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José Manuel Fernandes gosta de estar contra a corrente, mas suspeita que hoje vai estar mais contra a corrente do que é habitual. E é tudo por causa do Novo Banco, não é?
É, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. O Novo Banco tem sido moda fita nos últimos dias, eu diria mesmo que nos últimos meses, para não dizer mesmo nos últimos anos. Por exemplo, todos nos recordamos que há uns meses, aquele dramalhão político que foi a entrega por Mário Centeno dos 800 milhões de euros ao Novo Banco. Toda a gente veio gritar, esquecendo que era uma entrega que estava prevista no Orçamento de Estado e que até estava prevista num contrato com o Lone Star que já tem três anos. Era uma coisa que estava perfeitamente normalizada. O primeiro-ministro fez de conta que não sabia nada, o presidente da assembleia resolveu-se com o primeiro-ministro. Foi um dramalhão que não tinha sentido nenhum. Ou melhor, vendo bem, eu acho que foi uma encenação. Aliás, disse isso na altura e cada dia que passa essa encenação faz mais sentido. Eu acho que os políticos, mas sobretudo os governantes, estão a fazer, em todo este processo, de virgens ofendidas, mas desde sempre que sabiam que havia esta fatura pra pagar.
E de que fatura é que estás exatamente a falar?
Vamos ter que pôr isto um pouco em perspectiva, porque aquilo que se está a passar é que estamos a falar de uma fatura, que é a fatura do lixo do BES. E a fatura do lixo do BES estava no Novo Banco. Esse é que é o problema. Desculpe ser direto e um bocadinho bruto, mas é essa fatura que nós ainda estamos a pagar. Aqueles 850 milhões que pagámos já este ano e os milhões, muitos milhões, que hão de ser pagos no ano que vem, não são surpresa nenhuma. E há uma maneira muito simples de vermos isso. Eles estavam previstos. Enfim, não exatamente ano a ano quanto é que ia ser pago, mas todos estavam previstos em 2017, quando Mário Centeno, ao lado de António Costa, venderam o Novo Banco ao Lone Star. E para isso, quem não tem memória, pode fazer um exercício que é: googla e descobre a conversa de imprensa que Costa e Centeno deram na altura da venda, que foi em março de 2017. E nessa conversa de imprensa, há uma passagem que é muito esclarecedora. António Costa explica que se fosse nacionalizar o Novo Banco, eu agora cito: "Teria que colocar lá entre 4 e 4,7 mil milhões de euros." 4 e 4,7 mil milhões de euros. E por que ele ia ter que lá pôr tanto dinheiro? Ia ter que lá pôr tanto dinheiro para cobrir as necessidades de capital do banco nos anos a seguir. Ora bem. Ou seja, o primeiro-ministro estava a dizer que o Novo Banco, naquela altura, ainda tinha um buraco que era quatro ou cinco vezes mais, em termos de necessidade de capital, do que os mil milhões de euros que o Lone Star lá estava a pôr naquele momento.
José Manuel, mas o que queres dizer com isso de necessidades de capital?
No fundo, é aquilo que eu já estou a dizer. O banco ainda tinha um buraco nas suas contas que quase não se via o fundo. Aquilo que se fez em 2017, se quiseres, foi uma espécie de opção política, ou melhor, uma opção política e orçamental. Em vez de reconhecer esse buraco todo de uma vez, porque já se sabia que ele existia, portanto, tanto que sabia que o primeiro-ministro falou dele e até quantificou, deu-se uma garantia ao Lone Star que conforme ela fosse limpando os ativos do banco, que é o que ela está a fazer, o Estado ia compensando a Lone Star dos prejuízos até o máximo de 3,9 mil milhões de euros. Repara, 3,9 mil milhões de euros mais mil milhões de euros dá 4,9 mil milhões de euros, portanto estamos muito perto dos 4,7 mil milhões de que falava o primeiro-ministro. Isto foi uma forma de ir tapando o buraco às prestações. É, no fundo, do que estamos a falar. Para quê? Para pagar um preço orçamental mais pequenino, para não ter que vir tudo ao orçamento num ano só. Só que ano após ano, esta fatura começou a escaldar politicamente. E então António Costa, no fundo, o que ele fez foi esquecer aquilo que tinha dito em 2017, esquecer o contrato ou fazer-se esquecido, e então começou a pedir auditorias e agora até vai pedir um inquérito ao Ministério Público.
Certo, mas não achas inexplicáveis estas vendas de imobiliário por metade do preço?
É preciso ter calma e ir um pouquinho mais devagar, porque há muita demagogia, muito populismo e muita poeira no ar. Ponto um: eu acho muito bem que se façam auditorias a todos os negócios do Novo Banco. E esta que era para ter saído ontem e não saiu, são negócios do Novo Banco e do BES e vão até 2000, incluem coisas que já deviam ser conhecidas na altura da venda. Muita coisa que é pena que não conheçamos já hoje. E é bom por quê? Porque nós estamos a pagar uma fatura e é bom sabermos se o preço que vem na fatura é justo Mas agora é bom termos consciência que, por exemplo, no caso daquele imobiliário, pelo que sei, aquele imobiliário estava subvalorizado no balanço do banco. Por quê? No fundo, é bom não esquecer que no banco, no BES, que é o banco que estamos a falar, desapareceram milhares de milhões de euros. Ainda na semana passada falámos disso por causa do processo do BES. Ora, se desapareceram milhares de milhões de euros é porque foram feitos empréstimos que não deviam ter sido feitos e foram dadas garantias com hipotecas que valiam muito menos do que esses empréstimos que foram dados. Portanto, é isso que são, no fundo, as chamadas imparidades. É isso, no fundo, os ativos que não valem nada, que estão agora a ser vendidos. Portanto, é natural que haja vendas com prejuízo e não há escândalo nenhum que isso aconteça, já se sabia que ia acontecer. Mais, a venda de que se falou esta semana ao público não foi um ajuste direto, como às vezes as pessoas parece que pensam, foi um leilão competitivo. Havia vários compradores. Que até os outros confessaram menos, portanto, ganhou aquele comprador. É preciso ter cuidado com julgamentos apressados. Eu acho que tudo deve ser investigado, mas também às vezes vejo as coisas todas com muita pressa a fazer esses julgamentos. Também duvido, por exemplo, que toda a gente fala de compradores anônimos. Eu duvido muito que sejam compradores anônimos, que ninguém saiba quem é que está por trás daqueles fundos, porque se isso for verdade, se o banco não souber quem é que são os donos dos fundos, isso é um crime internacional. Não é um crime apenas nacional, é internacional. Portanto, duvido que seja assim. O jornal pode não saber, mas que o banco não saiba acho duvidoso. Mas enfim, acho que nos desviamos agora do que importa, porque o que importa neste momento, e é aquilo que eu queria centrar, é a hipocrisia e o cinismo de tudo isto, sobretudo dos políticos e sobretudo de António Costa.
Ou seja, José Manuel, na tua perspectiva, António Costa sempre soube que tinha que pagar esta fatura, é isso?
Claro que é isso. Quando foi a venda do Novo Banco, ninguém tinha dúvidas que ele onde estar iria usar, e usar generosamente, a possibilidade de reaver até, como disse, os tais 3,9 mil milhões de euros do dinheiro que pudesse perder ou tapar os buracos do Novo Banco. Nessas coisas não há ingênuos. Isso estava no contrato. E nem sequer estava em letras pequeninas, nem sequer estava escondido. Toda a gente noticiou. Eu lembro-me na altura de ter falado sobre isso. Era tão público, tão evidente, que na altura até o BCP avançou com uma queixa na Comissão Europeia, porque esse dinheiro supostamente é para ser pago pelos bancos através do fundo de resolução. Só que era a solução conveniente, era a solução orçamentalmente conveniente, politicamente conveniente e, portanto, não se fez muitas ondas. Estava tudo perfeito, se não fossem agora estas notícias dos jornais, se não fosse o populismo do Rui Rio, se não fossem estas coisas todas. Mas não misturemos o que não deve ser misturado. A fatura que está a ser paga ao Novo Banco é fruto de uma escolha política e é fruto de se ter preferido pagar o buraco em prestações. Essa fatura pouco ou nada tem a ver com fundos imobiliários e com offshores. Quem tem de responder pelas operações imobiliárias é a administração do banco, mas não nos atirem areia para os olhos. Por mais prejuízos que elas tenham dado, elas são uma gota d'água no oceano das prestações que já eram devidas pelo contrato assinado em 2017. E nesse contrato de 2017 estão dois nomes que não podem nem devem escapar entre os pingos da chuva. E esses dois nomes são Mário Centeno e António Costa. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.