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No programa desta semana vamos dar destaque às mulheres. Quem são as mulheres que mais se destacaram na história da ciência? Professor Carlos Filhais, viva.
Olá, viva, tudo bem?
Assim de repente, vem-me à cabeça um nome e acho que a todos os ouvintes também: Marie Curie.
Sim.
É verdade.
É verdade, é um nome extraordinário. É a única pessoa que recebeu dois Prêmios Nobel de duas disciplinas científicas diferentes, da Física e da Química. Há quem tenha ganho dois Prêmios Nobel da Física, também alguma pessoa que ganhou dois da Química, mas ela ganhou um da Física em 1903 e depois um da Química em 1911.
Física em 1903, não é?
Sim, foi o terceiro Prêmio Nobel, aqueles que começaram em 1901. E ela ganhou com o marido, Pierre Curie. O Curie vem do marido, ela é de origem polaca, Maria Skłodowska, e foi pra França com Henri Becquerel. Foram os três, de algum modo, co-descobridores da radioatividade e ganharam precisamente por isso, pela descoberta da radioatividade. Uns anos volvidos, o marido tinha falecido num acidente em Paris, num acidente de carruagem. Ela ficou até a ocupar lugar na Sorbonne. É a primeira professora na Sorbonne. Para verem que o lugar das mulheres numa universidade tão antiga como a Sorbonne é relativamente recente, do início do século XX. Claro, ela tem um mérito extraordinário, mas foi preciso, de algum modo, também o marido ter falecido no acidente e ela ficou com a cadeira. E depois, há até uma história curiosa. A gente pode contar aqui uma pequena história, que eu acho que é interessante. No ano em que ela conquistou o segundo Prêmio Nobel.
Foi em 1911.
Em 1911, ela era viúva e tinha um romance escondido com um colega da Física, um físico também conhecido, hoje sabemos tudo, Paul Langevin. Ela era uma senhora livre, mas ele não, ele tinha mulher e filhos. E o que acontece é que naquele tempo não se usavam mensagens eletrônicas, era tudo por cartas. E as cartas foram vistas por alguém, foram parar à imprensa francesa e, de repente, aquilo que era uma mulher extraordinária, porque os méritos dela, primeira mulher Nobel, etc., de repente foi acusada nos jornais de ser uma estrangeira a destruir os lares franceses.
Ah!
E ela ficou até um bocado impressionada.
O chauvinismo francês em ação.
Exatamente. Ficou impressionada, mas foi corajosa, foi buscar o Nobel e disse, na altura, que tinha direito à sua vida pessoal. A relação acabou por ficar por ali, acabou, mas não interessa. Ela, além de uma grande cientista, foi uma personalidade corajosa e defensora dos direitos das mulheres. Participou na Primeira Grande Guerra também a ajudar toda a gente. Teve duas filhas. Uma também ganhou o Prêmio Nobel.
Caramba!
Irène Joliot-Curie. Que é uma família, pai e mãe foram Nobel, a filha também e o marido da filha, o Frédéric Joliot-Curie, também. Portanto, só naquela família, assim de repente, quatro Prêmios Nobels. E teve uma outra que foi escritora e que fez uma linda biografia, que eu recomendo. O livro é muito antigo, Ève Curie, "Entre tous Madame Curie", a filha é Ève, e há uma edição nova, até com um prefácio da atual ministra da Ciência e Tecnologia, Elvira Fortunato, que fez um prefácio pra edição mais recente em português do livro, que é um livro que eu recomendo muito, da biografia da Madame Curie.
Muito bem, então vamos recapitular. Em 1903 ganhou o Prêmio Nobel da Física, Marie Curie. Em 1911, o Prêmio Nobel da Química. Por que este Nobel da Química? Ainda não tinha explicado, professor.
A pergunta está bem feita, como costuma fazer. Porque há alguma sobreposição entre o assunto dos dois Prêmios Nobel. O primeiro, a tal descoberta da radioatividade, e o segundo pela detecção de dois novos elementos químicos, que mostraram a sua presença através da radioatividade, que é o rádio e o polônio. O rádio porque emite radiação muito intensa e o polônio em homenagem à sua terra natal, que era precisamente a Polônia. E ela fez um trabalho extraordinário, uma grande devolução à ciência. Conseguiu, de toneladas de minério de urânio, extrair quantidades mínimas que vieram a se revelar novos elementos químicos, ocupam lugar na tabela periódica. E, portanto, há alguma sobreposição entre o motivo que levou ao primeiro prêmio e o motivo que levou ao segundo. Mas isso é, de facto, um trabalho extraordinário, com uma força de vontade única, numa altura em que as mulheres estavam completamente afastadas da ciência, quer dizer, nem sequer lhes era permitido estudar na universidade. E ela foi pioneira. Durante muito tempo a situação foi injusta pras mulheres. E hoje a situação, felizmente, é diferente, a humanidade é quase paritária entre homens e mulheres, e a ciência já tem muitos exemplos. Aliás, em Portugal, as mulheres são maioritárias na formação superior em ciência. Depois, em geral, há problemas na ocupação de postos na hierarquia.
Posições de topo, não é?
Nas posições de topo. Mas até Portugal, nesse sentido, não estamos mal comparado com outros países. Em muitos países, as mulheres continuam a ter dificuldades em estudar ciências, em particular tecnologia, engenharias, etc. Há certos ramos das tecnologias que pensa-se que é só pra homens. Até certos ramos da medicina pensa-se que é só pra homens.
Professor, eu diria que em muitos países as mulheres têm dificuldades. Ponto, não é?
Exatamente. E a história, eu disse que é extremamente injusta, é uma maneira de dizer, porque nós devíamos ter vergonha da história, da maneira como as mulheres foram tratadas.
É verdade.
Por exemplo, chegou-se a duvidar se tinham alma, quer dizer, eram tratadas como meros objetos. A alma como definidora de humanidade. No fundo, ao dizer que não têm alma, estou a considerá-las desumanas. Isto é a pior desconsideração que se pode fazer.
Vamos centrar-nos na ciência. Marie Curie é uma senhora do final do século XIX e início do século XX. Antes da Marie Curie, houve outras mulheres a destacarem-se na ciência.
Mas poucas.
Poucas, pois.
Pois, porque elas não tinham acesso ao conhecimento, não podiam sequer andar na escola.
Mas há casos notáveis.
Sim.
Encontrei um de uma senhora chamada Hipátia, uma grega que terá vivido algures no século IV, V antes de Cristo.
Não, depois de Cristo.
Depois de Cristo. Quem era esta Hipátia e qual foi o seu contributo para a história da ciência, professor?
É uma mulher notável que viveu na cidade de Alexandria e que ocupou uma posição destacada na direção do chamado Museu de Alexandria, que funcionava ao lado da famosa Biblioteca de Alexandria. Voltou a ser construída uma nova biblioteca de Alexandria, a anterior foi destruída. A antiga tinha papiros, coisas únicas e agora há uma nova. Mas Alexandria foi um centro do conhecimento. E ela foi das poucas mulheres na antiguidade a se destacar. O pai já era professor lá e ela era muito conhecedora de domínios como a matemática, em particular a geometria, de domínios como a astronomia. É conhecida, embora relatos que são fragmentados, da sua capacidade de responder a perguntas que se lhe colocavam. Portanto, era uma mulher sábia num tempo em que as mulheres estavam excluídas. Teve uma morte trágica, uma morte violenta. Essa época era uma época em que havia grandes lutas entre cristãos e pagãos. E ela foi vítima dos grupos cristãos. Havia formas extremamente violentas da oposição entre um lado e outro. Estavam os cristãos numa fase de ascensão. E ela foi vítima da intolerância religiosa.
Terá sido assassinada por uma multidão, não é?
Por uma multidão e de uma maneira que é violenta, cruel. E portanto, de algum modo, é uma mulher pioneira e é também uma mulher que é uma mártir. Vamos chamar também a primeira mártir conhecida da ciência, porque ela foi também perseguida, não apenas pelas posições religiosas, mas principalmente pela posição proeminente que ela tinha. De algum modo, o seu lugar no conhecimento custou-lhe também a própria vida. Há um filme engraçado que eu vi, "Ágora" é o título, e tem uma atriz fabulosa a fazer o papel de Hipátia, que é a Rachel Weisz. O filme vale a pena ser visto, principalmente por essa interpretação da principal heroína.
Muito bem, fica a sugestão. "Ágora", não é? O filme.
"Ágora", o filme.
Muito bem. Outras mulheres notarizaram-se ao longo dos séculos, professor. Por exemplo, no século XIX encontramos Ada Lovelace, uma inglesa nascida em Londres. O que terá feito esta senhora pela ciência?
Sim.
Professor Carlos Silveira.
Já antes do século XIX, houve outras. No século XVIII, por exemplo, há já uma professora na Universidade de Bolonha, que é a mais antiga do mundo, que foi aceita como professora de Física e de Medicina e que não podia ir para a universidade, porque era o sítio dos homens, dava aulas em casa. E no entanto, era casada com alguém que lhe era subalterno, no sentido em que tinha um lugar na universidade que não era tão alto como o dela, e a posição proeminente dela não lhe impediu de ter bastantes filhos, como era comum na altura. E portanto, esta senhora, Laura Bassi, é o nome dela, é uma física que já existiu no século XVIII. Mas no século XIX, embora lentamente e a grande custo, começaram a aparecer outras mulheres proeminentes. E essa Ada Lovelace é um nome justamente louvado nos tempos de hoje, porque é considerada a primeira programadora de computador. Na altura, os computadores não eram eletrónicos, havia uma máquina de cálculo, que era uma máquina puramente mecânica, de um engenheiro inglês chamado Charles Babbage, e ela escreveu uma memória, aliás, é o seu único escrito. No fundo, ela faz uma tradução de uma conferência que um engenheiro militar italiano tinha feito para inglês, ele tinha feito aquilo noutra língua, e acrescenta notas da sua lavra. E é nessas notas da sua lavra em que ela dá exemplos de um algoritmo, que é um procedimento de cálculo. Como é que se vai utilizar aquela máquina para realizar uma certa tarefa de cálculo. E ela foi proeminente, porque pela primeira vez estava a dizer uma coisa que é hoje corriqueira, como é que programamos computadores, num tempo em que só havia uma máquina, não havia muitas. Mas ela percebeu que aquela máquina, de algum modo, era o futuro, que com aquilo se podia processar informação, não apenas números, que era o exemplo dela, mas até palavras, até músicas. Ela pensou que havia aquilo que hoje chamamos uma máquina universal de processamento de informação. E a origem dela é muito interessante.
Visionária.
Sim, visionária. Ela morreu nova, 36 anos. Aliás, no século XIX morria-se em geral muito nova de cancro do útero, suponho, aos 36 anos. Mas teve uma vida, desde o nascimento, agitada. E eu explico. O pai teve outros filhos, mas é a única filha dentro do casamento do Lord Byron, do famoso poeta romântico inglês. Também morreu novo, mas esse por causa de uma doença quando estava em campanha numa luta na Grécia. E também visitou Portugal, Lord Byron andou por Sintra e disse umas coisas não muito agradáveis sobre os portugueses. O pai da senhora. Mas a certa altura casa com uma senhora inglesa que também vinha de boas famílias, etc, mas o casamento correu muito mal. Aliás, o Lord Byron era conhecido por ser um Don Juan, andava com muitas e teve filhos de várias proveniências, mas esse casamento correu mesmo mal Eles separam-se quase ao fim de um ano, quando a filha tinha um mês. Portanto, ela nunca viu o pai, que depois vai morrer muito em breve na tal luta lá na Grécia. Apesar de ter havido alguma ligação ao pai, porque ela pediu para ficar sepultada ao lado do pai. Mas nem o pai a viu mais, nem ela viu o pai. E a mãe, que era uma senhora muito interessante, com bastante educação. Aliás, a avó era uma feminista já naqueles tempos, mas pensou, pelo menos para ela, se não o disse: "Eu vou procurar que a educação da minha filha..." Ela desejava que tivesse os genes que pensavam até de alguma loucura do pai, alguma loucura poética. E então vais pra matemática pra ter uma educação rigorosa. E ela teve uma educação em casa.
Razão acima de emoção.
A razão contra a poesia, pra não ficar maluca como o pai. E a história é muito curiosa, que ela teve grandes educadores, tutores, porque não havia escolas pra mulheres. Teve tutores privados, porque era de uma família abastada. A mãe também se afastou e foi entregue à família, como era costume, porque às vezes entregavam a amas e avós, etc. E ela teve uma educação esmerada, o que permitiu entender-se com o tal Charles Babbage, que era muito mais velho do que ela, mas reconheceu os méritos daquela rapariga, que de facto ainda hoje se celebra o dia de Ada Lovelace. Até há uma linguagem de programação com o nome de Ada.
Muito bem. Professor, em 30 segundos, eu sei que é pouco, também a história está cheia de injustiças.
Sim.
Há mulheres cujos créditos não foram reconhecidos.
O Prêmio Nobel é uma coisa espantosa. Por exemplo, há só quatro mulheres Prêmio Nobel de Física, é muito pouco. E algumas, de facto, Lisa Meitner, uma das co-descobridora da cisão do urânio, que deu origem à energia nuclear, deram o Prêmio Nobel a outros, a Otto Hahn, e não a ela. Há uma senhora que ainda está viva, Jocelyn Bell Burnell, britânica, que descobriu os pulsares ou estrelas de nêutrons, e deram o Prêmio Nobel ao supervisor dela, quando ela era estudante de doutoramento, e a um colega, e ela foi ignorada. Sem ser na Física, o caso famoso Rosalind Franklin, que morreu antes de ter o Prêmio Nobel, mas era merecidíssimo, que tem a ver com a descoberta do ADN nos anos 50. Ela viu o ADN. Foi a partir de chapas de raios-X feitas por ela que Watson e Crick fizeram a estrutura do ADN. E vários outros. É muito injusta. Começa agora a haver um certo reconhecimento do papel das mulheres na História. Há muitos livros que começam a aparecer sobre a história das mulheres, e ainda bem, mas se formos ver, por exemplo, só nas ciências, não vamos olhar agora pra literatura, que há mais, mas só nas ciências há cerca de 600 Prêmios Nobéis homens e só cerca de 20 mulheres, o que é uma diferença incrível. Não sei como é que vamos equilibrar isto, porque é uma injustiça da história que temos de rapidamente ultrapassar.
Devagarinho. Lá chegaremos.
Terá de ser rápido.
Sim, tem que ser rápido. Bom, a inclusão das mulheres é tão desejada na ciência que se comemora desde 2015 o Dia Mundial das Mulheres na Ciência, no dia 11 de fevereiro. Em Portugal, e o professor dizia isso há pouco, vou dar um número concreto, há mais mulheres do que homens a trabalhar em ciência: 52%.
Sim.
ouvinte@oobservador.pt é o e-mail para onde podem enviar as suas dúvidas e perguntas.
Estamos à espera das contribuições dos ouvintes e estaremos aqui para responder, se soubermos. Se não, diremos: "Não sabemos". E vamos procurar saber.
Humildade científica acima de tudo. Professor Carlos Fiolhais, até pra semana.
Até pra semana. Adieu.