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"Il Vecchio Storè" na Rádio Observador e também no YouTube. Estamos em direto também em vídeo, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Anselmo Crespo. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar sobre a quebra do silêncio por parte tanto do primeiro-ministro como do presidente da República, depois das cargas policiais nas manifestações em Lisboa e Porto. E também vamos falar sobre a cobertura jornalística destas manifestações. Mas vamos começar talvez pelos longos silêncios. Anselmo Crespo, finalmente foi quebrado o silêncio, e logo no mesmo dia.
Qual deles?
Os dois.
É porque não valem os dois a mesma coisa.
Achas que não?
Não. Num caso, eu diria que podia ter continuado em silêncio. Nós estávamos exatamente no mesmo sítio.
Estás a falar da qualidade da quebra do silêncio.
No outro caso, já não diria o mesmo. Bom, então vou começar por aquela que me pareceu a quebra do silêncio mais relevante, que é de António José Seguro, presidente da República. Relevante desde logo porque António José Seguro tem um passado e tem um percurso na política e nós que acompanhamos política sabemos o que António José Seguro já disse lá atrás sobre situações deste gênero e o que fez enquanto militante do Partido Socialista. E é a única forma de interpretar uma parte da intervenção que António José Seguro fez hoje. Eu acho que há uma parte das palavras de António José Seguro que pra mim foi muito clara. Refiro-me ao puxão de orelhas que ele deu aos partidos políticos e ao governo relativamente à falta de consenso ou à incapacidade para dialogar e encontrar soluções que possam melhorar o mercado da habitação em Portugal. Acho que ele tem toda a razão, já agora. Eu não entendo como, com aquilo que temos à frente dos olhos, os partidos continuam num joguete político de passa-culpas e de tentar descobrir quem é mais culpado pela crise da habitação, sem conseguirem uma plataforma mínima de entendimento. E entendo ainda menos como é que um partido com as responsabilidades do Partido Socialista, não só responsabilidades históricas na democracia portuguesa, mas responsabilidades na situação a que chegamos. Ainda hoje, na Assembleia da República, José Luís Carneiro voltou a repetir a ideia de que está muito disponível para mudar a lei do arrendamento, desde que seja a velha lei do arrendamento do Partido Socialista. E, portanto, eu não entendo como é que se diz que se está disponível para dialogar neste pressuposto. Eu estou muito disponível pra dialogar, desde que tu abdiques de todas as tuas ideias e só fales das minhas. Bom, eu primeiro quero lembrar que a lei do arrendamento do Partido Socialista, que veio substituir a lei do arrendamento da AD, a famosa Lei Cristas, não parece ter criado propriamente um mercado do arrendamento muito dinâmico, nem ter contribuído para baixar os preços. Isto pra início de conversa. Mas dando isto de barato, e assumindo até que José Luís Carneiro tem algumas ideias diferentes daquelas que o Partido Socialista implementou no passado, eu não entendo como é que um partido que não está no governo, está na oposição, e já é a segunda vez que o José Luís Carneiro faz isto, já com a lei do Código de Trabalho fez a mesma coisa, que é: deite fora a sua lei e vamos discutir a minha. Portanto, acho que António José Seguro está coberto de razão quando diz que os partidos têm, de facto, que estar à altura das suas responsabilidades, sentarem-se à mesa e discutirem propostas. Para não me alongar muito, a parte confusa tem a ver com as manifestações e com a atuação da polícia e com tudo aquilo que nós temos vindo a assistir nas últimas duas semanas. Porque António José Seguro, o que fez foi: deu uma no cravo e outra na ferradura. Acabou aquela declaração e eu fiquei sem perceber se António José Seguro não gostou do que viu, ficou claro.
Acho que ninguém gostou.
Nem Luís Montenegro.
Esperemos nós.
A partir daqui, eu não percebi se ele não gostou da atuação da polícia, se ele não gostou da atuação dos manifestantes ou de alguns manifestantes, se não gostou de ambas. E por isso é que eu lembrava o percurso de António José Seguro. Eu posso inferir e tentar pôr-me na cabeça de António José Seguro. Já agora sugiro aqui à redação do Observador que escrevam também isso, que é pra nós conseguirmos começar a perceber.
É só ideias. É toda uma coleção.
Já que começaram, podem continuar.
Não sei se o Carlos Vaz Marques está a ouvir.
Sim, está aqui.
Foi ele que editou.
Só porque nós vamos precisar de um manual de instruções pra interpretar António José Seguro daqui pra frente, se ele continuar a fazer declarações deste gênero. Atenção, eu percebo que na condição de presidente da República, ele tem que ter alguns cuidados que não teria se não ocupasse este cargo, mas que, diabos, era pra dizer isto, então mais valia não ter falado deste tema. Sobre o Luís Montenegro, a sensação que eu tive, e termino aqui, é que o que Luís Montenegro fez hoje à tarde foi pegar em tudo o que disse nos últimos dois anos, meteu na Bimby e fez farrapo velho. E entregou-nos um farrapo velho hoje a tarde toda, porque, na verdade, Luís Montenegro não tinha rigorosamente nada pra dizer de novo ao país, nem mesmo sobre a habitação, nem sobre as manifestações e a atuação da polícia. Luís Montenegro basicamente veio corroborar tudo aquilo que disse da única vez que falou sobre as manifestações e veio defender a polícia, que era tudo aquilo que os seus ministros já tinham feito.
Judite
Vou começar por António José Seguro, porque sobre a primeira parte daquilo que o Anselmo disse sobre o fato dos partidos não se entenderem nem fazerem o mínimo esforço perante a urgência de um tema destes, eu acho que António José Seguro esteve muito bem e foi muito claro sobre isso, mas eu também acho que foi claro sobre a carga policial, porque não gostou do que viu, certo, mas depois a dada altura diz: "A cultura portuguesa não é de violência nem de confronto." Eu acho que acrescenta a isso o fato de dizer que estão a decorrer inquéritos, como quem diz: "Não me vou pronunciar de uma forma taxativa antes de decorrerem os inquéritos." Mas se juntares a isto que Portugal não é um país de violência, eu acho que é claramente um recado pra polícia e, por extensão, para o governo, porque aliás, Luís Montenegro fez questão de dizer que esteve sempre em contacto, sempre em articulação, portanto, estava perfeitamente ciente do que ia acontecer no sábado à noite na Praça do Rossio.
Mas a Judite também houve violência da parte de alguns manifestantes.
Certo.
A não ser que António José Seguro só acordou às 7h e não tenha visto essa parte.
Sabemos que a primeira foi uma resistência pacífica, a violência vem depois da primeira carga policial. Ao contrário do que aconteceu, por exemplo, em 2023, em que houve cadeiras a voar e garrafas petidas.
Não me quer julgar, mas a PSP partilhou hoje um vídeo que não me parece ter sido depois da carga policial.
Eu acho que a leitura do vídeo da PSP queria exatamente dar essa leitura.
De que é antes ou depois?
De que é antes. Eu não tenho a certeza.
Sim, certo. Eu também não vou atravessar, porque eu não estava lá.
Eu vi em direto, mas não estava lá.
Agora, sugiro que sejas tu a escrever o livro na cabeça de António José Seguro.
Acho, sinceramente, que o tom que usou António José Seguro, numa escala de António José Seguro, foi veemente.
Foi um abalo.
Foi um abalo, mas foi mais veemente do que costuma ser. Não podemos esperar de António José Seguro que ele seja uma coisa que não é.
Pode alguém ser quem não é?
Não pode. Isto é o máximo de contundência e de tom que António José Seguro é capaz numa altura como esta. E eu acho que pressionou, de alguma forma, o governo, e acho que pela primeira vez há aqui um confronto entre São Bento e Belém, porque Luís Montenegro fez questão de, pelo contrário, fazer um grande elogio à PSP, dando a entender que está perfeitamente de acordo com tudo aquilo que aconteceu. E eu acho que pela primeira vez vemos António José Seguro e Luís Montenegro em dois polos opostos do tabuleiro.
Alexandre, também sentes esta tensão entre palácios?
Não. Acho que precisamos de vários livros, porque pra mim é claríssimo o que está na cabeça de António José Seguro e afinal não é bem o que o Anselmo disse, nem é o que disse a Judite. Temos a tarde toda, não, mas temos o programa todo para falar disso.
Pelo menos até às 18h20.
Exatamente. Toda não, mas mais quatro minutos temos.
Mais três minutinhos. Vamos continuar com isto.
Vamos continuar na segunda parte. Dará para ir aos outros aspectos. Mas sobre Luís Montenegro e vou ao presidente da República, algo comparável, de facto, ouvindo os silêncios. Quebrar o silêncio é em si mesmo uma expressão muito engraçada, que eu até pensava que não havia noutras línguas, afinal há em todas. Romper el silencio, break the silence, embora a gente não costuma ouvir, existe.
Tens razão.
Existe mesmo. E dá sempre essa ideia de qualquer coisa violenta, há uma agressividade nisso. E depois ouves António José Seguro. "Não gostei". E Montenegro a repetir tudo o que já disse, como dizia o Anselmo. A ideia de quebrar o silêncio é quebrar devagarinho. E depois é quebrar porque foste questionado, senão nem terias falado no assunto, no caso de António José Seguro.
António José Seguro queria falar sobre o assunto hoje.
Está bem, queria. É aqui que eu discordo muito de vocês. Partilhando o que tu estavas a dizer, acho que ele não está todo em rota de colisão. Se verdadeiramente ele estivesse chocado com o que se passou, eu não estou dizendo que ele devesse, não estamos aí, mas se o presidente da República tivesse ficado chocado com os acontecimentos de sábado pra domingo, ter-se-ia pronunciado no domingo, ou mesmo antes disso, ou segunda-feira, ou tinha emitido, de alguma forma, uma comunicação oficial. Não esperava ser apanhado. Claro que sabia que ia ser apanhado, mas não espera ter essa farda amanhã.
Tinha tomado a iniciativa.
Tinha tomado a iniciativa, não diz isto abordado pelos jornalistas. E depois há outra coisa que ele diz no meio das várias coisas bastante suaves que diz: "Eu sou um garante do Estado de direito." É porque o Estado de direito ainda não está ameaçado, ao contrário do que a oposição, os manifestantes disseram, do ponto de vista dele, não viu uma ameaça ao Estado de direito sábado à noite, senão ter-se-ia pronunciado, compreendes?
Uma coisa é considerar que a polícia se excedeu, outra coisa é achar que isso é uma ameaça ao Estado de direito. São passos um pouquinho...
Não sei se a polícia se excedeu. Por exemplo, ele diz: "Precisamos dos inquéritos pra saber se passou ou não o Estado de direito." Mas ele há de ter uma opinião.
Só o fato de estarmos todos, cada um a atirar bolas pro quintal, sobre o que António José Seguro disse, já é bastante exemplificativo da forma como ele comunicou. Repara, isto aconteceu também nos partidos políticos. Ninguém gostou, da esquerda à direita. O bloco não gostou, mas o CHEGA também não gostou.
O que é uma arte. Tu tentares contentar toda a gente e não contentares ninguém, de facto. Mas existe isso. Eu vou depois, na segunda parte, tentar explicar um pouco melhor isso, mas o paralelo entre os dois, que não é muito forte, nem muito fluído, reconheço, não estou nos meus melhores dias. Luís Montenegro é o isolado e António José Seguro é o isolante. Eu a seguir trago já uma analogia melhor, mas começo por explicar esta.
Ah, tiveste tempo para burilar.
Tive tempo para pensar. Eu começar pela melhor. A melhor é: durante estes dias, e devo antecipar, que acho que o governo tinha toda a razão nesta matéria e se deixou encurralar de uma forma como se fosse o culpado da crise da habitação, quando na verdade até tem feito alguma coisa por tentar resolvê-la. Se deixou encurralar como se fosse culpado de alguma coisa e ficou calado este tempo todo a assistir ao que se passava. O governo, particularmente o Luís Montenegro. E o presidente também não falou. E a sensação, de facto, foi, é curioso, é de casas que falamos, houve durante estes dias uma sensação de vazio, o papai e a mamã deixaram-nos sozinhos em casa. De vez em quando aparecia um tio, o tio Pinto Luz, o tio Neves, vinham cá dizer umas coisas, mas parecia que faltava aqui alguém, ouvir alguém. Na analogia do isolado e do isolante, Montenegro deixou-se isolar, de facto, nisto, sobretudo depois daquela primeira intervenção meia equívoca, digamos, em que, na minha opinião, só quem tem razões verdadeiras de queixa foi a língua portuguesa, egoísticas. Mas que depois foi mal interpretada, parece-me, mas a intenção dele não era dizer que as pessoas é que tinham razões egoístas, ele estava a falar de partidos e de movimentos e da tentativa de importar a dita conflituidade de outros países, mas deixou-se ficar isolado. Agora, o presidente da República não tinha nenhuma razão. Eu fui ver, é daqui que sai o isolante, eu fui à procura do que é que serve para prevenir um incêndio, mas não para o apagar. E a Ação me conseguiu devolver esta resposta. Um isolante térmico.
Vamos ter materiais.
E é curioso, porque hoje António José Seguro dizia: "Eu não estou cá para atirar mais lenha pra fogueira", que é curioso, ele ainda não sabia desta analogia perfeitamente genial que eu ia fazer. Mas repara nisto, acho que acaba por completá-la, que é, de facto, é claro que António José Seguro não está cá para atirar lenha pra fogueira, mas eu suspeito que ele às vezes não tem sequer conseguido apagar os fogos. Isto é, este fogo estava a acontecer. Não é culpa dele, mas estava a acontecer. Ele não foi capaz de o apagar. Ele é capaz de tentar prevenir. E a presidência de António José Seguro, é isso que me parece que eu já não tenho extraordinárias expectativas em relação ao entendimento, porque eu acho que ele tem, de facto, é o que a gente vê, um entendimento muito minimal das suas funções e frequentemente as suas intervenções são uma confissão de impotência. E por isso não partilho tanto do que o Anselmo e o Judite diziam no elogio à questão dos partidos, do papel dos partidos, porque o que António José Seguro disse foi: "Eu não percebo porque é que eles não são capazes de sentar à mesa e conversar." Isso posso dizer, quanto muito, eu ou um de nós. O presidente da República deve obrigar esta gente a sentar-se à mesa e colocá-los a dialogar.
Chamou-os todos. Chamou-os todos agora.
Pronto, mas que a intervenção do presidente seja dizer isto, limita-se a ser uma espécie de provedor. Parece que ele só abraça a parte de provedor do leitor que tem a presidência da República.
Mas é isso que ele é.
Não, não é só.
Não é só um provedor, acho eu.
Não é António José Seguro por ser António José Seguro. Na Constituição, o que cabe ao presidente da República, o papel que lhe cabe é curtinho.
Basta comparares com o Marcelo, que tinha uma interpretação maximalista das funções.
E como é que isso correu?
Como é que isso correu? A gente sabe, e estivemos aqui muitas vezes a criticá-lo.
Cavaco Silva.
Mas não ficava assim.
Lembras-te da célebre declaração às 20h00 que Cavaco Silva convocou?
Sobre o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
E toda a gente achou vem e bomba e ele esteve meia hora a falar do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, indignadíssimo com a Assembleia da República. E o que é que aconteceu? Nada. O meu ponto é: a culpa não é de António José Seguro.
Vou-te dar um outro exemplo. Pegando em Cavaco, esse tema, lá está, sempre pela razão de eu ser o "Sirene", diz-me muito. É claro que eu achei que ele tinha toda a razão e que ele era o mais importante de todos.
Tu percebeste.
Eu percebi onde é que o professor queria chegar. O acordo da Geringonça. Aqui tens um exemplo de um presidente que obrigou-os a assinarem o acordo escrito com uma cassete.
Mas queres um exemplo contrário? Quando Marcelo quis demitir João Galamba, ficou chateado.
E outro ao contrário, quando quis demitir Constança Urbano de Sousa, não veio.
Mas aí, depois daquele número de mortes, ela seria demitida de qualquer forma.
E obviamente, Marcelo, no seu excesso, e por contraste, conseguia, do ponto de vista da forma como ajudava a moldar a opinião pública, ir levantando o seu minto.
Isso tem a ver também com a fase do mandato, e tu aí ganhas um ponto, mas só um. Porque, de facto, António José Seguro está no ponto rebuçado para ter um poder ascendente político maior, sobretudo, foi eleito este ano e não foi eleito com qualquer votação. Foi eleito com uma votação brutal, para este mundo em dia, a julgar pela sua comissão de honra, que já estava irritada, que se calhar à data de hoje já não teria aquela votação. Mas à parte disso, de facto, ele nisso tem aqui uma vantagem, que provavelmente daqui a um ano ou daqui a dois ou daqui a três, já não tem.
Sobretudo, quanto mais recuar, quanto menor for a sua área de ação, menos vai importar, porque menos se vai esperar que o presidente diga qualquer coisa. É um equilíbrio difícil, eu entendo, mas acho que ele tem sido minimalista.
Tecnicamente, o que ele podia fazer agora? Diz-me.
Tecnicamente o quê?
Sobre os partidos, o que ele podia fazer?
Sobre os partidos, olha, no mínimo, de facto, reunir com eles.
Então você viu o que vai fazer.
No máximo, dar puxões de orelhas. Se entende que há um problema.
Então o que é que ele fez? Isso não é um puxão de orelhas?
Não, questionado pelos jornalistas à porta de um evento e dizer: "Não estou aqui para..."
Não é à porta de um evento, foi dentro de um evento, foi programado com um microfone direcional só para ele, aquilo estava tudo programado.
É suavíssimo. É suavíssimo, sobretudo quando falamos de qualquer coisa tão fundamental na vida das pessoas, em que tu vês as praças a encherem-se, aquilo que começou como um epifenómeno, como um fenomenozinho, de repente vês a coisa com muito mais gente a crescer dia a dia e pessoas de todas as classes sociais. Quando vês o crescer dessa hostilidade entre população e polícia e as críticas ao governo e ao próprio presidente
Tu dizer só isto é muito pouco.
Dizer isto e reunir com os partidos é o que ele pode fazer agora. Depois poderá fazer mais.
Eu não senti, vocês lá sentiram algum sentido de urgência nas palavras de António José Seguro?
Eu senti irritação com as críticas de que foi alvo. Foi o momento em que eu o senti mais irritado, foi a responder às críticas que recebeu nos últimos dias.
"É que sempre esteve atento".
"Eu não estou quieto, eu estou ativo. Eu estava desde as 7h ativo e atento. Mais malfeito fora se não estivesse."
Desde as 7h da manhã de domingo, que não é para todos.
É verdade.
7h da manhã de domingo não é para todos.
Eu tento ter as três relações, que foi muito irritado com os críticos dele, médio com os partidos.
Um pouquinho com a situação.
Vamos às notas? Vocês querem dar notas a quem? Ju.
Eu vou dar nota a António José Seguro e vou lhe dar um 13.
Eu dou um oito. Acho que é pouco.
Então eu vou para Luís Montenegro e dou-lhe um sete. Acho que depois disto tudo devia ter feito melhor.
Vamos falar sobre a cobertura jornalística?
Vamos a isso. Eu trago isso não com muito prazer, como devem imaginar, mas nas últimas duas semanas, a cobertura jornalística não terá sido o mais relevante que se passou, mas que diabo, o jornalismo e os media têm, de facto, um papel muito importante na sociedade e nós, que somos do meio, passamos a vida a defender o jornalismo, o rigor, a isenção e a importância que temos numa democracia. E eu acho que nós não podemos defender isto e ao mesmo tempo confundir jornalismo com ativismo. E eu vi muito ativismo nas últimas duas semanas, nas televisões, nos jornais, nas manchetes dos jornais. E atenção, eu não estou a falar de colunas de opinião, não estou a falar de artigos de opinião, porque opinião é isso mesmo, é opinião e os jornalistas têm todo o direito a dar opinião, cá estou eu a dá-la. E eu vivo muito bem com pessoas que pensam de forma diferente da minha, mas faz muita confusão ver nos diretos das televisões, nas reportagens às 20h, assumidamente ativismo militante.
Tu achas que é assumido? Agora vou ter de entrar também na discussão.
Entra, por favor.
Achas que é assumido ou é, às vezes parece-me inconsciente, não me parece consciente.
Tínhamos que discutir os protagonistas de cada uma.
Sim, exato.
Nalguns casos eu admito que possa ser inconsciente.
Falta de preparação crítica para olhar para o mundo.
Eu quando digo que é consciente é porque ainda ontem estava a ver uma reportagem às 20h num canal e o texto do jornalista do princípio ao fim era um panfleto.
Sim, eu confesso que me tenho arrepiado também nalgumas vezes.
E repara, mais uma vez, tem todo o direito a pensar como quiser, agora não ali, não naquele espaço. E isto é particularmente grave, desde logo para a democracia, obviamente, mas é grave para o próprio setor, para a nossa classe, porque nós andamos aqui numa batalha por causa das redes sociais, por causa da desinformação, por causa da forma como hoje em dia somos atacados de todos os lados. E depois damos o flanco.
Mas isto também não se discute no espaço público. Discute-se nos nossos jantares.
Não, mas eu vou dizer. Pensei que ia dizer outra coisa. Isto não se discute hoje em dia nas redações, pelo menos nas que eu conheço. E dantes discutia-se. E isso era objeto de reflexão. Na realidade que eu conheço, isso não é discutido e é uma pena. E eu tenho mesmo a convicção de que se nós, classe, não refletirmos sobre isto, obviamente daqui a uns tempos ninguém nos vai levar a sério. Atenção, eu não quero generalizar. Há muito bom jornalismo a ser feito, mas também há muito mau jornalismo a ser feito e é preciso refletir sobre isto, porque nós, quando fazemos mal o nosso trabalho, não estamos a prestar um bom serviço aos cidadãos e os cidadãos não são burros. E portanto, às vezes, nós somos muito atacados injustamente, mas outras vezes nós não somos atacados injustamente.
Alexandre, és o único não jornalista nesta sala, como é que tu vais também para isto?
Concordo convosco. Eventualmente eu seja um bocadinho mais livre.
O seu adito está de acordo connosco.
Sim, o adito está de acordo. Sim, tem sentido. Talvez esteja um bocadinho mais livre, de facto, para falar disso, mas não sei também se deva, às vezes sou um bocadinho inconsciente.
Este é um lugar seguro.
Este é um lugar seguro. Mas sim, aliás, posso dizê-lo à vontade, porque referi, dei um exemplo, que acho que é o mais evidente aqui no programa, pouco depois de ter acontecido e sobretudo porque é um jornal importantíssimo. É obviamente uma referência no jornalismo português, que é o Público, e é uma decisão essa muito consciente, porque foi a capa, não é um artigo de opinião, não é uma peça lá perdida dentro.
E foi uma capa que deu muito trabalho a fazer.
Exatamente, que deu muito trabalho que fazer. Mas escolher fazer aquela capa e aquela peça para recordar as pessoas, ir ver, contar pessoa a pessoa, com a cara dela e o nome, os deputados dos partidos de direita e os governantes que queriam aprovar esta lei do arrendamento e dizer quantas casinhas e terrenos é que eles tinham. É uma coisa que eu não vou qualificar de outro ponto de vista, mas do ponto de vista do jornalismo, é mau jornalismo. Porque no mínimo era preciso, desculpa só dizer isto só para não ficar suspense, no mínimo era preciso dizer quantas é que têm os outros, quantas é que estão do outro lado, quantas é que têm os manifestantes, se quiserem. Eu conheço manifestantes que têm várias casas. Conheço manifestantes que têm ALs Mas as pessoas na sua cabeça fazem sempre o bem. "Eu pratico um preço justo, não sou um especulador." Portanto, esse argumento é, além de totalmente falacioso do ponto de vista da construção jornalística, é além do mais perigoso para aquelas pessoas, e perigoso para o ambiente. Isso sim, é atirar lenha para a fogueira. Até porque quando se diz: não sei quem tem 55, que fala-se dos terrenos rústicos, portanto, eu falo de uma arrecadação, e aquilo passa a ideia que a pessoa tem um centro histórico de uma cidade.
Que depois é usado como argumento nas manifestações.
Exatamente, tem sido usado como argumento.
E é metido no ar acriticamente.
E é metido no ar acriticamente, sim. Eu também vi alguns exemplos de jornalismo, algum eu acho que é jornalismo jovem.
Inexperiente.
Inexperiente e entusiasmado pelo momento.
Porque também estar num ambiente destes
Quem nunca esteve?
Não é fácil, é difícil e é humano, às vezes, deixar-se levar um pouco pela situação. Nós aqui vamos fazendo essas recomendações de tentar, às vezes, é preciso isolar-se do ambiente para continuar a discernir bem.
Mas tenho visto isto, e acho que isso também depende muito de como as redações conseguem ou não fazer ver aos jornalistas mais jovens que é preciso não se deixar imbuir por aquele espírito. Mas também acho que os manifestantes, depois do que aconteceu no sábado à noite, no domingo, a manifestação era uma manifestação que tinha outras pessoas que estavam lá por causa da carga policial e não por causa do problema inicial. Mas os manifestantes não são manifestantes totalmente simpáticos. E eu acho que os jornalistas sentem alguma pressão quando estão ali naquele meio. São manifestantes que disseram que os jornalistas não podiam circular na praça ao pé das tendas, que decidiram em assembleia popular e, portanto, acharam que isso era uma decisão que valia.
Quer só uma nota?
Ao jornalismo que se tem feito? Não, não quero.
Sim, também não queres, Anselmo? Vamos deixar só o Alexandre.
Não, é demasiado vasto. Para uns seria uma nota, para outros outra, mas concordando convosco e sentindo que em muitos casos há uma simpatia, há uma empatia das pessoas pelas coisas. Naturalmente, todos compreendemos isso, mas de facto, é como diz o Anselmo, as pessoas têm a sua opinião, mas isso tem o seu lugar, não pode passar sob o ângulo da esfera mais objetiva possível que tem que ser o da informação.
O moderador, que queria muito falar sobre isto, já não tem tempo.
Tu é que moderas esta conversa, sabes que isto acabou o tempo.
Tinha mesmo isso, tinha muito para dizer sobre isto.
Dizes outro, mas não temos tempo.
Não temos tempo. E amanhã, nas manhãs 360, vamos ter mais Ivan Story. Depois das 08h30, amanhã, a Filomena Martins junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral. Eu posso gravar um vídeo e depois publicar no TikTok.
Acho que ninguém se lembrou de fazer-nos isso.
A dizer o que penso sobre o mundo.
Ricardo, quebra o silêncio.
É isso. Obrigado pelo desafio.