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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de uma ouvinte que perdeu a mãe há dois meses, de forma inesperada. As filhas de 10 e de sete anos vivem o luto de maneiras muito diferentes e a mãe diz que guardou o seu numa caixa. Olá, Eduardo. A filha mais velha, de 10 anos, não fala da avó, não chora e tem um sentido de proteção gigante em relação à mãe. Este silêncio deve preocupar-nos?
Olá, Judite. Judite, sim e não. Sim, porque obviamente que isto pressupõe uma dor que se vai resguardando, seguramente para proteger a mãe. É muito frequente que as crianças façam isso, correm, às vezes, o risco de parecer insensíveis e pouco sintonizadas com o sofrimento dos pais em relação à perda dos avós. E elas fazem muito isso no primeiro momento. Primeiro, porque estão atordoadas, em choque, sem saber literalmente o que hão de fazer. Depois, porque sentem que, neste caso, a mãe pode desmoronar com a fragilidade da filha e, portanto, numa circunstância destas, o que esta menina faz é aquilo que os filhos habitualmente são fantásticos a fazer, que é com toda a bondade, resguardarem a mãe, protegê-la e de alguma forma ampararem e colaborarem desse modo diante de todo o seu sofrimento. Não, por quê? Judite, porque quando a dor é muito grande, ela resguarda-se, guarda-se, engole-se em muitos momentos, mas às vezes precisa de alguém que fale por si. Portanto, esta mãe ou este pai precisarão de falar por esta menina, porque com essa ajuda, eu não tenho dúvidas que fica muito mais gerível todo este sofrimento. De outra forma, não. Acho que é muito importante nunca perdermos de vista que se não falarmos da dor, vamos morrendo um bocadinho com ela. E falar da dor não é como muitos adultos fazem. Não é, Judite, falarem de uma forma um bocadinho vitoriosa sobre suas dores e a forma como triunfaram diante delas, porque quando é assim, é como se estivessem a fugir daquilo que os magoou e, portanto, morrem um bocadinho na mesma, mas com a ideia que estão a vencer. Portanto, nada de ficar demasiado assustada, só um pormenor. Quando finalmente esta menina falar, é natural que já tenham passado muitos meses da perda da avó. Acontece. As crianças vão tentando fazer os possíveis e os impossíveis para se controlarem diante de tudo isto. E quando finalmente sentem que há espaço para poderem manifestar esta dor, então, sim, fazem. O finalmente pode ser muitos meses, Judite, depois da avó ter morrido, que leva mais uma vez as pessoas crescidas a ficarem mais ou menos perplexas e perguntarem: "Oi, mas o que aconteceu? Agora que já passou tudo há tanto tempo, é que ela parece ter espaço para manifestar a perda da avó?" Tem, porque finalmente foi sentindo que já não estava a obstruir o sofrimento da mãe e, portanto, nessas circunstâncias, pode dividir toda esta dor, mas os tempos em que isto se faz não correspondem aos tempos dos adultos na maior parte das vezes.
A mais nova, pelo contrário, a que tem sete anos, acaba por ir para a cama dos pais todas as noites. Já foi encontrada à janela a falar com a avó. Isto é um luto mais saudável?
É um luto mais dividido com os pais, mas não perca de vista um pormenor. Nos lutos, por exemplo, nos divórcios, por mais que nós não façamos este pedido aos nossos filhos mais velhos, os mais velhos sentem-se sempre muito responsabilizados pela forma de cuidar, nomeadamente cuidar dos pais. E, portanto, não é por acaso que às vezes os mais velhos assumem uma atitude de proteção e os mais novos assumem esta liberdade de poder chorar e de poder falar da perda da avó. Não perca também de vista um pormenor: esta maneira das crianças viverem o luto entende-se, por maioria de razão, por quê? Porque esta menina mais velha, sentindo que a avó morreu, sente também que, em primeiro lugar, as pessoas indispensáveis na nossa vida não se mantêm vivas só porque são indispensáveis para nós. E, em segundo lugar, sente que depois de ser literalmente atropelada com aquilo que aconteceu à avó, não deixa de se perguntar de forma muito subtil, muito clandestina, se uma coisa destas pode acontecer à mãe. Portanto, é muito saudável, em boa verdade, Judite, que um filho mais velho passe a ser hiper cuidadoso em relação ao pai que está a sofrer mais. E se o pai se constipa, é normal que um filho fique literalmente em pânico, porque uma constipação pode ser um indício de qualquer coisa mais preocupante. E nessas circunstâncias, naturalmente, que o filho fica numa aflição muito grande.
A mãe diz que o seu luto está guardado numa caixa para quando houver tempo, e que o único sinal que as filhas veem é vestir-se de preto desde esse dia. O que as crianças percebem de um luto que os adultos tentam esconder?
Judite, as mães e os pais são de uma ternura e de uma ingenuidade sem fim. Às vezes, os pais dizem com uma convicção absolutamente à prova de todos os argumentos, que nunca discutem à frente dos filhos e, portanto, nessas circunstâncias, tudo aquilo que pode não ir bem entre os pais passará à margem do conhecimento das pessoas mais pequeninas lá de casa, como se os filhos não percebessem o que se está a passar com o pai. E nestas circunstâncias, a mesma coisa. Isto é bondade de mãe a falar, como eu a entendo. Só que, mesmo que ela não se vestisse de preto, já vestir-se de preto quer dizer alguma coisa. Mas mesmo que não se vestisse de preto, só faltava esta mãe ter luzinhas a acender e a apagar na testa a dizer: "Sofrimento". Ou seja, a moral da história é relativamente simples, Judite. Os nossos filhos conhecem-nos até ao fundo da alma e às vezes, quando as mães, de uma forma vaidosa, como só as mães são capazes de ser, dizem: "Eu tenho um dedo que adivinha", e falam de sexto sentido e de outras coisas que tais. Às vezes parecem se esquecer que com os filhos se passa exatamente a mesma coisa, sem tirar nem por. E, portanto, os filhos reagem do mesmo modo e de uma forma que inevitavelmente acaba por ser super delicada, mas atenção, super atenta, porque as crianças, mal a mãe está assustada, mal a mãe está combalida, quando a mãe está muito triste, percebem à distância, à léguas, aquilo que está desarrumado. E, portanto, eu sugeriria à mãe que não guardasse a dor em caixa nenhuma, porque isso é que é assustador. Nós sentirmos que temos uma mãe a sofrer muito e a fazer um esforço para não falar disso, como se nós, os filhos mais pequeninos, não estivessem ao nível para dar colo ao sofrimento dos pais.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro para si, Judite. E até amanhã.