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Olá, professor Carlos Filhais.

Olá, João Miguel.

Professor, para o programa desta semana fomos buscar inspiração ao cinema, porque estreou há pouco tempo um filme chamado "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", filme da Marvel, cuja história se desenrola no multiverso. Professor, o que é o multiverso?

O multiverso é uma ideia que encontra expressão no cinema e, antes do cinema, na banda desenhada. A Marvel, de facto, consegue pôr a imaginação da banda desenhada também diante de nós no cinema, mas tem alguma relação com a ciência, embora não seja uma relação muito forte, devo dizer.

Já agora, deixe-me perguntar: multiverso é o mesmo que universo paralelo?

Sim, o multiverso é o universo. A palavra "um" significa um só. Nós vivemos no universo, teve um início há 14 mil milhões de anos, está em expansão, não sabemos o tamanho, provavelmente é infinito, portanto, é a realidade, tudo o que existiu, tudo o que existe, tudo o que existirá é o universo. O multiverso é um conjunto de universos. A ideia é que não existe apenas o nosso, mas que existe uma infinidade deles paralelos ao nosso, o que significa que coisas que não se realizam aqui, se realizam de uma maneira ou de outra, antes ou depois, num desses inúmeros universos. E, portanto, o filme que citou, que tem um nome curiosíssimo, não é o "Estranho no Universo da Loucura", é o "no Multiverso da Loucura", significa que esses heróis do filme, vamos chamar assim, porque é preciso, de facto, alguma heroicidade para transitar de universo. Há muitas Terras, cada uma no seu universo. Há uma Terra 616 que é no universo daqui, mas há depois a Terra 9 não sei o quê, noutro sítio. Portanto, eles podem transitar e conseguem fazer essa proeza, que só no cinema ou na ficção científica, que é mudar de universo. Um dos problemas dos universos paralelos é que, de facto, há cosmólogos, físicos quânticos que trabalham e sustentam essas ideias, mas depois eles dizem-nos que não há possibilidade de passagem do nosso universo para outros ou dos outros entre eles, o que significa, e daí o meu ceticismo, estamos a falar de coisas que não sabemos se existem e para as quais não só não se vai, como nunca se poderá ir ou sequer receber qualquer sinal. Ora bem, essas realidades alternativas podem ser fruto da nossa imaginação. Muito bem, nada contra isso, mas depois se nós não temos nenhuma capacidade de concretizar no sentido de ter uma prova mínima que fosse dessa realidade, o que podemos dizer é que não é ciência. O estudo dessas coisas não é ciência, porque a ciência ocupa-se do mundo real.

Ainda assim, há cientistas com pensamento sobre universos paralelos.

Sim, a ideia nasceu da ciência.

Quando é que os cientistas começaram a pensar na possibilidade de existirem universos paralelos?

Há um cientista austríaco da teoria quântica, muito famoso, chamado Erwin Schrödinger, e até o nome dele está associado a um gato, uma personagem que ele imaginou, que estava ligado a um dispositivo quântico. E na teoria quântica, que ele ajudou a criar, há vários estados possíveis e pode-se existir até numa sobreposição de estados, mas quando se faz uma observação, cai-se apenas num dos estados e deixa de se estar na sobreposição, fica num. Nós chamamos a isso um colapso da função de onda. E então ele aplicou a ideia ao gato, duvidando da ideia. Enfim, é uma das consequências da teoria quântica, mas ele duvida. Imaginem um gato dentro de uma caixa fechada e está sujeito a um dispositivo quântico. E, portanto, como o dispositivo quântico tem vários estados, a vida ou a morte do gato depende do estado quântico. E ele estará numa sobreposição, gato vivo, gato morto, uma espécie de zumbi. Enquanto o quê? Enquanto não houver alguém que abra a caixa e que faça uma observação, altura em que vai colapsar pra gato vivo ou gato morto. E ele diz: isso não pode existir, ou está vivo ou está morto, ele não pode ser o zumbi, não pode ser o fantasma. Mas essa ideia de mundos paralelos, no fundo, estamos a falar de mundos paralelos, é uma interpretação possível da mecânica quântica dizer assim: há um mundo, que é o nosso, onde ele está vivo, mas se observamos aqui que ele está vivo, haverá um mundo em que ele está morto. E assim como há um gato, pode haver um cão vivo aqui e morto ali. Então imagina a multiplicidade de hipóteses que temos, que diz um cão, diz um humano, de histórias que podemos imaginar, coisas que não acontecem no nosso mundo, mas que acontecem em outros mundos. Quer dizer, no fundo, é de algum modo recusar a morte do gato ou de qualquer outro animal, dizendo que há vida eterna, mas noutros universos. São outros mundos. Se querem saber minha opinião, João Miguel, eu acho que temos o nosso universo, que é tão rico, tão extraordinário, tão estranho, para pegar no título do filme, que já nos dá tanto o que fazer, pegando uma expressão popular, já nos dá tanta água pela barba. Os físicos estão cheios de problemas, buracos negros, a matéria escura, energia escura, problemas que não sabemos o que é. E essas teorias remetem para sítios fabulosos, mas aos quais nunca teremos acesso. E eu diria, portanto, que isso não é física. Temos aqui tanta coisa com o que nos ocupar, que isso não é física. É divertido? Sim, é divertido e eu sou capaz de ir ver o filme.

Muito bem. Professor, mas essas teorias baseiam-se em dados, indícios, são credíveis?

Baseiam-se, eu diria, na imaginação, que é no fundo o motor que faz mover o cérebro dos cientistas, mas falta-lhe outra componente, que é a observação, que é a experiência. Uma das teorias que nos falta e que é uma das teorias que pode, de algum modo, prever esses universos alternativos, é a teoria das supercordas. Falta no sentido de ser verificada. Falta vê-la concretizada. O que diz essa teoria? Nós temos uma teoria para o cosmo, que é a teoria da realidade geral, teoria da gravitação de Einstein, e temos a teoria quântica de Schrödinger e outros que tenho vindo a falar. Que faça previsões que tenham sido confirmadas, mas há uma candidata que é a teoria das supercordas, que junta estas duas coisas, junta a teoria da gravidade com a teoria quântica. Essa teoria, vamos chamar de tudo, que é até o título de um filme que conta a vida do Stephen Hawking, aplicar-se-á ao início do universo, então ter-se-á criado não um, mas muitos universos. Essa teoria fala de universos paralelos, mas é uma teoria que é praticada por alguns físicos teóricos, mas que não temos tido, nem vamos ter tão cedo, meios de conseguir-

Verificação.

De verificação. E sem isso, isso é a chave da ciência. Se não verificarmos, se não houver um critério de verdade, nós não podemos dizer que a ciência é outra coisa qualquer. Não estou a dizer que seja menos humano por causa disso. É humano a gente imaginar outros mundos, mas temos já este mundo, que já é um mundo que nos dá muito que fazer.

Dá, sim, senhor. Portanto, o professor não acredita que noutro universo paralelo haja um professor Carlos Filhais e um João Miguel a gravar num estúdio diferente.

E se há, João Miguel, não ficaria tão bom como o nosso programa aqui.

Muito bem, espetacular. Ouvinte@observador.pt, envie-nos perguntas, dúvidas e sugestões. Professor Carlos Filhais, foi um gosto, uma vez mais, e até para a semana.

Até para a semana, João Miguel. Adeus.