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Cassete 60. "In the other corner, the world's greatest chess playing computer, a machine called Deep Blue." "It's a machine. At the end of it, it's stupid."
Foi a primeira vez que homem e máquina se defrontaram num jogo de xadrez. De um lado, o campeão mundial, Garry Kasparov, do outro, o supercomputador da IBM, Deep Blue. Entre 10 e 17 de fevereiro de 1996, estiveram frente a frente em Filadélfia, nos Estados Unidos.
O jogador russo perdeu logo na primeira ronda e chocou assim o mundo do xadrez. Era a primeira vez que um campeão mundial perdia contra um computador em condições de torneio.
Mas ao fim de uma partida de seis rondas, que durou uma semana, Kasparov ganhou por 4 x 2. Naquele sábado à tarde, a máquina de um metro de altura, que conseguia avaliar e examinar 200 milhões de jogadas por segundo, foi derrotada.
Só para dar uma ideia da diferença abismal, num segundo, Kasparov consegue prever três jogadas.
E já é absolutamente espetacular. Bom, um ano depois, há novo confronto. Kasparov aceita voltar a sentar-se com o computador. Foi para o jogo como era na vida: confiante e arrogante.
"I liked it because it's man versus machine."
Kasparov esqueceu-se que durante esse ano, a equipa de cinco engenheiros da IBM, alguns especialistas em xadrez, trabalharam sem parar para aperfeiçoar o software do supercomputador.
"We worked very hard in the intervening year to improve Deep Blue in various ways."
A máquina aprendeu com a prática.
"I spent a lot of time in the office playing a lot of practice games, looking for lots of errors that needed to be fixed."
Os muitos erros que existiam foram corrigidos até que chegou o tal dia do encontro.
E nunca a comunicação social tinha dado tanta atenção a um jogo de xadrez. Eu lembro-me de alguns jogos nos anos 80, do Karpov contra o Kasparov.
Sim, mas isto é outra coisa.
Mas isto é outro nível. O mundo parou para assistir ao confronto mais importante.
"The stakes are high, but no one will bet on a winner." "Forget the $300,000, the future of humanity is on the line."
As televisões fizeram uma cobertura sem paralelo, que o filme Game Over: Kasparov and the Machine retrata. E foi mesmo game over. Na última ronda de seis, o russo, o melhor do mundo, desiste ao fim de 19 jogadas.
"And whoa! Deep Blue, Kasparov, after the move C4, has resigned."
Os comentadores que estão a fazer o relato do jogo não querem acreditar. Kasparov deita as mãos à cabeça, cumprimenta o engenheiro que está do outro lado da mesa com o monitor à frente e levanta-se. Enquanto sai do palco, abre os braços e encolhe os ombros na direção da mãe, que estava na assistência.
Depois disto, e não nos esqueçamos que além do mais, a luta opôs Rússia e Estados Unidos, surgiram as teorias da conspiração. O filme trata aliás disso com detalhe. Kasparov garante que a máquina mudou o tipo de jogo da primeira pra segunda ronda e que não parecia um computador.
Kasparov tinha mau perder, sobretudo por falta de hábito. A verdade é que a máquina foi melhorando e na última ronda fez o que o próprio Kasparov fazia, ou faria, se conseguisse processar quase 300 milhões de jogadas por segundo.
A IBM reformou o Deep Blue em 1997, mas a tecnologia não parou e continua a aperfeiçoar este jogo até hoje. Isto não sabia. E também já não me lembrava que o Deep Blue era tão grande.
Em 96 tinha um metro de altura, depois em 97 é um pouco mais pequeno, porque a tecnologia avançou.
Eles vão ficando mais pequenos.
Hoje em dia caberia numa pen, se calhar.
Eventualmente.
Muito bem, na viagem de hoje pelos acontecimentos que marcaram a cultura pop em 1996, vamos começar aqui pelos discos mais vendidos em Portugal nesse ano. No top três está a Alanis Morissette, com Jagged Little Pill, também os brasileiros Mamonas Assassinas e no primeiro lugar está a coletânea de êxitos dos Delfins, O Caminho da Felicidade, que exaltava uma libertação de prisioneiros. Solta os prisioneiros. Solta os prisioneiros. Por todo o mundo, há prisioneiros. Por todo o mundo.
Para Madonna, 1996 foi um ano agridoce. A 8 de janeiro, a cantora vê o seu stalker, Robert Hoskins, condenado a 10 anos de prisão por assédio e ameaças de morte. Ele, que um ano antes, tinha sido atingido a tiro no braço por um segurança da cantora, depois de invadir uma das suas casas.
Caramba, o homem não desistia.
Aliás, ele dizia: "Ou ela casa comigo ou eu mato-a". Era esta a ameaça.
Pois. E olha, não correu bem pra ele. Mas essa não foi a única ameaça de morte a Madonna em 1996. Ainda em janeiro desse ano, vários argentinos ameaçaram a cantora devido à interpretação no filme Evita, onde assume o papel de Eva Perón, um papel que lhe valeu o Globo de Ouro de melhor atriz num musical ou comédia.
Don't cry for me, Argentina. The truth is I never left you. All through my wild days, my mad existence. I kept my promise. Don't keep your distance.
Quem também não ganhou para o susto em 1996 foi Bono, dos U2. O músico viu o avião em que seguia, um aeroplano de Jimmy Buffett, ser alvejado pelas autoridades jamaicanas, que o confundiu com um avião de tráfico de droga. Do incidente não resultaram feridos. Não podemos dizer que este tenha sido um beautiful day para Bonovox.
E por falar em acidentes, também em 1996, a cantora Tori Amos foi processada por um condutor que se despistou depois de se ter distraído com um cartaz de promoção ao disco "Boys for Pelé". A foto mostrava Tori Amos a amamentar um porquinho, um leitão.
Só nos Estados Unidos é que se conseguia processar.
A culpa foi do cartaz.
Na TV, destaque para as estreias, em 1996, do programa "Popup Video", não o Pop Up aqui do Observador, do canal VH1, que revelava informações menos conhecidas sobre os telediscos dos artistas da moda.
E isso era muito bom para recolher informação.
Tu tens isso tudo gravado em VHS.
Tenho montes destas informações na cabeça.
Lá está. E, portanto, revelava, de facto, essas informações menos conhecidas e ainda destaque para o lançamento do canal MTV2, dedicado a um público mais adulto e de gosto mais alternativo. O vídeo que inaugurou este canal foi o de "Where It's At", de Beck, do disco "Odelay", lançado precisamente em 1996.
Gosto bem do "Odelay", do Beck. Grandíssimo.
Gosto bem do Beck.
Gosto bem do Beck. Tinha a "New Pollution" também, que era bem fixe, essa canção desse disco lançado em 1996 pelo Beck. Que consta, Bruno, Beck era, ao que parece, filho de uma atriz protegida do Andy Warhol e terá vivido a sua infância gatinhando pela factory de Andy Warhol.
Estás a ver onde a ondula acabou.
O que pode explicar grande parte da criatividade, porque naquele chão da factory devia-se apanhar muita coisa. Bem, vamos fechar precisamente no cinema, em 1996. É um ano marcado pelos filmes de tragédias bíblicas. Os campeões de bilheteira desse ano são "O Dia da Independência" e "Tornado", mas não podemos esquecer que é também o ano de "Fargo" e de "Trainspotting". Este último faz-nos mergulhar na vida de um grupo de heroinômanos de Edimburgo e é o primeiro grande sucesso do realizador Danny Boyle e do ator Ewan McGregor. Para o sucesso de "Trainspotting" também contribui uma grande banda sonora, onde figuram nomes como os Underworld, os Blur, Iggy Pop, Primal Scream e até Lou Reed, com esta intemporal "Perfect Day". Bye bye 1996. A Cassete 60 viaja amanhã para outro ano. Cassete 60.