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Esta é a comissão de inquérito da Rádio Observador. Hoje colocamos à prova o escritor Valter Hugo Mãe. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Já sabemos que não gosta nada deste formato.
Não, gosto de ouvir. Não sei se a forma como participo me correrá muito bem. Por isso venho com medo.
Não, não é caso para isso.
Até dormi mal.
Nós aqui não metemos medo a ninguém.
São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, são dois pontos. Portanto, o máximo são 25.
Eu detesto perder. Eu não sou nada competitivo, mas quando jogo ou qualquer coisa, detesto perder.
Não, não é para perder.
Começamos por uma simples para quem está ligado ao mundo da literatura: que escritor francês, sempre que tinha uma crise de bloqueio criativo, mandava os criados levarem-lhe todas as roupas e trancava-se no quarto a escrever completamente nu para não poder sair de casa?
Uai.
Uai?
Caramba, os criados. Eu não tenho nem uma colaboraçãozinha, se não for a família ou alguns amigos. Isso tem que ter sido muito antigamente, eu faço a mínima ideia. Não vou dizer o Proust, porque eu acho que o Proust é um dos meus heróis. Tinha que ser o Victor Hugo, talvez.
Exatamente.
Porque a casa dele cheira a criados. A casa dele é de sombra.
Está certíssimo.
Por acaso eu tenho uma alma barroca, não me importava nada ter uma casa parecida.
Ter criados, também.
Mas seria inviável porque a limpar é o pó, prefiro ter uma casinha mais humilde.
Mais modesta. Valter Hugo Mãe, como é que é consigo? O que faz quando tem um bloqueio? Já sabemos que não põe os criados a levarem-lhe a roupa, mas escrever com a sensibilidade que escreve é uma espécie de terapia?
Talvez. Eu sinto-me tão perto de ficar maluco que julgo que ser escritor me ajuda a não dar esse passo. A viver no precipício, eventualmente, mas a saber não cair. O poema já ensina isso.
E também sofre com as suas personagens?
Acho que sim. Se não criasse uma espécie de confusão entre mim e as personagens, talvez não soubesse escrever. Não sei se seria possível. Não sou tão cerebral assim, sou bastante intuitivo e aquilo que sei no livro, normalmente começo por não saber. Escrevo nesse sentido, escrevo para poder saber. Por isso não faço reportagem, não faço literatura como quem explora aquilo que já domina, muito pelo contrário. Não é exatamente o livro que me domina, isso também é uma fantasia, mas é por ser um processo que nos leva a algum tipo de conhecimento que só acontece assim ou que pode acontecer assim.
E por essa razão é um processo mais de sofrimento ou também de alguma exaltação?
De muita exaltação, mas não é fácil. Sobretudo, eu creio que com o tempo, a passagem é mais estreita, no sentido em que podemos dominar mais técnicas e estamos mais robustecidos com as manias e com muitos tiques e coisas que se calhar revertem para um estilo, mas também já não aceitamos a primeira opção ou a primeira oportunidade do texto já nos leva a uma desconfiança, não parece suficiente.
E depois há um melhoramento contínuo ao longo do processo de escrita?
Eu quero acreditar que sim, uma sofisticação, talvez, na capacidade de ir dizendo, na capacidade de abeirar o pensamento. Não significa que imediatamente estejamos certos, podemos estar a degenerar, mas se for uma forma de piorar o texto, porque nem sempre os escritores envelhecem para escreverem finalmente o seu grande texto.
E alguns até escrevem as melhores coisas quando são mais novos.
Exatamente. E por isso eu acho que o escritor, ele próprio, talvez não seja bom para se diagnosticar por inteiro, mas diagnosticamo-nos. Passamos o tempo obstinadamente a ponderar, a avaliar quem somos. É inevitável, os outros também.
Eu fiz-lhe uma pergunta no início, mas depois não o deixei responder. O que é que faz quando tem um bloqueio?
Eu não tenho bloqueio.
Não tem?
Eu precisava era ter bloqueio para me sentir normal de vez em quando. Essa coisa assim do que tem que ver com inspiração e não sei. As pessoas muitas vezes perguntam: "O que faz para estar inspirado? O que o inspira?" Eu preciso desinspirar.
Mas isso não é cansativo?
É obsessivo e é uma coisa que eu acho que é patológica. Eu gostaria de de vez em quando ser só um cidadão comum, com preocupações pragmáticas, pragmaticamente viável. Eu não consigo.
Mas isso quer dizer que está sempre ligado, sempre atento a todos os pormenores da vida.
Tenho essa tendência para essa fuga, para esse universo paralelo. Eu enquanto cidadão comum, não consigo mais do que pentear-me. É a minha etiqueta de cidadania mais bem conseguida, é sair à rua penteado. E de resto, tudo na minha vida se propende para um escangalho. Que é lamentável, porque um adolescente aos 14 anos aprende a fazer coisas que eu até tenho informação para isso, mas não consigo disciplinar-me para cumpri-las.
Muito bem. Valter Hugo Mãe, cinco pontos até agora. Vamos à segunda pergunta.
Nada mal.
Os criados de Valter Hugo.
Vamos à segunda pergunta. Esta também acho que é relativamente fácil: quem foi o primeiro vencedor do Prémio Saramago?
Foi o Paulo José Miranda.
Fortíssimo!
Mais cinco pontos.
Um belo livro, um belo autor.
Foi a Natureza Morta.
Natureza Morta. E é um belo autor. Tem um dos títulos que eu mais gostaria de ter para mim, que é a Doença da Felicidade. Gosto muito do Paulo José Miranda.
E em 2007-
Só conheço-o pouco, mas como autor gosto muito dele.
E em 2007 foi a vez do Valter Hugo Mãe ganhar o Prêmio Saramago, que recebeu das mãos do próprio José Saramago, que na altura o classificou como um tsunami literário. O que isso significou para si, enquanto autor, e depois também para a sua carreira?
Foi poderoso no sentido de mexer bastante comigo, no sentido em que eu vivo ainda numa cidade pequena, num lugar pequeno de uma cidade pequena, à distância de Lisboa bastante, e por isso eu frequento os autores através dos livros. Não conhecia o Saramago, não conhecia a maior parte das pessoas do cenário do teatro literário. E o Prêmio Saramago traz uma inscrição inelutável que mexe muito conosco. Eu era substancialmente tímido, era um miúdo muito tímido, muito atrapalhado, nervoso. Ficava tão nervoso com as mais mínimas coisas, que de repente aquilo do Prêmio Saramago e o discurso dele é um empurrão para uma espécie de fila da frente, em que de repente temos de corresponder a montanhas de perguntas.
E isso pesou também no aspecto negativo? Pôs demasiada pressão?
Traz medo. Se calhar nunca disse isto, mas por exemplo, uma das minhas correspondências ao medo foi que o livro seguinte ao Prêmio Saramago, eu ganhei o Prêmio Saramago com um livro aterrador sobre o machismo e a violência.
Foi o Remorso.
O Remorso de Baltasar Serapião, que é aterrador. O Baltasar Serapião é uma figura nojenta. E o livro seguinte chama-se Apocalipse dos Trabalhadores e é o meu livro mais sarcástico, alegre, humorizado. E eu gosto muito desse livro, mas foi uma covardia minha, porque eu penso assim: "Está toda gente a olhar para mim, eu vou tentar portar-me bem." Aquela coisa.
Piso.
E se eu agora publico um livro em que toda a gente morre, e toda a gente mata.
Então foi escrito em reação a tudo aquilo que aconteceu depois do prêmio.
Sim, em última análise, ao prêmio, mas foi em reação a um estado de espírito em que de repente apetecia-me amar as pessoas, que é um erro crasso. Quer dizer, existir para amar as pessoas é uma coisa que dá muito errado. Porque as pessoas eu acho que até precisam de ser amadas, mas elas não querem e não sabem ser amadas. Já não sabem amar, é muito difícil. E eu lixei-me bastante.
Por querer amar toda a gente.
Sim, com essa gentileza de sair apaixonado pelo mundo e pela vida.
Querer abraçar toda a gente.
Foi um tempo de uma candura que eu gostaria que pudesse ser perpétua, mas não faz muito sentido, porque o mundo não está para canduras.
Muito bem, vamos seguir. 10 pontos.
Está a correr muito bem.
Está a correr muito bem. Valter Hugo Mãe, que século recebeu o nome de Século das Luzes?
O Século das Luzes é o século XVIII.
Certíssimo.
Bem.
O do Iluminismo. De grandes pensadores. E qual é o Século dos Imbecis, que é o título do novo romance, que está aqui, que o Valter Hugo Mãe teve a simpatia de nos trazer e o editor. Qual é? É este que estamos a viver?
Ora bem.
Ora bem, temos tempo.
Eu já não estou naquela fase de amar toda a gente, mas também nem odeio toda a gente e muito menos quero ser odiado. Mas o meu livro propõe uma alegoria que nos pode levar a pensar se arriscamos a ser um século de mais imbecis do que os séculos anteriores. Eu estou convencido que todos os séculos têm os seus imbecis de estimação e eventualmente todos os séculos perigaram à história na mão dos imbecis.
São mais visíveis os imbecis.
São despudorados. A imbecilidade, a partir do ponto de vista da ignorância, perdeu a vergonha e ganhou autoestima. Porque estamos habituados a ver na história a ignorância ter noção.
Ter vergonha.
Ter noção de que se soubesse seria melhor, eventualmente, teria outro decoro. E hoje dá uma sensação de que estamos no elogio fácil. Estamos no brio dos imbecis, os imbecis empoderados como se fossem, eventualmente por presumirem que são a maioria, eu ainda acredito que não, mas por presumirem que são a maioria, pretendem inclusive assumir o poder.
Isso é fruto destes tempos novos, tecnológicos, em que toda a gente publica, toda a gente tem acesso a muita informação, provavelmente a pouco conhecimento.
Somos todos emissores. De repente, não há um recetor puro, toda a gente tem a sua estação emissora e faz a sua própria reportagem, reporta a sua vida de um ponto de vista de alguém que tem alguma coisa para dizer ou que é pertinente emitir. Mas eu acho que o grande ponto é que A emissão é feita a partir de chavões, de uma espécie de lógica de repetição ou de imitação, uma coisa mimética, em que se reproduzem determinados conceitos que na maioria das vezes são só preconceitos. E por isso, ao invés de se pulverizarem os sentidos e se ampliarem os sentidos, uniformiza-se e padroniza-se todas as coisas. E por isso, em vez de propendermos para uma humanidade mais variada, propendemos para algo mais afunilado, em que encarneiramos todos pela mesma bitola.
E ao mesmo tempo que assistimos a essa pulverização da opinião e toda a gente imita a opinião, também assistimos a uma tentação de limitar, de silenciar os outros, o que pode parecer paradoxal.
Completamente. Porque entramos depois na era dos fanicos, em que toda a gente se radicaliza e o radicalizado é um indivíduo que sofre de fanicos, que não suporta qualquer contrariedade. O que é típico da infância e o que confere à adultez contemporânea uma dimensão infantil um pouco insuportável.
Estamos a tornar-nos um pouquinho infantis na relação com os outros.
Sim, e connosco mesmo. Eu vou dizer isto e metade dos meus amigos vão ter pequenos abalos sísmicos.
Fanicos.
Fanicos. Mas eu encontro cada vez menos diferenças entre os pais e os filhos, no sentido em que os pais pedem a mesma PlayStation de presente de Natal. Eu nunca coincidi verdadeiramente com o meu pai nos desejos de Natal, até pelo menos aos meus 20 anos, em que eu efetivamente poderia gostar de receber um tabuleiro de xadrez. Mas imaginar o meu pai, por exemplo, com uma PlayStation ou com uma Wii Station. Eu nem sei bem os nomes, eu estou a dizer isto porque são coisas que eu acho que não existem.
Mas essas existem todas.
Isto existe. Mas eu imaginar o meu pai aos pinchos numa coisa daquelas e aparecer o Darth Vader, é algo que destituiria o meu pai dessa dimensão tutelar. Eu via o meu pai, mesmo que ele tivesse uma formação acadêmica menor do que a minha, para mim, ele sabia tudo muito mais do que eu, porque havia associado uma sensatez, uma profundidade e uma experiência da vida, que lhe conferia uma capacidade, de facto, de se proteger e de me proteger, que eu não vejo bem nos meus amigos aos pinchos com esses gadgets. Não sei.
Estas horas estão elas aí! Muito me contas.
Agora entenderam porque é que eu nunca aceito os convites para jogar. É que eu não tenho nem saúde para me pôr aos pinchos, dói-me logo a cabeça, dá-me vertigens. Não dá.
Vamos em frente, Valter Hugo Mãe. Está com 15 pontos, está a correr muito bem. Em que ano foi lançado o ChatGPT?
Lançado ao público. Claro.
Ora bem, eu sou péssimo nisso, porque eu penso sempre que foi há pouco e depois já foi há muito. Mas eu vou dizer que foi 2023, por exemplo.
Quer uma ajuda?
Eu posso ter ajudas? Quero.
2020, 2022 ou 2024.
Como eu disse com mais veemência 2022, eu vou optar por 2022.
Apostou-se muito.
Errei ali por um bocadinho. Porque eu ia dizer 1 de janeiro de 2023, já que não deixaram completar.
E foi em novembro de 2022.
Eu senti que era mesmo ali.
A inteligência artificial é uma ameaça real ao futuro dos livros? Corremos o risco de ter mais livros sem alma?
Já temos tantos.
Mais.
Graças à inteligência artificial.
Nós próprios já produzimos muita coisa sem alma. Eu acho que a inteligência artificial só é um perigo se nós formos um perigo. Se nós, enquanto gente, continuarmos a querer ser perigosos, a inteligência artificial vai corresponder a essa nossa vontade.
Depende do uso que lhe damos.
É, o uso que lhe damos, o que queremos dela. A mim fascina-me que ela nos possa analisar e propor curas para doenças intrincadas. Comecei por pensar que a inteligência artificial não poderia produzir um livro válido, porque ela não teria acesso à dúvida, ela não saberia lidar com a incompletude, com o abstrato de uma solução, com a abertura que uma solução pode conter, ou então com o simplesmente não encontrar solução alguma. E isso é típico da humanidade, isso define-nos, e isso vai sempre ser o que está em causa num grande livro Mas a verdade é que todos nós nos fascinamos por coisas que foram sempre feitas de um modo postiço, coisas postiças. Desde a infância, os desenhos animados não são senão uma postice absoluta, extrema. Sempre nos fascinamos por bonequinhos absolutamente, nem é improváveis, é impossíveis. Os Dragon Ball, por exemplo, não podem existir. E por isso nós somos propensos ao fascínio por aquilo que é só imaginário. O que significa que a inteligência artificial nos vai fornecer, e já fornece. Eu já sigo um indivíduo que faz umas imagens, uma espécie de ilustrações que são de inteligência artificial e que são absolutamente deslumbrantes. Se é perverso que aquilo seja deslumbrante, eu não sei. A verdade é que ele me oferece, a partir da maneira como ele manipula aquela plataforma, uma visão absolutamente deslumbrante. Aliás, todos nós vemos os cãezinhos, os gatinhos agora a falar e a rir.
Sim, e os bebês.
E os bebês. E todos nós adoramos ver aquilo e ficamos lichados de adorar ver aquilo.
Ficamos viciados.
É, eu li livros suficientes para saber que isto é uma porcaria, que isto é contra mim. Mas a verdade é que é tão bem feito contra nós. É uma guerra contra nós tão bem montada, que eu não sei como é que nós vamos conseguir deter isso. Eu continuo a achar que podemos, no limite, eventualmente, pressentir que um livro vem de alguém e outro vem de uma máquina, mas não sei se daqui a uns anos, já que isto está tão a começar.
Não poderá evoluir a ponto de não conseguirmos distinguir.
Talvez. Eu não sei se vocês sabem, mas o ChatGPT foi inventado em 2022.
Dizem que sim.
É quase nada.
Duvido é se não foi em 2023.
Mas se foi, foi em janeiro.
Valter Hugo Mãe, vamos avançar para a última pergunta. Quantos pontos até agora, Maria João? 17 pontos. Pode chegar aos 22. Esta tem aqui um saborzinho de polêmica, mas não vamos pelas polêmicas. Vamos chegar ao outro lado. Como se chamava o livro de João Pedro Jorge sobre a obra de Margarida Rebelo Pinto?
"Covas e Alforrecas: os segredos da escrita de Margarida Rebelo Pinto".
Não estava aqui o subtítulo. Foi editor do livro. Não vamos entrar na questão das polêmicas, mas o Valter Hugo Mãe foi editor. Creio que antes de publicar. Trabalhou na Quasi, com o Jorge Reis Sá. Divulgou muitos poetas. Eu devo conhecer alguns dos poetas que mais admiro, conheci-os através da coleção da Quasi, como o Manuel Barros.
Editamos muita gente, sim.
Ou o Eucanaã Ferraz.
Durante um tempo, foi um projeto muito bonito.
Tem saudades do tempo como editor?
Eu tenho saudades de tudo, o que não significa que queira regressar. As saudades têm esta coisa complexa. A gente tem saudades exatamente porque nem tudo se pode recuperar. Só tenho saudades porque aquilo não me volta a acontecer. Mas tenho, claro, foi muito bonito, foi um tempo de muita descoberta, foi o tempo em que eu pude aproximar-me de alguns autores que eu admiro. Eu sou um pouco fetichista nesse aspecto. Eu, admirando as pessoas, tenho algum gosto em cumprimentá-las, em conhecê-las. É bem parolo, eventualmente, mas é como ver a Taylor Swift e querer apertar-lhe a mão. Vou dizer assim. Ou a Lady Gaga.
E qual foi esse autor em que se sentiu mais realizado ao conhecer? Que tinha mesmo muita curiosidade em conhecer pessoalmente.
Eu poderia dizer muitos, mas eu vou lembrar duas pessoas. Caramba. O Urbano Tavares Rodrigues, que eu encontrei por algumas vezes e era um príncipe. Se há nobreza na humanidade, a nobreza está toda naquele homem. Era de uma elegância, de um trato educado, de uma alegria de encontrar as pessoas, de uma gentileza absolutamente fascinante. Eu vi-o poucas vezes, não posso dizer que tínhamos sido amigos, porque não fomos. Eu era muito novo, ele já era um senhor bastante mais velho, mas é uma pessoa que me honra muito ter conhecido um dia. E vou dizer o Ariano Suassuna, o brasileiro, que eu à última da hora troquei um cachê bastante milionário por um encontro com ele, porque me convidaram para um festival e eu lembrei-me. O Ariano já estava doente, tinha vindo de um internamento longo, morreu pouco tempo depois. E eu disse: "Olha, eu só vou aceitar esse convite se o meu cachê for um encontro com o Ariano, nem que seja por cinco segundos". E foi tão doido que quando disseram à família do Ariano e disseram ao Ariano que um careca português estava a abdicar de um cachê só para olhar cinco segundos para ele, o tipo disse: "Eu é que quero conhecer esse homem". E eu estive uma hora à conversa com ele à custa dessa loucura e valeu muito a pena. Lá está, talvez seja só um fetiche tolo de um menino que cresceu longe, sem acesso a muita coisa, mas é como ter estado uma hora na Muralha da China ou no Taj Mahal, ou sei lá, ou nos Clérigos. Como é que se chama aqui? Os Jerónimos.
E nós também estávamos uma hora à conversa consigo, Valter Hugo Mãe. Foi muito bom tê-lo connosco.
Mas eu ganhei alguma coisa com isto?
22 pontos.
Ó mocinhos, vocês têm que começar a dar assim uma coisa qualquer.
Já demos para o seu ex-nota, mas não acabámos.
Uma caneta. Eu vou levar esta caneta.
O cachê foram 20 minutos connosco.
Obrigada por ter vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado.