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Começa agora mais um Boa Moeda, Má Moeda, sempre com o Paulo Ferreira. Paulo, vamos aos bancos?

Vamos continuar a falar dos bancos e das ondas de choque que a falência do Silicon Valley Bank está a lançar e da incerteza que de repente se abateu sobre alguns bancos, sobretudo bancos regionais nos Estados Unidos que à escala deles são relativamente pequenos. É que num instante, por causa disto, mudaram também as expectativas sobre a evolução das taxas de juro nos próximos tempos. Isto tem uma explicação: a falência deste banco americano, em especial, deve-se muito à forte subida dos juros da Fed no último ano, ano e meio, que aliás foi acompanhada também.

Começou primeiro que o BCE.

Começou primeiro que o BCE, foi mais forte. Aliás, vai cerca de meio ponto à frente da Europa, se quisermos olhar para os níveis de taxa de juro. Isso provocou, de facto, uma alteração rápida no mercado de dívida pública, títulos de dívida pública mesmo dos Tesouros do Tesouro americano. E foi isso que levou a perdas potenciais deste banco e depois provocou uma corrida aos depósitos e ele teve que fechar. Olhando para isto agora, os banqueiros centrais estão a ponderar rapidamente se hão de manter o pé no acelerador das taxas de juro, como tinham até agora, ou se devem abrandar um pouco, precisamente para não provocar mais danos no setor financeiro. O BCE vai reunir esta semana.

Amanhã.

Amanhã. Hoje é quarta, amanhã à quinta, exatamente. A Fed reúne na próxima semana e nestas duas reuniões é suposto haver mais tomadas de decisões sobre a subida da taxa de juro. É provável que a Reserva Federal já não suba as taxas de juro na próxima semana. É uma discussão que neste momento está a ser tida nos Estados Unidos, com várias opiniões. Enfim, ninguém gostaria nesta altura de ser banqueiro central com estes dilemas. O que fazer? Travar a inflação e tentar segurar os bancos de alguma maneira, ou alguns bancos. E também começa a haver dúvida sobre o que fará amanhã o Banco Central Europeu. Já estava sinalizado de lado de cá, de uma forma muito firme, um aumento de mais 0,5 ponto percentual nas taxas de juro do BCE. E a grande questão é: será que isto vai mesmo ocorrer ou não? Seja como for, o mercado está a antecipar uma desaceleração, de facto, do ritmo futuro de juros em relação àquilo que era expectável até há poucos dias.

É por isso que as taxas Euribor estão a descer, ou desceram ontem, Paulo.

Exatamente. Isso mesmo, já em antecipação. E desceram de uma forma rara, expressivamente rara. Se repararmos a taxa Euribor a 12 meses, ontem caiu 0,34 pontos percentuais. É muito. Para um só dia, 0,3 ou 0,34, mais precisamente, é muito. Elas estavam próximas dos 4% na semana passada e agora estão próximas dos 3,5%. O mesmo aconteceu já agora com a Euribor a seis meses, que caiu também estes 0,34 para próximo dos 3%. Numa só sessão, as taxas recuaram aquilo que tinham subido num mês.

Muito sintomático.

Portanto, só para percebermos a amplitude. Estão agora no valor em que estavam por volta do dia 10, 12 de fevereiro. Isto, pelo menos aparentemente, são boas notícias para quem tem crédito à habitação, obviamente, e está a sofrer o aumento das prestações. Se isto vai continuar ou não, depende muito da evolução do sistema financeiro, daquilo que fizerem agora os bancos centrais em resposta a isso. Para já, são boas notícias. Isto também pode transformar-se numa má notícia para todos se, de facto, se vier a verificar uma crise financeira, uma crise bancária como a de 2008, 2009. Aí a questão das taxas passa a ser uma questão marginal.

Para já, não temos ouvido responsáveis na área a dizer que isso vai acontecer, mas também nunca costumamos ouvir isso antes de acontecer.

Responsáveis também nunca anunciam, nunca o dizem, obviamente. Não, não há, atenção.

Mas há preocupação.

Em termos estruturais, aquilo que provocou a crise de 2007, 2008, é completamente diferente daquilo que fez cair este banco. Na altura, foi um problema estrutural no mercado imobiliário e essa bolha agora não existe, também devido às medidas de regulação e de supervisão que foram tomadas. Mas para já, é esta a boa notícia, de facto, não só o abrandamento da subida dos juros que se aplicam aos créditos de habitação, como mesmo recuo, e obviamente que isto vai se refletir agora nos próximos cálculos de prestações, porque a Euribor, que conta para o cálculo dos empréstimos, é a média de cada mês e portanto esta já ninguém atira, basicamente.

Paulo Ferreira, o Boa Moeda, Má Moeda. Amanhã há mais novidades. Rádio Observador