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Hola, ¿cómo están? Este é o Café Espanha. Estamos aqui todas as semanas às segundas-feiras, sempre em direto depois do jornal das 13 e depois, claro, em podcast. Vamos olhar para o que se passa na política aqui do outro lado da fronteira, com eleições antecipadas já dia 23 de julho. Eu sei que este fim de semana todos os olhos e ouvidos estiveram naqueles quilómetros entre Rostov e Moscovo, e num medito forças entre Prigozhin e Putin, mas a pré-campanha dos nossos vizinhos também vai bem animada num duelo direita-esquerda que mete até discussões entre a série "Verão Azul", para quem se lembra. Por isso comigo, Filomena Martins, tenho os politólogos Diogo Noivo e Jorge Fernandes, além do membro residente do Café Europa, João Diego Barbosa, para beber este café espanhol. Ainda que com este calor, eu acho que cá ia bem melhor um tinto de verão, não? Ora, bem-vindos. Alguém trouxe umas tapas para acompanhar isto, sei lá, umas canhas.

Olá.

Tudo bem? Nesta primeira parte, vamos discutir um dos temas da semana, na verdade, das últimas semanas, o sanchismo. Aliás, esta foi a primeira frase do PP depois da vitória nas regionais de 28 de maio. Eles disseram: "Esta é uma mudança de ciclo e o fim do sanchismo". Portanto, vamos ao tema da semana. Falamos então de sanchismo. Eu começava por ti esta semana, João Diego Barbosa. Há aqui um desgaste claro, uma erosão do primeiro-ministro espanhol. Esta é uma questão mais pessoal que partidária em relação ao PSOE. Quais foram os erros mais evidentes da legislatura de Pedro Sánchez para chegarmos a este ponto? Ele perdeu até o apoio dos barões do partido neste momento.

Sim, o desgaste é evidente, mas chega a ser contraditório. A campanha do PSOE tem forçado os temas económicos, que são normalmente importantes nas campanhas eleitorais, mas não nesta. E tem forçado esses temas porque de facto, neste momento, a economia espanhola cresce quando há recessão na zona euro, o desemprego tem-se mantido mais ou menos estável, ainda que Espanha tenha um problema e esteja normalmente acima da média da zona euro, mas nos últimos meses até teve o mínimo histórico do desemprego jovem e a inflação é um caso de estudo europeu, é das que está mais controlada, está até julgo abaixo dos 3%. Portanto, do ponto de vista da economia, que é normalmente um tema tradicionalmente forte nas campanhas, o PSOE e o sanchismo estão bem, estão fortes. Mas a verdade é que o sanchismo e a própria campanha eleitoral a que estamos a assistir não é sobre uma doutrina económica. O sanchismo foi desenvolvido, e bem, pela direita, como um conceito e uma forma de estar no exercício do poder, que colou muito bem, porque de facto parece-me que se liga a uma certa imagem que os espanhóis têm de Sánchez. E é uma imagem sobre, em primeiro lugar, como ele chega ao poder e aquilo que estava disposto a fazer e a dizer para chegar ao poder, mas também uma certa arrogância na forma como o exerceu e uma grande relutância no seu abandono eventual. E de facto, Sánchez teve anos muito difíceis de governo. A verdade é que houve uma série de casos de captura do Estado e das instituições pela nomeação de próximos do PSOE. E houve, de facto, uma grande discussão sobre o enfraquecimento dos contrapesos democráticos durante os governos de Sánchez. Mas houve também, e isto parece-me essencial, uma grande dificuldade de Sánchez de se autonomizar dos seus apoios e, sobretudo, do apoio do Podemos. E aí parece-me que é muito mais fácil colar o slogan.

Porque não podia, João Diogo.

Sim, de facto. Eu lembrei-me de três casos que me parecem importantes até no caminho da campanha eleitoral. O primeiro seria o da Lei da Memória Democrática, que alargou a possibilidade de adquirir nacionalidade espanhola e que é um tema forte do Vox e que o Vox está sempre a trazer como uma das primeiras medidas.

A pôr sobre a mesa.

Sim, que irá revogar quando chegar ao governo, mas também a questão do Vale dos Caídos e a exumação de Franco. Essa foi a primeira grande guerra cultural de Sánchez, que no momento se calhar até pareceu que a tinha ganho.

E já agora, desculpa interromper-te, essa guerra começa em contexto eleitoral. Certamente é coincidência. E nestas eleições estão a reabrir novamente o debate sobre o Vale dos Caídos. Portanto, é curioso que vão buscar o Franco à tumba sempre que há eleições.

É uma memória cultural importante para os espanhóis. Essa memória cultural acaba por trazer também aqui um...

Mas eu não sei. Há uma frase do Felipe González que eu acho que é muito feliz. Felipe González foi o primeiro presidente do governo espanhol do Partido Socialista, é uma importante figura do Partido Socialista. Referindo-se à esquerda, Felipe González disse que a esquerda atual espanhola podia ser filha da transição democrática, mas prefere ser neta Da guerra civil. E o que nós vemos com o Podemos, de maneira muito evidente, e de alguma forma com Sánchez também, é que sempre que as coisas estão a correr mal ao governo ou sempre que há uma contenda eleitoral, lá se vai desenterrar o franquismo. Portanto, mais do que ser uma coisa que tem um apelo cultural forte e com certeza que tem numa parte importante da sociedade espanhola, acho importante reconhecer também que o franquismo e Franco são usados como argumento de guerra política em contexto eleitoral.

E sendo que nestas eleições é muito importante a disputa de votos ao centro, isto é, entre eleitores que ou votam no PP ou no PSOE, esse tipo de guerra cultural pode não ser assim tão interessante, ou pelo menos pode ser usada para desmotivar alguns eleitores a votarem no PSOE. Mas há também um último caso, e esse sim parece-me ainda muito importante e que tem até a ver com os desenvolvimentos das negociações do Podemos e do Sumário, e que se relaciona com aquela lei de só o sim significa sim, que foi uma forma que tentava trazer uma perspectiva mais feminista à punição dos crimes sexuais e que acabou por má técnica legislativa, por assegurar que criminosos já condenados viessem a ser libertados mais cedo. E Sánchez tem tido muita dificuldade em soltar-se desse legado do Podemos. O próprio Podemos tem tido dificuldade. Irene Montero, que foi quem propôs a reforma, acabou por ser excluída das listas. Yolanda Díaz nunca entrou muito nessa discussão. E a verdade é que todos estes momentos, que são marcantes no mandato de Sánchez, mostram uma prisão ou um certo rapto pelas forças extremistas que o apoiavam e das quais ele nunca se conseguiu verdadeiramente libertar. Ora, numas eleições que são muito disputadas ao centro e entre aqueles eleitores que podem votar ou no PSOE ou no PP, é mais difícil fazer campanha a partir daqui e Sánchez tem tido dificuldades, parece-me, por causa disso.

Jorge, também vês aqui um modelo esgotado ou achas que a machadada final foi sobretudo este nas regionais, o pacto com o Bildu e os seus sete homicidas da ETA, de que Sánchez não descola, aliás, como não descola da ERC, pisou todas as linhas vermelhas, parece ter um fascínio nacionalista que os espanhóis não lhe perdoam. Ele agora foi à Catalunha, reconheceu os indultos aos líderes independentistas e a sua relação com esta esquerda o penalizaram eleitoralmente. Garantiu que não governou com o Bildu, mas obviamente governou e isso está na cabeça de todos os espanhóis.

Sim, vamos ver. Dois pontos. Em primeiro lugar, acho que o sanchismo, tal como nós o conhecemos, está numa fase de extrator quase final. Muito difícil de se conseguir reinventar tal como ele existiu nos últimos anos. Agora, eu acho que aquilo que o João Diogo disse, eu concordo com praticamente tudo. E há aqui um ponto fundamental que é: o problema principal de Sánchez, relativamente até aos nacionalismos ou até às coligações com o Podemos, a várias outras, toda a sua política, digamos assim, é percepcionada como sendo altamente oportunista e sem estar baseada em grandes princípios. E ele próprio, existem inúmeros vídeos na internet que o mostram, no fundo, a desdizer um conjunto de coisas que mais tarde veio a fazer, dizer que nunca faria um acordo com o Podemos, dizer que nunca faria um acordo com o Bildu, etc. E há esta percepção que contribuiu para a criação da mitologia sobre o que é o sanchismo, que acima de tudo, independentemente dos resultados económicos, independentemente daquilo que esteja a acontecer, Sánchez é um oportunista que acima de tudo quer se manter no poder, o que não é necessariamente mau no sentido mais genérico do termo. É evidente que os políticos todos querem se manter no poder e fazem aquilo que podem e coligam-se com quem têm que se coligar para o fazer. E por outro lado, Sánchez que fez uma coisa que foi politicamente mortal, que é de alguma maneira, ele normalizou o Bildu e outros partidos nacionalistas que durante muitos anos foram de alguma maneira colocados à margem das instituições espanholas. Havia uma espécie de um acordo de cavalheiros entre o PSOE e o PP que havia algumas esferas do Estado, do governo, de decisão, do qual esses partidos estariam necessariamente afastados. E Sánchez que quebrou esse acordo. Aquilo que estavas a dizer, Filomena, relativamente se ele gosta de flertar com o nacionalismo, eu muito honestamente penso que não. Ele gosta de flertar com quem o possa ajudar, acima de tudo. E eu acho que isso agora tem um custo eleitoral fortíssimo, porque ao contrário do movimento clássico que o PSOE e partidos semelhantes ao PSOE fazem, que é quando estão no poder, de alguma maneira, movem-se um bocadinho pra direita e pro centro, até por causa do cumprimento das regras europeias, de um conjunto de políticas econômicas que são mais ou menos aceites por todos. Sánchez fez aparentemente o contrário, porque ele aparentemente ficou refém quase destas políticas e de alianças, por exemplo, como o Podemos. No entanto, antes de passar aqui a palavra ao Diogo, eu acho que há uma coisa interessante que é: esta falta de movimento de Sánchez para o centro, apesar de ter sido má e ser má agora eleitoralmente, poderá ter sido o coveiro do Podemos. A manutenção do PSOE enquanto partido mais à esquerda pode ter esvaziado o Podemos durante uma fase crucial e no futuro isso pode ser algo benéfico para o PSOE.

Vamos ver. Do que tenho lido, senti aqui uma análise que O que me chamou a atenção é o facto de depois de termos assistido quase ao fim do bipartidarismo, tão comum em Portugal e em Espanha, agora estamos perante uma bipolarização, só que agora dividida por blocos, o bloco de esquerda e um bloco de direita. E a direita agora cunhou desde logo em Espanha, logo depois das eleições do dia 28, este sanchismo como um alvo a abater. Disseram que teria de ser a revogação do sanchismo e escolher entre Sánchez e Espanha. E agora mesmo nesta campanha polémica do tal verão azul, o PP aparece rodeado de chapéus azuis na praia a pedir às pessoas para não ficarem de férias e irem votar para Sánchez fazer as malas e partir. Esta bipolarização, este alvo a abater, ser Sánchez, é um lema, esta bipolarização e estes lemas podem fazer mesmo de Sánchez o alvo, as pessoas sentirem este Sánchez como o inimigo, como a pessoa a tirar do poder.

Sim, eu não tenho tanta certeza que tenha acabado o bipartidarismo em Espanha. Podemos falar disso noutra altura. Mas em relação ao anti-sanchismo, importa recordar que ele nasce dentro do próprio Partido Socialista. É Alfredo Pérez Rubalcaba, o anterior secretário-geral do Partido Socialista, que fez tudo o que esteve ao seu alcance para que o partido não caísse nas mãos de Sánchez. A primeira vez que Sánchez é secretário-geral do Partido Socialista acaba expulso do partido por uma entrevista mortífera dada por Felipe González à imprensa. E não é por acaso que neste momento nenhum dos históricos barões das figuras mais destacadas do PSOE, não há ninguém ao lado de Pedro Sánchez, exceto José Luís Rodríguez Zapatero.

Mas Zapatero está mesmo muito ao lado de Sánchez, não é, Diogo?

É impressionante, Zapatero já deu uma entrevista à TVE, deu uma outra entrevista ao "El País", vai dar mais uma entrevista e é verdadeiramente surpreendente o alinhamento que existe entre o discurso de Zapatero e o discurso de Sánchez, as expressões são as mesmas. Mas eu estou convencido que Zapatero acha que Sánchez é uma espécie do seu filho político, embora me pareça que Zapatero está aqui a ser um fantoche da estratégia do Sánchez. Nós estamos a falar o sanchismo, o que é o sanchismo? É o esvaziamento do Partido Socialista e é por essa razão que ao longo de todos estes anos, Pedro Sánchez nunca teve nenhum destacado membro do partido consigo. Sánchez, com as alianças que fez, com a forma como se posicionou, não só rejeitou por completo os mandatos dos seus antecessores, refiro-me a Felipe González, a Joaquín Almunia, a Zapatero, Alfredo Pérez Rubalcaba, embora de Zapatero menos, como enjeitou a própria história do Partido Socialista, por exemplo, na relação com os separatistas. O Partido Socialista já nos tempos da Segunda República, portanto nos anos 30, não tinha uma relação nada fácil com os separatismos. Sánchez, portanto, enjeitou um legado de décadas, de um século, na verdade.

Mas na verdade, há aqui sempre uma ideia de que estamos visceralmente contra alguém, não é?

Não necessariamente. Eu aí estou de acordo com os meus companheiros de café, quer dizer, Sánchez esvaziou o partido não substituindo esse vazio por nada, porque é precisamente esse vazio que permite a Sánchez fazer todas as alianças que até então eram impossíveis. É precisamente a inexistência de doutrina, a inexistência de convicções, o afastamento de toda a tradição federal do Partido Socialista que dá a Sánchez uma grande capacidade de manobra para fazer o que for necessário. Aliás, é muito curioso, Sánchez também já vai na segunda entrevista, deu uma à Rádio Onda Zero e deu outra ao canal de televisão La Sexta. A Onda Zero é um meio mais de centro-direita, o La Sexta é um meio de esquerda, abertamente de esquerda, mas curiosamente nas duas entrevistas apareceu a mesma pergunta, que é: "Por que o senhor mente tanto?" Políticos a mentir e primeiros-ministros a fazerem o contrário do que prometeram em campanha não é um exclusivo de Pedro Sánchez, muito menos de Espanha. Mas o que é facto é que Sánchez fez um conjunto de afirmações baseadas em princípios, que muito rapidamente se viu livre dessas afirmações quando deu jeito. Por exemplo, Pedro Sánchez disse que a ideia de Pablo Iglesias no governo o impedia de dormir à noite. Depois das eleições, 48 horas depois, estava a abraçar Pablo Iglesias e estava a meter o Podemos no governo.

Com uma vice-presidência.

Uma vice-presidência e várias pastas. Há uma entrevista de Pedro Sánchez onde ele diz três ou quatro vezes seguidas: "Nunca farei um acordo com o Bildu. Há limites", dizia ele, "limites de decência". Depois fez um acordo de incidência parlamentar com o Bildu. Disse que nunca indultaria independentistas catalães condenados em tribunal. O que é que fez? Indultou independentistas catalães. Criticou duramente a corrupção no Partido Popular, mas indultou militantes do PSOE, nomeadamente na Andaluzia, condenados por casos de corrupção. Foi muito duro, Sánchez, foi duríssimo. Aliás, a sua campanha contra Mariano Rajoy foi precisamente a promessa de acabar com a colonização do aparelho do Estado. Ora, meteu uma ex-ministra da Justiça no Ministério Público como fiscal-geral, o que é equiparável à nossa procuradora-geral da República, meteu um outro ex-ministro da Justiça no Tribunal Constitucional.

Aliás, o tema da Justiça foi muito importante para também desgastar.

O tema da Justiça dava para horas de programa, porque podemos falar num ataque à separação de poderes. Correios, Instituto Nacional de Estatística, o Centro de Investigações Sociológicas, do qual falaremos mais à frente. Aliás, os Correios neste momento são liderados por um ex-chefe de gabinete de Pedro Sánchez. Portanto, Sánchez, que falou sempre num plano de moralidade e num plano de princípio contra a direita, que era na altura o governo, uma vez estando no governo, fez precisamente o contrário. E é por isso que agora lhe perguntam por que o senhor mentiu tanto. E há respostas extraordinárias, como por exemplo: "Não menti, mudei de opinião", coisa que Zapatero também tem dito à saciedade e, portanto, Zapatero é de facto a única pessoa neste momento a defender Sánchez. Estou convicto que dentro de um ou dois anos, Zapatero muito provavelmente se vai arrepender.

Vamos ter de interromper e já voltamos ao Café Espanha e à conversa com o Jorge Fernandes, o Diogo Noivo e o João Diogo Barbosa. Na segunda parte vamos ter prémios para dar Remontada da semana, o porco não tem calhas e ainda com muito sal zero, o pôr um pompero. Estamos de volta ao Café Espanha. Eu espero que venham mensagens a dizer que gostam de ouvir o Café Espanha. Eu sou a Filomena Martins e comigo à mesa estão os politólogos Jorge Fernandes e Diogo Noivo, o membro permanente do Café Europa, João Diogo Barbosa, e com este calor eu penso que eles já devem estar a pensar numas canhas fresquinhas. Na primeira parte olhámos para o sanxismo. Vamos agora só olhar um bocadinho para o Vox antes de distribuir os nossos troféus semanais. Vox, este que pode ser decisivo para estas eleições, já que todas as sondagens parecem mostrar que o PP só conseguirá governar coligado. João Diogo Barbosa, quão radical é o Vox e Santiago Abascal comparado com outros partidos de extrema-direita da Europa, entre eles, eu até colocaria aqui o nosso Chega.

O Vox é bastante radical, ainda que é sempre difícil comparar partidos europeus, e sobretudo no caso do Vox, porque há muitas dinâmicas nacionais que estão envolvidas. E se é verdade que o Vox aparece no contexto da emergência da direita alternativa e primeiro, sobretudo, como um partido anti-imigração, a verdade é que o seu sucesso depende muito do contexto espanhol e das discussões políticas que são específicas de Espanha. Vale a pena pensar que o Vox é hoje sobretudo um partido nacionalista, ultranacionalista, que Espanha é um Estado europeu que tem problema de separatismos, como não há, provavelmente, em mais nenhum sítio da Europa e nem sequer nos vizinhos mais próximos. E a posição do Vox sobre diversos temas é diretamente afetada por isso. Mas a partir daí, o Vox tornou-se e assumiu-se claramente como um partido antifeminista, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a favor do porte de arma para todos os cidadãos, o que não é exatamente comum na política europeia. E é também um partido que confia muito no simbolismo e na evocação do franquismo, o que nem sequer o Chega faz.

Estou muito em desacordo com essa referência ao franquismo, João Diogo.

Eu sei que sim. O que o Chega faz com grande dificuldade e que o Vox não faz com tanta dificuldade. É também importante perceber que o Vox não é aquele partido de direita alternativa tradicional ou como nos habituamos a conhecê-los, no sentido em que os seus eleitores não são exatamente aqueles deixados para trás da globalização. São muitas vezes pessoas de rendimentos, pessoas com estudos e que de certa forma se desiludiram com o PP, se desiludiram com o caminho do separatismo e com a dificuldade que o governo de Rajoy teve em gerir o separatismo em Espanha. E, portanto, eu diria que o Vox, mesmo dentro da União Europeia, é um caso particular de extremismo e que provavelmente é bem mais extremista do que o Chega.

Jorge Fernandes, é verdade que Sánchez também está coligado com partidos radicais e se ganhar, também terá seguramente de renovar essas coligações. Ter ministros do Unidas Podemos, e o Unidas Podemos é contra a NATO, contra o apoio militar à Ucrânia, mas o Unidas Podemos e o Sumar agora são europeístas. Ora o Vox é eurofóbico, até mais que o Meloni em Itália. Tem tudo isto que o João Diogo acaba de dizer. Defende uma viragem conservadora, parece muito mais extremo, também como o João Diogo acabou de dizer, que todos os seus partidos da família na Europa Ocidental. Como é que o Feijóo vai conviver com Abascal?

Acho que com muita facilidade. Sinceramente, acho que sim.

É um otimista.

Um otimista na medida em que acredito piamente na capacidade que a política tem em moldar rapidamente as pessoas, as instituições que conseguem moldar rapidamente as pessoas, e acho que Abascal, assim que tiver um conjunto de prémios e de patronagem para distribuir dentro do seu partido, rapidamente fará acordos. Aliás, vamos ver, o que se tem passado nas últimas semanas é bem demonstrativo disso. Tirando casos pontuais, a maior parte das dificuldades ou das supostas dificuldades nos acordos entre o PP e o Vox é meramente jogo eleitoral. Portanto, cada um deles está a sinalizar ao respectivo eleitorado. O Vox, por um lado, está a sinalizar que não se deixa comprar por um prato de lentilhas e, portanto, que exige benefícios tangíveis para entrar para os governos regionais. E, por outro lado, o PP tem todo o interesse em atrasar as coisas.

Estás a falar do braço de ferro que continua na Extremadura?

Sim.

Estás a falar como o PP cedeu na Valência e agora até conseguiu ter uma ativista.

Isso, exatamente. O que aconteceu em Valência foi muito fácil e muito rápido. Na Extremadura, as coisas têm estado muito mais complicadas. Agora, eu penso que são coisas puramente estratégicas e acho que uma vez terminadas as eleições gerais, rapidamente os dois partidos se entenderão. Até porque, vamos ver, o Vox se divide fundamentalmente em duas alas. Uma ala claramente neoliberal católica, digamos assim, que poderia estar ainda dentro do PP, e uma ala, que aí eu concordo claramente com o João Diogo, que é claramente herdeira do franquismo, mesmo do ponto de vista social e sociológico.

Ia fazer essa pergunta ao Diogo Noivo.

Que é encabeçada pelo Jorge Chavez, que aliás, está aparentemente a subir muito dentro desse partido.

Era isso que eu ia perguntar ao Diogo.

Mesmo a sua visibilidade, o que aparentemente, pelo menos para mim Não parece ser muito racional por parte de Abascal, na medida em que neste momento o partido teria todo o interesse, em termos de maximização de votos, de tentar de alguma maneira afastar, pelo menos do palco midiático, estas figuras que são mais ultras.

Era isso que eu ia perguntar ao Diogo Noivo, porque o Vox parece ter expurgado ou relegado para lugares não elegíveis esse setor menos ultra nas suas listas, rendendo-se ao bunker ideológico do Abascal, os fundadores do partido e o ultranacionalista Bosch ganham força, e isto demonstra aqui cada vez uma força mais ultranacionalista, portanto, cada vez mais radical deste Vox.

Porventura, a minha única oposição tem a ver com a referência ao franquismo. As ideias do Vox vêm de finais do século XVIII, vêm do carlismo do século XIX, isto é, ainda Franco não era nascido. Já estas ideias estavam a fazer o seu percurso numa parte da direita espanhola e só por aí, ou pelo menos a avaliar por essa parte, é que me parece errado estarmos a falar em franquismo quando estas ideias são anteriores a Franco. Por outro lado, o partido várias vezes se distanciou da experiência franquista, percebe que deve fazê-lo. Li há dias um antigo editor da Economist que diz que os franquistas são três tipos numa garagem. E de facto, o franquismo em Espanha, neste momento, são três tipos numa garagem. Agora, isso não significa que o Vox não seja um partido radical ou ultraradical e que seja um partido abertamente populista. As duas coisas não são incompatíveis. Nem todo o radicalismo de direita tem que ser necessariamente franquista e o Vox, de resto, não é. O crescimento do Vox deve-se muito ao separatismo. Repara, a primeira vez que o Vox vai a eleições foi nas europeias de 2014. Teve 1,5%. A seguir vai a legislativas, teve 0,2%, ou seja, nada. O partido teve uma crise interna gravíssima que quase levou à implosão do Vox. É só nas autonómicas andaluzas de 2018 que o Vox consegue o seu grande resultado. Por quê? Porque no ano anterior houve aquela pulsão independentista catalã. Portanto, o que nós assistimos em Espanha é que a uma pulsão nacionalista separatista na Catalunha, respondeu-se com uma pulsão nacionalista unionista espanhola do Vox. O Vox é em grande medida um produto do separatismo. A própria história de Santiago Abascal é um pouco o reflexo disso. Sem cremassar muito, anos 80 e anos 90, o PSOE e o PP tinham muita dificuldade em apresentar candidatos a câmaras municipais do País Basco, porque ETA os assassinava. Por razões atendíveis, não havia muita gente disponível para ir nas listas do PP, nem nas listas do PSOE. Até que aparece um miúdo que creio que na altura tinha 24 anos, chamado Santiago Abascal, das Jotas do PP, que enfim, permita-me a expressão, se chega à frente e se candidata a uma câmara municipal do País Basco.

E assim cresce.

E assim cresce. E quando nós temos aquela loucura independentista catalã, há muita gente, e já há estudos de opinião a demonstrá-lo de forma que me parece bastante sólida, a dizer que há muita gente até de esquerda que olhou pra Abascal e pro Vox e disse: "Não gosto deste cavalheiro, não gosto deste partido, mas reconheço-lhe a valentia política e a valentia física até de fazer face aos separatismos." Portanto, o crescimento do Vox, há uma coisa que não se diz, é que o Vox também cresce com votos de esquerda e no chamado cinturão vermelho de Madri, que fica na zona sul.

Sim, o Vox ganha votos na esquerda.

E portanto, o Vox ou o crescimento do Vox não é um regresso do franquismo, até porque o Vox não é um partido franquista. O crescimento do Vox deve-se ao momento presente. Quando digo momento presente, refiro-me aos últimos 10, 15 anos de Espanha, em que nós temos as pulsões separatistas ao rubro e que a essa pulsão separatista, uma parte do eleitorado dá uma resposta igualmente nacionalista, mas unionista. E parece-me que o Vox é em grande medida isto.

Pronto, então terminados estes temas da semana, e vamos então agora distribuir os nossos troféus semanais. E este é o momento alto. Começamos pela remontada da semana. E quem é o teu escolhido, Jorge Fernandes?

O meu escolhido é o PP. O PP esta semana, penso que não só em Espanha, mas em toda a Europa, é uma semana onde se celebra a diversidade e as minorias sexuais.

Semana do orgulho gay.

Exatamente. E o PP fez uma capa muito engraçada no El Mundo no sábado passado, uma capa praticamente toda em que um conjunto de homens do PP, figuras gravas, no fundo afirmavam abertamente não só a sua homossexualidade, mas a capa do jornal dizia: "O PP é o partido mais gay de Espanha." Isto é uma tentativa evidente do PP, e é uma coisa coordenada, evidentemente, do PP tentar parecer mais moderno e tentar de alguma maneira afastar muita da campanha da esquerda, que tenta colar ao partido um certo ar reacionário e bafiento e afirmar que o partido é contra as minorias sexuais, o feminismo, etc.

Tirar a parte conservadora do PP.

Exatamente. É interessante esta tentativa de recuperar ou de modernizar a imagem. Essas coisas nunca se sabem exatamente até que ponto são verdade ou são mera estratégia, mas de fato ficou essa nota e eu achei curioso e queria trazer aqui para o Café Espanha.

Esta remontada. Alberto Núñez Feijóo também se reuniu à porta fechada com a filósofa conceituada, filósofa feminista Amelia Valcárcel, muito próxima do PSOE.

E vai apoiar Feijóo agora.

E ela deu o apoio a Feijóo aplaudindo que o PP tivesse apoiado o PSOE na contrarreforma que já está a ser feita, a tal lei polêmica do sim é sim, dizendo-lhe que podias ter deixado afundar o PSOE e dizer depois trate disso, mas não o fizeste e foi muito honrado da tua parte fazê-lo. E isso, obviamente, é um apoio importante e ela tê-lo dito também foi muito importante. Portanto, passa do PSOE para o PP e este feminismo também é do lado do PP e do lado de Feijóo, a dar também o lado do feminismo, deu aqui um salto. Alguém ia dizer alguma coisa.

Eu ia só dizer que parece que esta era a campanha que Ferro queria conduzir e que infelizmente foi capturada pelos acordos ou não acordos com o Vox. Parece sempre que Ferro está muito mais confortável neste tipo de ambientes de abertura, de moderação, mas que infelizmente parece estar a perder o controle da campanha e que estas iniciativas também são para mudar um bocadinho o discurso e a narrativa de uma coligação inevitável com o Vox. E, portanto, também alinhando com o Jorge, parece-me que se for uma estratégia é uma boa ideia, mas a verdade é que cava aqui a dissonância que tem havido entre aquilo que o PP queria dizer e aquilo que está a ser dito na imprensa.

Pois é, depois o Vox atrapalha essas coisas. Acontece. Depois da remontada da semana, segue-se algo que presumo que ninguém queira receber, o prêmio ¿Por qué no te callas? Diego Novaes, esta escolha é tua, quem é que deste o prêmio ¿Por qué no te callas?

Ao Partido Socialista, porque apresentou uma denúncia à Junta Eleitoral, que é a Comissão Nacional de Eleições de Espanha, uma denúncia contra os jornais ABC, El Mundo e El Español. A razão? Parece que o Partido Socialista desconfia das sondagens publicadas por estes órgãos de comunicação social. Em particular, parece que não vê com bons olhos a vantagem que têm dado ao Partido Popular. A denúncia visa estes jornais, mas visa também as empresas de sondagens como a GAD3, a Sigma2, a Sociométrica, todas bem conhecidas, pois realizam há vários anos estudos de opinião para a imprensa espanhola.

Presumo que a única boa seja o CIS.

Pois, é com isso que vou acabar. Mas antes disso, o PSOE exige que sejam tornados públicos dados técnicos, ditos da maior importância ou transcendentais, nas palavras do porta-voz do PSOE, como a sede social dessas empresas, isto é ridículo, eu sei, ou como o número de pessoas que não responderam a cada pergunta. A denúncia tem de fato duas coisas engraçadas. A primeira é que alguns dos dados técnicos exigidos já são publicados por estas empresas, o que adensa a convicção que, de fato, o incômodo não é técnico, mas sim com os resultados das sondagens, em particular com a vantagem que dão ao PP. E a segunda coisa é o que dizes, Filomena, é que como pano de fundo disto está o CIS. Nós já falámos dele no nosso primeiro café e recapitulando, o CIS é o Centro de Investigações Sociológicas, que é uma instituição pública de estudos de opinião. O seu diretor é um senhor do qual já falámos também, José Félix Tezanos, nomeado pelo governo do PSOE. Desde que Tezanos preside ao CIS, portanto há anos, que as sondagens deste instituto obedecem a um padrão: estão sempre erradas e favorecem sempre o PSOE. Isto nunca incomodou o Partido Socialista, mesmo sendo o CIS uma entidade financiada com dinheiros públicos.

E não publicando os mesmos dados das outras.

E não publicando os mesmos dados. Certamente que é um acaso de vida, que Félix Tezanos não só foi militante do Partido Socialista, como integrou até o Comitê Federal do PSOE entre 94 e 97 e o Comitê Regional do PSOE de Madrid, talvez isto explique alguma coisa. Mas o fato é que o viés do CIS é tão óbvio e tão constante que já se tornou tema recorrente na discussão política e até tema de chacota nas conversas de café. Ora, com esta denúncia à Comissão Nacional de Eleições e olhando para os dados técnicos exigidos pelos socialistas, facilmente se conclui que o PSOE veio exigir a empresas privadas de sondagens aquilo que não exige à empresa pública de sondagens. E, portanto, sem surpresa, a Junta Eleitoral, a Comissão Nacional de Eleições, veio arquivar a denúncia, que é uma maneira simpática de dizer ¿por qué no te callas? É claro que isto tudo se insere numa cruzada de Pedro Sánchez contra, e cito, a direita política e mediática.

Sim, ele tem feito muitas caixinhas.

Uma expressão que nós por cá, em Portugal, também conhecemos, o que mostra que isto é tudo um bocadinho provinciano. Mas esta direita política e mediática será então responsável por todos os erros do governo, direita mediática essa que tem sido boicotada de forma assumida pelo presidente do governo e até por outros membros do governo. Sánchez agora parece estar a virar o dito por não dito, parece que vai dar aí umas entrevistas à direita mediática, mas o que é fato é que esta crítica e esta denúncia contra as sondagens, que já percebemos todos que não tinha qualquer fundamento, faz parte de uma história muito mais ampla, que é a da relação difícil que este governo teve com a imprensa.

Sempre. E aliás, agora faz de vítima e fez uma coisa fantástica, que foi, presumo que tenham ouvido alguns dos Sánchez talks

Sim.

Ficou para último, ficou para o João Diogo Barbosa o nosso momento com mais salero, o prémio Porompopero. Eu ainda tentei convencê-lo a escolher a campanha do Verão Azul do PP só para ouvirmos a música da famosa série do início dos anos 80, mas ele preferiu ir para uma espécie de versão à espanhola da esquerda caviar, não é isso?

É verdade. Eu trago o Alfonso Guerra, que é um histórico socialista já bem dentro dos 80, que na semana passada estava inspirado e começou a bater em tudo e em todos. Primeiro foi o PSOE e o PP, que se aliam ao Bildu e ao Vox, perdendo todo o tipo de princípios democráticos, mas depois, e já tolhido a meio da frase, o senhor Alfonso Guerra ironizou em relação ao PSOE, falando em toureiros convertidos que foram salvos pelo nosso Mélenchon, vestido por Christian Dior, referindo-se a Yolanda Díaz. E isto é muito interessante, porque Alfonso Guerra é um histórico socialista, foi uma figura importante na transição espanhola, foi deputado durante 40 anos e foi também vice-presidente do governo durante oito anos com Felipe González. Como dizia o Diogo na primeira parte, a ala, a fação de Felipe González não pode ver Pedro Sánchez à frente. É de facto uma grande fratura dentro do PSOE. E nota-se que é geracional, que é uma coisa que acontece até por toda a Europa em relação aos velhos socialistas, muitos deles com responsabilidades nas transições democráticas dos seus países, de repente são confrontados com os seus sucessores a fazerem acordos com os partidos que muitos deles combateram. E a verdade é que até este comentário que é desagradável, depreciativo. É desagradável para o próprio, ser depreciativo em relação ao vestuário, mas mostra como há aqui um gap geracional semelhante ao do Verão Azul, que é muito difícil de ultrapassar. Mas a verdade é que o PSOE de Alfonso Guerra e de Felipe González provavelmente também já não tem expressão eleitoral e está remetido a fazer este tipo de comentários. Nós aqui temos de comentá-los, mas podemos rir-nos com eles. Espero que cole esta do Christian Dior.

É verdade, mas a roupa da Yolanda Díaz tem sido muito comentada, tem sido um dos temas desta campanha. Mas está bem vestida, é preciso dizer.

Tanta coisa para dizer.

É preciso dizer que ela se veste bem.

Houve uma mudança importante de imagem, porque no início ela vestia-se como boa anticapitalista.

Sim.

E à medida que chegou ao governo, foi trabalhando a sua imagem de maneira muito profissional, com muito cuidado, talvez já a pensar naquilo que está a fazer agora. E portanto, é muito engraçado olhar para a transformação da imagem de Yolanda Díaz. E eu acho que as declarações do Guerra também vão um pouco nessa linha.

É isso mesmo. Christian Dior, ainda não olhei para as marcas, mas a verdade é que a imagem foi bem transformada. Está uma Yolanda com boa imagem. Obrigada, Jorge Fernandes, Diogo Noivo e João Diogo Barbosa. O Café Espanha regressa para a semana. Já sabem, até às eleições, todas as segundas, depois do jornal da 13h e estaremos sempre disponíveis em podcast. Boa semana e boa campanha.