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Contracorrente de segunda a sexta-feira com o José Manuel Fernandes e que é aberto aos ouvintes depois do jornal das 10. Pode participar com a sua opinião através do 91 002 41 85.

A agressão foi brutal e as imagens do rosto ensanguentado de um habitante da localidade espanhola de Torre Pacheco, rapidamente difundidas pelos órgãos de informação tradicionais e também nas redes sociais, foram o rastilho para a explosão de violência que se seguiu. Tudo porque os agressores tinham sido três jovens marroquinos e em Torre Pacheco, cerca de um terço da população é também de origem marroquina. Houve extremistas que viajaram de vários países da Europa para se juntarem naquela vila da província de Múrcia e só um contingente reforçado da Guarda Civil conseguiu repor a ordem. Como que contrastando com esta violência e depois com o radicalismo dos extremistas, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, publicou aqui no Observador um texto importante sobre a doutrina na Igreja, no que diz respeito à imigração e ao acolhimento dos imigrantes, apelando à compaixão, mas também à responsabilidade e sublinhando que é importante mantermo-nos fiéis à nossa cultura e aos nossos valores. Numa altura em que o tema da divisão é marcado cada vez mais e também divide cada vez mais o debate público, queremos no Contracorrente de hoje partir do que nos possam revelar os confrontos de Torre Pacheco, para ver se há forma de os cruzar com aquilo que nos recomenda a Igreja. José Manuel, bom dia, isto parece uma tarefa difícil.

Não é fácil apenas em Espanha ou em Portugal, onde quer que seja, porque nós estamos a assistir, em muitos países, a algo que é uma transformação muito grande e que está a criar grandes tensões. Vamos lá ver. Aquilo que aconteceu em Torre Pacheco, em Espanha, se tu procurares Torre Pacheco no Google, aparece até um local de férias e casas para alugar. Portanto, não tens ideia de que também ao mesmo tempo é um município da província de Múrcia e que Múrcia tem sido um dos locais onde, muito por ser uma das zonas onde se concentram mais imigrantes vindos de Marrocos, e isso tem acontecido sobretudo nos últimos 20 anos, há alguns casos mais do que isso, mas a evolução, por exemplo, da população daquela povoação de Torre Pacheco é de 22 mil habitantes no ano 2000 e já está com 40 mil, portanto, houve ali um grande salto do número de habitantes. Isso não tem a ver com o turismo, tem sobretudo a ver com a agricultura e com os imigrantes que vêm fazer esses trabalhos. Mas quando vais verificar a evolução eleitoral daquela região, verificas duas coisas. Verificas que a província de Múrcia é, desde o princípio, a província espanhola com votações onde o Vox, que é o partido espanhol mais à direita, mais de extrema-direita, com algumas componentes até bastante mais radicais que o nosso Chega. É aí que o Vox obtém os melhores resultados, mas às vezes com alguma distância. Em Torre Pacheco, em particular, também. Muitos desses municípios e a própria região já dependeram, os governos locais que tendem a ser do PP, Partido Popular, o equivalente ao nosso PSD, dependerem do Vox para poderem ser governo, localmente ou regionalmente. E portanto, em boa parte foi ali, depois também um pouquinho noutras regiões do sul, em Almeria, também em Alicante, onde há muita vinda de imigrantes, sobretudo do Magrebe, sobretudo de Marrocos, e sobretudo para a agricultura, que começou a haver esse fenómeno eleitoral, chamemos-lhe assim, mas com votações expressivas que podem chegar aos 30%, nalguns casos que chegaram aos 30%. Portanto, a gente pode dizer que não há correlação nenhuma, mas há obviamente uma correlação, o que mostra que mesmo não tendo havido casos anteriormente naquela povoação de Torre Pacheco, casos complicados, e, aspeto importante, quem desencadeou aquele ato de violência contra o, até às vezes sinto-me um pouco mal, porque toda a gente chama idoso uma pessoa que tem idade.

Sim, tens 108 anos.

108 anos, exatamente a idade que eu tenho. Portanto, vamos lá ver se não me passam a tratar por idoso todos os dias.

Sim. Eu também acho que não faz sentido nenhum, só para te dizer.

É o que se estabeleceu, digamos assim. E nem sequer é de ali, é alguém que vinha de Barcelona. Mas depois também a população local fez uma manifestação, mas pacífica. É natural, há sentimento de revolta depois de um ato daqueles, um ato de violência daqueles, nada de fora do comum. O pior foi quando vieram uns ultras, literalmente ultras. Alguns vieram de outros países da Europa, alguns estavam ligados àquilo que nós sabemos há muito tempo que existe, mas olhamos para o lado, e existe também cá em Portugal, que são claques dos clubes de futebol, cheios de tatuagens, todos com toda uma estética ultra e que foram lá para a pancada, basicamente Sem qualquer tipo de pancada racial, racista, dirigida especificamente contra pessoas que não tinham responsabilidade nenhuma e que eram pacíficas. Aquilo é a ponta de um iceberg de um problema mais complicado que há em muitos locais da Europa, que em muito poucos anos o número de cidadãos de fora da Europa que chegaram à Europa aumentou imenso. E quando falamos disto, sabemos que houve vários modelos diferentes em vários países de tentativa de integração. Há um modelo mais republicano, que foi o modelo mais francês. Quem chegava tinha que ser francês, basicamente. Um modelo mais intolerante com os símbolos religiosos ou menos tolerante com os símbolos religiosos, com mais obrigações relativamente à língua e aos costumes. E depois tivemos também modelos ditos mais multiculturais, como era o modelo inglês, em que em alguns casos se chegou ao limite que também hoje estão a causar imenso mal-estar, como os que tinham a ver com um tema que até já falámos no outro Contracorrente, que eram aquelas gangues de violação que existiam em algumas cidades do norte do país, situações em que se chegava a tolerar que houvesse tribunais de Sharia a par com os tribunais legais no Reino Unido. E em ambas as situações, nós temos uma parte significativa da população que se sente tão mal que vai apoiando partidos extremistas ou partidos muito anti-imigração. E em Espanha, por exemplo, nós temos a maioria dos eleitores, mas uma maioria muito expressiva a falar em repatriação de ilegais. 70%, é mais de dois terços, e com maiorias, mesmo entre os eleitores do Partido Socialista Operário Espanhol. Há aqui um problema que não se pode olhar para o lado, e se quiseres que eu te diga, houve quem falasse dele há muitos anos, de outra forma, pensando mais em guerras do que propriamente em imigração, mas a propósito até de um texto de João Miguel Tavares ontem no Público, eu voltei a um livro que já não pegava nele há muito tempo, um livro que se falou muito há 20 anos, mas que foi escrito há 30 anos, chamado "Choque de Civilizações". E é incrível como muito do que lá está nos ajuda a perceber o que nos está a acontecer hoje. Na altura falou-se muito dele por causa dos ataques de 11 de setembro, mas nós quando olhamos para todas as zonas de fronteira que lá estão definidas, não é só com as fronteiras do Islão. É tudo. É as fronteiras do Islão, é as fronteiras entre as áreas do confucionismo e do hinduísmo, entre o hinduísmo e o Islão, entre o Islão e a zona africana, entre a América do Sul e a América do Norte, civilizações que ele identificou como sendo com sinais de alguma distinção, e que percebemos que nas zonas de fronteira há fricções, e as fricções não têm que ser guerras como até aconteceram na Europa, a guerra da Bósnia, por exemplo, mas podem assumir outras características. E por isso é que é tão importante o texto do Patriarca de Lisboa, porque é um texto que eu acho que de tudo que eu vi publicado nos últimos tempos, e vi muita coisa publicada, é um texto que eu creio que é particularmente equilibrado e sensato, porque ao mesmo tempo que nos chama a atenção para a necessidade da compaixão, para a necessidade da integração, para a necessidade de olharmos para os outros como seres humanos que procuram melhores vidas, sublinha outro aspecto que é muito importante e que infelizmente em muitos lugares se esqueceu, é que a integração tem que ser feita de acordo com aquilo que são os valores que nós partilhamos, nalguns casos há séculos. Há décadas, há séculos. São valores da nossa convivência. Não são iguais em todo lado, não são iguais em todo o mundo e não vamos fazer a tal mistura multicultural, como mais da cabeça se fala, que manifestamente está a dar mau resultado. E além disso, está a dar mau resultado porque muitas pessoas das comunidades que cá vivem, que muitas vezes querem defender aquilo que são os seus hábitos, se sentem mal. Não quer dizer que haja violência, não quer dizer que hajam acontecimentos como aquelas agressões de Espanha para existir mesmo assim mal-estar. E o mal-estar pode ser o caldo de cultura para depois soluções que são extremistas, racistas, xenófobas, e essas acabam por ainda agravar mais tudo. Acho que isto é um debate muito complicado. É um debate que não é feito só de dados objetivos, também é feito daquilo que são a perceção das pessoas. Em política, o que parece, é. Meu Deus, às vezes é preciso repetir isso 300 mil vezes, mesmo a quem está sempre a achar que só se pode fazer política se tivermos antes um estudo académico. Não é assim, nunca foi assim.

E vai ser sobre isto que vamos falar.

Vamos falar melhor sobre isso a seguir.

Até já, José Manuel.

É depois do Jornal das 10, Contracorrente, que o convida a participar através do 910 002 4185.