, de umas férias, mas parte também de um determinado gênero literário. Neste caso, como falámos já várias vezes, muito mitológico, com categorias muito míticas, simbólicas, se quisermos, para sublinhar um ponto, uma ideia, um conceito, e não propriamente para nos fixarmos na forma literária do Deus que caminha ou, porventura, como foi representado várias vezes com barbas e cabelos brancos. Enfim, que são imagens que vão um bocadinho par e passo com esta ideia.
Não sei se podemos aproveitar estes episódios para sugerir alguma bibliografia.
Vamos a isso.
Mas há um livro muito castiço de um teólogo, que não sei se sei dizer o nome, que é Thomas Römer. É um alemão, tem uma gutural, que não está traduzido em português, mas existe em inglês, espanhol. Deve ser aquele que canta um tipo de Zurique, talvez, por acaso. Mas está traduzido em espanhol, inglês, alemão, italiano, francês, todas as línguas, menos português, que se chama "A Invenção de Deus". Que, se calhar, se nós perguntássemos de maneira muito absurda a cada um de nós se Deus foi uma invenção, acharíamos que isso é uma ideia contra até a perspectiva cristã. Mas o que este teólogo, este teologista faz, é explicar como, ao longo da Bíblia, a ideia de Deus foi evoluindo até ao monoteísmo. Portanto, nós não podemos estranhar que, muito embora o Gênesis não tenha sido o primeiro texto escrito, nem tenha sido escrita de maneira ordenada a Bíblia do início ao fim, claramente existem na Bíblia várias versões evolutivas de Deus e até do monoteísmo. O monoteísmo não nasceu, já falamos sobre isso, pronto e acabado para depois ser usado. Portanto, é uma leitura que aconselho, que acho que é curiosa.
Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder a esta dúvida enviada pelo nosso ouvinte Luiz Correia. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta pro podcast das Histórias da Bíblia, escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixe um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Não se esqueça também de seguir o podcast nessa plataforma pra poder receber uma notificação sempre que sair um episódio novo, porque estes episódios de quinta-feira não passam na rádio, ficam apenas em podcast. Nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa segunda temporada e vamos falar sobre Rute, uma das mulheres mais importantes do Antigo Testamento. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.