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K7, 60.

Mais de 70 anos depois de se ter afundado no Oceano Atlântico, o Titanic foi finalmente encontrado por uma expedição conjunta dos Estados Unidos e de França. Estávamos a 1 de setembro de 1985, quando os primeiros destroços foram localizados a quase quatro quilômetros de profundidade e a 900 km da costa da Terra Nova.

Os esforços para localizar o Titanic começaram imediatamente após o desastre, mas tecnicamente não era fácil e a vastidão do Atlântico também não ajudava. Mas antes de falarmos do resgate, falemos do Titanic em si, que partiu a 31 de março de 1912, de Southampton, a Inglaterra. Mais de 100 mil pessoas juntaram-se para ver o Royal Mail Ship Titanic navegar em direção aos Estados Unidos. Considerado como o navio que não afundava, o Titanic era o maior e mais luxuoso cruzeiro até então construído. Media 268 metros e pesava mais de 46 toneladas. Tinha tecnologia inovadora, um painel de controle eletrônico altamente sofisticado para a altura e um sistema de comunicações que transmitia em código Morse.

É, mas depois veio um iceberg. É daqui nada. Era considerado o mais seguro de sempre, impossível de afundar, porque incluía quatro zonas compartimentadas com portas que podiam ser encerradas a partir da zona de controle do navio, de forma a conter a entrada de água, caso fosse necessário. Os construtores garantiam que uma parte do navio podia ser inundada sem que o barco afundasse.

Mas apenas quatro dias depois ter começado a viagem, o Titanic chocou contra um iceberg e afundou. Portanto, nada disso se verificou. Logo no início, o capitão, E. J. Smith, foi considerado culpado por navegar demasiado rápido. Dizia-se que queria bater a velocidade do Olympic, um outro barco feito pelo mesmo construtor, mas em 2004 especulava-se que um incêndio na zona das fornalhas a carvão podia explicar a razão porque o Titanic estava a navegar a todo vapor.

Voltemos então à descoberta dos destroços em 1985, em que, depois de muitas tentativas, um submersível chamado Argo, desenvolvido pela Marinha americana, finalmente conseguiu resultados. O Argo desceu às profundezas do Atlântico, mostrando a quem estava na superfície o que ia encontrando. Na madrugada do dia 1 de setembro, o Argo encontrou uma das caldeiras do Titanic.

Robert Ballard, o responsável pela missão, estava a perder a esperança. Faltavam poucos dias para regressar à terra, quando Ballard foi chamado para ver o que o robô Argo estava a filmar. Quando chegou, mostraram-lhe as imagens e Ballard não teve dúvidas de que estava a ver a caldeira do barco. A tripulação entrou em êxtase e abriram logo uma garrafa de champanhe. Mas rapidamente o ambiente mudou quando repararam que eram quase 2h20 da manhã, o momento exato em que se estima que o navio tenha afundado, matando mais de 1500 passageiros. De repente, segundo Ballard, todos perceberam que era como se estivessem a dançar sobre a sepultura de milhares de pessoas.

No dia seguinte, o navio foi encontrado muito perto dali. Estava partido em dois, mas muitas das características e dos interiores do Titanic estavam bem preservadas, estranhamente. Milhares de pedaços dos destroços estavam espalhados por um raio de mais de três quilômetros.

Ainda hoje, os investigadores concordam que várias razões contribuíram para a tragédia, que matou mais de 1500 passageiros dos 2200 que iam a bordo. Por exemplo, uma hora antes do Titanic embater contra o iceberg, um outro navio transmitiu a mensagem de que tinha avistado uma densa massa de gelo, mas o início do aviso não continha três letras, MSG, que significa Master Service Gram, o que teria feito com que o capitão tivesse recebido mais diretamente essa mensagem. Em vez disso, o homem que recebeu a mensagem considerou que ela não era urgente.

Surgiu também a teoria de que os construtores tinham tentado cortar custos quando se descobriu que o Titanic não tinha afundado inteiro, como eles prometiam, mas que se tinha partido em dois. Um grupo de investigadores pôs as culpas no material utilizado, que continha resíduos de outras ligas, que não apenas de ferro, o que tornou o navio mais frágil.

E depois temos a questão da falta de botes de salvamento, que o filme de James Cameron retrata muito bem. Independentemente de se ter afundado, o número de vítimas mortais poderia ter sido evitado se o navio não tivesse apenas 20 botes.

Mas eles não acreditavam que o navio afundasse.

Claro, não era preciso.

Curiosamente, o Titanic foi inspecionado antes de sair de Southampton e a recomendação era que tinha que levar mais 50% dos barcos salva-vidas, e não levou.

E não levou, e viu-se como sofreu Leonardo DiCaprio naquela situação que James Cameron tão bem retrata.

Sofreram muito.

Ainda se lembram quando é que viram o Titanic pela primeira vez? É como a morte da Princesa Diana. Onde é que estavas quando viste o Titanic?

E fui ao cinema, devo dizer.

Também, fui ao cinema, fui ver. E foi um acontecimento o Titanic. É dos filmes mais vistos de sempre, não?

É.

A Avatar será mais.

Acho que bateu o recorde da receita, mas não sei se isso correspondeu em número de bilhetes vendidos.

Muito bem, vamos então fazer zoom out a este 1985, ano em que foi descoberto o Titanic, lá bem no fundo do mar. No mundo da música, 85 assiste ao nascimento de um dos maiores festivais do mundo. A 11 de janeiro realizou-se o primeiro Rock in Rio, no Brasil. Reuniu um milhão e meio de espectadores para concertos de nomes como Queen, Rod Stewart, Iron Maiden, AC/DC e até as Go-Go's, de Belinda Carlisle. Falamos delas há algumas semanas. A passagem desta girls band pelo evento até está bem documentada num filme sobre este grupo e que foi lançado o ano passado, precisamente com o título "The Go-Go's"

1985 é também um ano de grandes eventos solidários. A 13 de julho realizou-se o Live Aid, simultaneamente em Londres e Filadélfia, mas antes disso, em janeiro, foi lançado o single "We Are the World". A canção tinha por objetivo combater a fome em África, que reuniu vozes como Ray Charles, Michael Jackson, Billy Idol, Cyndi Lauper e um discreto Bob Dylan. Dizer que ele tinha voz nesse concerto? Pronto.

Ainda têm o disco ou não? Têm o disco?

Não, nunca tive.

Eu tinha um daqueles pequeninos. O single, não é? O single. É verdade.

Música escrita por Lionel Richie e Michael Jackson.

E Michael Jackson, é verdade.

Como uma desgraça nunca vem só, Portugal também teve em 1985 o seu "We Are the World". Chamava-se "Abraço a Moçambique", tinha mais ou menos os mesmos objetivos do projeto USA for Africa e também reuniu algumas das principais figuras da música nacional, como José Mário Branco, Sérgio Godinho, Lena d'Água, José Cid, Paulo de Carvalho, Tony Ixa, ora zumba na caneca, ora na caneca zumba, Vitorino, da Leitaria Garrete, Rui Veloso, que ainda não estava na parte da "Chuva de Estrelas", e o Jorge Palma, que atenção, tem uma performance equivalente à de Dylan em "We Are the World". Vejam o vídeo e tentem encontrá-lo. "Vamos abrir outro mar". Isto hoje, estas letras neocoloniais não passavam.

Eram todos cancelados.

Para a Tina Turner, 1985 é um grande ano. A cantora ainda vive o sucesso do disco "Private Dancer", do ano anterior. Consegue arrecadar dois Grammys com "What's Love Got to Do with It", gravação do ano e canção do ano.

Bruno, não é também nesta altura que Tina Turner faz a música para o Blade Runner? Não.

"Mad Max".

O "Mad Max", desculpa. "We Don't Need Another Hero".

Em 1985, será?

Tenho ideia que é também neste ano de 85.

Pronto, 85.

Mas se há banda para quem 1985 rendeu e que se fartou, foi para os Tears for Fears. O álbum "Songs from the Big Chair", editado em março, figura no top inglês durante 50 semanas, até setembro de 86, e o single "Shout" termina o ano como aquele que mais tops liderou em todo o mundo. É um autêntico retrato sonoro de 1985 para o fecho do Cassete 60 de hoje. Cassete 60.