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Está na hora de tentar perceber quem está a ganhar e a perder votos à luz dos factos políticos mais recentes. Uma análise feita pelo diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, pelo Rui Pedro Antunes, editor de política, e pelo painel da Tarde Política, de que fazem parte a Judite França e o Bruno Vieira Amaral. Pode acompanhar-nos em vídeo no nosso site, em observador.pt e como sempre, nas plataformas Facebook e YouTube.
Miguel Pinheiro, vamos começar por ti. António Costa volta a juntar-se esta noite à campanha do Partido Socialista. Não discursa, mas participa no comício agendado para esta noite na Aula Magna, em Lisboa. Uma forma do PS caçar mais alguns votos nesta reta final da campanha ou antes pelo contrário?
Antes pelo contrário, no sentido em que mostra que o PS sente que está a perder votos, sente que não está a conseguir chegar lá. É evidente que António Costa é muito importante para conseguir convencer eleitores indecisos que estão entre o PS e a Aliança Democrática e tentar levá-los a confiarem no PS. Agora, Pedro Nuno Santos não é António Costa. António Costa até pode aparecer hoje na Aula Magna, até pode aparecer eventualmente na sexta-feira na descida do Chiado, não sei se está planeado aparecer ou não, mas é 11 de março. Que as pessoas não tenham ilusões. Se votarem em António Costa no dia 10, quem vai estar lá no dia 11 é Pedro Nuno Santos, não é António Costa. E esta necessidade de ir buscar o antecessor mostra realmente uma grande insegurança e uma sensação de que as coisas não estão a correr bem. Se a isto juntarmos a nova promessa eleitoral de Pedro Nuno Santos, que veio dizer hoje que está na hora de avançarmos mais um bocadinho na redução do horário de trabalho. Ele não concretizou, não sei se ele está a pensar em 10 horas semanais de trabalho para toda a gente, para toda a função pública, eventualmente. Acho que talvez isso pudesse ajudar, mas acho que só falta prometer crepes com chocolate todas as segundas-feiras a quem votar no PS.
Rui Pedro Antunes, André Ventura insiste que tem a garantia das forças vivas do PSD que haverá acordo com o Chega no pós-eleições. Continua sem nomear ninguém e ninguém se acusa. Esta estratégia dá votos?
Bom, eu acho que a estratégia de André Ventura é ser falado. Acho que a primeira semana de campanha não correu tão bem como André Ventura esperava do ponto de vista da atenção mediática. E até já ontem falávamos de uma arruada que marcou, agora marcou várias arruadas até ao fim, para ter mais essa presença mediática. Preparou uma campanha que tinha um almoço e um jantar, viu as televisões todas irem direto para os outros partidos todos, a toda a hora, durante o dia todo, e ele no hotel ou com os ticões de carro de um sítio para outro e sem aparecer. Portanto, agora está a tentar, por um lado, radicalizar o discurso, por outro, ter uma maior presença na rua, por outro, alimentar esse tipo de perceção política de que algures, numa cave, está a ser preparado, uma cave daquelas como a da Expo 97 do Herman Enciclopédia, em que há uma senha, não sei qual é esta senha agora, mas em que está a ser combinado por umas forças vivas, secretas, um acordo para depois afastar o Luís Montenegro ou não, para haver um acordo com o Chega depois de 10 de março.
Mas não pode ter um efeito contraproducente, ou seja, deslocar eleitorado para o Partido Socialista ou outros partidos à esquerda?
Eu creio que no caso de André Ventura, a grande preocupação dele é, parece-me que se perder gás e se perder força e se afastar daquela meta dos 20% e ficar mais próximo dos 12, 13, 14%, isso acontecerá porque houve eleitorado a fugir para a AD para garantir que havia um governo do PSD, que não havia governo do PS. E, portanto, André Ventura precisa de provar que ele pode contar qualquer coisa e que o voto dele não é um voto que não conta para efeitos de governação. Enquanto o voto na Iniciativa Liberal, as pessoas sabem que se estiverem a votar, estão a votar numa solução. E aí a questão do voto útil, de facto, do ponto de vista da Iniciativa Liberal, não conta, é como o Bloco de Esquerda ou o PS, só conta numa perspetiva, que quem votar mais na Iniciativa Liberal e no Chega ajuda a que o Luís Montenegro tenha menos votos à direita. E se ele não ficar em primeiro, já disse que não governa. Portanto, tudo depende daí. E André Ventura, nesta estratégia toda, também vai estar com o Santiago Abascal, o líder do Vox. Portanto, está a tentar dar um novo impulso à campanha e certamente terá uma estratégia parecida com esta nos próximos dias.
Estávamos aqui a falar desta questão de deslocalizar ou não votos de uns partidos para os outros, mas temos aqui no meio também uns indecisos, Bruno Vieira Amaral, e é deles que queres falar. Podem vir a favorecer o Partido Socialista?
Sim, eu acho que este grande número de indecisos favorece quem está no poder, quem esteve no poder. Nas eleições de 2022, havia uma motivação do eleitorado para penalizar quem mandou abaixo o governo. E desta vez isso não existe. Poderão alguns dos eleitores socialistas culpar a Procuradoria, até o presidente, mas haverá outros, e eu creio que serão esses a grande percentagem de indecisos, que tinham votado PS e agora estão na dúvida se merece ter um renovado voto de confiança. E a dúvida é maior porque mudou a liderança. E não deixa de ser curioso isto que o Miguel se estava a referir há pouco. Pedro Nuno Santos afirmou-se politicamente como uma espécie de antítese de António Costa. Claro, dentro do mesmo partido, mas um perfil político muito diferente, mais à esquerda, com um tipo de intervenção também muito diferente. E não está a convencer, ou pelo menos não está Convencer o suficiente para estar à frente nas sondagens e daí ir buscar António Costa, o que não deixa de ser irônico para Pedro Nuno Santos, que sempre se afirmou como uma alternativa de esquerda dentro do PS a António Costa, mais ao centro, e agora precisa recorrer a António Costa. Eu acho que é a pensar nesses indecisos, aqueles que estão na dúvida se o PS merece ou não um renovado voto de confiança com alguém na liderança que já não é António Costa. Portanto, eu creio que se estes indecisos, pondo a hipótese todos os indecisos, creio que nas últimas sondagens andam à volta dos 18%, decidissem ir votar, uma grande parte deles seriam eleitores do PS. Portanto, as sondagens, neste aspecto, creio que não são definitivas, nunca são definitivas, mas podem esconder aqui um apoio ao PS dentro dessa fatia de eleitorado indeciso.
Judite, tu queres trazer neste caso ao voto o comunicado divulgado esta tarde pela Comissão Nacional de Eleições com um esclarecimento sobre os riscos de fraude eleitoral para a qual tinha alertado precisamente André Ventura do Chega.
É o que faltava na lista que o Rui Pedro Antunes fez sobre o que está a tentar fazer André Ventura para conseguir sair do resultado que está abaixo daquilo que o próprio esperava, é dar esta suspeita sobre contagem de votos. Ainda hoje André Ventura voltou a referir em relação agora a um elemento livre que também na rede social X disse especificamente que estava a brincar ao dizer que não ia contar votos do Chega e da AD. Para mais ficamos a saber que não está sequer em qualquer mesa de voto. Essas suspeitas que levaram a CNE, que normalmente até fala pouco, fizesse este comunicado a explicar que não há perigo de o voto ser adulterado, é uma forma de estancar qualquer tipo de possibilidade de fantasma de fraude. Não é preciso muito para perceber que não há perigo, tendo em conta que as mesas de voto são compostas por cidadãos dos diferentes partidos, ou das coligações, o que quer dizer que há uma fiscalização evidente, quanto mais não seja, fiscalizam-se uns aos outros. Ainda é possível nomear um delegado para fiscalizar o trabalho das mesas. Portanto, a verdade é que de facto nunca houve um resultado que tenha sido globalmente contestado, mas nós já vimos fazer-se isto no Brasil com o Jair Bolsonaro e nos Estados Unidos com Donald Trump, agigantar este medo de fraude eleitoral, que não faz absolutamente sentido nenhum em Portugal, e que não comecem a levar a sério aquilo que leem na rede social X, porque se for isso, não me parece que seja um bom sítio para encontrar qualquer tipo de conspiração. Quem conspira não escreve que vai de facto fazer ou deixar de fazer. Não faz sentido nenhum, mas é mais uma coisa que André Ventura tem juntado, porque agora é ele que está a tentar tudo por tudo na reta final da campanha.
E vamos precisamente até à estrada perceber onde é que anda o Chega a esta hora. A agenda inicial de hoje incluía um comício em Estremoz ao almoço, outro em Évora à noite, mas André Ventura decidiu incluir uma ação de rua esta tarde. Temos em direto agora a jornalista Inês André Figueiredo, que tem estado a acompanhar a campanha do Chega. Boa tarde, Inês. Estás em Évora agora. Afinal, há mais arruadas previstas para esta última semana de campanha. Já aqui no caso ao voto estivemos a analisar esta mudança de estratégia, mas quais é que são as razões que vais ouvindo por aí?
É verdade, boa tarde. Realmente esta arruada aqui em Évora, que começou mais de meia hora atrasada, não estava prevista. Oficialmente nem sequer há uma justificação para ter entrado na agenda, mas sabe-se o que tem acontecido durante toda esta campanha e a incapacidade que André Ventura tem tido de marcar a agenda. Algo que tantas vezes o vemos fazer no dia a dia com tanta naturalidade e que não conseguiu fazer durante toda a primeira semana de campanha. Ainda tentou fazendo alguns desafios aos adversários, mas ficou sempre sem resposta, sem conseguir impor-se. O que estava a acontecer era que o Chega tinha dois comícios por dia, um à hora do almoço, um à hora do jantar, e o que fazia, além de não marcar obviamente a atualidade, era que também estava muitas vezes a reagir a coisas que tinham acontecido há mais de vinte e quatro horas, o que colocava André Ventura completamente fora deste frente a frente que ia acontecer entre os vários adversários. O próprio partido resolveu alterar praticamente toda a campanha para estes dias, ou melhor, diria acrescentar, mantém os comícios, vai fazer uma arruada por dia até ao final da campanha. Destas só estava prevista a tradicional descida do Chiado na sexta-feira, mas com as alterações André Ventura vai marcar presença em ações de rua em Évora, Beja e também em Portimão. Esta arruada tem muito mais gente do que a última que André Ventura fez, que foi em Braga, uma das três que tinha em período de campanha eleitoral oficial. Estamos a falar de uma arruada que foi marcada à última da hora, digamos assim. Não tem os bombos nem que apareceram no Porto nem em Braga, mas tem muito mais gente, é audível. Já agora dizer-vos também que além desta mudança de estratégia na estrada, as palavras de André Ventura sobre as tais forças vivas do PSD, como vocês falavam, ao continuar a dizer que lhe garantem que vai haver um governo com o Chega caso haja maioria à direita, também acabaram por entrar na campanha e essas sim, por criar algumas das reações nos adversários que André Ventura pretendia e que andava à procura há mais de uma semana. Por aqui a arruada vai praticamente a meio. Ao lado de André Ventura segue o ex-deputado do PSD Rui Cristina, que é o cabeça de lista aqui por Évora, mas há aqui uma junção de vários cabeças de lista de outros sítios. Já me cruzei também com Henrique de Freitas, que é cabeça de lista por Porto Alegre, por exemplo. Esta arruada vai em direção à Praça do Girald. Já agora, outra alteração. André Ventura vai falar aos jornalistas no fim desta ação de campanha, mais cedo do que o habitual, pois só tem falado à comunicação social uma vez por dia e é antes do comício do jantar. Desta vez vai fazê-lo mais cedo. Talvez seja aqui mais um acerto na estratégia de campanha.
O Chega a mudar a estratégia, não tem conseguido até aqui marcar esta campanha. Reportagem da Inês André Figueiredo.
Rumamos agora ao encontro da caravana da CDU, que está a ser acompanhada pelo jornalista João Gama. Boa tarde, João. Estás também numa arruada desta feita, aqui bem próximo dos estúdios, na Amadora, território pouco hostil ao PCP, que de resto já liderou a autarquia. Muita gente nesta ação de campanha. Paulo Raimundo, já fez declarações?
Já discursou à arruada, como é hábito nestas ações de campanha da CDU, que acaba sempre com um momento de discursos. Paulo Raimundo falou durante cerca de 15, 20 minutos a encerrar esta arruada. Cerca de 200 pessoas, Miguel. E uma diferença aqui nesta ação de campanha, particularmente talvez por ser na Amadora, a população um bocadinho mais jovem, uma faixa etária mais reduzida de pessoas que acompanharam Paulo Raimundo a descer a Avenida Elias Garcia, até vir aqui ao centro da Babilónia, onde acabou por discursar. Paulo Raimundo aproveitou, Miguel, para falar aos jornalistas, para deixar palavras de ordem que tem deixado durante toda esta campanha eleitoral, para frisar que esta é uma campanha da CDU focada nos problemas das pessoas e a dizer que se os eleitores no dia 10 de março estão à procura de um partido capaz de combater a direita, têm é que votar na CDU.
Não há nenhuma força em Portugal que tenha a experiência acumulada, que tenha uma experiência de combate à direita como o PCP e a CDU. Portanto, aqueles que pedem o voto para combater a direita, então esse voto de combater a direita só encaixa na CDU.
Declarações de Paulo Raimundo que não trazem muita novidade. É uma tónica muito acentuada pelo secretário-geral do PCP, ainda ontem definiu o voto na CDU como um hat-trick, um voto capaz de combater a direita, capaz de condicionar a esquerda e o Partido Socialista, e também um voto para estancar a abstenção. Juntaram-se a esta caravana, a esta arruada, José Ernesto Cartaxo e Manuel Carvalho da Silva, dois antigos sindicalistas, no caso de Manuel Carvalho da Silva, um antigo líder da CGTP. Juntaram-se, deram um abraço ao Paulo Raimundo. São os pesos pesados que o secretário-geral do PCP tem chamado aqui à campanha da CDU. Manuel Carvalho da Silva, por exemplo, trocou um abraço com Paulo Raimundo, deixou avisos para os riscos de um país que pode perder a memória. A CDU tem perdido representação parlamentar nas últimas eleições. As sondagens não têm sido grandes amigas do Partido Comunista Português e dos Verdes. Por isso veio deixar este aviso à ação aqui na Amadora. Miguel, como acabaste de ouvir, Carvalhesa deixou de tocar, a ação já terminou.
A coincidir também com o final do teu direto, João Gama, é o jornalista do Observador, que acompanha por estes dias a comitiva da CDU, hoje na Amadora. Tem, de resto, concentrado várias ações de campanha na área metropolitana de Lisboa nestes últimos dias. Foi mais um Caco ao Voto.