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É a primeira vitória legislativa de Joe Biden, e logo uma com muitos dígitos. O Senado aprovou o pacote de estímulo à economia no valor de 1,9 bilhões de dólares, o terceiro desde o início da pandemia. Numa votação muito dividida, foi preciso suportar uma maratona de alterações e negociações de última hora, e muito por causa de um democrata. Mas no final, por 50 a 49, o pacote regressou à Câmara dos Representantes, onde se prevê que tenha uma aprovação nova rápida, mas já com diferenças significativas em relação à proposta inicial de Biden. Será este um dos temas fortes do Café América de hoje, com a Madalena Meyer Resende e o Bruno Cardoso Reis. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Vamos aos prêmios. Começamos pelo mau, o Frank Underwood. "Please stop that." "Stop what?" E Madalena, num programa chamado Café América, começamos com um prêmio pra um alemão.
É verdade, vem a propósito, não é posta a pressão. É porque o antigo primeiro-ministro do SPD, Gerhard Schröder, escreveu um artigo que eu acho que é digno deste prêmio, em que diz que a política moralizadora dos Estados Unidos, face à China, na qual eles querem envolver a Europa, não é do interesse dos europeus e que está completamente condenada ao fracasso. Está a dizer, basicamente, que esquecer os direitos humanos, os interesses econômicos é o que basicamente se traduz o interesse nacional e que, portanto, sob a administração Biden, os europeus não devem de todo apoiar esta posição. Eu acho que isto, de facto, é uma demonstração, infelizmente, não só do pensamento de Schröder, mas também de, talvez menos explícita, da política alemã e daqui vai o meu Underwood.
Eu também tenho um Underwood esta semana. Esta segunda-feira começa o julgamento de George Floyd, começa pelo menos a seleção dos jurados. Não é o julgamento de George Floyd, naturalmente, é do agente da polícia acusado do homicídio de George Floyd. E eu ponho aqui no Underwood porque acho que é um julgamento votado ao fracasso numa das suas condições essenciais, que é na condição da imparcialidade e da certeza quanto à decisão final. Este julgamento terá, muito provavelmente, já um enorme problema na seleção dos jurados. Os jurados começaram a receber cartas, inquéritos, os possíveis jurados, nas últimas semanas, pra dizer o que conheciam e não conheciam do processo, quantas vezes tinham visto os vídeos, se tinham participado nas manifestações do Black Lives Matter. Enfim, todo este julgamento está a ser preparado sabendo-se que se alguma decisão for tomada que atenue, por exemplo, a posição do arguido e do acusado da morte de George Floyd, haverá um problema com violência nas ruas, esse é um grande receio. E por que eu acho que isto é um problema? Acho que é um problema para ambos os lados, porque qualquer vítima tem o direito de, caso o seu agressor, e neste caso, o seu homicida, seja condenado, que essa condenação seja inquestionável e que não se venha dizer: "Bom, ele só foi condenado a esta pena porque havia uma enorme pressão para", tal como do outro lado, também há todo o direito que as pessoas tenham um julgamento justo e imparcial e que sejam condenados ou absolvidos sem a menor réstia de dúvidas. E eu acho que esse fundamento essencial da justiça e de um julgamento está absolutamente perdido num caso que se transformou numa coisa que é muito maior, mas que mesmo assim chega a um julgamento como um simples homicídio, que devia ser julgado com todas as dimensões que tem que ter, nomeadamente a questão racial, mas devia ser julgado nos termos da lei. Eu acho que é muito difícil que isso aconteça.
Sim, aí é quando se pode dizer que talvez o sistema de julgamento por júri, que obviamente tem muitas virtualidades, e enfim, para os Estados Unidos é algo que é central na sua cultura política, até na sua identidade, o julgamento dos pares, mas realmente aí acaba por ter maiores fragilidades do que a tradição, por exemplo, mais europeia e sobretudo, por exemplo, continental, portuguesa, do julgamento por um painel de juízes, que à partida se pode achar que estarão menos imunes a essas pressões. Embora mesmo isso não seja-
Sim, só na mesma pessoas, não é?
É, não se pode exatar por absolutamente adquirido que será assim.
Sim, só que acho que os dois lados vão aproveitar isto imenso. E lá está, repito, normalmente olha-se pra estas coisas dizendo: "Ah, o arguido vai ser prejudicado". Eu acho que aqui toda mundo é prejudicado, porque depois disto, qualquer sentença que seja aplicada a este agente da polícia, sendo que não restarão grandes dúvidas em relação àquilo que aconteceu, pode ser sempre questionada por alguém que venha dizer: "Isto só aconteceu assim, porque havia uma enorme pressão e o julgamento já não era sobre isto, era sobre outra coisa qualquer".
Sim, quer dizer, é um problema sem solução, embora eu acho que é muito importante sublinhar esse aspecto, que obviamente ninguém põe em dúvida que aquilo foi uma situação completamente escabrosa e condenável. Mas lá está, eu percebo o ponto de princípio.
É, sim. Lá está, porque normalmente se olha pra isto a achar: "O arguido vai ser prejudicado". Não, não é isso que está aqui em causa. Eu acho que até a memória da vítima E a certeza de que foi feita justiça e que a vítima não foi favorecida. Nós, de repente, começamos a colocar uma série de questões que nós não devíamos colocar. Isto não devia ter todas estas dimensões. Mas vamos avançar pra coisas melhores, também logo veremos como é que este julgamento ocorre depois desta seleção de jurados, há de durar umas três semanas, talvez logo vemos o que acontece a partir daqui. Vamos ao donut desta semana. Bruno, tu tens aqui um donut pra um senhor que deu algumas dores de cabeça no Senado, nos últimos dias.
Sim, é o senador Joe Manchin, que é o senador do estado da West Virginia, ou seja, da Virgínia Ocidental, se quisermos. E realmente transformou-se numa espécie de senhor do Senado, dono do Senado, porque sendo um democrata, é um democrata do Sul, portanto, um democrata moderado, relativamente conservador, numa linha que era muito comum aqui há uns anos atrás, mas que se tornou cada vez mais rara. E ainda por cima de um estado até relativamente pequeno, um dos estados mais pobres dos Estados Unidos, aliás, é conhecido por ser o que eles chamam "coal country", um estado que estava muito dependente da indústria do carvão, das minas de carvão e outras minas até, mas sobretudo do carvão, e portanto, tem sofrido imenso com esta questão da transição energética. E, no entanto, de facto, por causa destes acasos eleitorais, deste Senado praticamente empatado, realmente ele tornou-se aqui uma figura crucial, que sem o voto dele, realmente os democratas não conseguem ter os tais 50 votos que precisam para depois a vice-presidente vir desempatar e garantir uma vitória, mesmo que uma vitória tangencial por 51 votos. E portanto, realmente isso dá-lhe um enorme protagonismo, isso ficou muito claro agora na votação deste programa de estímulo de 1,9 trilhões. Realmente ele conseguiu, nomeadamente com uma das medidas que era considerada emblemática pela esquerda democrática, pela esquerda do Partido Democrático, que era um salário mínimo de 15 dólares, fosse retirada da proposta, e portanto, isso mostra realmente bem o seu poder. E eu penso que é uma tendência que é capaz de se manter, ou seja, em futuros programas, parece-me claro que, de facto, esta hiperpolarização se mantém, e portanto, a possibilidade do presidente Biden, por muito que tenha uma história longa de décadas no Senado e que tenha alguns amigos republicanos, de conseguir ir buscar votos republicanos é muito pequena, sobretudo em áreas um pouco mais controversas. E portanto, acho que isso dará um poder muito grande a este senhor Joe Manchin. Acho que vamos continuar a ouvir falar bastante dele.
E ele acabou por mostrar aqui que, de facto, aquela ideia de ter o Senado, a Câmara dos Representantes e a Casa Branca, pode significar muito pouco. Quando as margens são muito curtas, há ali uma série de coisas no plano que eram bastante mais ousadas e progressistas, e acabaram por cair daquele plano, mas sobre isso também teremos a oportunidade de falar na segunda parte. Madalena, também tens aqui um donut, que permitirá aos norte-americanos comer queijo italiano, por exemplo, mais barato do que até agora.
É verdade, é um bom sinal do chamado reset transatlântico, ou seja, as possibilidades das relações entre a Europa e os Estados Unidos, de facto, entrarem num plano de maior cooperação. Isto vem horas depois do Reino Unido e os Estados Unidos suspenderem as tarifas cobradas numa longa disputa entre a Airbus e a Boeing. Também a União Europeia concordaram com a mesma suspensão e depois com o tal levantamento das tarifas a vários produtos europeus, bastante queridos do outro lado do Atlântico, aparentemente, queijo, vinho, etc.
E o bourbon deste lado também, atenção.
Atenção, exatamente. Também. E portanto, vemos aqui uma possibilidade de, realmente, pelo menos no plano comercial, as relações entre os Estados Unidos e a Europa-
E gastronômico.
E gastronômico, absolutamente, conseguirem entrar numa dinâmica mais positiva, depois de todas estas distorções relacionadas com o Nord Stream, com o acordo comercial com a China, o eChina. E obviamente isto é muito importante, agora o segundo passo, provavelmente, serão as reformas da Organização Mundial do Comércio, que se tornará eventualmente ou voltará a ser um ator crítico nessas disputas. E, portanto, aqui vai o meu donut com retaliação em vino.
E com essa mensagem: "Não mexam na nossa comida".
Eu acho que tudo que seja defender a gastronomia realmente merece todos os elogios. E realmente uma gastronomia variada é boa a todos os níveis. Neste tempo de confinamento, precisamos de muita variedade. Viajar gastronomicamente, mesmo que não seja possível de outra forma.
Já ajuda, não é?
Exatamente. Mas além disso, e mais a sério, eu acho realmente que é importante que se dê passos, de facto, agora para no fundo levar este gesto de boa vontade mútua, que no fundo era mais ou menos esperado, mas não deixa de ser significativo para um bom caminho em termos de restabelecer relações comerciais mais normais e até uma agenda partilhada em termos comerciais globais De facto, da Organização Mundial do Comércio, que está a precisar muito de um reset. E é fundamental que os Estados Unidos e a Europa se entendam. Apesar de tudo, o presidente Biden deu aqui, às vezes, sinais um pouco equívocos. Também por razões eleitorais, não deixou de sinalizar que queria que houvesse muito mais Buy American, portanto, que se comprasse mais coisas americanas, que os americanos não recuessem tanto em importações. Mas apesar de tudo, acho que há aqui uma boa vontade em relação à Europa, que seria, de facto, um erro desperdiçar. Portanto, esperemos que sim, que se dê agora os passos seguintes.
Bom, eu também tenho um donut, vou dizer muito rapidamente. O meu donut vai para a minha grande felicidade por Dolly Parton ter sido vacinada. Eu andava aqui a seguir esta história, aliás, uma história ótima, podemos deixar isso para outra altura, com uma estátua que está a ser discutida, uma estátua da Dolly Parton. Mas Dolly Parton foi uma das pessoas que mais contribuiu para o desenvolvimento da vacina da Moderna. E ela recusou ser das primeiras a serem vacinadas, e nós até sabemos que nos Estados Unidos, determinadas figuras públicas foram vacinadas como prioritárias, precisamente para incentivar a vacinação, porque não é uma questão tão simples como na Europa, por exemplo. Ela ficou mais para frente, finalmente já foi vacinada. Quando foi vacinada, no incentivo à vacinação, transformou o seu célebre "Jolene" numa oda à vaccine. Eu fico ali dividida entre a vergonha alheia e o orgulho de Dolly Parton, de quem sou particular fã, mas pronto, fico contente por Dolly Parton ter sido vacinada e por isso vai o meu donut, que é, na verdade, um donut para a forma como a comunidade se juntou, não só as instituições, os países, mas também algumas pessoas se juntaram para que esta vacina, que já começamos agora a receber, independentemente da marca, começasse a chegar rapidamente. Eu acho que isso, de facto, é uma vitória a vários níveis.
A Dolly Parton, além de tudo, é uma das poucas figuras consensuais ainda nos Estados Unidos.
Certo, e um símbolo por causa disso.
Exatamente. Quer à esquerda, quer à direita, continua-se grande fã.
Sem que para isso ela deixe de marcar a sua posição numa série de causas forefront, muitas delas optam por fugir, daí eu ser uma grande fã. Vamos rapidamente ao Sarapelin desta semana. Bruno, tens um Sarapelin relacionado com o racismo.
Sim, surgiram agora algumas notícias. Teve imenso eco. Há uma tese de doutoramento, pelo que eu percebo, ainda está a ser feita por uma doutoranda nos Estados Unidos, precisamente, embora seja aparentemente de origem cabo-verdiana, esta Vanusa Vera Cruz Lima, que teve destaque no Expresso, no Público, etc. Portanto, uma série de ideias sobre a presença de preconceitos racistas nos maias do Eça de Queiroz. Eu devo dizer que acho que esta doutoranda realmente parece uma pessoa bastante ponderada e cuidadosa na utilização desta teoria da moda agora, dos estudos críticos da raça, etc. Portanto, deixa claro que não quer proibir o Eça e que acha que, no fundo, há aqui uma oportunidade, sobretudo no ensino secundário, se fale destes assuntos, etc. Eu, portanto, acho que por aí tudo bem. Certamente fará uma tese interessante, não ponho isso em questão. Agora, eu acho é que o que é irônico é a dificuldade destas teorias em entender a ironia. Ou seja, eu acho que muitas das passagens, que aliás, mais uma vez, esta doutoranda destaca isso, não está a dizer que o Eça pessoalmente era racista, mas que há passagens racistas na obra. Porque realmente as passagens que são citadas são claramente, se não todas, grande parte delas completamente irônicas. Citações, inclusive, do Conde de Gouveirinho a elogiar a nossa obra colonial, quando toda a gente sabe que o Conde de Gouveirinho é uma personagem que é obviamente o objeto de uma enorme sátira, é suposto ser uma figura caricatural da má qualidade dos políticos portugueses, etc. E, de facto, um dos motes dos maias, é por isso que eu acho que aqui o próprio Eça, de alguma forma, dá a resposta a estes exageros, é denunciar esta obsessão portuguesa com importar a civilização a partir de fora. E naquele caso era a questão da França. Mas portanto, ele tem várias passagens em que refere isso. A civilização vem importada em caixotes, nós importamos ideias, importamos modas, importamos filosofias. E, portanto, eu acho que convinha que, apesar de tudo, fôssemos já um pouquinho mais maduros. Eu não tenho nenhum problema em que, obviamente, se tenha em conta o que se passa fora e se aprenda também com debates e discussões que existem fora. Agora, apesar de tudo, convém não fazer um simples copy e paste da discussão da raça nos Estados Unidos, a questão racial nos Estados Unidos, que tem imensas especificidades e muitos problemas, diga-se, simplesmente fazer um copy e paste disso para Portugal. Portanto, esse cuidado é que eu acho que tem de existir. E daí o disparate.
Sim, esta importação das guerras culturais.
O disparate vai mais para o eco que é dado a estas modas.
Exato, eu acho que esta importação das guerras culturais dos Estados Unidos, que começou logo em 1968, continua de forma e maneira completamente acrítica. E obviamente que há questões que são universais. Sim, além do princípio universal, o problema é que depois as questões têm dimensões diferentes. Sim, e digamos que alguns exageros também são importados sem qualquer reflexão sobre o assunto. Eu acho que essa dimensão, além dos problemas em si serem diferentes, também há a polarização que é importada de maneira acrítica. Madalena, tu também tens aqui um disparate para esta semana. É aqui a fazer um pouco já uma previsão do nosso tema. Foi o senador Johnson, de Wisconsin, que achando que se estava a precipitar toda esta adoção dos quase dois trilhões de ajuda Covid, cumpriu a sua promessa e forçou os funcionários do Senado a ler todas as 628 páginas do projeto de lei Covid do presidente Biden. E portanto, isto demorou cerca de 10 horas. Acho que foi alguma coisa assim, acabou às duas da manhã. E enfim, não teve grande, obviamente- Teve alguma graça ...interesse prático. Mas não teve interesse. Não teve grande interesse prático, não.
Sim, mas o Ted Cruz é que teve aquele episódio famoso que se pôs a ler histórias infantis às filhas. Apesar de tudo isso tem um pouquinho mais de piada. Acho que a lei teria sido um material de leitura mais seco.
Estão atribuídos os prêmios desta semana, vamos voltar a seguir às notícias. Segunda parte do Café América desta semana, eu tinha previsto começarmos esta segunda parte com a leitura integral do projeto do pacote de estímulo de Joe Biden, mas depois do prêmio da Sara Pelen da Madalena não tenho coragem, e por isso sugiro que partamos já para a discussão. Bruno, sai dali um pacote de estímulo, é verdade que aprovado, mas com uma série de alterações importantes, quer em termos práticos, mas também quer em termos simbólicos.
Sim, eu acho que apesar de tudo, aqui uma primeiridade muito importante, esta é uma vitória política importante do Joe Biden. De facto, é um programa de estímulo colossal. À partida, ele parece ser bastante popular, pelo menos para já, tem um apoio bastante amplo, mesmo entre os eleitores republicanos, não entre os eleitos republicanos, não entre os congressistas ou senadores republicanos. E realmente mostra que é possível aprovar medidas importantes e com enorme peso, inclusive em termos de despesa, mesmo com uma maioria muito escassa na Câmara dos Representantes e basicamente com um empate desempatado pela vice-presidente no Senado, portanto, é possível fazer isso. Agora, apesar de tudo, com algum preço, já falámos um bocadinho isso, o senador Manchin impôs esta questão, sobretudo, talvez o aspecto mais importante, que é o fim desta ideia do salário mínimo de 15 dólares. Agora, eu acho que há aqui realmente outros problemas. Acho que, por exemplo, do meu ponto de vista, eu percebo esta necessidade de estímulo, eu sou bastante keynesiano na resposta à crise, mas apesar de tudo, já é o terceiro, como aliás, Sara, tu referiste no início. Já houve um programa de estímulo de mais de dois trilhões do presidente Obama, já houve um programa de 900 bilhões do presidente Obama, desculpa, do presidente Trump.
Do anterior.
Do antecessor. Já houve um segundo programa de 900 milhões, que foi agora aprovado na altura das eleições, quase em cima das eleições, e agora temos mais um programa de 1,9 trilhões, o que é à volta de 10% do PIB dos Estados Unidos. São programas muito grandes. Eu acho que é significativo que haja vozes, até economistas tradicionalmente com simpatias pelo Partido Democrático, a levantar a questão do risco de inflação. E eu acho que de facto aqui foi pena não se ter investido mais neste aspecto, no fundo, do investimento estratégico em infraestruturas, quer na recuperação das que existem, estradas, linhas de caminho de ferro, enfim, quem visita os Estados Unidos muitas vezes fica espantado pelo estado lastimoso desse tipo de infraestruturas. Está longe de ser o caso que é apenas em Portugal que há problemas de buracos nas estradas, etc. Além que há toda uma nova vaga de investimento em infraestruturas, por exemplo, a própria China está a fazer isso, no quadro também do seu programa de recuperação econômico, embora tenha sido a grande economia menos atingida. Está a investir em redes elétricas inteligentes, enfim, em todas estas infraestruturas de nova geração. Eu acho que aí houve uma oportunidade perdida. Acho que isso talvez pudesse ser mais popular com pelo menos alguns republicanos moderados. Mas francamente, não sei se é assim. E portanto, para mim, em todo caso, isto é significativo também deste facto, que é apesar do presidente Biden falar, aliás, também já falámos aqui nisto no programa, falar na importância de tentar fazer pontos com os republicanos, ele não parece muito disponível a fazer grandes cedências, ou porque acha que não vale a pena, ou seja, porque mesmo que isso aconteça, não haverá, afinal, votos republicanos. Quer dizer, isso aconteceu no Obamacare, no programa de saúde do presidente Obama, em que ele fez uma série de cedências aos republicanos e depois, no final, os republicanos acabaram por não votar no programa igualmente como antes. Portanto, não foi possível conquistar esse apoio dos dois partidos, ou pelo menos de alguns representantes dos dois partidos. E portanto, aqui, acho que no fundo, o presidente Biden principalmente acha que é importante mostrar essa disponibilidade, mas ele não está muito disponível a fazer isso. Ou realmente porque não acredita que isso seja possível do lado republicano, ou também porque tem receio de perder votos do lado democrático, e portanto, daquela ala mais de esquerda também, que está cada vez com menos paciência para esta questão dos compromissos. Acho que nesse aspecto é também significativo. Em todo caso, para nós aqui na Europa, é uma relativa boa notícia, ou seja, eu acho que no fundo significa que os Estados Unidos, que são um mercado importante para nós, têm condições para recuperar com alguma rapidez desta crise e, portanto, voltar a comprar, voltar a fazer importações, ainda por cima já acabaram aquelas tarifas retaliatórias que a Madalena referiu, com este risco, realmente, é que se se iniciar aqui uma tendência inflacionista, obviamente isso também vai ser importado para a Europa. Portanto, também é um risco para nós.
Sim, sem dúvida. Há esse perigo e está tudo muito sentido. Mas eu acho que há aqui um ângulo que é importante falar, que isto não é apenas um estímulo face à Covid, que isto é, de facto, há quem o compare ao New Deal do Roosevelt de 1933, e que tem a ver não só com as medidas
Diretamente relacionadas com recuperação econômica COVID, mas que tem todo um conjunto de medidas que significam o novo contrato político com a questão da agenda social, de uma nova segurança social, nomeadamente na área dos seguros de saúde, também em relação ao ensino superior e a minorar a grande dívida que a classe média americana tem em sequência de ter um grau universitário. E portanto, que isto, no fundo, tem um significado político que irá fazer ou desfazer a administração Biden e o destino dos Estados Unidos. Acho que isto não pode ser só visto meramente como uma questão monetária e financeira, obviamente que será importante, mas o crescimento econômico já está à vista, mas que contém todo um programa político, que é até um programa um bocado europeu, no sentido em que tem a ver com uma maior intervenção estatal na economia, e que tem como objetivo final exatamente a estabilizar da classe média e reduzir a insegurança econômica e social, que é uma das causas que se apontam como também estando na origem da polarização política dos Estados Unidos. Acho que esta leitura mais global deste enorme investimento estatal na economia tem que ser visto como uma forma de redistribuição de rendimentos, e não apenas como um clássico programa keynesianista.
Um dos exemplos disso que dizias, Madalena, é um apoio novo ou alargado para as famílias, que não é bem um abono de família, nem é um rendimento mínimo garantido, mas que garante, pelo menos agora durante um ano, que as famílias recebem por criança um valor. Mas nós já sabemos que os democratas, a ideia que têm em relação a isso é que seja um apoio permanente, aproximando-se daquela ideia de o Estado garantir um rendimento mínimo sempre às pessoas, o que de facto traça aqui uma revolução na relação entre as famílias e o Estado, e essa renovação do contrato social e político que tu falavas está também aqui nesta lei e neste pacote de estímulo que passou ali. Houve várias alterações, mas esta ficou.
Sim, há esse apoio, que acho que são algumas centenas de dólares às crianças, mas há um apoio excepcional agora a quem tem rendimentos de menos de $75 mil, de $1.400 por pessoa, ou seja, portanto, adultos, casais, e se tiverem dependentes também mais $1.400. No fundo é o Estado diretamente a dar dinheiro. É impossível ser mais assistencialista do que isso, embora com esta justificação que são circunstâncias excepcionais. Mas eu também concordo muito com a avaliação da Madalena, que é: acho que isto é realmente uma grande aposta da presidência Biden e portanto pode ser, se for uma aposta ganha, pode se traduzir logo em 2022 no reforço desta maioria no Congresso, por exemplo. Se realmente se vierem a concretizar alguns destes receios de que o estímulo não funciona assim tão bem, que o crescimento não seja assim tão dinâmico, obviamente haverá acusações-
E que a inflação aumente
...que teve-se aqui a colocar. E sobretudo isso, não é? Esse seria o cenário pesadelo, que era voltarmos àquele cenário dos anos 70 e início dos anos 80 de estagflação. Pouco crescimento econômico e inflação muito elevada. E de facto, nós desabituamo-nos completamente disso. As últimas décadas, de facto, têm sido uma inflação, pelo menos nos países ocidentais, nos Estados Unidos, na Europa, muito baixa, mas realmente não sabemos se não há aqui fatores estruturais que, por exemplo, a questão que eu até penso já referida da China, da ideia de que no fundo foi o facto da China ter entrado na economia mundial, sobretudo a partir do ano 2000, que vai explicar esta pressão enorme sobre os salários e que impediu que houvesse de facto pressões inflacionistas, mesmo quando houve programas de estímulo ambiciosos, mas não quer dizer que isso de facto não se altere. Mas isto para dizer que realmente eu acho que é um dos grandes marcos da presidência e para já é uma grande vitória. E parece ser um programa bastante popular. Vamos ver os problemas que virão a seguir.
Sim, e eu acho que se dedica exatamente, ou tenta contrariar aquela tendência que sabemos que desde os anos 80 se veio a exponenciar, que é o enorme aumento das desigualdades entre 1% mais ricos e os 50% mais pobres, que nos Estados Unidos se cruzaram, mais ou menos em 1990, e que desde então nunca mais pararam de crescer. Na Europa há um pouco também essa tendência, mas muito menos acentuada, exatamente em parte pela intervenção estatal. E focada exatamente na questão da Medicare e da sua cobertura. Ainda há um em cada 10 americanos que não têm cobertura de saúde. E todos os investimentos também estatais, há bocadinho falava o Bruno, de facto, que seria bom que houvesse mais investimentos nas infraestruturas, mas de qualquer maneira estão já previstos alguns, e que sejam capazes também de aprovisionar os Estados
Diz. Investimentos nos Estados para essa. Obviamente, exactamente para a reconversão da economia e da energia.
Eu não queria dizer que isso estava completamente ausente, mas realmente é uma questão de equilíbrio. Eu acho que nesse aspecto, os republicanos têm uma certa razão, é uma opção que é feita. No fundo, este programa tem alguma coisa a ver com o estímulo à economia para recuperar do pós-Covid, enfim, até medidas concretas de apoio à vacinação, etc. Mas tem alguma coisa deste investimento em infraestruturas que seriam necessárias de qualquer forma e agora é um bom momento para o fazer. A economia precisa aqui de um estímulo, mas, de facto, tem um peso enorme de programas sociais e, portanto, que os republicanos não gostam e os democratas gostam. Mas nesse aspecto, essa crítica ou essa divisão de pontos de vista justifica-se. Eu acho que, em todo caso, para mim, a questão da inflação realmente é que é um elemento de incerteza, mas é muito importante também porque tem grandes consequências sociais. Ou seja, nós sabemos que as pessoas com menos rendimentos são especialmente vulneráveis à inflação. Têm menos margem de manobra e, portanto, de repente há aqui um logo à partida e, portanto, se há aqui aumento descontrolado dos preços, vão ser especialmente atingidos. Portanto, também há um lado social nesta preocupação, podemos dizer assim.
Há o receio de que o medicamento possa ser pior do que a doença ou que a gente fica por não fazer nada. A verdade é que este plano, como dizias, Bruno, também é uma posição para fora e mostra que os aliados, por exemplo, ou quem está no mercado com os Estados Unidos pode ficar tranquilo, porque os Estados Unidos estão a fazer o que precisam de fazer para recuperar a sua economia. E isto acontece também numa altura em que Joe Biden começa cada vez mais a ir aos palcos internacionais, já falamos disso na semana passada aqui no Café América, já não sei se foi na semana passada ou há duas semanas. A minha memória perdeu-se muito com esta pandemia e com o confinamento, mas quando Joe Biden esteve virtualmente no G7 e agora prepara-se para estar com a sua mini NATO, com os Estados Unidos, o grupo estratégico que junta Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão, Quad, que há de acontecer na sexta-feira ou na próxima semana. Isto é importante, sobretudo, e de novo, por causa da relação com a China.
Sim, eu acho que é um sinal bastante claro de que a grande prioridade estratégica do presidente Biden, e nisso ele continua o presidente Trump, e há uma grande convergência entre republicanos e democratas, é realmente a questão da rivalidade estratégica com a China, a questão da necessidade de conter a China. E fala-se muito, enfim, os conselheiros do Biden, que agora entretanto foram nomeados para posições importantes, têm escrito nos últimos anos, nomeadamente o último ano, na "Foreign Affairs" vários textos sobre a questão da relação com a China, da relação com a Ásia. Este era um dos aspectos que era sempre valorizado, a questão da importância deste chamado Quad. Estas quatro potências do Indo-Pacífico, a Índia, o Japão, os Estados Unidos, a Austrália. E a própria China já deu também sinal disso, ou seja, já houve uma declaração do ministro das Relações Estrangeiras chinês a dizer que isto era um ato hostil e que mostrava que o presidente Biden tinha uma ideia errada da China. Eu acho que é um formato relativamente interessante. Aqui, claramente, a grande mais-valia é realmente a questão da Índia, ou seja, no fundo, se nós quisermos, podemos dizer que a Índia poderá ser, na geoestratégia desta nova Guerra Fria, aquilo que a China foi na Guerra Fria anterior. Ou seja, se a China é o rival principal dos Estados Unidos, como era a Rússia Soviética na Guerra Fria até 91, então faz sentido, independentemente de outras questões e até divergências históricas, etc, procurar aliados de peso. E aqui o aliado no período final da Guerra Fria e com impacto importante foi realmente a China, apesar de ser uma potência comunista. Agora pode-se dizer, bem, a Índia, apesar de ser uma potência asiática, apesar de ter uma tradição de não alinhamento, até de crítica da presença do Ocidente na Ásia, etc. Agora, nomeadamente por todos estes conflitos fronteiriços com a China. Ainda o ano passado morreram dezenas de soldados indianos nos Himalaias, em confrontos com tropas chinesas por uma disputa territorial. Portanto, isto, de repente, é um formato que interessa bastante à Índia. Apesar de tudo, eu sou um bocadinho cético em relação à ideia de que nesta disputa com a China, por exemplo, a Índia, para já, é um aliado assim tão fiável. Ou seja, acho que isto depende muito da evolução das relações entre a China e a Índia. Acho que se a China fosse estrategicamente inteligente, se calhar fazia algumas cedências nessas disputas fronteiriças e certamente não tinha esta postura tão agressiva. Portanto, eu acho que teremos de ver como é que isto evolui, se há aqui continuidade, se começam a haver reuniões regulares, se há exercícios militares regulares. É verdade que eles têm existido e é uma coisa inédita. É verdade que a China tem mostrado muito interesse numa presença, inclusive militar, naval, dos Estados Unidos e também da Europa no Oceano Índico, e portanto, isso são mudanças importantes, mas teremos de realmente ver até que ponto são sustentáveis.
A verdade é que esta cimeira inédita não acontecerá agora por acaso, não é?
Sim, claro, eu acho que é evidente o interesse norte-americano, é também evidente o interesse da Índia e, claro, o interesse da Austrália, que também tem tido conflitos importantes com a China, nomeadamente comerciais. E enfim, os conflitos com o Japão são muito mais longos.
Sim. Madalena, quer ainda juntar-se rapidamente? E muitas dimensões sociais.
Sim, uma dimensão muito interessante é a questão da vacinação. Aparentemente, há aqui uma iniciativa conjunta destes quatro para tentar contrariar a diplomacia das vacinas da China na região asiática, na zona do Indo-Pacífico.
Nesta altura não há relações a que escape a dimensão também da Covid. Termina aqui o Café América desta semana. Nós voltamos na próxima semana com mais comentários do outro lado do Atlântico. Volte conosco, até lá.