Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao Café Europa desta semana com Bruno Cardoso Reis, Jorge Félix Cardoso, hoje a partir do Porto, Madalena Resende e eu, Henrique Borné. Como seria de esperar, o programa vai sobretudo andar à volta da nova comissão anunciada na semana passada, os comissários, os membros da nova comissão. Isso vai dar uma boa discussão, mas ainda há dois ou três temas antes. E portanto, só para avisar, vamos começar com o nosso prêmio Átila e os nossos Croissants d'Or. Vamos falar sobre a nova comissão, como já foi dito. Vamos ter na segunda parte o nosso Dijsselbloem, o prêmio em homenagem ao ex-ministro das Finanças holandês, e terminaremos desta vez com tempo para ouvido na mesa de lado. Mas vamos então começar hoje com só há um nomeado para o Prêmio Átila da semana, o prêmio que é uma homenagem ao Átila, o Huno. Vamos então abrir para os prêmios. Ora, e antes de começarmos com a próxima comissão, um comentário à ainda comissão em vigor. Não sei se repararam, mas a Estônia primeiro e por iniciativa própria, e depois a Romênia, por pressão, entre outros, do Parlamento Europeu e do presidente Juncker, resolveram não nomear comissários para substituir os seus comissários que estavam em funções e que foram eleitos deputados ao Parlamento Europeu. E o argumento usado foi: faltam só dois meses, em dois meses não se faz nada, não é preciso dois comissários, um da Estônia e outro da Romênia, para estarem aqui estes dois meses só a gastar dinheiro aos contribuintes europeus. Isto é extraordinário, porque foi um argumento usado pelo Parlamento Europeu, que gasta dinheiro dos contribuintes europeus para ir todos os meses para Estrasburgo com o argumento simbólico de que é importante estar em Estrasburgo porque é um símbolo da paz entre os alemães e os franceses, símbolo essencial da Europa. Sinceramente, se há argumento que eu não gosto é o argumento do dinheiro para travar questões essenciais ou que me parecem fundamentais nas estruturas políticas e na democracia. E este é um caso deles. Apesar dos tratados preverem que só tem de haver dois terços dos comissários por país, a verdade é que há uma decisão do Conselho de que todos os Estados membros têm um comissário. E a verdade é que se compreende muito bem que é fundamental que todos os Estados membros estejam representados na comissão. Eu pelo menos faço parte dos que acham que isso é uma daquelas questões que não deve desaparecer. Cada Estado membro deve estar representado na comissão. Ora, nem que seja por dois meses. A ideia de que não faz cá falta, pode não ir durante um bocadinho, parece uma péssima ideia. E portanto, para Juncker, para o Parlamento Europeu, para o PPE, que fez bullying à Romênia sobre isto, o meu prêmio Átila da semana. E agora passamos aos prêmios Croissant d'Or, que ao contrário, são elogios, são prêmios em homenagem ao que foi bem feito. E o primeiro Croissant d'Or é o Bruno Cardoso Reis, que quer entregar a Mario Draghi.

Sim, acho que realmente é um Croissant d'Or consensual, ou seja, se houve alguém que nos últimos anos, de facto, teve um papel crucial para poder dizer mesmo salvar o projeto europeu, acho que foi o Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu. Neste aspecto, eu estou de acordo com a chanceler Angela Merkel, que disse no pico da crise que o fim do euro seria ou implicaria um risco muito sério do fim da União Europeia. E, portanto, acho que realmente esse era um risco sério. E de facto, acho que toda gente concorda que a nomeação de Mario Draghi, a viragem que ele trouxe em termos das políticas do Banco Central Europeu, aquelas famosas declarações, dizer "o Banco Europeu fará tudo o que for necessário para salvar o euro e isso será suficiente, acreditem em mim." Acho que de facto isso foi decisivo para uma viragem na forma como a Europa enfrentou a crise, como os mercados viram também a capacidade das instituições europeias de responder à crise econômica e financeira. E portanto, acho que independentemente de podermos questionar esta ou aquela decisão, inclusive a última que ele agora toma, claramente é alguém com grande coragem, com disponibilidade para arriscar. E mesmo esta última decisão de mais uma vez voltar a fazer este quantitative easing, voltar a injetar capital na economia, mais uma vez é contestado por países muito importantes como a Alemanha, mostra que do princípio ao fim, ele de facto esteve disposto a fazer aquilo que ele achava que era necessário para salvar o euro, para fortalecer a União Europeia nesta área essencial. E portanto, acho que é um prêmio muito merecido.

Um croissant atribuído e agora dois croissants que são contraditórios. A Madalena quer atribuir um croissant a Ursula von der Leyen a propósito da discussão à volta de haver ou não uma proteção do modo de vida europeu. E o Jorge, julgo que pelo contrário, quer atribuir o croissant ao atual presidente Juncker pela razão oposta. Madalena, queres tu começar e depois o Jorge, vindo do Porto, responde?

Eu quero dar este croissant à nova presidente Ursula von der Leyen, porque acho que foi importante que, a partir das instituições europeias, houvesse alguma resposta ao discurso de extrema-direita O discurso de extrema-direita nos últimos tempos tem vindo a querer atribuir a si próprio o papel de guardião da Europa cristã, o que deixa a Europa um pouco desprotegida. E apesar deste título ser um pouco controverso, para dizer o mínimo, em inglês talvez seja mais fácil dizer "protecting our European way of life", é uma primeira tentativa de criar uma narrativa a nível europeu do que se considera ser os valores europeus e de que forma as instituições são os protetores desses valores europeus e não a extrema-direita.

Jorge Félix Cardoso.

Eu decidi atribuir o colação ao Juncker, não exatamente por causa desta razão. Eu acho que Juncker tenha um papel decisivo em ultrapassar muitas das crises que assolaram a União Europeia durante o seu mandato e acho, por isso, importante reconhecer o seu trabalho e fazer a ligação à nova comissão. Parece-me que há elementos, quer na forma como a comissão é estruturada, quer na existência de alguns cargos novos e no pendor muito geopolítico, que têm claramente um cunho de Jean-Claude Juncker, que fez um esforço para dotar a União Europeia de algumas outras ferramentas e de um outro estilo de comunicação. É certo que Juncker também discordou do uso da proteção do modo de vida europeu, e eu também discordo. Nada contra o modo de vida europeu, não sei se existe um ou não e não sei se conseguimos defini-lo ou não, mas calculo que sim. O meu problema é mesmo com o uso da expressão proteção acoplada a pastas como as migrações e outros fenômenos semelhantes, sobretudo quando dentro da União Europeia me parece que há ameaças bastantes a esse modo de vida europeu. Mas isso é uma polêmica que não deve distrair-nos do essencial, que é de facto a estrutura da nova comissão e os objetivos que a presidente Ursula decidiu apresentar.

Muito bem, Jorge. Parece-nos um bom pretexto para arrancarmos sobre a próxima comissão. E já que estavas com a mão na massa, por assim dizer, queres ser tu, Jorge Félix Cardoso, a dizer o que te parece a escolha dos nomeados e das pastas que receberam para a nova comissão?

Sim, posso avançar com alguns destaques. Destacaria, pela positiva, a vontade de dar um cunho geopolítico à comissão, nomear como temas centrais a tecnologia e o digital, o clima, questões de defesa e segurança e mesmo a questão da economia relacionada com as relações com outras grandes potências. Isso parece-me bastante importante e bastante bem feito pela presidente Ursula. Há aqui um problema que me parece que será a sucesso de lideranças. Nós temos uma comissão com nomes que soam um pouco a startup, uns cargos muito inovadores e uma estrutura inovadora, e com três vice-presidentes executivos e sete vice-presidentes ao todo, não sei até que ponto é que não haverá dificuldades em perceber quem manda em quê e em quem e como é que as coisas se organizam dentro da comissão. Ao nível dos comissários, eu destacaria, pela positiva, a escolha de Věra Jourová para o portfólio do rule of law, do Estado de Direito. Parece-me que é uma decisão muito acertada escolher alguém vindo do Leste e mais propriamente do grupo de Visegrád, do qual fazem parte as repúblicas Checas, Eslováquia, Polônia e Hungria, países que têm dado muitos problemas. Parece-me estratégico e muito bem pensado escolher alguém como Věra Jourová, independente desses governos, a governar este portfólio. Sabemos as dificuldades que Timmermans teve no mandato passado e portanto parece-me uma boa experiência.

Boa.

Pela negativa, eu destacaria, certamente, a pasta de Timmermans. Vai soar estranho, tendo em conta a fama de ambientalista que me corre, mas acho que Timmermans estava esperando mais e merecia mais dentro da sua pasta do Pacto Verde Europeu, não sei bem qual é a tradução disso.

Sim.

Faltam áreas importantes como questões de economia e dos transportes nesse portfólio, que são essenciais para fazer a transição para uma Europa mais sustentável.

Muito obrigado. O Jorge Félix Cardoso a entrar aqui desde o Porto. Voltando ao estúdio e em Lisboa, vamos aos nossos comentários sobre esta composição da comissão. Madalena, queres?

Sim, eu concordo com o Jorge acerca desta capacidade desta nova comissão de se tentar concentrar em três áreas fundamentais já apontadas. Por um lado, a questão digital, por outro lado, a ecologia e por fim, ter um plano econômico mais assente na quarta revolução industrial. Portanto, penso que esta é uma ótima forma de dar esta ideia, pelo menos esta ideia, vamos ver se ela se vai concretizar, de que há nova energia na Europa. Penso que isto é fundamental.

Parece uma comissão que ganha algum ímpeto.

Bruto.

Tu também ficaste satisfeito? Estamos, no geral, a dar notas positivas.

Talvez não tanto. Eu acho que aqui há um problema de base que eu já referi e que também não quero insistir demasiado, mas eu acho que realmente a presidente da Comissão é uma escolha fraca, ou seja, é alguém com pouca experiência política, não se destacou nos cargos em que desempenhou funções. E tem este problema adicional, que eu acho que é uma previsão segura, que é: teve um mandato escasso no Parlamento Europeu, embora provavelmente qualquer candidato teria neste contexto de maior fragmentação, e não teve um mandato popular. Ou seja, toda aquela ideia que foi construída a partir da nomeação do Juncker, de que de fato o candidato que era apontado pelos vários grupos políticos, o candidato do grupo político do partido europeu que ganhava seria o presidente da Comissão, isso não aconteceu desta vez.

Mas ao mesmo tempo está a acontecer nas várias mission letters, uma delas já não me lembro destinada a quem, diz que quer retomar e reforçar o Spitzenkandidat. Eu acho que isso é uma péssima ideia.

A questão é que nas próximas eleições europeias vai ser muito mais complicado credibilizar essa noção ou usar isso como argumento para dizer que as pessoas devem votar, porque o voto nas eleições europeias realmente conta, nomeadamente para a escolha da pessoa que tem esta função extremamente importante. Eu acho que ela, no entanto, foi inteligente na escolha dos vice-presidentes executivos, ou seja, escolheu pessoas que têm muita experiência de Bruxelas, ao contrário dela, e escolheu pessoas que realmente têm bastante peso político, inclusive um outro Spitzenkandidat, aquele que foi apresentado como o candidato a presidente da Comissão pelo Partido Socialista Europeu, o Frans Timmermans. Eu acho que desse ponto de vista foi uma gestão inteligente, como aliás tu referiste também, é inclusive também uma forma de mobilizar votos no Parlamento Europeu, nos vários grupos políticos importantes no Parlamento Europeu, para além do Partido Popular, para além deste partido mais à direita na qual ela se insere. Desse ponto de vista, acho que foi uma saída inteligente. Vamos ver se ela consegue, de facto, gerir bem as coisas. Em todo caso, eu acho que a esse nível, em termos da estrutura da comissão, da escolha dos vices, não me parece que haja problemas, acho que faz um certo sentido. Está claramente ligado a prioridades na agenda, que eu também acho que é importante. Tudo isso pode ser discutido, mas eu acho que aí foi uma boa opção. Uma outra questão com que eu tenho problemas, enfim, já foi um bocadinho falada na questão dos prémios, é esta ideia de transformar pastas, transformar instituições em slogans. Acho que viu o seu resultado. Provavelmente ela a equipa dela terão achado que essa ideia era brilhante e seria uma forma de combater a extrema-direita. Deu imensa controvérsia. Eu acho que é má conselheira.

Dos mais criativos não é normalmente uma ideia genial.

Talvez eu seja excessivamente institucionalista ou conservador, mas acho que não faz muito sentido estar a transformar instituições, pastas, de facto, em slogans. Os slogans têm lugar nas cartas de missão, nas declarações públicas, etc. Não a este nível. E acho que aí houve alguns problemas. Um ponto que também foi bastante controverso, embora num grupo bastante restrito e com impacto muito reduzido, que é a comunidade acadêmica e da investigação a nível da Europa, foi o fato de a pasta que antes pertencia ao comissário português, ao Carlos Moedas, que aliás fez um lugar ótimo, passou a designar-se da inovação e da juventude e deixou de ter qualquer referência expressa no nome, que aparentemente é tão importante para a presidente da Comissão, à ciência, à investigação. Isso foi mais uma vez bastante criticado. E eu acho que ilustra estes problemas.

É o problema destas pastas, quando começam a ter nomes, nós começamos a avaliá-las pelos nomes. Quando começam a brincar com os nomes e a dar títulos de filmes série B, nós começamos então a ver se os nomes têm tudo ou não. Eu concordo, eu acho que aliás, esta ideia destes nomes foi completamente esfarrapada e mais valia cortá-los. Mas há aqui três ou quatro coisas que eu, antes de irmos aos detalhes, e na segunda parte entraremos em alguns detalhes das pastas, queria dizer. A primeira é um tema que eu sou sensível, não sei se repararam, cada um dos comissários, quando foi anunciado, foi anunciado com referência ao país de onde vem. E eu acho isso muito bom sinal e é bom que nos lembremos todos. A União Europeia é uma união de estados e os países e as pessoas têm uma filiação nacional antes de terem uma filiação europeia e portanto, primeira nota que eu reparei. Segunda coisa é, eu acho que tu tens razão. Tu, Bruno, tens razão. Ela não tem um histórico extraordinário, mas eu acho que tem mostrado uma sensibilidade política muito boa e aí eu acho que a Milena Resende tem notado isso e eu também noto. Ela faz aqui uma coisa muito inteligente. Tinham lhe imposto dois vice-presidentes, os outros dois Spitzenkandidat, um dos socialistas europeus e outro dos liberais. E ela inteligentemente chama mais um do PPE, como quem diz: "Certo, isto é uma coligação, mas os outros dois vice-presidentes, o do PS e o dos liberais, não estão ao mesmo nível que eu. Eu sou o presidente da Comissão, a coligação faz-se um degrau abaixo ao nível dos vice-presidentes, então é um para cada partido." Isso é uma jogada inteligente. E é essencial, porque ela vai precisar do apoio dos três partidos no Parlamento Europeu. Portanto, é bom que o que quer que seja que o Colégio de Comissários aprova, tenha o acordo destes três vice-presidentes para chegar ao Parlamento com sucesso. Depois há aqui dois dados que eu acho que são muito interessantes. Eu concordo com o que o Jorge Félix Cardoso diz, eu acho que o Timmermans foi um bocadinho enganado. O Timmermans fica com muito menos e fica com uma pasta difícil, porque dá-lhe apenas o New Green Deal, o pacto ecológico em português, que não tem um som tão simpático. Dão-lhe pouca DG, dão-lhe uma DG Clima, que é uma direção-geral, se fosse aqui em Portugal seria um ministério Mais pequeno do que a Direção-Geral do Ambiente, que tem mais equipe, mais gente, pode vir a ser forçada, é muito focada, mas de qualquer maneira, não é claro que seja. Dão-lhe 100 dias pra apresentar a sua proposta de pacto. No mínimo, é uma tarefa difícil. O lado positivo disso: dão a oportunidade aos socialistas europeus de responderem àquilo que foi a maior ameaça eleitoral que tiveram. Os socialistas foram atacados precisamente pelos Verdes, isto é, foi para os Verdes que perderam votos. E aqui é lhes dado a oportunidade de responderem a isso. Do outro lado, claramente vencedora, é a Vestager. A Vestager fica com uma coisa inédita, é simultaneamente comissária da concorrência, que é quase um ministério que é simultaneamente um regulador europeu. E tem uma força, foi isso que a fez famosa. E depois fica com a missão no digital.

Mas pode chocar uma coisa com a outra, atenção. A imparcialidade dela, que é necessária pra área da competição, pode ser posta em causa pelo seu mandato com o digital.

Ou e há o risco, enfim, uma discussão que também já tivemos um pouco aqui, que é este choque ou ver aqui um sinal de que, no fundo, se vai olhar pro digital, sobretudo do ponto de vista da competição e da precaução, da regulação, e não propriamente da inovação.

Eu acho que o choque é intencional. A Ursula von der Leyen enviou, tal como o Juncker tinha feito, cartas a cada um dos comissários a dizer ao que veio.

Na estratosfera europeia, pode haver uma tentativa de combinar as duas. Dizer: "O que nós vamos fazer no digital é regular", mas, na verdade, o que eles querem, ou o que a Europa precisa, é fazer com que a Europa se torne uma potência no digital também.

E já se ouviu o sino de Mário Centeno, que o Mário Centeno usa no Eurogrupo, a chamar-nos a atenção que estamos a chegar ao final da nossa primeira parte e, portanto, na segunda parte daremos prêmios Dijsselbloem e continuaremos a falar da nova comissão, mas agora ficamos por aqui. Voltamos pra segunda parte já em seguida. E com o sino que Mário Centeno usa nas reuniões do Eurogrupo, abrimos a segunda parte do nosso Café Europa desta semana com Bruno Cardoso Reis, Jorge Félix Cardoso, hoje a partir do Porto, Madalena Resende e eu, Henrique Bornet. Temos estado a falar hoje, sobretudo, da nova Comissão Europeia, mas vamos mantendo os nossos prêmios semanais. Vamos arrancar a segunda parte agora com o nosso prêmio Dijsselbloem. Como o som indica, o prêmio é em homenagem a esta extraordinária frase do ex-ministro das Finanças holandês. E o meu Dijsselbloem desta semana vai para um dos políticos que mais percebe da Europa em Portugal, ou que percebe bem da Europa em Portugal, o Rui Tavares. Percebe bem e por isso é que eu tive tanta pena do que ele escreveu esta semana, que não resistiu e resolveu pegar em algumas, e nós vamos falar sobre elas, algumas das falhas claras que têm esta Comissão e chama de comissão orwelliana, coisa que o Financial Times também chamou, mas num tom um pouco mais na brincadeira. O Rui Tavares vai mais longe no artigo no Público no dia 11 de setembro. E por causa da nomeação, que já aqui discutimos, do comissário para a proteção dos valores europeus ou do modo de vida europeu. A propósito da croata, que já tinha sido indicada pelo governo croata, portanto, não é uma surpresa. E a propósito do ex-ministro da Justiça húngaro sugere que o Parlamento Europeu devia chumbar este colégio. E há aqui duas coisas que me surpreenderam neste artigo do Rui Tavares. Um é esquecer-se, o Rui Tavares foi deputado ao Parlamento Europeu, esquecer-se que o Parlamento o que tem feito é dizer ao presidente da comissão designado quais é que são os casos que entende problemáticos e tentar forçar, ou em segundas audições, ou forçar a que os Estados-membros reenviem antes de chumbar. Ainda não foi chumbado um colégio inteiro nenhuma vez. E, portanto, o Rui Tavares sugere uma bomba atômica pra problemas que têm outras soluções. E o outro exagero manifesto, me parece, neste texto do Rui Tavares, é dizer que o comissário húngaro, que não é recomendável, claramente, ex-ministro da Justiça da Hungria, isto não recomenda ninguém, que tem a pasta do alargamento e da vizinhança, que parece uma péssima ideia também, concordo. Mas daí a dizer que se ele tiver sucesso, o alargamento da União Europeia será feito com vários urbanistõezinhos, é um disparate monumental, porque ele sabe muito bem que o alargamento só se faz com decisão unânime do Conselho. Não é um comissário que faz. E, portanto, parece-me que o Rui Tavares entusiasmou-se, quis escrever qualquer coisa rápida no dia seguinte à nomeação da presidente da Comissão e fugiu-lhe a pena pro lado errado. Este é o meu prêmio Dijsselbloem, mas não é o único prêmio Dijsselbloem desta semana. O Jorge Félix Cardoso tem nomeados a propósito dos vários comissários que estão, no mínimo, com problemas com a Justiça. Não é, Jorge Félix Cardoso?

Exatamente. Eu vou aproveitar uma questão muito boa do João Diego Barbosa, que diz que podiam acabar com a cota dos suspeitos na Comissão. Temos suspeitos, abraços com a Justiça, da França, da Polônia, da Bélgica, da Romênia, Hungria, enfim, ele não tem problemas com a Justiça.

A Justiça é que tem problemas com ele.

No próprio país. E pra além disso, quer a presidente da Comissão, quer o comissário austríaco, com acusações de plágio nas suas teses de doutoramento. Portanto, isso quer dizer, é aqui um cenário que numa altura em que se queria uma credibilização da Comissão Europeia, não dá muito bom aspecto. Mas enfim, é um mau prêmio para vinho, mas falemos de coisas mais importantes.

Ok, vamos para coisas mais interessantes. E então vamos entrar nesta segunda parte do nosso Café Europa pra discussão sobre esta comissão. Nós tínhamos ficado na primeira parte, estávamos a falar sobre a comissária Vestager, que acumula A concorrência é importantíssima, a DG Concorrência com o digital. E eu queria só terminar dizendo, Madalena, eu concordo contigo, é isso mesmo. O que eu vejo aqui é uma ameaça ao bom senso que deveria ser a concorrência. É para as questões de concorrência, e ela ter a missão para o digital é outra coisa. O que eu acho que se nota aqui, continuando nos nomes parvinhos que foram dados a alguns títulos, então mais valia ser honesto e chamar a comissária Vestager de comissária para taxar as big techs americanas, porque é isso que está aqui. E a outra coisa que a Vestager tinha dito que não se importaria desde que o mandato fosse esse, é a ideia dos campeões europeus, porque há na mission letter enviada, e vem de uma posição já de Macron, isto tudo começou a propósito da discussão da fusão que não aconteceu, Siemens Alstom, a discussão sobre se a concorrência europeia deve servir para promover campeões europeus ou não. Temos a resposta. Esta junção, esta fusão dessas pastas, é claramente a ideia de que sim, é preciso promover campeões europeus. Eu acho que isso não é necessariamente bom para a economia europeia e tenho muitas dúvidas que seja bom para os consumidores europeus.

Deixa eu só comentar a questão da Vestager, porque de fato, há aqui uma sensação de que ela fica a dominar o digital. Mas o Euractiv escreve um artigo muito bom que se chama "Vestager teoricamente digital chief, mas na prática é Sylvie Goulard." E eu concordo com esta análise. Portanto, se virmos aquilo que é atribuído a cada comissário, Sylvie Goulard é que fica, para além de ter o mercado interno, a defesa e o espaço, fica com a DG Connect, que é a DG responsável pelo mercado único digital, e fica também com muitas questões de cibersegurança, que também tem uma relação fortíssima com o digital. E acho que este vai ser um par muito interessante para ver se funciona ou não. Mas, de fato, se elas não colaborarem nesta questão das competências para o digital e para as tecnologias, isso não parece grande ideia. A favor, joga o fato de serem do mesmo partido europeu e de terem visões aparentemente próximas. Portanto, vamos lá ver se isso resulta.

Eu penso que aqui realmente este é um problema clássico na Comissão Europeia e nos governos em geral, que é muitas vezes a tensão entre objetivos que são claramente prioritários e desejáveis, mas que são difíceis de conciliar. Parece-me que aqui no caso da Margrethe Vestager, há esta ideia, de fato, de procurar que a competição não seja um entrave à inovação e ao reforço de grupos europeus. Eu acho que a experiência dela, enfim, toda a personalidade pública dela, vai um pouco no sentido contrário, mas no fundo, o que se aponta é aqui para uma tentativa de conciliação, mas que nem sempre será efetivamente fácil. Depois também o Jorge assinala um ponto importante, que é ela, de fato, não é a única protagonista. E as vice-presidências, enfim, vamos ver exatamente como é que funcionam. Em princípio, será ela a coordenar esta área, independentemente dos outros atores, mas, por exemplo, temos aqui uma antiga ministra da Defesa de França que, evidentemente, vai ter aqui um papel importante e tem um país com bastante peso, mais uma vez por trás dela, eventualmente a apoiar as posições que ela assumirá e que vão muito nesse sentido. Como sabemos, a França é uma grande defensora da questão dos campeões europeus no mercado mais globalizado, face à rivalidade com a China, com os Estados Unidos. Só uma última nota, é que eu acho que a nomeação da Margrethe Vestager também é um sinal desta agenda mais geopolítica, um ponto ao qual provavelmente voltaremos, mas eu acho que foi um ponto a favor dela, e não deixa de ser significativo, que ela foi altamente criticada pelo presidente dos Estados Unidos, pelo presidente Trump. Aqui há uns anos isso provavelmente seria um problema para um político europeu que quisesse ter uma carreira de sucesso ao nível da União Europeia. Ela foi acusada de ser a pessoa que mais detesta os Estados Unidos, nas palavras do presidente Trump, a senhora dos impostos, portanto, os tais impostos contra as grandes empresas digitais norte-americanas. E eu acho que há aqui também um sinal no sentido de dizer: "Nós queremos trabalhar com os Estados Unidos, mas não aceitamos que os Estados Unidos ditem quem é que querem ou quem é que não querem na Comissão Europeia."

E a China, até olhar para os dois sítios, Madalena.

Eu queria chamar a atenção não só para a Sylvie Goulard, que já foi falada várias vezes, ou seja, ela, de fato, não tem nenhum título de vice-presidente, mas tem três DGs superpoderosas do mercado interno, das comunicações e tecnologia, e a salientar da defesa, ou seja, com a nova agenda de criar uma união da defesa europeia em 2025 e toda a agenda e dinheiro que está envolvido. Isso dá à França, que tem estado à frente deste processo, de fato, uma ótima posição na comissão. Depois, também chamar a atenção para o serviço de ação externa com o Josep Borrell, que eu também acho que é um ótimo-

A sério que achas uma ótima ideia?

Acho uma ótima ideia.

É que eu acho uma péssima ideia.

Então vá, depois vais a seguir. Sim, vai. E depois queria só chamar a atenção para esta questão de uma politização grande da comissão trazer alguns problemas em termos da potencial independência de alguns comissários, como seja o comissário polaco, que inteligentemente lhe foi atribuída a agricultura. Traz problemas de independência para ele, ou seja, até que ponto ele consegue resistir aos impulsos do seu país. Viktor Orbán e o seu ministro da Justiça, outro dos casos problemáticos, e também o antigo primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, que fica com a pasta econômica, ou seja, é competente pela aplicação das regras orçamentais, o que também o poderá pôr numa situação difícil.

E que na mission letter, mais uma vez, a presidente designada diz especificamente para ele usar os instrumentos do Pacto de Estabilidade e Crescimento com toda a flexibilidade. Eu acho que a mensagem para a Itália não pode ser mais clara.

Exato.

Só dois apontamentos telegráficos. Um é em relação à questão da defesa. De facto, eu acho que aqui é um sinal muito claro e ainda há pouco tempo tive um encontro em Madrid, à porta fechada, em que isso ficou bastante evidente. De facto, a defesa neste momento para a Europa é também um projeto, ou é até sobretudo um projeto industrial, económico, de investimento do Estado. E, portanto, isso fica muito claro que o ponto de vista francês realmente é o que está a prevalecer. Uma segunda nota em relação ao comissário italiano, e ligando àquilo que estivemos a discutir a semana passada, a nomeação dele foi realmente vista e apresentada pelos jornais italianos, pelos líderes políticos italianos, como um sinal de que a Itália estava de volta ao coração da Europa e que voltaria a influenciar a agenda europeia em aspetos cruciais.

Parece que é de nomear o advogado de uma das partes para juiz. É o que parece. Eu tenho aqui algumas coisas. Há um ponto que vocês têm referido, que é a questão francesa, e eu começaria por aí. Eu acho que o grande vencedor da forma como a comissão foi organizada é claramente Macron e a sua ideia da Europa. Esta comissão, que é apresentada especificamente como sendo uma comissão geopolítica, é, de facto, como temos aqui dito, uma comissão geopolítica e econômica. E a ideia do papel da Europa no mundo e como é que se defende a Europa no mundo, quer do ponto de vista das relações internacionais, quer da economia. Essa marca é evidente. E por isso, se as prioridades são ambiente digital e defesa, e a defesa é uma novidade, e é numa perspectiva industrial. E, portanto, nisto, claramente, vê-se uma comissão muito desenhada em cima do que são ideias e prioridades de Macron.

E não só.

E não só, mas não há aqui nada que Macron não goste, há aqui quase tudo o que Macron gosta. A outra coisa que há é, claramente, e isso vê-se também nos textos, uma comissão pensada para responder aos medos. Ao medo do digital, ao medo da imigração, certamente já falaremos um bocadinho disso, mas ao medo da perda de relevância econômica no mundo digital. E com mensagens até para a China, porque a história da concorrência não é só para as techs americanas, é também olhar para a China e para a ameaça da concorrência chinesa. Agora, especificamente a comissária francesa, há aqui um detalhe engraçado. Os vice-presidentes, na anterior comissão, tinha sido criado estes dois patamares, os vice-presidentes e os comissários. Mas os vice-presidentes não tinham direções gerais, aquilo que em Portugal seriam ministérios, e portanto eram uma espécie de ministros sem pasta ou com título, mas sem pasta. Eram coordenadores de políticas, mas não tinham com que trabalhar. A correção foi feita com os três vice-presidentes. Os três vice-presidentes têm três direções gerais, que são as armas deles para trabalhar. E por isso é que eu dizia, chamar a Vestager digital, mas dar-lhe a concorrência, é claro aquilo que se quer. Dizer ao Timmermans que é para o Green New Deal e depois dar-lhe a DG Clima, é evidente para o que quer. E o terceiro do PPE, que fica com a zona euro, no fundo é para ser o polícia mau do Gentiloni, que vai ser o polícia bom da zona euro. E portanto, é garantir ao PPE, à ala mais à direita e ao norte da Europa, que a zona euro não vai ser gerida sem rigor. Agora, os outros vice-presidentes sem pasta, eu acho que são proclamatórios. Quando entramos nos comissários, é evidente que não é vice-presidente, mas a francesa tem aqui um peso enorme.

Exato, é isso.

Ela tem tudo. Tem a Direção Geral do Mercado Interno e que tem a indústria lá dentro, que é basicamente tudo o que conta a economia na União Europeia. Tem a Direção Geral, a Connect, que trata das questões digitais, que é o que interessa em termos de futuro. E tem a nova Direção Geral, a da Defesa, que é aquilo que interessa aos franceses e que é a ideia de que a defesa tem objetivos industriais e econômicos. Não é apenas uma questão de segurança, é uma questão de objetivos industriais e econômicos. França sai daqui claramente vencedora desta visão.

Isso levanta aquela questão que até foi debatida aqui no debate nacional, que é, no fundo, qual é o peso dos comissários em termos dos interesses do próprio país. Ou seja, os comissários são nomeados por um Estado, mas vão poder defender os interesses desse Estado na comissão. E realmente, o Paulo Rangel levantou uma questão que é verdade, que é evidente que um comissário não pode simplesmente, de uma forma escandalosa, aberta, no fundo, desatar a dar fundos para o seu próprio país. No caso da nossa comissária, Elisa Ferreira, no fundo, estes fundos da coleção regional não vai poder reforçar aqui de forma evidente, escandalosa, os fundos que vêm para Portugal. Dito isto, aquilo que também me parece evidente é que não é por acaso que cada país tem um comissário e faz muita questão disso.

Exato.

Ou seja, esses comissários realmente podem pelo menos garantir, desde logo na sua pasta, mas mesmo noutras, que os interesses vitais do seu Estado não são maltratados e que dentro das regras e até no desenho das regras, porque como nós sabemos, depende muito como é que se desenham as regras e depois como é que elas são implementadas, que nesse aspecto, os interesses mais importantes desse Estado não são, de facto, postos em causa. E aliás, até é curioso, o António Costa, na nomeação da nova comissária, fez um elogio ao comissário que acabou de sair, o comissário Cásem Moedas, quer em termos de ter sido muito capaz na execução das prioridades da sua pasta e dar-lhe até nova visibilidade, quer também na defesa dos interesses do país e do interesse de Portugal. E, portanto, eu acho que aí é evidente que as duas coisas são possíveis, desde que se for um político hábil.

O Carlos Moedas foi um ótimo comissário, foi ótimo para Portugal, mas não andou a dar dinheiro diretamente a Portugal. Ele tornou possível que os portugueses concorressem muito mais porque tomaram atenção. Estamos a dar um salto para esses assuntos e eu julgo que o Jorge Félix Cardoso queria entrar, mas só um comentário. Eu tenho a melhor das opiniões sobre a nomeação, no caso da comissária portuguesa de Elisa Ferreira. A pasta com que fique é muito importante e até tem mais duas adjacências na pasta que são igualmente importantes e que se tem falado pouco, mas a mim preocupa-me um bocadinho a maneira gulosa como o país de repente olhou para os fundos. Eu imaginei já pelo país fora a serem levantados uns altares à santinha do FEDER.

Eu desse ponto de vista até acho que os comentários do Paulo Rangel foram úteis, porque no fundo vieram chamar a atenção que de facto há aqui expectativas exageradas. Isso não é simplesmente ter uma amiga em Bruxelas que nos vai aceitar a dar dinheiro.

Por isso é que eu dizia, a santinha do FEDER é isso. Estou a imaginar uma imagem da Nossa Senhora Elisa Ferreira sob uma nuvem de rotundas e pavilhões gimnodísticosdesportivos e estou a pensar que vai pedir. Há duas coisas que a comissária Elisa Ferreira tem e que são muito interessantes. Uma é o fundo de ajustamentos climático, ou seja, se quiserem, é o fundo para os Gilets Jaunes e para os mineiros polacos, simplificando a ideia, mas é para responder às consequências das políticas de ajustamento climático, um fundo como já houve o do ajustamento à globalização. E há outro que tem, que está por perceber o que é, mas que é uma nova unidade, uma nova direção geral e algum orçamento que ainda não se sabe quanto vai ser, para a promoção das reformas nos Estados membros. A ideia de que as reformas estruturais que vários Estados membros necessitam têm custos e que para isso precisam de algum apoio financeiro, sendo que ao norte da Europa há alguns Estados membros que dizem: "Bom, está bem, é isso, mas também deve haver consequências desagradáveis para quem não faça estas reformas." Eu queria só que o Jorge Félix Cardoso entrasse, porque estamos a acabar o nosso tempo e eu queria conversarmos como está no Porto.

Eu queria pegar aí precisamente. Esta comissão tem objetivos muito vincados. No entanto, a realidade é determinada sobretudo pelos Estados membros. E aqui vamos ter um choque com a realidade tremendo. A Alemanha já anunciou que para si o orçamento da União não vai acima do 1% do rendimento bruto da União Europeia. Portanto, logo aí muitos desses planos são deitados por terra ou revistos em grande medida. Não sei como é que isto depois vai acabar, isto são só propostas de negociação, mas também é preciso ter alguma cautela a analisar os planos da comissão. A realidade é muitas vezes um obstáculo a estas ideias.

E com esta visão não tão otimista do Jorge Félix Cardoso, o Bruno Cardoso Reis, a Milena Resendes e eu, Henrique Borné, chegamos ao fim do "Café Europa" desta semana.