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Este é o som da Boa Moeda, Má Moeda. Nesta altura olhamos, com a ajuda do Paulo Ferreira, para as notícias que mexem com as nossas finanças e também com mais dicas sobre crédito à habitação, mas já lá vamos. Não é, Paulo?

Já lá vamos. Vamos começar pelas eleições italianas, perceber um pouquinho o que isso tem a ver com o nosso bolso.

Ontem percebemos que muita coisa.

Muita coisa, mais do que aquilo que poderíamos suspeitar. Por exemplo, ontem os juros da dívida italiana estiveram a subir para máximos dos últimos anos e arrastaram, obviamente, outros países, sobretudo do sul da Europa, como Espanha e Portugal.

Mas qual é o receio dos investidores?

Primeiro, a Itália é um país que tem a dívida mais elevada da zona Euro, são 150% do PIB. E dá-se o caso de ser a terceira maior economia da União Europeia, portanto, não é um país propriamente resgatável, como foi Portugal ou a Grécia, que não têm a dimensão de Itália. E qual é o receio? O receio é que o novo governo italiano, que tem uma lógica muito patriótica, se quiserem, também na economia, que comece a desafiar as regras orçamentais de Bruxelas, isso levará necessariamente a mais déficit e a mais dívida. Itália, por outro lado, é um país que consegue ainda ter um crescimento nas últimas duas décadas inferior a Portugal, e nós já somos um problema, como sabemos. Portanto, Itália consegue ter uma economia ainda mais anémica nos últimos tempos e isso obviamente tornará sempre a dívida mais difícil de pagar, porque um país que não gera riqueza, obviamente, tem mais dificuldade em satisfazer os seus compromissos. Isso contamina o sistema bancário, portanto, há aqui uma bola de neve que pode ser semelhante àquela que assistimos há 10 anos na crise das dívidas. Isso depois acaba por contaminar outros países com histórico de menos disciplina orçamental, como é o caso de Portugal, e depois estes juros mais altos acabam por influenciar o risco país e todos nós, bancos, empresas, famílias, acabamos por sofrer também uma subida de taxas de juro maiores, porque o risco país acaba por ser pago por todos.

E como isto anda tudo ligado, voltamos ao crédito da habitação, não é assim?

Vamos lá, então. Estamos nesta altura de subida de juros, de facto. Ontem falámos aqui do cálculo da taxa de esforço, que no fundo é o primeiro passo que podemos dar pra perceber até que ponto é que conseguimos ou não satisfazer as nossas obrigações no futuro. Assim que essa taxa de esforço se aproxima ou ultrapassa os 40%, estamos a entrar na zona de risco. E a partir daqui, o que podemos fazer? A ideia é sempre reduzir os encargos mensais para os podermos pagar, de alguma maneira. Isto é, atenuar a fatura, neste caso, com as obrigações bancárias. Há uma coisa muito importante, que é agir sempre por antecipação antes de acontecer alguma aflição que leve o cliente de um banco a falhar o pagamento de uma prestação. Não há nada pior para a confiança entre o banco e o cliente e para ter no nosso histórico bancário, que seja o não pagamento de um encargo sem qualquer pré-aviso. Isto é, chegar à altura da prestação e não haver dinheiro na conta.

Portanto, é logo ali um cadastro, não é?

Sem dúvida.

Portanto, a ideia, Paulo, é falar sempre com o banco antes de acontecer algum incidente de crédito, que é como se chamam essas falhas de pagamento.

É, o jargão é esse, incidente de crédito. Basicamente, deixar de pagar uma prestação na data certa. E a ideia é essa mesmo, prevenir isso, falar sempre antes ou tentar agir antes. Quando se prevê que há um aperto próximo, há que partir então para uma negociação com o banco, explicar as contas direitinhas, estudar vários caminhos possíveis para evitar que isso aconteça, no fundo, para trazer os encargos pra aquilo que é a capacidade da pessoa ou da família. Depois há várias formas de o fazer: consolidação de crédito, extensão de prazos dos empréstimos, negociar uma moratória. Enfim, há aqui vários caminhos.

E os bancos estarão sempre muito mais disponíveis a escolher um destes caminhos do que chegar a esta situação do incidente de crédito.

Sem dúvida. Se puderem evitar, seguramente que os bancos preferem isso do que depois, até no limite, ficar com o imóvel.

Claro.

E já percebemos que isso depois é uma chatice para os bancos, ficam com muitos imóveis, centenas ou milhares, e a função dos bancos não é, de facto, gerir parque imobiliário. E portanto, os bancos também preferem sempre uma negociação controlada, que permita evitar os tais incidentes de crédito. Nos próximos dias, vamos ver então os vários caminhos que se podem seguir para compatibilizar o orçamento familiar com as responsabilidades. Mas há logo uma ideia muito importante, que é evitar sempre, mas sempre, juntar mais dívida à dívida, porque isto é uma tentação muito grande quando se está apertado, utilizar o cartão de crédito ou ir buscar um crédito pessoal para conseguir pagar as prestações, por exemplo, do crédito imobiliário que se tem.

É uma espiral.

É uma espiral. É uma armadilha comum. Por quê? Porque os novos empréstimos seguramente serão sempre a taxas de juro ainda mais elevadas.

Paulo Ferreira e o Boa Moeda, Má Moeda. Amanhã há mais pra conhecer.