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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Jorge Pinto, deputado do LIVRE, antigo candidato à Presidência da República. Bom dia, bem-vindo.

Bom dia, obrigado pelo convite.

Sabe como é que isto funciona?

Sei mais ou menos.

Mais ou menos cinco perguntas.

Cinco perguntas.

Cada resposta certa, cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, dois pontos.

Muito bem.

Vamos a isto? Total de 25 pontos.

Vamos lá.

Então vamos lá. O Jorge Pinto foi o mais jovem candidato à presidência nestas eleições. E quem era o candidato mais velho?

Mais velho? Eu acho que mais velho seria provavelmente Marques Mendes.

Seria e era. Com 67 anos.

Na verdade, a minha dúvida estava quase com o Manuel João Vieira, porque ele parece novo, mas pensei que pudesse estar também.

É daqueles que engana. Jorge Pinto, já passaram três meses da campanha em que esteve muito exposto. Calculo que tenha sido muito intenso. Agora, passado este tempo, que balanço é que faz? O que é que teria feito diferente?

Não sei se teria feito muita coisa diferente. Na verdade, uma pessoa anda quase em piloto automático nesse período. Foi a minha primeira campanha nacional. Já tinha feito algumas campanhas pras legislativas, mas apesar de tudo é diferente. E foi muito concentrada, porque pro bem e pro mal, fui o último a apresentar a candidatura já no finalíssimo de outubro, passando logo quase um mês em debates e depois contacto da rua, estar nos distritos todos, ir ao estrangeiro, ir aos Açores. Foi muito intenso, como foi intensa depois esta quase explosão de notoriedade nas ruas, que é uma coisa que me faz um bocado de confusão.

Notou claramente muita diferença.

Pois, notei e continuo a notar, mas nesses dias a pessoa anda quase em piloto automático, que não descansa. Depois há sempre coisas que se pode fazer diferente.

Aquela frase: "Não será por mim que Seguro não será presidente", era aquela que teria retirado daqui.

Eu acho e concedo perfeitamente que ela possa ter muitos sentidos, mas o que eu queria dizer ali é que não foi por mim ou não foi pelo LIVRE, que não houve uma candidatura única das esquerdas. Porque naquele momento, e até é importante que me pergunte isso, porque as desistências, como aconteceram no passado em presidenciais, eu duvido que voltem a acontecer, porque a lei tem um prazo, julgo que 72 horas, muito em cima do ato eleitoral. Mas essa frase que eu disse, esse debate foi, se não estou em erro, no dia 6 de janeiro.

Foi com todos.

Exatamente. Ainda muito longe do dia 18, do dia da eleição, mas no dia 7, no dia seguinte, já havia gente a votar. E era evidente, eu sempre disse isto, a partir do momento em que houvesse uma única pessoa a votar em mim, eu já não ia desistir, porque seria uma traição pra com essa pessoa. Quando eu digo aquela frase naquele momento, ou desistia ali e chegávamos todos ali naquele, em direto, a um acordo entre todas as candidaturas, ou eu já não desistiria. E foi isso que eu tentei explicar logo no dia seguinte. Já há gente hoje a votar. E por que eu acho que essas desistências não vão acontecer? Porque evidentemente que ninguém vai abdicar de 10 dias de campanha eleitoral, da verdadeira campanha eleitoral, porque até então é pré-campanha e com tudo que isso implica, de cobertura mediática, de acompanhamento da comunicação social. Por isso, essas desistências, como aconteceram no passado, nas eleições presidenciais, duvido que voltem a acontecer.

Já nada será assim. Tem gostado de António José Seguro presidente?

Tenho gostado, também ainda não teve propriamente tempo para mostrar bem aquilo que irá fazer. Há algumas diferenças claras em relação àquilo que foi a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, que eu acredito que são positivas nesse particular.

Está a falar da exposição pública, das intervenções.

Da própria relação com a comunicação social, do modo como quer prestar declarações, até aquela questão do microfone único, pra evitar até visualmente parecer que está ali assoberbado com microfones e com câmaras. Acho que essa maneira de comunicar com os cidadãos pode ser também positiva. Depois, espero, mas também tivemos a primeira presidência aberta, acho que está toda a gente, incluindo o próprio senhor presidente, a apalpar terreno e a perceber o que é que vem, que não seja apenas um presidente de avisos, que depois podem não ter consequência, até porque isso acabaria por desautorizar o seu próprio papel, mas enfim, foi a primeira presidência aberta. Veremos daqui pra frente.

António José Seguro já recebeu a lei da nacionalidade nova, terá provavelmente muito em breve uma lei do trabalho. O que espera que faça o presidente?

Em relação à lei do trabalho, o próprio foi claro durante a campanha. Julgo que no debate que tive com ele também tive a oportunidade de questionar quanto a isso.

Concretamente sobre essa matéria.

E a resposta foi sempre que se não houver acordo ou concertação social, então a consequência lógica seria um veto político. Pra já estamos muito longe desse acordo, atendendo àquilo que tem sido noticiado. E portanto, se esse acordo não surgir, porque em paralelo não temos acordo, mas o governo diz que não vai estar a eternizar as discussões, arriscamo-nos a que realmente haja uma proposta que chegue ao Parlamento sem esse acordo prévio, o que levaria então ao veto do senhor presidente. Quanto à lei da nacionalidade, primeiro veremos aquilo que fará o Partido Socialista, ainda não se pronunciou, até porque uma das questões, um dos pontos-chave do anterior pedido de fiscalização, se mantém, que é a perda acessória da nacionalidade. Portanto, provavelmente o Partido Socialista fará esse pedido, e se não fizer, acredito que o senhor presidente da República poderá também fazê-lo, pelo menos para certificar que um dos pontos que já anteriormente tinha sido identificado como inconstitucional não é aprovado agora.

Jorge Pinto, começou bem, cinco pontos. Vamos em frente. Vamos continuar a falar de idades, não da sua, faz 39 na segunda, não é?

Faço, daqui a uma semana.

É quase uma semana. Vamos continuar a falar então de idades.

Deixe-me só dizer, porque é engraçada essa questão da juventude. Eu já há muitos anos que não me considerava jovem, com 38 anos, mas porque talvez, digo eu, nas presidenciais falou tanto da minha idade, do fato de ser mais jovem, eu aceitei um convite na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra ontem, e depois chego lá e era de longe o mais velho. Até ironizei com isso. Não sei se vocês acham que eu sou assim tão jovem.

É relativo.

É um bocado relativo.

Vamos lá. Então e quantos anos tem o recém-eleito primeiro-ministro da Hungria Que depois tinha mais de 15 anos de Viktor Orbán.

Eu poderia ter sabido essa pergunta, porque ontem ao almoço com os meus pais foi tema de conversa. E nós não chegamos a um acordo. Eu não sei, portanto eu disse que não sei. Acho que é mais velho do que parece. Eu vou tentar arriscar uns 48.

Peça ajuda. Ou não peça ajuda, mas é um bocadinho menos.

Agora já disse, já me poder.

É melhor pedir.

Como é que funciona a ajuda?

Nós damos-lhe três hipóteses e escolhe uma.

Força.

40, 45 ou 50.

Os 40 é a minha idade, será que é assim tão novo?

Pois.

45? É. Acertou.

Estava quase, os 48 não estão muito longe. A derrota, e que derrota, de Viktor Orbán, além de positiva para a união da União Europeia, é também uma derrota da política externa de países como os Estados Unidos e daquela narrativa antieuropeísta?

Certamente, é uma grande derrota para os Estados Unidos de Trump. E digo de Trump, porque Hillary Clinton, honra lhe seja feita, foi das primeiríssimas a identificar nos Estados Unidos aquilo que era a deriva autoritária de Viktor Orbán e das primeiras a querer agir em relação a isso. Os Estados Unidos de Trump e J. D. Vance, que esteve lá há poucos dias, e também de Vladimir Putin, como se percebeu por escutas reveladas poucos dias antes das eleições, o governo húngaro tinha relações muito próximas de interesses e de favores mútuos. E é uma grande derrota de todos aqueles que acreditam que alterando as regras do jogo, saem sempre vencedores. E eu temia que isso acontecesse. Acho que todos os democratas, de esquerda e de direita, temiam que isso acontecesse, mas a dimensão da derrota foi tal que mesmo com todas as barreiras que existiam nas eleições, ainda há outras barreiras agora, e poderíamos falar disso também, nomeadamente no que diz respeito à aprovação do orçamento, que tem de ser feita por três pessoas, as três indicadas e da confiança de Viktor Orbán, é outra discussão, mas é uma enorme derrota daqueles que acham que ter uma política autoritária não tem solução. E também não vou ser ingénuo. Eu acredito que se a dimensão da derrota não fosse tão grande, Viktor Orbán não teria saído com tanta tranquilidade.

Não teria aceitado como aceitou.

Acredito, mas isso aí já estamos no domínio da especulação, o que dá alguma esperança, porque reparemos, para além de tudo mais, para além daquilo que são os problemas para os húngaros, desde logo o bloqueio destes milhares de milhões de euros europeus que ainda não foram entregues por causa da deriva democrática no país. Para lá de toda a corrupção interna, a nível nacional da Hungria, era evidente que a Hungria, um país relativamente pequeno à escala mundial, médio à escala europeia, era a ponta de lança desta internacional nacionalista, até em termos de financiamento. É público que o partido de Marine Le Pen, em França, se financiava em bancos húngaros para as suas campanhas. Também esse apoio e outros financiamentos que não sabemos, ilegais ou semilegais, noutros países, possivelmente até em Portugal, não sabemos. Também isso sai enfraquecido desta derrota, com todas as incógnitas de Péter Magyar, ou Magyar Péter, como dizem em húngaro. Mas para já eu ainda estou naquela fase, deixa-nos celebrar um bocadinho e depois veremos.

E o facto de a esquerda ter tido também uma grande derrota. Sinal aqui está.

Às esquerdas também. O Partido Social Liberal foi a votos e não conseguiu entrar na Assembleia, mas houve outros partidos que desistiram porque perceberam que o que estava em causa, mais do que uma eleição entre esquerda e direita, era uma eleição entre democracia e autoritarismo, entre futuro, incluindo um futuro europeu, ou um regresso a um passado de muito má memória para os húngaros. E não é por acaso que um dos slogans que muito se borrou nas últimas semanas de campanha era o "Russos Fora", o slogan de 56, precisamente quando se ficaram a conhecer estas ligações, estas escutas, que mostravam o quão próximo estava o regime de Orbán do regime de Vladimir Putin. Acho que a esquerda na Hungria tem agora espaço também para se reconstruir e certamente acho que abdicando até de ir a votos, deu um grande exemplo para todos nós, porque realmente quando o que está em causa é a democracia e o futuro do país, desistir pode ser o melhor caminho. Ou desistir não é desistir, ou seja, abdicar.

Desistir daquele ato eleitoral.

E envolverem-se na campanha também, porque eles não estiveram fora da campanha, participaram ativamente nela.

Muito bem, Jorge Pinto, sete pontos até ao momento. Há pouco falava das regras do jogo. Esta pergunta tem a ver com regras do jogo. Quantos artigos tem a Constituição da República Portuguesa?

Eu deveria saber. Duzentos...

Está certo.

Está certo.

Duzentos e?

Setenta, 80. É ali pertinho dos 300, não é?

É muito pertinho.

É muito pertinho. Vês, Vês.

É ali pertinho mesmo.

Mas também não é mesmo em cima.

Sabem que eu li a Constituição três vezes de fio a pavio. Eu sou engenheiro de formação inicial.

E não estamos propriamente a decorar o número de artigos.

Pois, para além disso, mas é uma leitura mesmo muito interessante.

Tente visualizar o último.

Eu acho que acaba em oito, mas se me dizem que é perto...

Também não é mesmo. É perto, mas não é em cima.

Então, deem-me lá três hipóteses.

Então pronto. 288, 292 ou 296.

Vocês já me deram uma ajuda, disseram que está perto de 300, não pode ser 288, que seria a minha resposta, porque eu por alguma razão acho que acaba em oito. Então era 88?

292 ou 296.

Vai 92?

Agora não era no meio.

Não estava no meio a vir tudo. Em relação a estas regras de jogo da nossa Constituição, preocupa uma revisão constitucional promovida e aprovada apenas pelos partidos à direita?

Já falei muito disso. Preocupa-me muito. Preocupa-me primeiro porque acho que esse equilíbrio que nós temos conseguido nas revisões constitucionais, e já houve várias. Uma coisa que eu me apercebi é que há muita gente que acha que a Constituição de 76 é a mesma que nós temos agora, é imutável. Ela mudou e muito. Mas essas alterações foram feitas sempre entre a esquerda e a direita, o que me parece importante, porque a Constituição não pertence a nenhum espectro político. A Constituição pertence aos portugueses.

Mas também porque era necessário que houvesse essa maioria e essa maioria só se conseguia com os partidos da direita e da esquerda.

Também. Mas aí depois entra um outro ponto que é: então se esta maioria de dois terços, que ninguém pensava que fosse real antes das últimas eleições legislativas, basta voltar atrás aos debates que existiram nessa altura. Por que os partidos que agora dizem que se pode avançar com essa revisão constitucional apenas à direita, não o disseram na altura e não só não disseram, como negaram que isso pudesse sequer estar em cima da mesa. Mas veremos também, a posição do senhor Presidente da República é conhecida. As armas que tem ao seu dispor para influenciar esse debate são relativamente limitadas e falámos muito disso também nos debates para as eleições presidenciais, mas também estamos a falar de pelo menos quatro partidos. Para que os pontos sejam passados exclusivamente à direita e à extrema-direita, é preciso que quatro partidos votem neles, incluindo a Iniciativa Liberal.

Mas se fosse, Jorge Pinto, à esquerda, se houvesse uma maioria, consideraria necessário a inclusão do principal partido?

Sem qualquer margem de dúvida, já o disse várias vezes, diria exatamente o mesmo. Mas é que diria mesmo. Acho que a Constituição é um texto demasiado importante para que uma revisão drástica, repito, nós não estamos aqui a falar das questões dos metadados, por exemplo, questões que acho que há uma certa unanimidade entre os partidos que merecem uma revisão na Constituição. Estamos a falar de coisas drásticas que nós sabemos que podem estar em cima da mesa, porque já estiveram há poucos anos quando se abriu esse processo de revisão constitucional. Qualquer revisão drástica da Constituição não deve ser feita apenas a um lado do espectro político, seja à esquerda, seja, como é o único caso possível agora, à direita. Nisso aí, diria exatamente o mesmo.

Vai com quantos?

Sete.

Sete pontos. Esta é fácil. Primeiras eleições a que o Livre se apresentou foram as europeias de 2014. O Jorge Pinto já lá estava, porque é cofundador. Que percentagem é que teve o partido nessas eleições?

2,2.

Sim. Em rigor, 2,18. Isso está certo, muito cresceu o Livre depois disso. Mas basta fazer uma busca pelo Google e quando se fala do Livre, aparecem denúncias, acusações sobre falta de democracia interna no partido. O Livre ainda é um partido de um homem só, Jorge Pinto?

Acho que não. Repare, o facto de eu já ser o sexto deputado do Livre a vir aqui falar a este programa mostra bem que já está longe disso.

Então por que há tanta polêmica interna, por que há tantas saídas?

Primeiro, não há tanta. Saídas há pouquíssimas, na verdade. Se calhar os dedos de uma só mão chegariam para isso. Depois há sempre visibilidade, eu percebo, a comunicação social tem sempre interesse na intriga. Há gente que deixa de se identificar e sai, legitimamente. Há gente que tenta ter sucesso interno, não consegue, e depois acha que isso é falta de democracia interna e sai, indo a votos e não ganhando. E depois há gente que legitimamente gostaria de ter mais voz e mais poder dentro de um partido, e digo legitimamente porque isto é o âmago da política, é ter poder, e que querendo e não conseguindo, também acha que o seu caminho está a ser limitado.

Além da intriga, existe muita curiosidade em ver como é que funciona um partido que criou regras próprias de escolha de candidatos, por exemplo.

Regras, plataformas, nós temos plataformas internas de discussão. Acho que temos uma horizontalidade muitas vezes complicada em termos de prazos. Quanto mais horizontal é uma instituição, mais lenta pode ser a tomada de decisão, mas eu sou daqueles que acha que isso é bom para o partido e que nos fortalece. Questões como as primárias, eu bati-me muito para que elas existissem no nosso partido. Uma das razões até que me fez querer ajudar a fundar um partido político e a contactar o Rui Tavares, ainda eu não o conhecia, foi precisamente porque estava a viver na cidade de Milão, em Itália, quando houve a eleição autárquica em 2011 e o candidato selecionado numa eleição primária por toda a esquerda acaba por ser o vencedor das eleições. De um partido pequeníssimo, na altura, bem próximo daquilo ideologicamente que seria o Livre. E eu pensei: se isto acontece em Milão, se isto funciona em Milão, por que não pode acontecer também em Portugal? Eu acho, e até voltando ao espírito da Constituição, que nós precisamos de novas ferramentas de participação democrática, novas maneiras de abrir a nossa democracia à participação cidadã, que não têm forçosamente de passar por uma democracia direta. Eu também não sou super adepto de referendos ou de uma democracia referendária, como seria o caso da Suíça, que é onde se fazem mais esses referendos, julgo que quatro por ano. Mas há outras ferramentas, e esta semana vamos levar uma a votos na Assembleia da República, o Livre, que são as assembleias cidadãs, por exemplo. Mantendo a Câmara Legislativa, os representantes eleitos, os deputados, nós podemos dar voz aos cidadãos de outras maneiras e há muitas ferramentas que são conhecidas há milênios. Estas assembleias ou o sorteio de cidadãos para discutir os assuntos da cidade já era feito na Grécia Antiga. E portanto, nós levaremos isso a votos esta semana.

Mesmo com o risco de alguns erros?

Certamente.

É um modelo que continua a defender e que acha que faz sentido?

Sim, sem dúvida nenhuma. E quanto mais olho para aquilo que fazem os outros partidos com modelos de lista fechada, os rancores internos que se geram e as limpezas que se geram nas listas quando uma determinada facção ganha, mais acho que ter esta abertura e este sistema é o indicado.

Muito bem, vamos para a última questão, Jorge Pinto. Na história das coligações, o PCP liderou em tempos a APU, a Aliança Povo Unido. Eu perguntei qual era o outro partido que fazia parte desta aliança.

Sei, é um partido do qual nós, Livres, achamos que temos vários pontos de contato, uma certa herança. O meu pai foi candidato pela APU, à minha junta de freguesia, era o MDP-CDE, sendo que o José Manuel Tengarrinha, que era se calhar uma das grandes figuras do MDP-CDE, nos seus últimos anos de vida, foi militante do LIVRE e membro da nossa assembleia.

Há uma proximidade grande. E o Jorge Pinto, como já disse, é filho da autarca da APU e neto da autarca do PSD.

Do PSD. O meu pai não ganhou essa eleição, mas depois foi autarca pelo PS uns anos depois.

Isso significa o quê? Que o Jorge Pinto na família fez ali o ponto médio havia centro e centro-esquerda.

Na verdade, eu acho que tirando o meu avô, que já faleceu há vários anos, a minha família é toda de esquerda, toda socialista. E quando digo toda, estou a falar das 30 e tal pessoas que compõem a minha família direta.

Também é daqueles que acha que o PS é de esquerda, não é? Porque há quem ache-

Eu acho que o PS é de esquerda. Se nós, olhando para o Parlamento como está, achamos que o PS não é de esquerda, então a coisa está quase ao nível da Hungria. Não quero crer nisso. Se calhar é um dos problemas do PS, eu militei no PS, posso falar disso também com relativa tranquilidade, é que o PS e o PSD, no caso, eram partidos com um espectro ideológico tão amplo que acabavam por ser casa para pessoas com visões muito díspares numa série de assuntos. E depois têm um ou outro ponto de contacto.

Também há quem diga que o PSD é um partido de esquerda, não o veja como partido de direita. Se calhar o seu avô ainda era de esquerda também.

O PSD não é de esquerda. Em que campo é que poderia ser considerado de esquerda?

Não, há quem considere mesmo dentro do PSD.

Pois, mas isso também-

É um partido de centro-esquerda

...é sinal dos tempos, infelizmente. Eu acho que o PSD era, e deveria continuar a ser, um partido do centro-direita democrático, com tudo o que isso implica e tem no sítio. Hoje em dia, se calhar menos do que foi no passado, mas também não sou daqueles que acha que o PSD é um partido filofascista. Acho que estamos longe disso.

Só muito rapidamente. Mas acha que a esquerda está em vias de extinção nesta altura?

Não, pelo contrário. Acho que estamos a passar um mau momento, é inegável, mas estas coisas vão e vêm. E eu vou continuar a dizer que os eleitores do Chega, nomeadamente, têm de ser recuperados novamente para a esquerda. Eu estou muito convencido que uma boa parte desse eleitorado, pelo menos no que diz respeito às questões económicas, que é aquela questão que normalmente distingue o que é esquerda e direita, estão muito mais próximos da esquerda do que da direita. São pessoas a quem se nós perguntarmos: "Acha que há demasiada injustiça social?" Eles vão dizer: "Acho que sim." "Acha que é injusto haver cada vez maior concentração de riqueza numa pequena elite e menos distribuição?"

Portanto, são burros que eles não sabem.

Sabem, e precisamente por saberem é que também têm muita frustração em relação àquilo que foram os últimos governos de esquerda no nosso país. E acho que o PS, desde logo, com a maioria absoluta que teve, tem muita responsabilidade nisso também. Depois há outras dinâmicas, há a dinâmica das redes sociais, há a dinâmica da influência da opinião, há a dinâmica, se me posso permitir atacar-vos também aqui na vossa casa, com tudo o que isso possa ter de incorreto, de órgãos de comunicação social, que também favorecem uma determinada visão da sociedade, nomeadamente o Observador, que tem uma linha editorial de direita muito liberal. Portanto, há um trabalho que a esquerda parte em desigualdade também por não ter os meios financeiros para isso. Quem me dera a mim conseguir ter um projeto editorial como o Observador de esquerda, quem me dera a mim.

Já houve várias tentativas à esquerda.

Pois, sabe o que é que não houve? Dinheiro. É esse o problema. Quem é que em Portugal consegue ter anos e anos e anos? Eu julgo que o último ano o Observador já deu lucro. Mas quem é que consegue ter tantos anos de prejuízo em Portugal num projeto editorial? É uma pergunta sincera, num projeto de esquerda.

Claro, sem entrar mais agora num debate que não é este.

Claro.

É raro encontrar órgãos de comunicação social em Portugal, infelizmente, que tenham contas positivas.

Claro, é esse o problema. Portanto, imaginem alguém que queira fazê-lo com um projeto de esquerda, que seja de esquerda democrática. Quando digo esquerda, eu sei que se calhar uma parte dos ouvintes me está a imaginar aqui com a bandeira vermelha.

Não, para nós até está verde e tudo.

Até está verde.

E não é de escota.

É muito complicado, mas não quero com isto dizer que nós não temos culpa. Claro que temos. As esquerdas estão certamente todas elas em processo de reflexão, mas estas coisas são cíclicas, vão e vêm, e não tenho dúvidas que o trabalho que as esquerdas estão a fazer neste momento será importante para quando voltarem ao poder. Até porque, repare-se, puxando a brasa à minha sardinha, que eu estou aqui como deputado do LIVRE também, o que seria da nossa economia, o que seria da nossa autonomia, se a visão ecologista que nós temos para o país já fosse uma realidade perante aquilo que nós estamos a ver agora, o bloqueio do Estreito de Ormuz, que já tem algumas consequências positivas.

Seríamos mais independentes do petróleo.

Muito mais. E a aposta nas renováveis já tem um impacto positivo agora que já se vê. É um exercício que eu deixo aos ouvintes, comparar o preço da eletricidade neste momento em Portugal e Espanha, dois dos países que mais investiram em renováveis, com outros países, até com França, onde grande parte da eletricidade é nuclear. E vejamos se essa aposta valeu ou não valeu a pena, se essa aposta está ou não está a proteger os portugueses. Ou a notícia que ainda ontem estava no jornal Público, que os empregos verdes duplicaram, eu julgo que em três anos, num curtíssimo espaço de tempo. O futuro passará por aqui e eu tenho a certeza que quando conseguirmos levar esta mensagem aos portugueses, eles voltarão a acreditar na esquerda.

Jorge Pinto, sai daqui com 17 pontos. 17 em 25 é bom.

É, entrei na faculdade com uma média um bocadinho mais baixa do que isso. Se tiverem 20, mais ou menos.

O Rui Tavares teve quanto, há pouco?

15.

15.

Mais do que o chefe.

Obrigada por ter aceitado o convite.

Muito obrigado.

Muito obrigado.