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Muito bom dia. Uma enorme tempestade no final de janeiro, um rio de tempestades em fevereiro, o ano de 2026 começou exigente pra economia portuguesa, com inúmeras empresas afetadas e também pras contas públicas, pois o Estado teve e tem de recorrer a muitas aflições. E quando ainda se faziam contas e se desenhavam projeções, chegou a guerra no Irão e o fecho do Estreito de Ormuz, com um choque imediato no preço da energia e um choque diferido, e por enquanto ainda imprevisível, na economia global. Governos e bancos centrais começam a fazer as contas e ontem foi a vez do Banco de Portugal rever embaixo as suas previsões de crescimento para este ano. Hoje devemos ter uma notícia um pouco mais animadora. O INE divulga dados sobre as contas públicas de 2025 e tudo indica que haverá um excedente orçamental superior ao estimado, até pelo Governo. Vamos saber às 11h o valor exato. De tudo isto se fará, portanto, um contracorrente, onde tentaremos perceber o que significam estes números para a vida dos portugueses. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

O que significam os dados até agora conhecidos?

Os dados são curtos ainda.

Sim.

Vamos conhecê-los daqui a pouquinho e são referentes ao ano passado. Relativamente a 2026, nós temos, hoje, o chamado procedimento de déficits excessivos, que é a divulgação pelo INE do resultado das contas públicas e a expectativa que existe, não se sabe o número exato, é que o saldo das contas públicas, o excedente, será superior ao que estava estimado pelo próprio governo. E, sobretudo, muito superior ao que era estimado pelo Conselho de Finanças Públicas, por alguns organismos internacionais, com exceção, salvo erro, da OCDE. E também, sobretudo, que é a parte mais sensível, pelo Banco de Portugal/Mário Centeno. As previsões de Mário Centeno marcaram muito, porque era uma espécie de papa das contas e das previsões, foram as que erraram mais. Naturalmente que isto é para o Ministro das Finanças e para o governo, são boas notícias, mas também são boas notícias para Portugal, porque nós estamos no estado de saber o que vai acontecer. Atualmente, o processo de averiguação dos déficits excessivos não tem apenas a ver com superar ou não superar os 3%, que é aquele número mágico que todos nos recordamos do tempo da crise, tem a ver mais com a evolução das contas. Não pode haver flutuações brutais de ano pra ano que não tenha uma justificação particular. Ora bem, neste momento, o que é que nós temos? Temos uma situação que, em termos de previsões, o céu tem nuvens e algumas delas carregadas. O que é que temos? Temos, por um lado, no que diz respeito às contas públicas, um ano que já era exigente. E já era exigente, sobretudo, aquilo que porventura pesa mais é a conta do PRR. Este era o ano, 2026, em que estavam previstos maiores pagamentos dos chamados empréstimos PRR, o equivalente a sensivelmente 0,8% do PIB, 2,5 mil milhões de euros. É bastante dinheiro, apesar de tudo. E isso colocava já sobre as contas de 2026, uma espécie de pressão adicional. Depois nós tivemos um conjunto de outras medidas que foram sendo tomadas, algumas delas foram feitas previsões apocalípticas, designadamente no que respeita à diminuição dos impostos, que na prática não se materializaram. Mas, em contrapartida, foi avisado não ter tornado definitivos os aumentos de pensões que foram pedidos pelas oposições, CHEGA e PS, sobretudo, o resto nem conta muito. Quando o ano passado foi dado aqueles cheques extras aos pensionistas, foram dados nos últimos, penso que três anos, pelo menos, um cheque extra aos pensionistas, que tem a vantagem política de ser por dinheiro do bolso das pessoas, tem a vantagem econômica de, apesar de tudo, é dinheiro que entra em circulação e, portanto, o consumo privado, pelo menos esse, tem um pequeno estímulo, e tem a vantagem orçamental de não representar um compromisso pro futuro. Não são aumentos definitivos e projetáveis no futuro da base da contribuição da Segurança Social. E este ano, não sabemos se vai haver ou não disponibilidade pra fazer novamente esse pagamento, mas sabemos que pelo menos não há obrigação de o fazer. Logo veremos lá mais pra diante, não sei se hoje o ministro das Finanças dirá alguma coisa sobre isso. Agora, isso é a parte orçamental, e a parte orçamental, vamos ver como é que corre este ano, se conseguimos ou não ficar novamente no excedente. E desse ponto de vista, o número que vier a ser referido pelo INE é relevante, porque dá um sinal da margem que o governo tem ou não tem. Evidentemente, depois há outras discussões que podemos ter, como é que se chegou aqui, o que foi, digamos, há uma parte disto que é não se terem realizado todos os investimentos públicos que estavam orçamentados. Outra parte é receitas fiscais e, sobretudo, contributivas, neste caso. Contributivas é o sistema da Segurança Social. Quando estamos com muito emprego, há mais gente a contribuir, quando estamos com desemprego baixo, há menos gente a receber.

Não, há mais gente a receber e menos a contribuir. Quando temos menos emprego?

Não, menos desemprego.

Menos desemprego, desculpa. Percebi.

Quando temos um desemprego baixo, que é a situação atual, que é quase um desemprego, digamos-

Residual. Estamos quase em pleno emprego.

Estamos quase em pleno emprego. Há menos necessidade de pagar os subsídios de desemprego e, portanto, menos gastos desse lado. Isto desequilibra mais depressa com flutuações do ciclo econômico do que desequilibram os impostos. Porque isto sobe de um lado, diminui do outro, portanto, é mesmo uma agulha que mexe muito depressa quando há variações de ciclo econômico. Temos agora outro tema, que é a economia. A economia, como tu referiste de entrada, teve um primeiro choque, que é um choque no curto prazo. No médio e longo prazo até pode não ser, mas no curto prazo é um choque.

O efeito das tempestades.

As tempestades têm aquilo que se costuma dizer, têm, para já, um abate no capital, há capital destruído. Casas, empresas, maquinaria é destruído, portanto, fica-se mais pobre, à partida. Isto é uma daquelas coisas que às vezes tem a ver com o que valem os números em economia. Tu tens a casa deitada abaixo, mas depois quando a vais reconstruir, isso é contabilizado como atividade e, portanto, como riqueza, como PIB. Agora, as flutuações aqui podem não ser muito relevantes, porque tu quando estás numa situação já de quase pleno emprego, no fundo, esta atividade que estás a ter na reconstrução é a atividade, porventura, desviada de outros locais. Não acrescenta propriamente ao PIB, de facto, tiveste um custo de capital. Se depois disto, na reconstrução, ficas com melhores, designadamente no que diz respeito às empresas e à sua resiliência, as coisas ficam mais seguras, mais resistentes. Veremos. Há muita coisa aí que teremos que ver. Há muitos sinais, por exemplo, há empresas que não vão reabrir, há sinais de que outras empresas reabrirão provavelmente melhor equipadas e mais organizadas. Aquilo é um tecido econômico muito pulverizado. A mesma empresa, ou se quisermos, o mesmo investidor, o mesmo patrão, pode ter, de repente, quatro ou cinco unidades espalhadas ali numa zona um bocado caótica, e a reconstrução pode permitir uma racionalização. Há quem esteja até a colaborar nisso, a tentar dar aqui a isto uma certa racionalidade. Não sei como é que vamos acabar no fim, mas pelo menos há um choque neste momento. E esse choque vai pesar seguramente do lado do orçamento de Estado. Por quê? Porque nós sabemos, é uma discussão de todos os dias, o Estado está a pagar a substituição aos seguros ou a complementar os seguros, a pagar reconstruções. Há ali gasto público das autarquias e do Estado central, que não estava orçamentado, que tem que ser feito, ninguém o contesta, e que se serão 200, 300, 400, 500 milhões, é dinheiro. Desse ponto de vista, há uma pressão maior sobre as contas públicas. Do ponto de vista da economia, o impacto é localizado, seguramente relevante, longo prazo não saberemos. Agora, aquilo que sabemos é que nós vamos ter seguramente um impacto na economia da guerra. Nós tivemos o impacto da guerra da Ucrânia, que foi muito rápido, foi relativamente rápido, porque na altura a questão energética na Europa muito rapidamente se fez sentir. E depois tivemos um outro impacto também dessa guerra, por causa das circunstâncias que vivíamos em 2022. Parece que nós já falamos de 2022, por incrível que pareça.

Tínhamos acabado de sair da pandemia.

Estávamos a sair da pandemia, estávamos numa altura em que as pessoas tinham mais dinheiro nas contas bancárias, porque tinha havido um período de retração do consumo, entre apoios públicos e adaptação da vida e das empresas, muitas das vezes era devida, as pessoas ficaram em casa, consumiram menos, não perderam os ordenados, mantiveram a atividade com o teletrabalho. Houve aqui, de repente, mais disponibilidade, mais dinheiro nas contas bancárias e houve mais consumo, mais procura e as linhas de logística estavam fragilizadas. De repente, faltavam chips, por exemplo, faltavam coisas, havia barcos que não chegavam a tempo para os supermercados, havia essas coisas todas. Houve ali uma pressão inflacionista, a inflação subiu muito rapidamente e atingiu 4%, 5% muito depressa. Agora, não temos este fator, podemos ter o fator da energia. Se bem que, mesmo o fator da energia, a dependência, no caso da Europa, relativamente ao Meio Oriente, será menor do que era na altura relativamente à Rússia. Designadamente no que diz respeito ao gás de alguns países. Não é o nosso caso, mas há países que importam gás liquefeito do Meio Oriente, Catar, designadamente, e esses poderão já ser afetados. Mas a questão central aqui é que o preço do Brent e o preço do gás estão a disparar. Estão bastante acima daquilo que estavam há um mês, e sobretudo, não se sabe se isto vai ficar assim ou não vai ficar assim. A grande pressão de abastecimento de matérias de produtos petrolíferos é na Ásia, mas os mercados são globais. A partir do momento que há escassez na Ásia, não há só pressão para ir comprar a outros sítios, e necessidade, não é só pressão, é necessidade. Há países que não têm reservas próprias e estão completamente dependentes do Meio Oriente Falamos muito da China, apesar de tudo tem as suas reservas, mas o Japão, por exemplo, ou a Coreia do Sul, são super dependentes, ou a Índia ou o Paquistão. E são economias muito grandes, são economias muito grandes e muito importantes. E portanto, vai haver aqui pressão sobre os preços que nós não sabemos quanto tempo vai durar. Já percebemos que vai durar algum tempo, porque mesmo que agora, de repente, amanhã acabasse a guerra, o Estreito de Ormuz não reabre com a facilidade com que eu estaleio aqui os dedos. É um bocadinho mais complexo. E desse ponto de vista, é um grande ponto de interrogação. E daí que uma das coisas que se discutiam ontem relativamente às previsões do Banco de Portugal, o Banco de Portugal corrigiu a sua previsão de crescimento de 2.3, previsão de dezembro, para 1.8 em 2026. Nos anos seguintes ficou essencialmente igual, até um pouquinho melhor em 2027, estou a enganar-me. É igual em 2028, um bocadinho abaixo em 2027. Em 2026, há, de facto, uma correção de 0,5 pontos percentuais, portanto, meio ponto percentual. É importante, é uma correção importante e que também pode ter influência sobre as contas públicas, porque o nosso déficit é calculado em função do PIB, e com o PIB mais pequeno, o déficit pode ser maior. Um déficit do mesmo tamanho em percentagem é diferente. Uma das coisas que se falou foi que os cenários usados pelo Banco de Portugal, primeiro, os últimos números entraram a 13 deste mês. Nós estamos a 26? 27? 26? 26. Portanto, tem duas semanas, praticamente, e isto varia um pouquinho todos os dias. O Banco Central Europeu fez três cenários, um mais ou menos e outros dois um pouquinho mais pessimistas. O Banco de Portugal usou o cenário central. O cenário central é o cenário que o Banco Central Europeu também está a usar, não foi pelos cenários mais pessimistas, mas neste momento estamos num domínio muito especulativo, porque verdadeiramente ninguém sabe exatamente o que é que vai acontecer à economia mundial se esta guerra, em vez de durar as quatro ou seis semanas que se dizia que ela ia durar quando começou. Olha, ficou como a guerra da Ucrânia, que nunca mais acaba. Para a guerra da Ucrânia, aquilo que havia de encaixar em termos económicos, mais ou menos já encaixamos. Houve países que sofreram bastante mais do que nós. Para nós, o que se possa passar ou não ainda é, de facto, um grande ponto de interrogação. Há aqui dois fatores que nos podem influenciar mais diretamente. Uma é, evidentemente, a dependência que ainda temos, apesar de menor do que temos no passado, do custo da energia. Nós importamos tudo que é produtos petrolíferos e gases, não produzimos nada. Portanto, se esses produtos subirem muito, há sempre impacto em Portugal, a começar pelas bombas de gasolina, que é onde o cidadão comum tem noção disso e já está a ter. Se deixas mais euros na bomba de gasolina, deixas menos euros no supermercado, porque o dinheiro não é elástico. Portanto, obviamente que há aqui impactos. Depois tens um outro impacto que pode acontecer, mas que ainda é impossível de medir ou verificar, mas já há um indicador ou outro, que é no momento em que tens uma crise longe de Portugal, e para todos os efeitos é longe de Portugal, os turistas mudam os seus destinos de férias e às vezes podem começar a marcar os países tranquilos aqui da ponta da Europa. Espanha e Portugal beneficiaram muito disso nos últimos anos. Sim. Portanto, boa parte do nosso crescimento económico e do espanhol vieram também deste boom turístico de termos uma guerra no outro lado da Europa e, portanto, as pessoas virem para aqui. Temos uma guerra no Médio Oriente, não é que aquilo fosse um destino já com alguma importância. É que não é só o destino Médio Oriente, é o destino Médio Oriente e Extremo Oriente, porque os voos passavam por ali. Eu próprio, não era suposto estar aqui hoje, porque ia tirar uns dias para ir ao Oriente e não fui, tive que desmarcar tudo. Portanto, estou a contribuir um pouquinho para o nosso PIB.

Estás a dar prejuízo ao Extremo Oriente.

Estou a dar prejuízo ao Extremo Oriente. Não é bem Extremo Oriente, é Oriente só.

Sim, mas ias usar aquela região como hub, não é?

Enfim, um gajo tem que pousar em algum sítio, não há voos diretos daqui para onde quer que seja. Pode haver esse aspeto, nós não temos ideia disso. Agora, há algo que também é interessante voltar ao que disse ontem o governador do Banco de Portugal, porque me parece que ele foi claro e foi direto, e talvez menos cuidadoso do que alguns governadores anteriores no que diz respeito, mas não acho mal que eles sejam claros. Acho melhor isso do que editoriais velados com recados crípticos, como fazia o Mário Centeno. Ele disse, por exemplo, perguntaram-lhe diretamente se devia ou não haver fim do IVA na alimentação. E ele disse até por comparação com Espanha, porque a Espanha tem uma situação muito diferente da nossa e começou mais tarde, mas fez medidas muito rápidas, especialmente para os petísios de gás e coisa assim, desse gênero, que estão a tentar pressionar o governo português também a fazer o mesmo, e há uma pressão da oposição para aplicar medidas como o IVA na restauração. Na alimentação, perdão. Eu, na altura, critiquei essa medida, achei que é uma medida, em muitos aspectos, cega. Quando tiras o IVA de um bem consumido por pobres e ricos, estás a perder receita. Cada milhão que perdes aí é um milhão que provavelmente dois terços, três quartos dele vão para pessoas que não precisariam tanto como aquelas que verdadeiramente precisam. E desse ponto de vista, construir medidas dirigidas aos mais frágeis, aos mais pobres, aos que sofrem mais, é muito mais difícil, pode levar mais tempo e às vezes politicamente não é tão glamoroso. E ontem foi isto precisamente que disse o governador do Banco de Portugal, mas é uma discussão que vamos ter. É uma discussão que vamos ter, e uma discussão que seguramente é relevante, porque no fim do dia, tudo isto tem a ver com o indicador designadamente do consumo privado. Para já, quando vemos aqui no que diz respeito às variações previstas pelo Banco de Portugal, a maior variação em termos percentuais de crescimento que o Banco de Portugal faz é a variação do chamado formação bruta de capital fixo, investimento, que eles previam um crescimento de 6% e agora só preveem um crescimento de 3,8%. Por exemplo, o consumo privado até tem uma quebra menor em termos percentuais do que a quebra prevista para o crescimento do PIB, o consumo privado é o nosso consumo. O consumo público não tem alteração, o que se compreende porque até vamos ter os investimentos por causa das tempestades. Temos aqui situações que temos que perceber como é que vão evoluir. Eu acho que vamos ter que perceber qual é a margem de manobra que de facto vai resultar dos números que forem divulgados daqui a menos de meia hora, estamos à espera deles, daquilo que eventualmente vá dizer Miranda Sarmento, além de fazer aquilo que os toureiros fazem. Quando espetam as banderilhas, dão a volta à arena, que é uma coisa que eu creio que ela vá fazer, ficar bastante contente com os números e com as discussões que teve com a oposição e com o anterior governador, ou com o Banco de Portugal no tempo do anterior governador, se preferires. Mas independentemente disso, não sei se ele vai ter, está aqui a Alexandra, ele vai responder a perguntas ou é só uma declaração?

Creio que vai responder a perguntas.

Vão-lhe perguntar novamente coisas sobre o IVA e sobre os combustíveis, essas coisas todas.

A nota de agenda era para declarações, mas creio que há lugar às 11h30.

É às 11h30. Portanto, meia hora depois do INE pôr o número cá fora. Temos aqui várias questões. Eu acho que o grande ponto de interrogação, de facto, é o tempo que vier a durar a guerra e o impacto que isso vier a ter. Eu devo dizer que pelo que eu fui lendo, me parece que houve, como há sempre nessas circunstâncias, as primeiras previsões davam a indicação que isto ia ser pior do que está a ser. Mas isto também, para todos os efeitos, tem sido um carrossel. Vai acima, vai abaixo, vai acima, uma montanha-russa. Todos os dias a gente olha para os gráficos do preço do petróleo, ora está acima de 100, ora está novamente acima de 100, ora está um pouquinho abaixo de 100, ele vem de 80 e tal. A pauta de 80. Subiu. Quer dizer, nós vimos que quando foi a Ucrânia, teve ali um pico até maior do que aquele que já foi atingido agora, e depois voltou a descer e veio para um valor que, apesar de tudo, ficou acima do que estava antes. Se isso acontecer, vai ser uma coisa, se não acontecer e se prolongar muito, vai ser outra. Até pela pressão que isso coloca sobre o consumidor que vai à bomba de gasolina, ou seja, nós que vamos à bomba de gasolina. Porque nós, apesar de tudo, não temos todos carros elétricos, e por isso ainda continuamos a consumir gasóleo e gasolina, e o gasóleo em particular teve um aumento muito grande. Nós temos um sistema que reflete muito rapidamente as cotações no preço final, está indexado também a custos da refinação, mas desse ponto de vista nós não sabemos bem, porque há também impactos nas infraestruturas. Não é só o Estreito de Hormuz, a guerra já fez mais feridos na zona. Eu não creio que tenha sido uma coisa completamente catastrófica do ponto de vista global. E eu recordo-me que, por exemplo, numa outra altura, que nem se falou muito de impactos, eu pelo menos não me recordo de se ter falado muito de impactos económicos, quando foi o fim da Primeira Guerra do Golfo, em 1991. Eu na altura estive lá, fui ao Kuwait, estive lá como repórter. E uma das imagens mais fortes que eu tenho da minha vida de repórter é a imagem do que aconteceu com os incêndios dos postos de petróleo, que na altura, o Kuwait, dizia-se que tinha um quarto das reservas mundiais. Enfim, hoje em dia não se compara, mas na altura o Sadam Hussein incendiou os poços todos, e o mercado escolheu um bocadinho, mas não houve crise. Houve a seguir uma recessão, mas foi provocada pela reunificação alemã, não foi propriamente pela Guerra do Golfo. Portanto, vamos ver. Eu acho que estamos perante um momento em que se aconselharia prudência às pessoas, porque não sabemos exatamente se vamos ou não passar por um período de menor crescimento económico. Curiosamente, as previsões do Banco de Portugal, as novas previsões dão uma taxa de desemprego e um crescimento do emprego maiores do que as de dezembro. Enfim, ontem não foi feita nenhuma pergunta sobre isso ao governador, não sei porque é que eles fazem essa previsão, mas de facto, uma boa parte dos bons números que vamos ter provavelmente daqui a bocadinho, derivam de termos níveis de emprego elevadíssimos. A gente bem sabe que uma boa parte deles não são os empregos que gostaríamos de ter, são empregos mal remunerados, mas são empregos. Empregos de pessoas que não contribuem também.

Exatamente isso.

Que não trabalhar é contribuir.

E isso conta muito. Alexandra Machado, bom dia.

Olá.

Bom dia. Perante as previsões do Banco de Portugal e perante aquilo que se espera que saia do relatório do INE daqui a 22 minutos, qual é que deve ser o nosso estado d'alma em relação à economia portuguesa?

Estamos a falar de coisas diferentes. De projeções para um crescimento económico e os dados do INE, como o José Manuel disse, são realizações, conclusões, execução, se quisermos, do orçamento do Estado. Portanto, são duas realidades diferentes, embora claro que haja sempre uma relação, mas mais para futuro. O crescimento económico terá um impacto no saldo orçamental do ano em que é produzido esse crescimento, ou menor crescimento ou maior crescimento. Acho que já foi bastante explanada essa questão. Temos de preparar para a possibilidade de haver claramente um crescimento menor, por causa da guerra no Médio Oriente, mas neste ponto todos os economistas concordam que depende do tempo que durar esta guerra no Médio Oriente. Um conflito muito mais prolongado tem muito impacto nos preços do petróleo e o gás. E neste conflito em concreto, houve um impacto muito significativo nos preços dos produtos refinados, ou seja, à saída das refinarias, o gasóleo e a gasolina. Viu-se muito mais rapidamente esse impacto nos produtos refinados do que tínhamos visto na guerra da Ucrânia.

E eu creio que é aquilo que determina o preço.

Exatamente. É o produto refinado que determina.

E o que explica também a diferença de evolução do gasóleo, que foi mais negativa para o consumidor.

Porque tinha mais impacto ali naquela zona. O gasóleo, de facto, foi muito rápido chegar à bomba de gasolina, digamos assim, o impacto. E a duração desse conflito claramente vai determinar as projeções de crescimento, todos os economistas concordam com isso. Havia aqui uma ideia quase simbólica, se de simbologia podemos falar, que era as quatro semanas de conflito. Havia claramente aqui uma ideia de que em quatro semanas a economia iria aguentar-se, acima de quatro semanas de conflito começariam os cenários mais adversos a entrar nos excês das projeções. Nós estamos na quarta semana, o próprio governo português, nas declarações do ministro da Economia, traçava aqui também uma ideia das quatro, cinco semanas para poder ter de haver novas medidas de apoio. Portanto, estamos aqui no momento de decisões importantes. Espanha antecipou-se a este cenário das quatro semanas. Espanha também está numa situação governativa, digamos assim, um pouquinho diferente da de Portugal. Mas a partir da quarta semana, vamos ver como é que a situação evolui, sendo certo que o Banco de Portugal publica, já desde a pandemia, um indicador de atividade económica e nas últimas semanas esse indicador de atividade económica tem estado a surgir negativo. Portanto, já há aqui uma estimativa de que possa haver uma transmissão, mas tem vindo a ser negativo não só por causa da guerra do Irão, começou a ser negativo por causa do comboio das tempestades que assolaram Portugal. Portanto, nós temos aqui ainda por cima duas forças a contribuir para puxar o crescimento embaixo. O Banco de Portugal ontem, nas projeções, já deu conta que esperava que o primeiro trimestre, em termos de crescimento económico, fosse nulo, mais a apontar para o negativo do que para o positivo, mas que fosse nulo. Portanto, aqui o primeiro trimestre vai determinar muita coisa. Em relação ao excedente orçamental que vai ser apresentado daqui a pouco pelo INE. Há alguns fatores que vão poder contribuir para o tal resultado acima das projeções que o próprio governo tinha. Vamos voltar ao que já se tinha falado nos outros anos todos em que o resultado foi melhor que as projeções, que é as cativações continuam a marcar o seu ritmo no saldo, continuam a ter o seu peso no saldo, nos dados em contabilidade pública, que são depois diferentes, mas da entidade orçamental apontava-se pra 900 milhões de cativos no final do ano, portanto, isso vai ser um contributo importante. A subexecução do investimento, em todos os anos que eu me recordo, o investimento nunca foi executado.

Investimento público.

Público. Nunca foi executado na sua plenitude e 2025 deverá também apontar nesse sentido. E havia aqui um fator de incerteza em relação aos dividendos recebidos pelo Novo Banco, que são qualquer coisa como 300 milhões de euros, se o INE ia considerá-los para efeitos de saldo ou não Se forem considerados para efeitos de saldo, melhora o saldo em 0,1%. Hoje vai saber-se se foram considerados ou não para o saldo de 2025. O benefício do saldo ser melhor é que já há aqui um efeito alastramento para 2026, que é um ano muito exigente em termos de execução orçamental, mas que conseguirá haver aqui já um arrastamento, se bem que o saldo, isto é um bocado técnico, mas tudo o que é excedente tem que ser para amortizar a dívida pública em termos de dinheiro em si, mas depois todo o impacto orçamental há um efeito de alastramento. Já agora, também é importante neste saldo orçamental verificar qual foi a evolução da receita fiscal, nomeadamente no final do ano, porque apesar dos cortes no IRS e no próprio IRC, a receita aumentou. No IRS, por causa do efeito emprego e salários mais altos.

Portanto, mais trabalho, mais volume.

Por acaso, há nos dados do Relatório de Portugal, um dado um bocadinho negativo. Quando eu digo negativo, é como quem diz, eu acho que é até bastante negativo.

Da produtividade.

Um dado relativo à produtividade, o dado não é dado como tal, mas nós temos uma situação em que o PIB per capita, no último ano de 2025, a previsão é que tenha crescido 1%, o PIB por indivíduo em idade ativa 1,1%, mas o PIB por trabalhador decresceu 0,4%. O que isso significa? Significa que temos mais trabalhadores a produzir menos PIB, menos riqueza. Portanto, é um indicador negativo para a produtividade, que é um dos nossos calcanhares de Aquiles.

Alexandra.

Só para concluir, a receita fiscal vai ser importante porque vai também dar um contributo para o saldo orçamental e será acima do que também foi projetado.

Portanto, estamos assim numa espécie de ano de transição, será?

Ano de transição. Todos os anos temos tido uma crise, maior ou menor, mas todos os anos tem havido aqui alguma coisa a impactar.

Estamos a saltar de crise em crise.

Ano de transição é na realidade o PRR, porque 2026 vai ser o último ano de execução do PRR e havia o fator que estava a pesar no saldo orçamental. Muito rapidamente, o PRR tem duas componentes, uma de subsídios, outra de empréstimos. A de subsídios não pesa nas contas públicas, a de empréstimos pesa nas contas públicas, e 2026 tinha um peso maior de empréstimos do que nos outros anos. Se bem que na última reprogramação que foi feita, o governo cortou precisamente na parte dos empréstimos. Vamos receber menos empréstimos ao abrigo do PRR, qualquer coisa como 300 milhões de euros, o que poderia também ajudar a não ter um impacto tão grande no efeito PRR no saldo orçamental. Portanto, 2026 é um ano importante, digamos assim, precisamente por isto tudo. Tivemos as tempestades, temos a guerra, vamos lá ver o prolongamento da guerra, temos o efeito PRR e temos o efeito de não saber o que é que vai acontecer no orçamento do Estado para 2027 e as negociações que poderão ou não acontecer no Parlamento.

Um dos fantasmas é o da possibilidade de entrarmos numa chamada estagflação. É uma possibilidade ainda?

Sim, e um cenário muito severo. A estagflação está já a ser apontada por alguns economistas, mas num cenário de prolongamento da guerra muito mais largo e com impactos mais severos ao nível do crescimento e da inflação. A inflação aqui vai ser importante perceber até onde é que vai crescer neste cenário. Nos cenários base, digamos assim, do BCE, ainda não se põe o cenário da estagflação e mesmo a inflação aparece claramente a crescer, mas ainda controlada, porque os bancos centrais vão atuar mais rapidamente ao nível das taxas de juros. Mesmo no BCE já se antecipa que possa haver três mexidas este ano, contrariamente ao que era projetado anteriormente, e uma dessas mexidas pode já acontecer em abril, segundo estão a apontar os mercados.

Eu estou a ver aqui que a pressão para as medidas também vem da CAP.

Vem de todos.

Medidas de apoio à economia.

Apoio à produção, neste caso, mais specifically.

É, porque é sempre de apoio à produção.

A CAP tem razão por causa de um problema com os fertilizantes.

Exato. Eu acho que no caso da agricultura, talvez tenha sido a grande falha das medidas de apoio do governo, que até agora apresentou, que deixou o gasóleo agrícola e os agricultores de fora do apoio que foi dado.

Esta semana, hoje provavelmente, vai falar disso.

Sexta-feira, acho que o Conselho de Ministros é amanhã, mas na altura, quando foi anunciado o gasóleo profissional, que iria haver um benefício, é reembolso, para os transportes coletivos e mercadorias Se calhar devia-se ter posto logo os agricultores e nesse aspecto devia ter já havido uma ajuda ao gasóleo para a agricultura, ainda por cima porque estamos numa altura muito crítica na agricultura, que é a altura da plantação e de semear.

De plantações, de máquinas agrícolas.

Máquinas agrícolas.

Alexandra, há aqui uma questão.

Chega-te ao microfone, Helena.

Sim. Falamos todos imenso depois, tudo isso, mas não se pondera em nenhum destes cenários, também não sabemos, porque não conhecemos os dados do IDE, mas digamos que nas conversas sobre estes assuntos não se está a ponderar aquilo que já está a ser mais efetivado noutros países. Nós aqui falamos sempre muito depois, mas começar a moderar consumos. Aqui ainda não se falou, é um fato. E por que não se falou? Porque, segundo o governo e segundo os agentes do mercado, nós ainda não estamos com problema de abastecimento, de quantidade de abastecimento. Estamos com problema de preços. Mais no gás até do que na eletricidade, embora o preço da eletricidade também tenha uma componente de peso de gás, mas ainda não se falou. A Agência Internacional de Energia já falou genericamente na necessidade de contermos algum consumo e até recomendou teletrabalho.

Quem é que recomendou?

A Agência Internacional de Energia falou. Assim, medidas globais, genéricas, para controlarmos o consumo. Eu acho que essas medidas deviam ser feitas independentemente da crise energética ou não, mas controlar o consumo, abster-nos de algum consumo, se calhar é positivo.

Quem anda na estrada, pelo menos eu não dei por nada ainda.

Como aqueles que põem sempre 20 €, nunca aumentam o preço da gasolina.

Mas poderá ser uma hipótese o racionamento, por exemplo?

É muito difícil prever. Eu não tenho uma bola de cristal, mas creio que não chegamos a esse ponto.

Quando foi a crise, eu ontem estava a referir aqui quando a gente falou disto, que na crise de 73 houve racionamento.

73 há racionamento.

Tinha havido, inclusivamente, a introdução do limite de velocidade por causa dos combustíveis. E entretanto, as pessoas que nem tinham acreditado no que eu estava a dizer, depois referiram que lhes recordaram que inclusivamente houve uma coisa, e eu também me recordava disso, que era abastecer em dias alternados por causa das matrículas, quem tinha matrícula impar e matrícula par.

Mas hoje em dia, a cadeia de abastecimento do petróleo e do gás natural está um pouquinho diferente.

É muito diferente.

Ali dependia-se completamente.

Até as reservas que existem não têm nada a ver.

Já há mais diversificação.

Países como a Holanda, até porque o caso da Holanda foi muito mais duro, por parte dos países da OPEP, e a Holanda tem, à época, mesmo uma situação praticamente aflitiva. A questão dos racionamentos é que nós só temos memória de racionamentos em sociedades, as nossas, mas que eram substancialmente diferentes no acesso aos produtos e nas próprias formas de vida. Ou seja, a possibilidade de um racionamento hoje levanta questões que é difícil perceber como é que poderiam ocorrer. Quando nós olhamos para a forma como as pessoas reagiram aos racionamentos em 73 de combustíveis, é quase pensar como é que seria agora. É um outro país, são outros países, é um outro mundo. Por exemplo, há consequências do racionamento inexplicáveis. Nas estatísticas de saúde, nesse ano, 73, aumentam imenso as intoxicações. Uma coisa extraordinária, jovens com intoxicações. O que era? As pessoas usavam mangueiras finas para chupar o combustível dos depósitos e depois metiam num jerrican e depois levavam o jerrican com o combustível, com o gasóleo, a gasolina que tinham roubado, para o seu próprio automóvel. Mas são coisas que nós olhamos, são sociedades ainda muito rurais. Em Portugal também. Eu não consigo conceber.

conceber a ideia de racionamento.

Claro que pode acontecer, não estou a dizer que não venha a acontecer, mas é diferente. Os Estados Unidos hoje são o maior produtor de petróleo. Não acontecia.

E gás liquefeito, gás X.

E mesmo no gás, por exemplo, Portugal recebe essencialmente da Nigéria e dos Estados Unidos. Já há aqui umas rotas alternativas.

Ponto de fuga.

Claramente, a Ásia está mais exposta ao mercado, à produção do Médio Oriente do que a Europa. Nós na Europa também temos o problema da Rússia. Há aqui várias forças que põem um grande ponto de interrogação na questão, mas diria que hoje a diversificação é muito maior do que era nessa altura.

Do que era em 1973. Alexandra, tudo aponta para um excedente orçamental de algumas décimas, ainda não sabemos. Vamos saber daqui a uns minutos o valor exato.

Claramente acima dos 0,3%, até já se aponta que pode chegar a 1%.

O governador do Banco Portugal pede cabeça fria. O que o governo pode fazer com este excedente

O excedente é amortizar a dívida pública.

Todo ele vai para o pagamento da dívida pública?

Sim, isso é uma questão técnica. O dinheiro vai, sim, mas obviamente que dá aqui margem para o orçamento do ano seguinte, que é o que está em execução neste momento, 2026. O governo, para já, o que pode fazer é ter cabeça fria e pensar que nós temos problemas na nossa economia que têm que ser endereçados e que temos que ponderar uma situação em que a guerra seja mais prolongada e ter de entrar com um cheque mais pesado de apoios numa fase em que haja prolongamento da guerra. E vamos ver também o impacto que terá na execução orçamental o combate de tempestades, que ainda não está quantificado. Já há aí uns valores, mas ainda não há um valor fechado. Portanto, temos de ver também ainda que impacto é que essas tempestades terão. Mas claramente o governo, com o saldo que hoje vai ser anunciado, respirará um bocadinho melhor, digamos assim, mas não totalmente.

Não totalmente. Muito bem. Estamos a olhar para as contas públicas no dia em que o relatório do INE conclui que as contas do Estado registaram um excedente de 0,7% no ano passado. É um dado que acabámos de conhecer. Helena Matos, isto dá outro conforto ao governo do Luís Montenegro.

E há Congresso do Partido Socialista este fim de semana.

Por quê?

Não, porque há, porque vai haver.

O PS não governa.

Pois, exatamente. É essa a questão.

Então.

E conhecendo nós até aquilo que são neste momento as clivagens internas dentro do Partido Socialista, estes números, sobretudo o número que foi divulgado pelo INE, até porque as pessoas ficam nos títulos. O saldo orçamental é positivo, é até superior àquilo que se esperava e embora, e como a Alexandra e também já o Jose Manuel aqui frisaram, quando depois temos os outros dados, nomeadamente os do Banco de Portugal, o futuro não parece tão radioso, mas nós aquilo em que pensamos é no dia de hoje, até porque em geral já temos tantas dificuldades com o dia de amanhã, que nos agarramos àquilo que é o nosso dia de hoje. Portanto, politicamente, e era mais desse ponto de vista político que eu queria falar, eu creio que estes dados chegam, sobretudo este dado que está a ser divulgado e estes números que vão ser divulgados daqui a pouco por Miranda Sarmento, sobretudo este título sobre o saldo orçamental, acaba por ser importante, por ser positivo e por dar conforto. Dá conforto a Luís Montenegro, como é óbvio, e cria também aqui uma figura que é importante em cada um dos governos, que é a figura do ministro das Finanças. Neste governo de Luís Montenegro, é um governo muito do Luís Montenegro. Podemos pensar quais outros ministros é que se destacam.

Quando dizes muito do Luís Montenegro, é Luís Montenegro que aparece.

Que aparece, que é muito fulanizado em Luís Montenegro e, portanto, os ministros quando são referidos é porque são criticados. Tivemos a fase em que Ana Paula Martins, a ministra da Saúde, estava todos os dias nas notícias, porque nascia alguém numa ambulância, porque tinha acontecido um problema, porque havia uma crítica. Neste momento em que no Ministério da Saúde já estamos na fase da reorganização das urgências, já há notícias de alguma coisa que está a acontecer, independentemente de ser ou não muito substancial, isso acaba por ser positivo. Temos depois um outro ministro que tem estado a mexer em muita coisa, mas tem conseguido passar entre os pingos da chuva, quer das notícias, para o melhor e para o pior, que é o ministro da Educação. Tivemos e temos questões na administração interna, que levaram, aliás, à saída de Ana Lúcia Amaral, mas neste momento o novo ministro da Administração Interna é muito rápido a reagir. Ele sempre teve uma noção muito aguda das questões da comunicação, às vezes, na minha opinião, até demasiado aguda, mas viu-se como, por exemplo, reagiu de imediato ao atentado, recuso-me a chamar-lhe incidente, não sei se lhe devo chamar atentado, mas àquela agressão que aconteceu na Marcha pela Vida, ele reage muito rapidamente nesse momento. O governo do Luís Montenegro começa a ter aqui, e tudo isto é muito volátil, mas estar com outro tipo de resiliência para enfrentar o dia a dia. E a estruturação e ter um ministro das Finanças acaba por ser muito importante em cada governo. Nós vimos Vítor Gaspar com Passos Coelho, isto para não ir para trás. Não por acaso, nós tivemos primeiros-ministros, o caso Cavaco Silva, que foi ministro das Finanças e depois torna primeiro-ministro. O próprio entusiasmo e o próprio fato de Mário Centeno ter chegado a aparecer como alternativa, não apenas aos socialistas, mas sabemos até que António Costa o apresenta a Marcelo Rebelo de Sousa, quer dizer, independentemente de António Costa acreditar ou não na viabilidade dessa proposta, mas chega a propô-lo para lhe suceder

Na chefia do governo aquando daquela crise, em não irmos pra eleições. Miranda Sarmento fala pouco, não tem propriamente, em termos noticiosos, aquela cobertura que outros ministros das finanças têm tido. Teve, aliás, um episódio de saúde complicado aqui há pouco tempo. E, portanto, esta possibilidade de o ministro das Finanças aparecer como uma figura que traz aqui notícias que são relevantes para os portugueses, ser ouvido, ter os seus dias, parece-me também ser importante do ponto de vista político. Miranda Sarmento que está aqui, também ele a ganhar alguma visibilidade em termos governamentais. Respondendo à tua pergunta, para o governo, hoje é um dia positivo, não apenas pelos números que estão a ser apresentados. Estes, o Banco de Portugal precisa de mais. Têm outras notícias e estes, estou só a falar de É um dia pra ir almoçar fora hoje. Olha, tu deixa-te disso.

Mas, por outro lado, não pressiona mais o governo?

A quê?

A distribuir, por exemplo, o excedente.

Olha, João, isto é assim, eu na minha vida, que já não é assim tão curta, já tive três falências. Do meu país. Já os vi chegar três vezes. E depois, sempre essa ideia de que as coisas se resolvem pela distribuição. Eu, ao fim de tudo isto, estou levada a crer que talvez tenhamos de pensar mais em produzir mais riqueza do que em distribuir a pouca que temos. E acho que cada vez mais, que é por aí que devemos ir. É claro que há que distribuir. Eu quero chamar a atenção, nós neste momento estamos a pagar os juros da dívida pública portuguesa há 10 anos, estão entre 3,4 e 3,5. Nós vivemos, não há tanto tempo assim, uma situação dramática, em que nós vimos o que era estar dependente de credores. E como não é apenas a questão do pagamento e dos cortes, é a própria questão da perda de autonomia para opções que queremos ter. Portanto, eu acho que devemos ter muito cuidado com isso e mais, até porque politicamente, e realmente há um congresso do Partido Socialista este fim de semana, há aqui um problema. Para muitas pessoas, a política, e isso mais à esquerda e mais na extrema-direita, a questão não se apresenta verdadeiramente uma alternativa de governo. Quer dizer, nós queremos governar assim porque somos de ultradireita, ou nós queremos governar assim porque somos de esquerda ou de extrema-esquerda. Não, o que se diz é sempre: porque se tem de dar, porque se tem de ajudar. O auxílio não é uma forma de governo. O auxílio é algo que conjunturalmente deve acontecer na vida dos países quando há situações difíceis, ou para determinados cidadãos que por circunstâncias próprias, e geralmente dramáticas, precisam desse auxílio de forma circunstancial ou permanente. Por outro lado, também temos de pensar que nós não fazemos a menor ideia quanto tempo é que isto vai demorar. Não fazemos a menor ideia. Quanto tempo é que esta crise provocada pela intervenção militar no Irã e no Líbano vai demorar. Nós temos de entender que estamos em março, vai vir abril, vai vir o maio, nenhuma guerra dura quatro semanas. E nós temos de estar preparados para isso. Nós tivemos uma guerra na Europa que também ia durar muito pouco tempo. E temos de pensar que o hoje não pode comprometer o amanhã. E aqui quero chegar, sem me alongar muito mais, também creio que já deveremos estar com convidados.

Já.

E que é o seguinte: eu percebo o fascínio pelo modelo Pedro Sánchez. Neste momento, até pelas posições que tomou politicamente sobre as questões da Palestina, também sobre esta intervenção militar. Mas uma coisa é a adesão política à figura de Pedro Sánchez, que muitas pessoas terão. Outra coisa é pensarmos que aquilo é um modelo que poderia ser alternativo e positivo pra nós. Eu chamo a atenção para aquilo que é exatamente, se comparamos os nossos números de dívida, os nossos números de déficit com a Espanha, a própria forma, e eu percebo este estardalhaço todo sobre algumas medidas de apoio anunciadas por Pedro Sánchez, pois tem sempre aquelas coisas de proibir o lucro às empresas, não sei quantos, isso tudo. Mas a Espanha, neste momento, é um país que muito por via destas políticas de uma grande intervenção e que fazem grandes perengones e tornam as pessoas todas, vejam o que o Sánchez está a fazer, então eu sugiro que vejam o que o Sánchez não está a fazer. A Espanha é o país que este ano teve os acidentes rodoviários que teve, em boa parte porque se deixou de investir na infraestrutura e na manutenção da infraestrutura. Nós acabamos de receber os dados sobre o que é que tinha levado ao apagão E, portanto, vamos sempre bater ao mesmo ponto, que é: a Espanha é um país em que se tem investido mais em medidas que, por um lado, dão grandes títulos, por outro lado, permitem a Sánchez governar naquela coligação estapafúrdia que tem e manter-se no poder. O grande objetivo de Sánchez é não ir antecipadamente pra eleições, mas temos que nos perguntar se algumas daquelas medidas são, de facto, passíveis de ser mantidas caso o conflito se estenda. Depois, se são as medidas que a Espanha está a precisar e, em conclusão, quais seriam as consequências para Portugal da adoção rapidamente e em força de um programa como aquele. Portanto, acho que temos de ter a noção. Já agora, também lembrar-nos que a Espanha é o nosso grande parceiro comercial e, portanto, se alguma coisa ali não corre bem, e pode não vir a correr dentro de algum tempo, isso vai afetar-nos. Portanto, politicamente, acho que estes números que estão agora a ser apresentados por Miranda Sarmento permitem ao Luís Montenegro olhar com menos preocupação para o congresso do PS este fim de semana e talvez seja uma dor de cabeça acrescida para José Luís Carneiro.

Já temos em linha o Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Muito bom dia.

Muito bom dia.

Antes de mais, pedia-lhe um comentário aos dados revelados pelo INEA na última hora.

Está a me falar do saldo orçamental?

Isso.

É que só agora é que entrei. Tenho muita pena, mas não pude ouvir.

Um saldo orçamental de 0,7%.

0,7%, sim. É mais expressivo do que aquele que era projetado inicialmente, que era 0,3. Eu, por acaso, a propósito do saldo orçamental, algures em dezembro ou em janeiro, já não sei, fiz uma crônica pro "Eco" em que projetava o saldo e dizia que podia ser entre 0,7 e até passar um bocadinho de um, eventualmente. E por que se deve este resultado acima do previsto, dos 0,3? Basicamente porque houve muito investimento que não foi executado. Se esse investimento tivesse sido executado, por exemplo, imaginando que o excedente orçamental era de 1,2, caso mais generoso possível, o saldo orçamental teria sido de -0,2, de acordo com as minhas contas, se o investimento tivesse sido executado. Ora, se foi 0,7, significa que se todo o investimento tivesse sido executado, teria sido ainda pior.

Desculpe interromper. Bom dia, daqui Helena Matos.

Bom dia.

Escreveu, penso eu, se a frase não for exatamente assim, corrija-me, crescimento escasso e excedente à custa do investimento.

Certo, é isso mesmo. Repare que a taxa de crescimento do governo pra 2025 era de 2% e só foi 1,9. E portanto, significa que por essa via se colheram menos impostos do que aqueles que estavam previstos. Além disso, note que nós temos esse crescimento de 2 ou 1,9, pra ser mais preciso, ou tivemos, num contexto absolutamente favorável, conjunturalmente favorável, que resultou de um boom turístico, que está a diminuir, de um PRR generoso e de uma entrada entre 2017 e agora, mais ou menos em média de cerca de 168 mil imigrantes por ano. Mesmo tendo em conta o nosso padrão de especialização, que é um padrão de especialização excessivo em atividades de baixo valor acrescentado, produtividade reduzida e elevada volatilidade, mesmo neste padrão de especialização, a nossa taxa de crescimento teria que andar à volta dos 4% e só anda à volta do 1,9%, 2%. Isto leva-me a pensar ou a concluir que se calhar muitos dos imigrantes que entretanto entraram em Portugal estão provavelmente na economia não registrada ou paralela, ou já obtiveram a nacionalidade e já emigraram, e portanto nós achamos que estão cá e já não estão. Das duas, uma. Neste contexto absolutamente conjuntural, muito favorável, apresentarmos estes resultados, pra mim, são resultados aquém do desejado e resultam, como digo, de investimento que não foi executado. Nós estamos a degradar os nossos serviços públicos, os nossos bens públicos estão a se degradar.

Portanto, o que está a dizer é que se o governo tivesse feito mais investimento público, o crescimento teria sido maior, o excedente teria sido maior.

O excedente teria sido menor, teria havido défice.

O crescimento é que podia ser maior.

Exatamente, o crescimento poderia ter sido maior, mas o saldo orçamental teria sido negativo. Com 1,2, nas minhas contas dava um défice de 0,2. Com 0,7, se eu for ver o investimento que não foi executado, provavelmente tínhamos tido um défice a rondar os 0,4, por aí. Quando isto acontece, é o investimento que gera crescimento no futuro, que pode ajudar a mudar o padrão de especialização, a irmos pra atividades de maior valor acrescentado, aumentar a produtividade.

Investimento público ou investimento privado?

Investimento público.

Mas para essas mudanças de especialização da economia portuguesa, conta mais o investimento privado do que o investimento público.

Contam os dois, mas o investimento público pode dar sinais.

Por exemplo?

Se nós eliminarmos a despesa corrente primária, que por acaso, como nós sabemos, a Comissão Europeia nos está a alertar para o crescimento da despesa líquida primária. Mas se nós eliminássemos a despesa corrente primária, provavelmente podíamos descer mais os impostos.

Explique melhor o que é a despesa corrente primária, porque a maior parte dos nossos ouvintes não sabem.

A despesa corrente primária é a despesa que o Estado tem com atividades correntes. Que se intensifica porque há muita burocracia, porque há muitos serviços sobrepostos, por falta de organização, no fundo, por falta de uma gestão correta da máquina do Estado ou da empresa que é o Estado.

Mas sabe perfeitamente, todos nós, infelizmente, como a própria máquina do Estado é resistente. Eu penso que todos os primeiros-ministros de Portugal têm tido esse objetivo. A questão é como se a própria máquina do Estado, eu não vou dizer que boicotar, porque isso implica uma intencionalidade que eu não quero estar aqui a trazer, mas acaba por neutralizar essa intenção de sucessivos governos, tanto quanto sei.

Certo, mas então baixamos os braços e deixamos que as coisas aconteçam. Não fazemos reforma nenhuma. O anterior governo da geringonça não fez. Agora não fazemos e deixamos que as coisas aconteçam até não sei quando, até não sei o quê. Porque eu noto que desde o ano 2000 até agora, e de acordo com a Comissão Europeia, com o Aging Report da Comissão Europeia, até 2034, a taxa de crescimento projetada pra economia portuguesa, em média anual, é de 1%. Em 2034, preveem, por exemplo, 0,34 de crescimento. Ou 2033, eu não sei qual é o ano. É isto que nós queremos? Quando as economias de leste crescem em 3% ao ano e nós estamos cada vez a divergir mais e a cair pra cauda da Europa. Queremos isto? Queremos continuar com salários baixos? Queremos ver os nossos jovens a emigrar porque não encontram nas empresas portuguesas capacidade de lhe pagar o salário que eles obtêm lá fora? É isso que nós queremos? Não reformar o Estado, não fazer reforma nenhuma e deixar andar? Podemos deixar. Eu noto que tivemos o PRR, um valor tão expressivo, e passado o PRR voltamos à taxa de crescimento de 1%. Isso significa o quê? Que o PRR não foi transformador. E sem reformas nós não vamos a lado nenhum. É esta a mensagem que eu gostava de deixar. Podemos ficar agora muito contentes com taxas de crescimento de 2, conjunturais. Podemos ficar contentes com o saldo orçamental de 0,7, claro, melhor do que um déficit, mas isto resulta de não haver investimento, da degradação da saúde, da manutenção da degradação da Justiça, da Educação e do Estado pesado que ninguém consegue controlar, como acabou de referir. Há resistência, portanto, toda a gente está satisfeita com o que tem até um dia em que não havendo fundos, não sei como é que será, sinceramente.

Professor Óscar Gaspar, o que o governo deve fazer com este excedente de 0,7%?

Com este excedente, isso aí agora já depende das opções políticas.

Mas do ponto de vista racional e econômico, o que é que pode e deve ser feito?

Assumindo, por exemplo, que é previsível que as taxas de juro possam aumentar, será prudente, por exemplo, amortizar a dívida. Aproveitar pra amortizar a dívida.

Não é obrigatório.

Sim, há uma obrigatoriedade nisso. Mas também pode usar algum, se calhar, pra fazer mais investimento, que seja transformador.

Que seja transformador. Professor Óscar Afonso, agradeço-lhe ter estado conosco no Contracorrente esta manhã, a olhar para os números mais recentes da economia portuguesa, que apontam para um excedente orçamental de 0,7% do PIB. Helena, estás com um ar muito curioso a olhar pra mim, por quê?

Eu estava a pensar, por exemplo, houve uma notícia que passou muito discretamente, mas para perceber como mesmo isto, que aparentemente é uma coisa muito racional, não foi contestado, mas foi sabe-se lá como é que vai funcionar. Por exemplo, o Ministério da Educação tinha uma editorial, era a editorial do Ministério da Educação, que hoje em dia imprimia basicamente impressos oficiais, os exames, essas coisas. E neste momento, conseguiu-se uma coisa extraordinária. Estás a ver o trabalho, os custos, tudo aquilo que implicava manter uma editorial no Ministério da Educação, quando Portugal tem uma coisa chamada Imprensa Nacional. Casa da Moeda, que tem todos os procedimentos securitários, tudo e mais alguma coisa.

Sobretudo, é uma editora de livros.

Exato.

E é uma editora do Diário da República, não é?

Também.

O mais antigo diário português.

Portanto, tem tudo isto. Antes tinha outro nome, não era Diário da República. Diário do Governo. Eu não sei se Portugal ainda detém a publicação editada há mais tempo, sem interrupção, que é a Revista Militar Portugal teve algum racionamento na Segunda Guerra, mas não interrompemos as publicações, portanto, temos a Revista Militar. Mas voltando, esta editorial, do ponto de vista dos custos do funcionamento, não faria sentido estar no Ministério da Educação, portanto, passam os seus serviços para a Casa da Moeda. Mesmo assim, lá vem aquela declaração do Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas.

Deixemos suspirar.

Agora é que já suspiraste. A dizer que a editorial sempre prestou serviço do agrado das escolas. Espero que a Imprensa Nacional Casa da Moeda siga o exemplo. A Imprensa Nacional Casa da Moeda merece credibilidade, mas o serviço da editorial do Ministério da Educação era muito específico. E depois conclui com uma coisa extraordinária: "Espero que tenham técnicos à altura." Ó senhores, fim de citação. Estamos a falar da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Se a Imprensa Nacional Casa da Moeda não tiver técnicos à altura para imprimir os boletins dos exames, bem podemos encostar-nos todos à parede. Isto é só um exemplo.

Agora já não tem que fazer notas de reis.

Exato.

Em princípio, ela fazia notas.

Fazia notas, chama-se Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Notas, dinheiro.

Notas, dinheiro, que é um processo

Porventura, até um pouquinho mais rigoroso que fazer os boletins dos exames do Ministério da Educação.

Mas isto é só para te dar um exemplo, uma coisa que até nem gerou contestação, coisa que até fiquei pasmada. Mas mesmo assim, é isto. Por isso é que eu estava a olhar pra ti.

Pronto.

Não que não valha a pena olhar pra ti.

Obrigado.

Não vejas nisto uma crítica.

Nada disso. Vamos chamar o António Nogueira Leite, economista. Muito bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Pedia-lhe também um comentário aos dados conhecidos na última hora sobre as contas públicas, que revelam um excedente de 0,7% no ano passado. Está dentro dos limites expectáveis, certo?

Certo. Do ponto de vista político e do ponto de vista mediático, acho que é um excelente resultado, porque está no limiar superior das melhores expectativas com o que se conhecia até então. Do ponto de vista mais da substância, acho que é um resultado que é melhor do que um mau resultado, mas não tem o significado que vai ter no mundo político e na comunicação, isso de certeza absoluta.

Exatamente.

Porque ele resulta de um bom comportamento das receitas fiscais, portanto, um esforço continuado dos contribuintes portugueses. Também o investimento público não subvencionado, portanto, o que conta para o Orçamento de Estado, está melhor do que nos piores anos do professor Centeno, mas não está a repor a capacidade de produção de bens e serviços públicos por parte do Estado, que se poderia eventualmente estar. E resulta também de algo que é muito conjuntural, ainda que há vários anos com a mesma conjuntura, que é um superávit da Segurança Social significativo, que resulta de estarmos muito perto do pleno emprego, o emprego ter aumentado permanentemente nos últimos anos, infelizmente, numa espécie de hipermercado econômico, ou seja, com grande volume, portanto, muita gente a trabalhar, muita gente a produzir, mas o valor acrescentado fraquinho, assim como nos hipermercados, a margem de contribuição para o lucro é baixa, por cada euro que circula.

E muito sustentado, corrija-me se estou enganado, no turismo, não é?

Sim. Essa e outras atividades correlacionadas são atividades de relativamente baixo valor acrescentado. É muito como Portugal e Espanha, que são países que têm, nos últimos anos, sido uma espécie de estrelas do crescimento econômico na União Europeia, até mais a Espanha que Portugal, mas resulta essencialmente, como ainda há uns tempos escrevi e como outras pessoas em Espanha também têm escrito, em Portugal talvez um bocadinho menos, mas agora o relatório do Banco de Portugal, de outra maneira, vem dizer o mesmo, que o nosso crescimento resulta de termos muito mais gente a trabalhar. Nós temos mais de um milhão, e os espanhóis têm mais quase nove milhões de pessoas a trabalhar do que tinham antes da crise de 2011. O que significa que a nossa produtividade média não cresceu, não se aproximou da performance do desempenho dos países mais produtivos da zona euro.

Continua a ser a nossa maior fraqueza.

Crescemos mais. Exato. Portanto, temos muito mais gente empregada, mas o valor criado é relativamente baixo, tal como em Espanha. Em Espanha é um bocadinho mais alto que o nosso, mas também abaixo daquilo que é os melhores padrões da União Europeia. E portanto, o produto vai crescendo, todos os anos vamos crescendo, mas não vamos crescendo em qualidade, diria eu.

Uhum. 0,7.

Isso é um outro aspecto. Se tivermos uma crise, e vamos ter uma crise, as economias são cíclicas, há de haver uma crise algures. Pode ser mais perto, pode ser mais longe, tudo depende de uma série de fatores que Portugal não controla. O que acontece é que vamos ter o problema de um muito menor superávit da Segurança Social e de maior despesa social com as pessoas que, entretanto, estão em situações de desemprego, entre empregos, etc. E portanto, temos um modelo que eu acho que não é muito resiliente a impactos negativos prolongados sobre o desempenho da economia. Passamos a ter também algum risco Nas nossas contas públicas, que resulta do nosso modelo econômico, que é bom quando as coisas crescem, vai ser muito oneroso quando as coisas não correrem tão bem.

Bom dia. Há uma coisa que às vezes se fala é que quando esses choques acontecem num momento em que temos uma população migrante muito grande, os imigrantes vão-se embora. Portanto, não tem tanto impacto sobre a estrutura do senso social. Aconteceu quando foi a crise anterior, na altura eram sobretudo imigrantes de Leste, e agora serão imigrantes vindos de outras paragens.

Eu acho é que talvez seja mais difícil para as pessoas que cá estão agora movimentarem-se para outras zonas do que era na altura os ucranianos e os romenos.

Pois.

Não sei.

Ou os brasileiros, também os brasileiros têm a ver com ciclos.

Exato. E aliás, se olharmos, por exemplo, as contribuições no relatório do Banco de Portugal, as contribuições dos imigrantes brasileiros, em termos relativos, baixaram imenso. O que significa que eles estão a mover-se para outras geografias. Alguns passam a ter a capacidade de se deslocar na União Europeia e vão para países onde os salários são maiores. Que era o que nos acontecia com os refugiados, eles vinham para cá e ao fim de um ano já não estava cá ninguém, porque estavam todos na Alemanha e na Holanda.

Portanto, continuamos a ter uma economia muito vulnerável aos choques exteriores, António Garoufa.

Sim. Isso temos necessariamente, somos uma economia aberta. E isso vai ter impacto nos exercícios orçamentais do futuro, pobre do ministro das Finanças se entrarmos em recessão. Ou quando entrarmos em recessão. O problema que eu vejo é um problema da economia portuguesa. Nós andamos há 30, 40 anos preocupados com a produtividade, mas o que é fato é que progredimos em muita coisa, menos aí. E isso é essencial num processo de criação estável de riqueza a prazo. E para termos o Estado Social que queremos ter no futuro, com uma demografia menos favorável, nós precisávamos imenso ter ganhos de produtividade agora e infelizmente não estamos a ter.

Bom dia, António Nogueira Leite, aqui Helena Matos. De qualquer forma, em relação àquela que é uma atividade importantíssima em Portugal, que é o turismo, nós poderemos ter neste momento duas boas notícias. Uma boa notícia, porque resulta das más notícias dos outros, e que é a situação de conflitualidade muito forte em algumas zonas do Médio Oriente, pode acabar por trazer, como aconteceu aquando das Primaveras Árabes, mais turistas para Portugal, na medida em que Portugal é visto como um destino seguro. E, portanto, enquanto as pessoas considerarem que se calhar ir para o Egito, para Tunísia, não é a alternativa mais segura, poderão continuar a procurar Portugal e nós continuamos com o número de crescimento de turistas. Mas talvez haja nisto um dado que seja importante, é que o turismo, segundo os últimos dados, está a gerar mais valor por visitante.

Mas não são desses turistas. É, sobretudo, a presença de mais americanos.

Sim.

São muitos americanos, brasileiros ricos e menos europeus. Porque os europeus, os alemães e os ingleses não fazem muita diferença.

Sim. Mas, portanto, há aqui uma notícia que não é má nisto.

Do ponto de vista conjuntural, com certeza, a notícia não é má. Eu próprio tenho amigos que iam agora para o Egito descer o Nilo e já não vão, vão para o outro lado.

Medrosos.

Medrosos. Eu digo isto, mas sou um bocadinho medroso hoje em dia, antes não era. Mas de qualquer das formas, o que é fato é que nós sempre tivemos turismo. E, portanto, o turismo é uma atividade que vai ser sempre importante em Portugal. A questão é uma dependência crescente de um turismo que não acrescente muito valor. Se tivermos turismo que acrescente valor, mas isso significa conjugarmos isso com as questões de longevidade, conjugarmos isso com as questões do turismo cultural, há muito turismo que pode deixar muito valor em Portugal. Por outro lado, conseguindo captar pessoas, como por exemplo, estamos a conseguir, enquanto Portugal estiver na moda nos Estados Unidos, que agora está na moda, não sei por quanto tempo, mas para já está, é evidente que são turistas que têm uma capacidade de deixar valor no país maior. E isso é muito importante também porque temos uma oferta turística um bocadinho mais diferenciada do que tínhamos há uns anos atrás. Portanto, também há trabalho aí. Agora, o tema do turismo não é a massificação, é crescer em valor, no sentido de termos turismo mais sofisticado, que esteja disposto a pagar mais. Agora, temos que conjugar isso com uma série de outras políticas. Portanto, turismo não é atrair pessoas para virem cá comprar casas e irem-se embora. Turismo é pessoas que venham, de fato, visitar Portugal, que pratiquem atividades que deixem valores em várias empresas, e que estejam disponíveis para pagar preços que se empatem recursos nesse setor.

António Garoupa, estou gostando de perceber, surgiu aqui a dúvida ao longo do programa, o excedente orçamental conseguido o ano passado é só para pagar dívida ou não?

Quer dizer, se gastarmos, deixa de ser excedente. O excedente chegou ao fim do ano passado, portanto, agora começam a contar as dívidas deste ano. Quando contabilisticamente cristaliza num determinado valor, esse valor significa redução de dívida face ao excedente apurado no instante anterior. Portanto, tecnicamente, abate a dívida. Agora, o que isso significa? Significa que partimos com um bocadinho mais de folga do que se tivéssemos um excedente mais baixo. Isto é uma questão contabilística, aritmética, não é uma questão de escolha. Tecnicamente, é assim. Por isso é que estamos abaixo dos 90% pela primeira vez em bem mais do que uma década.

E essa deve ser a estratégia a seguir? Pagar dívida?

Eu acho que sim, porque se olharmos para o nosso médio e longo prazo, ele não é risonho. Porque a nossa demografia não ajuda muito. E nós temos uma série de áreas em que vão saindo notícias, mas quem tem pais mais velhos, como é o meu caso, tem essa noção, em que há muitas pessoas que não têm, porque não existem recursos públicos ou recursos coletivos suficientemente fortes, que têm uns últimos anos muito tristes, muito sozinhos, muito degradados, com muito pouco apoio, em condições, nalguns casos, quase infrahumanas. E como vamos ter muito mais velhos em relação ao total da população daqui a 10 anos do que temos hoje e daqui a 20 anos, independentemente da imigração que tivermos, que tem a ver com a evolução daquele estoque enorme de pessoas que tiveram poucos filhos, mas que entretanto vão chegando a idades mais avançadas, coletivamente vamos ter de gastar mais dinheiro nisso, ainda por cima com pensões mais baixas.

Com pensões mais baixas.

Portanto, esse dinheiro tem de vir, de alguma forma, do coletivo. Nem todos vamos conseguir resolver isso com o dinheiro que pusemos de lado. Se olharmos para o salário médio em Portugal, não estamos à espera que os portugueses médios tenham uma grande poupança.

António Nogueira Leite, com tudo isto, hoje é um dia feliz para Miranda Sarmento.

Seguidamente.

Está a falar agora e com um ar de que hoje é um dia bom pra ele, mas aquilo que nos está aqui a dizer é que quem suceder a Miranda Sarmento ou ele mesmo pode vir a ter dias complicados.

Sim, porque esta nossa situação é uma situação que nós conseguimos ter um equilíbrio que resultou de até agora termos tido crises relativamente curtas, desde a grande crise da dívida pública de 2011, 2014. E, por outro lado, temos conseguido arrecadar muitos impostos, continuar a arrecadar muitos impostos. Com a vinda destas pessoas todas, temos tido saltos e com muita atividade econômica, ainda que com pouco valor, temos tido saldos muito bons na Segurança Social, que têm ajudado, por exemplo, aos déficits que continuamos a ter importantes na administração central. Isto sem investir. Portanto, isto não dura para sempre. Há uma altura em que nós já nos queixamos da degradação de qualidade nalguns serviços públicos. Já percebemos que em muitos sítios, pagando menos, se calhar é racionalizando as pessoas e orientando melhor, gerindo melhor. Mas quer dizer, agora as alavancas que temos, as fáceis já as usamos todas. Que mesmo assim, durante muitos anos, nem isso fazíamos. Houve aqui uma melhoria, passamos a utilizar, mas não temos folgas.

Nem almofadas, nem colchoões, nem travesseiros. Temos sempre aquele imaginário molaflex. Houve uma altura em que passávamos a vida a discutir as almofadas.

Houve uma altura em que tínhamos, andámos a vender empresas públicas e isso deu para muita coisa no fim dos anos 90 e princípio da década de 2000.

Portanto, não há grande folga para descida de impostos, por exemplo.

A não ser que a economia se passe a comportar de outra forma, e isso não acontece de um momento para o outro, eu acho que não. É evidente que haverá sempre forma de declarar descidas de impostos e de fazer pequenas engenharias, mas engenharias que mudem radicalmente a maneira como os portugueses financiam a administração pública, eu acho que não há neste momento condições para isso.

Outra coisa, tem-se visto em Portugal, em relação às medidas que têm sido anunciadas nas últimas semanas pelo governo para acudir às dificuldades de famílias e empresas perante esta crise em que estamos a viver, suscitada pela intervenção no Irão e o bloqueio do tráfico de combustíveis. O governo português tem anunciado algumas medidas e temos, muitas vezes, visto ser criada uma imagem demasiado cautelosa do governo português face ao espírito mais voluntarista e interventivo do governo espanhol. E com um plano último, que foi anunciado por Pedro Sánchez nos últimos dias, com 80 medidas. Quando olha pra isto, o que se lhe oferece dizer?

Olhe, vou lhe dizer uma coisa, Espanha vive uma situação política completamente diferente da nossa, em que o governo espanhol está a um ano de eleições gerais, teve eleições em Castela e Leão, a seguir eleições na Extremadura, vai ter agora eleições muito importantes na Andaluzia e, portanto, há aqui imensa política pré-eleitoral. Por outro lado, a Espanha não tem orçamento de Estado há imenso tempo. Acho que já vão para entre o terceiro e o quarto ano que não têm orçamento aprovado. E, por outro lado, a situação financeira do Estado espanhol, que era muito melhor que a portuguesa, é hoje em dia pior.

Sim.

Eles têm défice.

E não é só isso.

A Segurança Social.

Eles tiveram uma vida muito melhor do que nós. A Segurança Social deles é uma bomba-relógio, porque o ajustamento Vieira da Silva, eles não fizeram nada equivalente. E, portanto, neste momento, a pensão média é superior ao salário médio, que é uma coisa verdadeiramente incrível. Mas é importante porque, tal como em Portugal, os pensionistas votam PS, em Espanha votam PSOE. E portanto, é aquele núcleo de votantes que estão, de alguma forma, eu não queria dizer comprados, mas estão aliciados pela situação financeira privilegiada. Depois, um outro aspecto muito importante aqui é que nós temos que ter a noção, em Portugal, de que o orçamento não é elástico e de que não sabemos sequer a duração total desta crise. Portanto, devemos ir dando os apoios à medida que eles são necessários. Por exemplo, não faz sentido que uma pessoa tenha gasolina altamente subsidiada para ir viajar e estar no escalão mais elevado do rendimento. Por que nós todos devemos estar a financiar isso? Temos que ter medidas mais focadas, mais dirigidas para quem efetivamente precisa. Até porque à medida que a crise vai durando, fica claro que vamos ter, pelo menos, algum tempo de mais inflação. E a inflação é um imposto que prejudica mais os mais pobres. Regressivo. Portanto, nessas circunstâncias, nós temos que ter medidas que fiquem focadas nas pessoas que vão sofrer mais com a crise, na parte dos combustíveis e na parte da evolução geral do nível de preços. Muitas vezes são pessoas também que estão endividadas e, portanto, também vão estar a pagar este maior prêmio de risco que as Euribor vão refletindo e quando têm créditos associados ou dívidas, no caso deles, dívidas associadas e pagas indexadas à Euribor, vão ter um esforço maior. E, por outro lado, podemos ajudar algumas indústrias em que haja nos outros países apoios específicos e que são importantes porque estão em concorrência internacional e não faz sentido. Temos que ter um nível, de alguma forma, de concorrência tão saudável quanto possível, tão pouco distorcida quanto possível. Quando damos dinheiro a todos, como fez Espanha, está bem, podem. A União Europeia também não se preocupa da Espanha não ter orçamento, pelos vistos.

A Espanha tem muitas coisas com que a União Europeia não se preocupa, estranhamente, inclusive o Estado de Direito.

Sim, o sistema judicial, eles são tão cautelosos, e bem, com o sistema judicial polaco ou húngaro, mas o que se passa em Espanha não é muito diferente e não há ali grande preocupação que eu tenha visto.

Portanto, não aconselha medidas como, por exemplo, a descida do IVA no setor alimentar.

Muita gente pediu, mas eu acho que se deve concentrar. Por exemplo, se forem apenas um número muito restrito de bens, de pequenas necessidades, que seja uma componente importante daquilo que os mais pobres consomem, sim. Mas por que eu hei de baixar o IVA no bife de lombo? Que é isso que é geralmente consumido por pessoas que é evidente que vão estar pior, todos nós vamos estar pior, mas muitos vamos conseguir suprir com os nossos próprios meios. Portanto, eu devo concentrar isto o mais possível naqueles que mais necessitam, e não de uma forma generalizada por todos, como muitas vezes se gosta. Eu já ouvi argumentos de colegas meus, que é uma coisa verdadeiramente extraordinária, porque isto não é técnico, isto é político, que é dizer: "Eu não posso discriminar em favor dos mais pobres, porque isso é colocar os mais pobres numa situação de humilhação." Não, eu devo ajudar os mais pobres.

O estado social é o quê? Toda a distribuição é essa. O princípio da distribuição é esse.

Exatamente, o estado social não é, por exemplo, o que nós temos em Portugal, que é ter os filhos dos CEOs do PSI20 poderem ter livros grátis no secundário se andarem numa escola pública.

Sim.

Foi o caso lá em casa. Eu não sou CEO, mas não ando longe. E foi o caso lá em casa, não faz sentido nenhum.

Sim, ou como acontece, em que temos aquela perversão, muito particularmente no ensino superior, em que o ensino superior público é-

É para pessoas mais ricas, ou melhor, mais afluentes do que o ensino superior privado.

Do que o ensino superior privado.

Agora já está menos. Estão encabrados.

E depois temos manifestações a pedir que não se pague quaisquer propinas, que já de si têm um valor absolutamente irrisório e simbólico. Sim, também já tinha ouvido esse argumento.

Mas eu acredito fortemente na necessidade de ter um chão comum, um estado social que apoie os mais pobres. Um estado social que apoie os mais pobres não é um Estado que vai buscar a todos para depois distribuir por todos de uma forma irracional e que muitas vezes até gera maiores distorções no rendimento final. Portanto, não pode ser. E estamos a gastar demais. Nós continuamos a ter um problema orçamental. Basta olhar para a dívida que temos. E para a demografia que temos.

E para a demografia que temos. E nesse sentido é essencial uma reforma do Estado também.

Absolutamente. E que produza resultados econômicos. Porque eu às vezes fico um bocadinho nervoso quando se põem tantas restrições como: "Eu vou reformar o Estado, mas o número de funcionários não pode diminuir." Então eu fico logo com um problema conceptual que é: eu vou reformar o Estado para que o Estado funcione melhor. Ou eu vou buscar novas funções ao Estado, e não estou a ver quais, ou então provavelmente eu consigo fazer o mesmo com menos, afetando as pessoas de outra maneira. E pelo menos, se calhar, não preciso de contratar 100 mil pessoas como fizemos nos últimos 10 anos.

Exatamente.

António Vieira Leite, agradeço. Muito obrigado por se ter sentado hoje.

Foi um gosto, muito obrigado.

Muito obrigado. José Manuel Helena, notas finais em poucos minutos. O que é que sobra deste dia que ainda vai a meio e o ministro continua a apresentar os dados

Segundo os oráculos estará a dizer: este governo está aqui para o que der e vier. Portanto, este é um dia em que Miranda Sarmento, o coração de Miranda Sarmento, estará certamente hoje mais tranquilo. Agora, é exatamente isto, este governo está aqui para o que der e vier, mas nós, isso é uma longa mais, com o país que temos, com a demografia que temos, com a economia que temos, sim, nós estamos cá para o que der e para o que vier, mas o que vier pode ser menos bom. E é esse vier, sim, nós estamos cá e adaptamo-nos ao que vier, mas pode não ser bom.

José Manuel.

Eu acho que algumas das pessoas que intervieram aqui neste programa tocaram na ferida central. E a ferida central é: nós podemos ter aqui dificuldades, mas nós temos fragilidades que não estão ultrapassadas de maneira nenhuma. As principais são: um crescimento, apesar de tudo, relativamente anêmico do Produto, uma produtividade em queda, o que é absolutamente extraordinário em termos de maus resultados, e uma incapacidade de ter uma despesa pública mais coerente. O que eu quero dizer com isto? Quer dizer que mais depressa acrescentamos despesas correntes e com funcionários e compomos os números com cortes no investimento do que fazemos o contrário. Portanto, é uma despesa pública mais para as clientelas da administração pública do que para o cidadão. E essas mudanças, que são exigidas há muito tempo e referidas há muito tempo, e em alguns casos prometidas também há muito tempo, não estão a acontecer. Portanto, isto são dados positivos. Eu não sou daqueles que acham que tudo isto é mau. Há uma parte do Parlamento que acha que todo o dinheiro deve ser gasto, não deve sobrar nada. Não é a solução, precisamente porque nós temos uma dívida pública muito elevada, está a diminuir, ainda bem, mas essa dívida pública, é só haver alterações nas taxas de juro, por definição, a dívida pública vai nos custar mais caro. E houve uma altura em que ela custava muito dinheiro. Agora não está a custar, porque o spread dos juros não é assim tão elevado, mas é uma espada de Dâmocles que temos pendurada sobre a nossa cabeça.

O selo dos tempos do monitor em sorvento, para se ver todos os dias como se desvia.

A evolução. E agora vou ser mauzinho, temos três anos sem eleições, isso também conta.

Isso diz tu!

Digo eu?

Quando há eleições.

Aparentemente há muita gente a pensar nisso. Vamos ver o que acontece no Congresso do Partido Socialista este fim de semana, onde aparentemente há gente que não quer pensar nisso, quer pensar no contrário.

O presidente pode não querer convocar eleições, mas isso pode ser-lhe imposto parlamentarmente.

Vamos ver. É para continuar a acompanhar. Vamos continuar a detalhar os números conhecidos na última hora, até porque nesta altura o ministro das Finanças está a dar a habitual conferência de imprensa aos jornalistas. Vamos ouvir parte dessas declarações no Jornal do Meio-Dia, que chega daqui a instantes. José Manuel e Helena, até amanhã para um novo Contracorrente.