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Oito e um quarto. Está altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem que ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Carla. Desde a queda da União Soviética, há mais de 30 anos, que Cuba não vive dias tão críticos. Sem o apoio de Maduro e sem o petróleo venezuelano, pressionado pela América do Trump, o regime anunciou aquilo a que os cubanos já se habituaram: tempos difíceis, mas mais difíceis ainda porque já não há jet fuel nos aeroportos. As companhias desviam aviões, há hotéis a fechar e turistas a deixar a ilha, secando aquela que é a maior fonte de receitas do país. Não é a primeira vez que Havana enfrenta dias de imensa penúria, mas ainda antes estava Fidel vivo. Agora mesmo, o irmão Raul também já deixou o poder e Miguel Díaz-Canel, o sucessor, não parece ter o carisma dos antecessores. No Contracorrente de hoje, queremos perceber se o que se passa em Cuba pode mesmo levar à queda de uma ditadura que já bateu quase todos os recordes de longevidade. José Manuel, bom dia. Será?
Bom dia.
Será, depois de Venezuela, Cuba?
A situação é muito diferente e temos que ver mesmo até que ponto é diferente, porque num caso estávamos perante um regime, que é o caso do regime venezuelano, que nunca se consolidou no poder da mesma forma que o regime cubano, que tinha um tempo de permanência muito mais curto e onde os Estados Unidos prepararam uma operação cirúrgica que vimos, de tipo único, com um antecedente, que era o Panamá, mas também com as suas características algo diferentes, e o regime mantém-se numa fase que não sabemos bem como é que aquilo vai acabar. Porque, para já, os maduristas ainda estão no poder. Se bem que obrigados a algumas reformas e algumas alterações de políticas. Cuba é muito diferente. Cuba não tem os recursos naturais que tinha a Venezuela. Cuba está, como tu referiste, de resto, uma ditadura há muitos anos. Estamos a falar de algo que dura há 67 anos. E 67 anos são várias gerações e cria uma situação muito particular que é, ao contrário do que sucede em algumas ditaduras, não há praticamente oposição na ilha, porque foi destruída sucessivamente, arrasada sucessivamente. A repressão é brutal. E além disso, as oposições no exterior não têm, ao fim de 67 anos de exílio, características que lhes permitam dizer assim: "Bem, se o regime cair, há alguém para ocupar aquele lugar." Isso não acontece. A situação em Cuba é absolutamente dramática, mas quando digo dramática, é dramática mesmo. Quer dizer, estamos a falar de um país onde o rendimento, neste momento, médio é de meio dólar por dia. Ouviste bem, meio dólar por dia, $16 por mês. Portanto, não é nada. Estamos num estado em que o petróleo, que é a principal fonte de energia, depois não há, agora, de repente, descobriram que vão também ter energia solar, energia eólica, mas o petróleo deixou de chegar da Venezuela. O México também está sob pressão dos Estados Unidos e, portanto, de repente, ficou reduzido a 40% daquilo que era. Como é que tu perdes, de repente, 40% das tuas fontes de energia? Quer dizer, para já, o que temos é blackouts, isto é, o país, a ilha, sem eletricidade durante, às vezes, 16 horas seguidas. Os transportes de longa distância pararam, pura e simplesmente, as pessoas vão a pé. As filas para abastecer os automóveis, que aliás, são poucos e são antigos, não são filas, tem que se criar um cartão, ter uma aplicação, ter uma lista de espera e depois consegue-se abastecer uma vez e depois é capaz de se estar, eu vi agora um dado, um exemplo, alguém que abasteceu outra vez há cinco meses e ainda está no lugar 5000 para abastecer a próxima. Pura e simplesmente, os carros também estão parados, já encostaram. Não há luz durante o dia, há blackouts. Blackouts de 16 horas, 20 horas. Os hotéis começaram a fechar. Não há jet fuel, como tu referiste, e os turistas estão a vir embora. As companhias aéreas e as agências de viagens estão a arranjar forma de os tirar de lá, inclusivamente aos poucos portugueses que lá estão. Até os russos estão a vir embora. Como é que isto aguenta? Aguenta porque de facto a repressão é muito grande. Os sinais, como aqui e além, no passado, nos últimos 10, 12 anos, houve de alguma abertura, alguma evolução, desapareceram todos. Mas simplesmente, a própria oposição não sabe se deve continuar a apertar a tarraxa para que aquilo caia de vez ou se deve procurar dialogar, mas dialogar com quem. E no meio disto tudo, surpresa, surpresa, de quem é que se fala? Olha, daquilo que às vezes se fala nas ditaduras, dos herdeiros, dos Fidéis. O Fidel Castro já morreu. O irmão está com quase 100 anos, mas também já deixou o poder e passou a Miguel Díaz-Canel Há quase 10 anos. E agora fala-se do seu filho, de um filho de Raúl, Alexandre Castro Espín, que poderia estar a falar até com os Estados Unidos, e fala-se de um outro chamado Óscar Pérez Oliva Fraga, que é um sobrinho neto de ambos, é neto da irmã mais velha dos Castros, e que nem sequer tem Castros no nome, tem outros apelidos, mas toda a gente sabe que é da família. E isto, em ditaduras comunistas, parece ser uma espécie de norma. Ainda ontem também soubemos que o ditador norte-coreano indicou a filha, que ainda é adolescente, é uma miúda, é uma rapariguinha, como sua sucessora. É assim que eles tratam. É uma dinastia completa e descarada, sem pudor, sem vergonha, sem nada. É assim que estamos, infelizmente para o povo. Eu já estive em Cuba uma vez, já foi há bastantes anos, há 25 anos. Já vi na altura que tinha que lá ir antes de Fidel morrer, depois ainda viveu muitos anos e o regime não caiu, mas pude ver como aquilo era e agora está ainda muito pior, muito mais dramático para o povo cubano. E mesmo aquilo que tem sido a válvula de escape, que é fugir e depois mandar umas remessas, uns dólares para ajudar as pessoas lá, mesmo isso está a ser capturado pelo próprio governo, que inclusivamente às empresas, nomeadamente empresas de turismo que foram investindo nos últimos anos, não as deixa transferir para fora do país as receitas que têm e portanto, o estrangulamento é total, como se costuma dizer. Mas não é claro que possa haver uma mudança, porque tudo foi queimado à volta. É um deserto absoluto. Foi o terror durante muito tempo e nós vimos que, por exemplo, quando olhamos para a queda dos regimes comunistas, que nos países onde havia ainda alguma memória dos regimes anteriores, como era o caso da Europa de Leste, da Polónia, da Hungria, da República Checa, houve quem substituísse e pudesse fazer reformas no sentido da substituição. Onde a ditadura tinha durado muito tempo, que foi o caso da Rússia, aconteceu o que aconteceu. Passado uns tempos, estávamos todos outra vez na mesma, ou parecido. O regime agora não é propriamente comunista, mas é de uma ditadura na mesma. Como diz o Sabem, uma coisa que os cubanos estão sempre a dizer: não és fácil. E de facto, não é fácil.
Não é mesmo. Até já, José Manuel. 91 002 41 85 para entrar em direto, mas já sabe que também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador.