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Caça ao Voto da Rádio Observador, uma sondagem que dá 60% nas intenções de voto a António José Seguro à segunda volta. Os dois candidatos, Seguro e André Ventura, estão na estrada, apesar da tempestade. Este é o Caça ao Voto, eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E nós estamos com o Miguel Pinheiro e com o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Vou começar por ti, Rui Pedro Antunes. Aqui fazemos sempre contas a quem anda a ganhar e quem anda a perder votos. Quem é que ganhou votos nas últimas 24 horas?
Ainda bem que começaste pelo quem ganhou. Eu creio que António José Seguro ganhou pela maneira como reagiu ao apoio a Marques Mendes, ou seja, agradeceu o apoio, não se colocou com grandes invenções no sentido de dizer que o importante era o apoio do povo ou a tentar fugir à questão. Pelo menos mostrou-se agradecido, o que, como já tínhamos dito ontem, era um apoio diferente dos outros por ser um ex-candidato a declarar o seu apoio a António José Seguro. Fica também absolutamente claro que isso, na verdade, mesmo se o PSD apoiar formalmente, muitas das figuras do PSD, principalmente os senadores, pois não sei como é que isso se traduz em termos de votos, vão apoiar Luís Marques Mendes. Ainda ontem vi um conselho sobre relações internacionais que tinha várias figuras, uma delas era Carlos Coelho, que é vice-presidente do PSD. Também consigo antecipar que outros altos dirigentes do partido possam vir a votar e a anunciar esse apoio a António José Seguro e está a insistir num ponto que me parece normal e óbvio, que é dizer que não será oposição ao governo a partir de Belém. Essa ideia de que não será oposição e que não será uma espécie do kryptonite Montenegro ou anti-Montenegro em Belém, é importante para não perder ou para não deixar tão desconfiada uma parte do eleitorado à AD, que pode ter aquele pensamento mais simplista que é: há um candidato de esquerda e outro de direita. Eu sou de direita, por que é que hei de votar no outro de esquerda? Para tentar combater essa simplicidade de pensamento, António José Seguro também andou a tentar fugir de dizer que era de esquerda, tenta de alguma forma não subvalorizar e não desprezar esse eleitorado. Parece-me que é certo a mensagem ir para aí, mais do que para uma esquerda que aí, sim, não tem outra forma senão ter uma leitura simplista da situação, que é: há um candidato de esquerda, há um candidato de direita radical, não estou a ver nenhum eleitor de esquerda que fuja para André Ventura. O grande perigo à esquerda é haver desmobilização por, de alguma forma, desencanto com António José Seguro. Uma coisa tipo Mélenchon. Mas como fez Mélenchon quando resistiu a dizer que apoiaria Macron ou que votava em Macron, em vez de votar em Le Pen. E, portanto, parece-me que o caminho de António José Seguro é certo, que é não ignorar e não desprezar os votos da AD, que parecendo que não devem rondar os eleitores da AD, se alguns já estão nele, muitos foram para Cotrim, e é preciso ir buscá-los, que devem rondar os 26, 27, 30% do eleitorado que vai votar. E parece-me ser o caminho certo não os desprezar e dar uma farofa lá para eles.
Miguel Pinheiro, quem é que ganhou votos?
Sim, eu acho que Seguro está a dizer as coisas que tem de dizer. Mas vamos ver. Era Seguro que dizia que o objetivo era não pôr os ovos todos no mesmo cesto. Afinal, agora António José Seguro está no mesmo cesto do governo? O que ele disse nem foi não vai ser oposição, disse: "Não serei um obstáculo." Não era ele que dizia que era preciso um presidente que pudesse ser um obstáculo por estar num cesto diferente?
Um contrapeso.
Além disso, mas que candidato presidencial é que pode dar a garantia de não ser um obstáculo ao governo? Nunca, jamais, em tempo algum? Mas ele acabou de dizer que votaria a lei laboral. Então isso não é ser um obstáculo ao governo? Ele está a querer nos convencer que não vai haver nada, não vai surgir nada em cinco anos que o levará a ser um obstáculo, na prática, àquilo que um governo, este ou outro qualquer, pretenda. Parece-me tudo um bocadinho infantil. Uma coisa é ele dizer: "Eu prezo a estabilidade, eu não vou estar a derrubar governos a torto e a direito. Eu pretendo dialogar com o governo. Haverá seguramente momentos em que teremos visões diferentes sobre as soluções para o país e eu comprometo-me a conversar, a ouvir e a dar a minha opinião." Isto sim, isto é uma conversa adulta. Agora dizer: "Não serei um obstáculo ao governo." Não é crível, não é possível acreditar nisso. Além do mais, eu acho que ele só devia sair à rua sozinho. Ainda hoje ele teve uma sessão onde na plateia estava Teixeira dos Santos, que foi ministro das Finanças do José Sócrates. Eu sei que na fase final, Teixeira dos Santos forçou José Sócrates a pedir ajuda à Troika, sei disso tudo, mas a verdade é que esteve lá durante imenso tempo. Não é possível apagar do currículo que foi ministro das Finanças do José Sócrates. Não vejo como é que isto possa ajudar Seguro. Ele também teve mais uma ajuda vinda da direita. Sebastião Bugalho, numa entrevista aqui ao Observador, disse E é esse o título, como é que é, Rui? O eleitorado de direita não quer estabilidade.
E dá outros argumentos?
Não, mas isso é o que me interessa. Há uns dias, o Sebastião Bugalho achava que o eleitor da AD queria Marques Mendes. Portanto, eu não sei até que ponto é que ele tem legitimidade pra falar em nome dos eleitores da AD, porque se calhar não os conhece assim tão bem quanto isso, porque ele achava que eles queriam outra coisa. Mas quer dizer, está certo, está tudo bem. O meu ponto é: António José Seguro devia usar argumentos um pouco mais adultos, diria eu, para convencer a direita não populista a votar nele.
Portanto, Ricardo, percebeste que o Miguel perdeu votos do Seguro e ele teve a amabilidade de não me desmentir e ainda me despedir a seguir.
Não.
Mas então, Miguel, quem é que anda a perder?
Quem anda a perder votos é André Ventura. Saiu uma sondagem ontem à noite que dá 60,8 a Seguro e 24,5 a André Ventura. Ora, se na segunda volta, por acaso, André Ventura tiver a mesma percentagem de votos que teve o Chega nas legislativas, não há líder da direita pra ninguém. Se por acaso isso acontecer, será sinal de que ele não consegue ir além do Chega. Seria uma surpresa, eu ficaria surpreendido, mas se isso acontecer, ele tem aqui a eleição perfeita pra subir a votação. Claro, perfeito era ser contra Alexandra Leitão, com certeza. Mas apesar de tudo, é contra alguém vindo do Partido Socialista, é contra um candidato de esquerda. Quanto é que o Chega teve nas legislativas? Vamos lá ver aqui, que eu não sei de cor.
Eu aproveito pra lembrar que o Teixeira dos Santos é professor na Faculdade de Economia do Porto e esta ação foi na Faculdade de Economia do Porto.
Claro, com certeza.
Mas ele está algemado nas instalações da Faculdade de Economia do Porto?
É só um barato.
O Chega teve 22,7% nas legislativas de maio. Por isso, se ele tivesse estes 24,5 que lhe dá a sondagem, seria muito fraco.
Rui Pedro?
Deixa-me só acrescentar que o Sebastião Bugalho também dizia nessa entrevista que Sá Carneiro foi contra um regime completamente presidencialista, sugerindo mais uma vez que André Ventura é o candidato que faz isso, e portanto, quem evoca Sá Carneiro deve se lembrar disso. E ainda disse que Marcelo ia votar de certeza em Seguro, ou que votaria em Seguro, porque vai votar num presidente que garante os direitos, liberdades e garantias. Portanto, só faltou mesmo o Sebastião Bugalho dizer que, de fato, vai votar em António José Seguro. Disse-o de várias formas sem o dizer.
Não o disse porque Marques Mendes ainda não tinha anunciado.
Porque a entrevista foi antes. Quer dizer, estou a supor que foi por essa a razão. Foi uma das justificações.
Senão não há nenhuma razão pra estar com enigmas, não é?
Sim. E só pra dizer quem perdeu votos. André Ventura, como o Miguel disse, a sondagem é evidente e creio que não tem distribuição de indecisos, senão os números ainda seriam mais expressivos.
Mas sabemos muitos dos votos da primeira volta que passam para António José Seguro. De quem? De Govêia Melo, de Marques Mendes, de Cotrim Figueiredo. São altas percentagens.
Sim, não deixa de ser relevante principalmente essa parte. A grande questão depois é a capacidade de mobilização, se efetivamente as pessoas todas que se mobilizaram-
Se agora saem de casa.
Imagina que, estamos a falar, um ficcionado, 50% do eleitorado do almirante. Podem não ser 350 mil votos, que ele teve 700 mil. Pode ser que quem se motive ser muito menos gente, porque ele também foi buscar as abstenções.
Claro, há aqui um ponto que as pessoas têm que entender. É outra eleição totalmente diferente. O corpo eleitoral, por assim dizer, é totalmente diferente e os 50 mais um, que são necessários pra ganhar a eleição, são 50 mais um de quem vota. Por isso, vamos ver quantas pessoas vão votar.
E quem vai votar.
E André Ventura também corre outro risco aqui, que é: ele, na verdade, pode se descaracterizar em algum momento. Eu estava vendo a entrevista que ele deu ao Expresso, só lhe faltou dizer que agora já não gosta de Trump. E há uma base de trumpistas, não são majoritários no Chega, mas há muita gente que gosta do Donald Trump e, portanto, ele pra tentar ser moderado, não pode perder aquilo que as pessoas gostam nele de radical. E não os vai perder pra sempre, nem pra nunca. Essas pessoas, se calhar, nem se vão mobilizar pra votar noutras pessoas, mas se calhar pensam assim: "Olha, este pra presidente não, pois vou lá na outra eleição, que eu quero este é pra primeiro-ministro." Portanto, ele também está a lutar contra ele próprio e contra uma abstenção. Normalmente, o eleitorado do Chega tem sido disciplinado e tem ido às urnas, mas se ele se começa a descaracterizar demasiado, pode ir perdendo pequenas fatias do seu eleitorado. Não estou a dizer que os trumpistas são a maioria do Chega, nem nada que se pareça, mas se ele vai os irritando a dizer coisas que o vai descaracterizando, as pessoas podem pensar: "Olha, agora não vou lá, vou lá depois nas legislativas, que ele é o homem certo, mas é pra primeiro-ministro." Portanto, André Ventura também está um bocadinho a lutar contra ele próprio
Mas parece-me que ainda não tem essa vaga de fundo para mudar o estado das coisas. Ele é pródigo em inventar coisas que mudam o jogo. Vamos ver o que é que vai conseguir desta vez, porque para já os ventos não lhe parecem estar favoráveis.
E vamos ter mais análises para a semana no Caça ao Voto com o Rui Pedro Antunes e o Miguel Pinheiro. Vai ser assim todas as tardes até ao dia das eleições, até 8 de fevereiro. Mas, Judite, vamos também para a estrada.
Vamos para a estrada. Hoje temos dois repórteres na estrada, a Laura Figueiredo, que está a acompanhar a campanha de António José Seguro, que está em Matosinhos, e também o Miguel Viterbo Dias, que vai dentro de minutos estar com o André Ventura. Vamos para ti, Miguel. Olá.
Não, vamos à Laura primeiro.
Então vamos à Laura Figueiredo primeiro. Laura, tens estado esta sexta-feira com António José Seguro. Por onde andaste?
O dia começou na Faculdade de Economia do Porto, como já estiveram a falar, e com António José Seguro num encontro com empreendedores, empresários, jovens estudantes, também algumas figuras conhecidas do universo socialista, Elisa Ferreira, ex-comissária europeia, e também Teixeira dos Santos, o antigo ministro das Finanças. Depois de ouvir várias questões, também sugestões dos vários participantes, o candidato teve a responder às perguntas que lhe foram sendo colocadas. Aproveitou também para piscar o olho à direita, de certa forma. Promete não ser um obstáculo ao governo, nem a este, nem a outro que venha eventualmente depois, e reafirmou que não é um candidato partidário, diz que não vai ser também um presidente partidário e que nunca levará para Belém um programa partidário. Neste encontro na Faculdade de Economia falou-se de crescimento económico, de burocracia, reforma administrativa, startups, também da legislação laboral. E durante esta conversa, António José Seguro foi-se mostrando alinhado com a necessidade de retirar obstáculos à criação de riqueza e de emprego e chegou mesmo a dizer que a criação de riqueza não é propriamente um pecado e diz que é uma necessidade. Depois deste encontro, foi almoçar com os alunos da Faculdade de Economia e no final veio até aqui à CEIIA, em Matosinhos, o Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, para visitar a empresa. Aqui esteve cerca de duas horas, esteve a cumprimentar os trabalhadores, chegou também a jogar matraquilhos na companhia de Luísa Salgueiro, a presidente da Câmara de Matosinhos, também socialista, e terminou também a visita a conduzir um carro aqui produzido destinado à Força Aérea Portuguesa.
Laura, quem é que ganhou esse jogo de matraquilhos?
Sinceramente, acho que ficou a meio para a visita prosseguir.
Não viste com que equipa é que jogou, não?
Não quis responder António José Seguro a perguntar se era do Benfica ou não, disse que estava a jogar pela seleção.
Pronto, esse clássico. Uma das mensagens do dia é que António José Seguro faria depender a aprovação da reforma laboral de um acordo em sede de concertação social. Isto foi algo debatido?
Sim, foi em resposta a uma pergunta que lhe foi feita e reiterou então esta ideia. Diz que, de facto, vetaria a lei laboral se esta chegasse a Belém tal e qual como está desenhada. Diz que a questão não fez parte das propostas eleitorais dos partidos do governo e porque não houve então um acordo em concertação social, não passaria esta lei. Durante este encontro, afastou também a possibilidade de promulgar uma lei de regionalização. Diz que se for para criar mais cargos, não, e diz que não é possível também avançar neste sentido com os quadros já existentes nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento das Comunidades Intermunicipais.
Sobre debates, Seguro só quer mesmo um.
Sim, diz que nunca houve até agora uma eleição presidencial com tantos debates. Diz que está aqui para fazer a campanha dele, que privilegia o contacto direto com todos os portugueses e que cada um faz a campanha que deseja. Portanto, António José Seguro privilegia mesmo o contacto com os portugueses e não tanto os debates, foi aquilo que disse.
Laura Figueiredo a acompanhar a norte António José Seguro. Agora rumamos mais a sul, Miguel Viterbo Dias, porque estás no Montijo, é isso?
Exatamente, no Montijo.
Estás um pouco baixinho, estou a te ouvir ao fundo. Deve ser do vento, deve estar muito vento aqui no Tejo, está a prejudicar a comunicação. E Miguel, André Ventura já reagiu, é expectável que reaja ao facto de António José Seguro recusar a hipótese de ter três debates?
Ainda irá falar sobre isso, até porque foi André Ventura a lançar essa escada ao candidato apoiado pelo Partido Socialista sobre a realização de três debates nesta segunda volta. Para já, sabe-se que António José Seguro está disponível apenas para um, diz que já existiram debates suficientes, mas o candidato do Chega esteve na Suíça, só regressou já durante o dia de hoje e, portanto, terá esta ação de campanha aqui ao final da tarde no Montijo e só aí conseguiremos ter uma reação sobre essa decisão de António José Seguro, sendo já previsível que André Ventura critique, porque o candidato apoiado pelo Chega tem interesse em muitos debates televisivos, é um terreno onde se dá particularmente bem. Aliás, com o próprio António José Seguro protagonizaram o debate que acabou por ser o mais visto da primeira volta e por isso é um modelo em que André Ventura se sente confortável e que quererá sempre puxar por mais e não por menos.
E esta ação de campanha é a única prevista para hoje ou há mais?
Para hoje, sim, mas não faça as perguntas muito a aprontar para o futuro, porque a agenda de André Ventura vai sendo conhecida a muito pouco e pouco.
Tem a sua própria dinâmica.
Sim, é quase um pé de pai para irmos conhecendo o desafio seguinte quando estamos no atual. E por isso, para já sabemos que estará no Montijo a qualquer momento. Já estão por aqui poucas dezenas de apoiantes. O tempo também está mau. Estão aqui até algumas fitas da Proteção Civil junto ao ponto de encontro em que estamos por causa do mau tempo e da proximidade com as zonas de água e, portanto, para já sabemos isso. Ainda não há agenda para o fim de semana. O candidato faz intenções de estar também na Madeira e nos Açores, mas não se sabe ainda se irá este fim de semana ou se irá só durante a semana, porque também esta questão da tempestade Ingrid pode prejudicar aqui alguns pontos de agenda e havendo debate televisivo na terça-feira, André Ventura não quererá correr o risco de ficar retido nas ilhas, pelo que pode existir algumas alterações. Mas a ideia é ainda ir às regiões autónomas nesta segunda volta da campanha.
Miguel Viterbo Dias a acompanhar André Ventura, que é esperado por esta hora no Montijo. O Caça ao Voto regressa na segunda-feira.