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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Sou Luís Soares e connosco temos hoje Maria Isabel Tavares, professora de Direito Internacional da Universidade Católica do Porto. Boa tarde, Maria Isabel, bem-vinda a este Gabinete de Guerra. Começamos com as eleições em Israel, que estão a decorrer no dia de hoje, aparentemente estão a ser as mais participadas de sempre. Que sinal é que isto nos pode dar para um resultado final que sabemos que ainda poderá demorar muito tempo até se perceber quem é que irá efetivamente governar o país no final deste ato eleitoral?

Boa tarde, Luís Soares, obrigada pelo convite e pela sua pergunta. Não há dúvida que estas notícias em relação à participação e ao nível da participação, que já ultrapassa a participação das eleições de 2022, são sinais muito, creio eu, expressivos. Expressivos da importância que diferentes grupos, por diferentes razões, atribuem a estas eleições. Devemos recordar que são as primeiras eleições depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, depois de todas as iniciativas bélicas de Israel em relação a vários Estados vizinhos e também não posso deixar de referir a questão dos ataques a Gaza e o uso da força totalmente desproporcionado em Gaza, e mesmo ainda hoje, as notícias que temos a propósito da Cisjordânia. O facto de serem as mais participadas de sempre pode ter um efeito imediato e direto, por assim dizer, porque considerando a forma como os votos são contados, se o universo de votantes for maior, isto pode significar para os partidos com menor representação não conseguirem alcançar os votos necessários para estarem representados no Knesset e por isso isto pode ter um impacto direto. Por outro lado, até pelas reações que nós percebemos, é que aparentemente o que está a acontecer é que as comunidades árabes estão a ir votar de uma forma massiva, e isso é relevante, e percebemos isso, por um lado, porque nessas regiões das comunidades árabes, estes dados sobre a afluência às urnas confirmam esta forte afluência e, por outro lado, pelas reações, nomeadamente do próprio Benjamin Netanyahu e do Likud, de uma reação, quer nas redes sociais, quer publicamente, de criar o medo, dizer que a esquerda e os árabes estão a assaltar as eleições, a pedir para se ir votar. Isto aparenta ser um sinal, embora, como refere, nós só saberemos os resultados finais daqui a algum tempo, mas sabemos que nestas coisas os partidos estão bem informados e parece ser um sinal de que esta forte afluência não parece representar boas notícias para Benjamin Netanyahu e o seu projeto de se manter no poder.

E nesse sentido, Maria Isabel, qual é o impacto do resultado final desta eleição para o futuro da região e para o futuro também do conflito com o Irão? Enfim, será sempre diferente caso os israelitas sigam uma ou outra via?

Se nós olharmos para aquele que aparentemente poderá vir a ser, que é o líder da oposição e da aliança ou da coligação que pode superar Benjamin Netanyahu, Isaac Herzog, nós sabemos que se trata de um partido de direita e a própria figura de Isaac Herzog é impossível esquecer que se tratou de um chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, das IDF, com uma posição e até com a defesa de algumas doutrinas bastante desproporcionais, nomeadamente do ponto de vista do combate ao Hezbollah no Líbano. A alteração não será tão radical, será certamente menos bélica, eu diria, menos belicista, mas, por exemplo, é notório que nenhum destes partidos coloca a questão ou traz a questão, ou tem uma solução, por exemplo, para um Estado palestiniano ou, por exemplo, em relação a Gaza, a questão da desocupação do território. Na verdade, a ideia de uma alteração radical não parece, parece-me certamente, e em relação ao Irão em concreto, que haverá uma tendência menos bélica ou belicosa, se quisermos, em todas as frentes. Até porque nós sabemos, e aqui sim podemos dizê-lo, que a questão com o conflito do Irão, os relatos que teremos e que temos é que o presidente Trump terá tentado evitar, apesar da pressão de Benjamin Netanyahu, de atacar o Irão nesta fase, ainda antes destas eleições. E sabemos também que o presidente Trump apoiou publicamente Benjamin Netanyahu. Sabemos também que J.D. Vance não o fez publicamente e, por outro lado, Isaac Herzog também disse que, embora tenha pedido que essa tomada de posição pública não fosse tomada, por entender que isso interferia diretamente e podia ser entendido como uma interferência nas eleições israelitas, também disse claramente que caso ele vencesse, isso não poria em causa as boas relações que Israel teria com certeza com o seu grande aliado, que são os Estados Unidos.

E falando nos Estados Unidos, Maria Isabel, continuam a ser muitas as notícias que apontam para um possível ataque norte-americano contra o Irão depois das intercalares. A CNN diz mesmo que as forças norte-americanas no Médio Oriente estão preparadas para atacar o Irão em 96 horas, caso Donald Trump dê essa ordem. É de esperar esse ataque e será essa uma forma de pôr fim ao conflito ou, como o líder supremo do Irão dizia, que está a levar o inimigo ao desespero, será um sinal de desespero por parte dos Estados Unidos ou poderá ser entendido assim?

Se calhar podemos começar por esta parte final, a reação do líder supremo, as declarações do líder supremo, que eu enquadro no meio de uma retórica política muito particular do Irão e, por isso, sinceramente, não qualificaria isto como desespero por parte dos Estados Unidos, até porque me parece evidente que como as coisas estão, o que é mais provável é que, de fato, se reinicie umas hostilidades abertas entre os Estados Unidos e o Irão. Portanto, que os Estados Unidos vão voltar a atacar o Irão, até porque repare, essa ideia de que nós temos notícias, basta olharmos e procurarmos perceber o empenhamento das forças e a colocação das forças dentro da região por parte dos Estados Unidos. E até nós aqui em Portugal, se pensarmos nos aviões reabastecedores e como nos apercebemos como a base das Lages é fundamental do ponto de vista logístico para o reabastecimento das aeronaves de ataque, percebemos que temos uma grande concentração de aviões reabastecedores na base das Lages. E portanto, de um ponto de vista factual, parece que os passos estão a ser dados e as forças estão a ser concentradas nesse sentido. Quanto a se tratar de uma situação em que dentro em breve, ou seja, nos próximos dias, eu sinceramente creio que, considerando que ainda não foi lançado o ataque, que Donald Trump esperará pelas eleições intercalares para tomar esta decisão. Ou seja, não me parece, mas é a minha opinião.

Que restam dias oito dias.

Exatamente. Portanto, até à próxima semana, sinceramente, parece-me que a questão não depende só de Israel, nem dos resultados de Israel, dependerá também da própria presidência norte-americana e da própria administração norte-americana, e considerando a forma como o desenrolar das últimas semanas de campanha nos Estados Unidos estão a decorrer, eu diria que isso apontaria para que esses ataques sejam só depois das intercalares. Porque me parece que o ganho que poderia haver de ser antes das intercalares não seria um ganho de uma semana antes. Compreendo que teria sido se fosse, por exemplo, há uma semana, pelo menos uns 15 dias. De qualquer forma, qualquer ataque que os Estados Unidos nesta fase lancem contra o Irão, não porá fim ao conflito, parece-me. E, por outro lado, é também importante notar, nós estamos concentrados, obviamente, em Israel e nos Estados Unidos, na relação com o Irão, essa demonstração de força que têm vindo a reforçar ao longo deste último ano. Mas, na verdade, é interessante nós notarmos como, por um lado, nós tivemos os representantes do Pacto de Meca, portanto a Arábia Saudita, Egito e Turquia, no Irã, a conversar com as autoridades iranianas. E, por outro lado, também nós tivemos o Qatar e o presidente iraniano a visitar Moscovo e a conversar com o Vladimir Putin. Falo do Qatar, naturalmente, pelo seu relevante papel enquanto mediador e que tem vindo a assumir nos últimos tempos. E portanto, parece-me que nós temos de olhar para os Estados Unidos e para Israel, sem dúvida, mas não devemos desfocar o nosso olhar e estarmos também atentos a sinais da região, como é que a região está a reagir. E mesmo este pedido, saiu pouca coisa muito clara, muito comunicado desta reunião do Pacto de Meca com as autoridades iranianas, mas é interessante perceber como esses Estados consideram que cabe aos Estados Unidos e ao Irão conseguirem criar uma relação de confiança para terminar o conflito naquele território, conscientes de que aquilo afeta todos os países da região, incluindo eles próprios. Mas também, eu creio, chamando também à liça, por assim dizer, os próprios Estados Unidos como tendo de ser atores proativos de qualquer solução pacífica que permita, nomeadamente, a reposição do Estreito de Ormuz, fora a questão agora que sabemos do Iêmen e por isso é que a Arábia Saudita também provavelmente se considera agora mais ativamente envolvida nestas conversações, pelo menos não lhes chamo negociações, mas conversações diretas com o Irão.

Maria Isabel, só nestes dois últimos minutinhos que nos restam, vamos tentar ainda olhar rapidamente para outro conflito entre a Rússia e a Ucrânia, porque houve uma chamada telefónica dos responsáveis da Noruega e da Finlândia com Vladimir Putin. Eles admitem que há opiniões divergentes, mas classificam a chamada que durou uma hora e meia como substantiva. Como é que podemos entender este contacto ou esta chamada telefónica?

Luís, olhe, em coerência com aquilo que tenho sempre dito desde fevereiro de 2022, é importante manter os canais de diálogo e por isso eu vejo sempre como muito positivo que estes contactos existam. Por outro lado, também não posso deixar de assinalar que se tratam de dois países europeus. A Finlândia da União Europeia, a Noruega não formalmente da União Europeia, mas participando em Schengen e do ponto de vista económico também no espaço europeu comum, ambas membros da NATO. E portanto, por um lado, acho que é sempre importante haver diálogo, por outro lado, noto este marcar de posição da Europa. Podemos discutir se eu preferiria outro modelo em que a Europa falasse, ou outro porta-voz, se quiséssemos, da Europa, mas acho sempre positivo e acho positivo que a Europa assim o fale. Espero, penso, creio que terá com certeza havido posições articuladas, não só com a Ucrânia, mas também faladas no nível europeu. E por outro lado também, sabendo nós que o presidente Zelensky já o afirmou que em meados de novembro estarão em condições para haver umas conversas trilaterais, Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, em que o próprio presidente Zelensky diz que a questão é eminentemente territorial e que por isso terá de ser discutida ao mais alto nível, por assim dizer, creio que é importante que a Europa se mantenha presente neste processo. Não creio que o processo esteja mais próximo, ou melhor, ele estará sempre mais próximo, espero que chegue, não creio que será para amanhã, mas acho que é importante, acho um passo significativo que a Noruega e a Finlândia possam ter encontrado esta forma de comunicar, esta via de comunicação, que no fundo é uma via de comunicação da Europa com a Rússia.

Maria Isabel Tavares, muito obrigado pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. O resto de uma boa tarde.

Boa tarde, obrigada.