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Muito bom dia, são 10h02. Regressamos ao Theatro Circo, em Braga, onde está a decorrer a Cimeira da Indústria, organizada pelo Observador e que conta com a presença de vários oradores ligados ao setor e também com a presença do primeiro-ministro, que estará prestes a falar. Pode assistir ao vivo, a entrada é livre, ou também pode assistir em direto nas nossas redes sociais. João.
Daqui a uns minutos deverá falar o primeiro-ministro, isto porque nesta altura dá as boas-vindas a esta Cimeira da Indústria Ramiro Brito, o presidente da Associação Empresarial do Minho. Ele é o terceiro orador desta Cimeira da Indústria, que começou há cerca de 15 minutos, com a abertura de trabalhos e votos de boas-vindas de João Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Braga. Teve a oportunidade também de falar António Carrapatoso, presidente do Conselho de Administração Executivo do Observador, que é também o organizador desta Cimeira da Indústria, que por volta das 16h vai receber dezenas de empresários, dezenas de profissionais, não só da indústria, mas também dos serviços associados à indústria e da academia que trabalha com a indústria aqui na região de Braga e também na região Norte, para debater temas que estão muito relacionados com a atividade económica portuguesa, nomeadamente a escala e a competitividade, os desafios que os gestores no mundo atual enfrentam, num mundo cada vez mais incerto. Perceber de que forma é que a inovação, a tecnologia, as competências dos trabalhadores e também dos gestores afetam a indústria e podem tornar a indústria portuguesa cada vez mais diferenciadora num mundo que é cada vez mais competitivo. E depois, ao longo do dia, vão ser debatidos os eternos custos de contexto, porque Portugal é um país que fica muito longe do centro da Europa, apesar de ter uma gigante autoestrada aberta para o mundo, que é o Oceano Atlântico, e depois outros obstáculos que vão ocupar os palestrantes durante o dia de hoje. Creio que nesta altura, e pedindo aqui ao Bernardo Almeida, o nosso técnico de som, que me dê um pouco do som da sala do Theatro Circo, eu creio que nesta altura já se prepara o primeiro-ministro para discursar. Ainda não. Portanto, isso deverá acontecer daqui a instantes. Helena Matos, chamava-te a esta conversa, enquanto fazemos aqui este pequenino compasso de espera para acompanhar a intervenção do primeiro-ministro aqui na Cimeira da Indústria. Vais moderar o último painel do dia, onde vais ter um académico e dois grandes industriais aqui da região. Queres esmiuçar um pouco das inquietações que vais manifestar e as perguntas que vais fazer, não só a um académico, mas também a dois grandes industriais?
Basicamente, eu espero falar o menos possível, porque eu acho que a grande oportunidade é ouvirmos as pessoas, conseguirmos que eles expliquem o que é o dia a dia. Porque uma coisa era quando tudo isto começou, e nós estávamos muitas vezes a falar há bocado, quando começou naquelas traseiras das casas do Vale do Arco. É óbvio que nós estamos a falar aqui de uma zona onde, por exemplo, havia uma grande atividade industrial na produção de chapéus, porque estamos a falar do século XIX, os homens usavam todos chapéus e havia um determinado tipo de chapéus que era muito fabricado aqui nesta região. Mas estávamos a trabalhar para um mercado interno. Hoje em dia, qualquer borboleta que bates asas num sítio qualquer do mundo, pode ter reflexos, impacto. Como é que é? Por outro lado, estamos também aqui a falar de uma zona, isso era uma das coisas que eu gostava de perceber, a proximidade a um centro que é a Galiza, onde há uma atividade industrial muito evidente. É claro, todos nós pensamos sempre no nome de um grande grupo, o caso da Inditex, mas muitos outros. Nós muitas vezes temos sempre aquele momento de orgulho pátrio, de perplexidade, orgulho pátrio e constatação da nossa ignorância, que é quando percebemos que há uma fábrica aqui, muitas vezes nestas zonas, que está a fazer peças para um gigante do mobiliário.
Ou que produz fivelas para uma grande marca de malas.
Exatamente.
Não sei se era o caso. Mas há muita indústria.
E, portanto, como é que se consegue estabelecer essas parcerias? Como é que se chega lá? Também como é que se pode ou não ficar completamente dependente, ou a necessidade de ter uma marca e não trabalhar apenas para as grandes marcas a fazer fivelas para a Special?
Muitas dúvidas. Estás a pensar tornar-te industrial?
Não, estou a pensar ouvi-los, porque acho que é fundamental. Estas pessoas muitas vezes não são muito ouvidas e isso é fundamental. Nós precisamos mais de ouvir, muitas vezes, do que de falar.
Muito bem, até porque na plateia estão outros industriais e estes momentos são sempre bons para trocar ideias. Cimeira da Indústria, que decorre aqui no Theatro Circo, em Braga. O som que chega da sala deste lindíssimo teatro indicia que o primeiro-ministro já está a discursar. Vamos ouvir.
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Braga, senhor Secretário de Estado da Economia, senhor Presidente do Conselho de Administração do Observador, senhor Presidente da Associação Empresarial do Minho, nestes quatro, permitam que possaCumprimentar-vos a todos e dizer-vos que é, para mim e para o senhor Secretário de Estado da Economia, um gosto grande poder partilhar este momento de abertura desta cimeira da indústria e corroborar aquilo que já foi aqui dito pelos três oradores que me antecederam e que se enquadra muito naquela que é a estratégia económica e social que nós temos para o nosso país. Nós queremos um poder municipal autárquico, um poder intermunicipal forte, interventivo, com capacidade de mobilização dos recursos públicos, mas também do potencial cívico e social dos territórios, com visão estratégica, com capacidade de estabelecer parcerias, com a assunção plena da vocação de dinamização do tecido socioeconómico que tem sobre a sua jurisdição. Nós acreditamos nas empresas e acreditamos na comunicação social. Na comunicação social que privilegia a centralidade da informação, do rigor informativo, como elemento estruturante da nossa democracia, da arquitetura, da relação de todas as forças sociais, vamos chamar-lhes assim, e que, como aqui também foi bem descrito, para além desse princípio de veicular e transmitir aquilo que se passa, de esclarecer, de fazer compreender, vai também mais longe e leva esse intuito e objetivo de escrutinar, de fiscalizar, de informar, ao ponto da reflexão, do pensamento, da ousadia, como aqui foi há pouco mencionado, de ser parte do aprofundamento dos caminhos que o país aos mais variados níveis pode trilhar. E acreditamos nas empresas. Acreditamos na iniciativa que os empreendedores têm, aproveitando o capital humano, elemento principal da força de uma sociedade e de uma economia, que aproveitam o conhecimento, a tecnologia, a inovação e que conciliam os seus fatores e processos de produção, de maneira a poderem tirar a maior rentabilidade possível, porque é essa rentabilidade que vai alimentar a retribuição da força de trabalho, pagando melhores salários, é essa rentabilidade que vai permitir ao Estado ter os instrumentos para poder fazer a política pública de estímulo à criação de mais rentabilidade, de mais riqueza e também de garantia da igualdade de oportunidades na sociedade, que o mesmo é dizer, poder ser parte ativa e construtiva daqueles que precisam do apoio do Estado para prosseguirem os seus projetos. E é também a rentabilidade que permite os instrumentos para se ir fazer amanhã mais do que aquilo que já se fez ontem, para se ir mais longe, para chegar primeiro, para ser mais eficiente e poder ganhar quotas de mercado e para poder ombrear nos mercados, nomeadamente internacionais, com capacidade de penetração e de afirmação daquilo que são os recursos que temos e os objetivos que atingimos através da nossa produção. Portanto, eu tenho a minha tarefa muito facilitada. Aquilo que foi dito é, de facto, muito enquadrador do projeto que temos para Portugal e que eu apenas acrescentaria, neste sentido, para fazer votos que a vossa reflexão durante o dia e a vossa interação nesta cimeira resulte em conclusões, não vou dizer consensuais, mas convergentes, para que possamos sair ainda mais fortes para enfrentar os desafios atuais. O vídeo que lançou esta cimeira foi muito elucidativo nas suas imagens e de uma forma muito simples, acabou por nos colocar perante a questão de, num contexto de incerteza, num contexto em que, creio que a frase era mais ou menos esta: "o inesperado é a ordem do dia". A instabilidade está, infelizmente, relativamente consolidada a nível político, geopolítico e comercial. O que é que nós, Portugal, neste contexto, com a história das últimas décadas, podemos fazer e projetar? E como é que a indústria pode ser uma pedra angular de um projeto futuro do nosso país? Eu dir-vos-ei o seguinte: este contexto de incerteza, de instabilidade, muitas vezes é também um contexto de oportunidade. E Portugal, eu digo isto sem nenhumGosto por reconhecer que há países que estão em situação de grande dificuldade, porque ou são protagonistas de guerras ou têm guerras à porta e têm os efeitos mais imediatos, muitas vezes, desses conflitos. Eu não digo isto com desrespeito, pelo contrário, ou desconsideração por essas realidades. Mas a vida é o que é. Quando há determinadas geografias que estão instáveis, que têm conflitos, quando há determinadas economias que são afetadas diretamente ou mais diretamente ainda por esses conflitos, aquelas que se apresentam mais robustas, mais fortes, mais aptas a lidar com o momento, podem tirar partido disso. E Portugal é uma delas. Portugal é uma economia que tem tudo, neste tempo de instabilidade, de ser uma referência de estabilidade, de ser uma referência de conhecimento, de ser uma referência de desempenho, de ser uma referência de atração e localização de investimento. E, portanto, de ganhos, como foi também dito pelos apresentadores, de ganhos de escala, de ganhos de capacidade para poder ter uma forma de afirmação à escala internacional mais consistente e que permitirá que o crescimento da nossa economia se possa prolongar e ser mais duradouro, e se possa robustecer e ser efetivamente maior do que aquilo que foi nas últimas décadas. Para isso, é importante que haja princípios, que haja eixos de modulação daquilo que é o nosso projeto social e económico. E eu vou tentar até despolitizá-lo ao máximo. Evidentemente que mal era que o presidente de um governo ou chefe de um governo não tivesse que tomar posição, que não tivesse o seu caminho, que não tivesse as suas ideias e as suas convicções. Mas se nós queremos projetar um país a médio e longo prazo, se nós queremos projetar um país com maior capacidade de agregar e convergir as suas forças, nós teremos de o fazer, obviamente, nas nossas diferenças e com as nossas opções, mas com um sentido que está acima disso, que é um sentido de durabilidade, de perenidade, de quase cultura nacional, cultura cívica, cultura política, na aceção mais nobre do termo, de cuidar daquilo que é de todos. A minha convicção, é a convicção do governo, de que nós para trilharmos esse caminho de afirmação, teremos, como também já foi aqui várias vezes mencionado, de nos diferenciarmos. De nos diferenciarmos por aquilo que fazemos, de nos diferenciarmos pela forma como nos organizamos e como gerimos o país e as empresas. E é por isso que eu tenho vindo a assinalar que a transformação que estamos a fazer em Portugal da fiscalidade sobre o trabalho é uma mudança estratégica e estruturante do país. Cobrar menos impostos sobre o rendimento do trabalho, dizer às pessoas que vale a pena trabalhar e vale a pena trabalhar mais porque o retorno do seu esforço é maior, isto é, não apenas uma medida que é o corolário de uma campanha eleitoral onde se propôs, não apenas, como alguns podem legitimamente e democraticamente designar, de piscar o olho ao eleitorado. Não, eu não vou também ignorar que traz essas dimensões todas. Mas é estratégico, é valorizar o trabalho e valorizar dentro do trabalho o desempenho. Por isso, quando o governo baixou quatro vezes o IRS, quando permitiu que houvesse o estabelecimento nas empresas de prémios de desempenho para poderem retribuir o resultado e prémios de desempenho não sujeitos a tributação, não sujeitos nem a pagamento de impostos, nem a pagamento de contribuições, evidentemente com algum limite, porque nós não queremos transformar os prémios no salário, nem substituir os prémios ao salário. Os prémios são isso mesmo, são prémios, são acrescentos. Quando nós decidimos isso sobre o rendimento do trabalho, nós estamos a querer impor um caminho. E quando o fazemos de forma ainda mais acentuada aos jovens até aos 35 anos, nos 10 primeiros anos de vida ativa, de exercício profissional, nós estamos também estrategicamente a dizer que queremos que este segmento populacional, no seu início de carreira, encontre o atrativo para que o seu retorno de trabalho possa ser suficiente para não o fazer sair de Portugal. Eu estou, neste enquadramento, a dizer-vos que quando nós fazemos isto, nós estamos a cuidar daquele que é o elemento principal que vos falava há pouco, da empresa e da economia do capital humano, de termos capacidade para ter os melhores conosco, para podermos ser mais produtivos, para podermos ir mais longe, para podermos tirar proveito de todo o potencial. Depois, a fiscalidade das empresas. Quando nós descemos a tributação sobre o rendimento das empresas, e era um eixo e é um eixo fundamental deste governo e dos compromissos que estabeleceu com a sociedade portuguesa, o que nós queremos é sinalizar que vale a pena apostar numa economiacujo objetivo é que as empresas tenham mais rentabilidade, sejam mais rentáveis, criem mais riqueza, sejam mais lucrativas. Para quê? Para pagarem melhor salários. Para quê? Para investirem mais na inovação que lhes permitirá continuarem a ser lucrativas e que lhes permitirá ombrearem com os seus concorrentes no mercado e que lhes permitirá poderem sustentar o seu modelo de negócio e poderem tirar partido daquilo que, nomeadamente, a ciência, o conhecimento, a tecnologia, lhes vão proporcionando. E que tenham também mais condições para terem melhor tesouraria, mais condições para terem maior capacidade de investimento em equipamento, muitas vezes até associando exatamente as duas coisas, a tesouraria e o equipamento, porque a tesouraria também é muito importante. Estão aqui muitos empresários que sabem isso muito melhor do que eu. Compra-se muito melhor quando se tem o poder de financiamento na mão, quando se consegue negociar numa base de equilíbrio, pelo menos, se for ascendente, melhor, mas de equilíbrio entre comprador e vendedor. E isto é tão mais importante quanto para além daquilo que o governo pode fazer nas suas políticas públicas, depois também deve estimular outras áreas de intervenção. Estou a ver aqui alguns representantes do nosso sistema financeiro e o financiamento da economia é também a este propósito, absolutamente crucial. Não é por acaso que demos um impulso muito significativo ao Banco Português de Fomento e através dele, integrando a chamada banca comercial, precisamente ao serviço do modelo económico e das opções que, dimanando de diretrizes da esfera pública, são depois absoluta e completamente lideradas e materializadas pela iniciativa privada, pelas empresas, que afinal são as que fazem as suas opções. Eu não sou daqueles que acha que os governos devam escolher os setores de atividade mais dinâmicos e devam escolher as opções que as empresas devem tomar. Não acredito nisso. Eu acredito no contrário. Acredito que os governos devem colocar os instrumentos disponíveis e depois é a força da economia, por si só, que tem de tomar as suas opções, de tomar as rédeas das decisões e poder compreender aquilo que é o caminho do mercado. E o caminho do mercado só as empresas, os empresários e os empreendedores o conseguem perceber, compreender e enfrentar. Sendo que já agora, até aproveito esta referência à empresa para vos deixar uma outra nota que me parece importante quando se fala da indústria, quando se fala dos setores de atividade. Aliás, duas notas: uma sobre a transversalidade dos setores da atividade económica. Para haver uma indústria pujante, já aqui se falou de conhecimento, de tecnologia, de inovação, mas é preciso também haver os outros setores da atividade económica. É preciso haver uma aposta estratégica em todos eles, a começar pelo setor primário. A agricultura, a gestão florestal, as pescas, são um elemento fundamental também para a dinâmica económica e industrial. O comércio e os serviços, que já foram aqui também várias vezes mencionados, igualmente. Para haver uma indústria forte num país, é preciso que os outros setores da atividade económica também estejam e sejam fortes. E para os outros serem fortes, também é importante ter uma indústria capacitada. Fala-se pouco em Portugal, mas nós temos muito interesse em termos maior soberania económica, maior soberania alimentar, maior soberania estratégica, mas isto não são palavras, isto tem que se materializar. Isto tem que comportar investimentos que se entrecruzam uns com os outros, fazendo aí também o equilíbrio de valores. E outra dimensão da empresa, é que a empresa não é o empresário. Com todo o respeito pelos que estão aqui. A empresa não é o investidor, não é o promotor, não é o empreendedor, tão pouco. Também é isso. Então o seu ato fundador é fundamentalmente isso, mas é muito mais do que isso. A empresa é o conjunto de operações que consegue organizar. A empresa são os trabalhadores, efetivamente. A empresa são as máquinas, a empresa são os fatores de produção, a empresa é a clientela, a empresa é isso tudo. Isto tem tudo de funcionar de forma concertada. Ainda há pouco quando aqui cheguei, tínhamos à democracia, um protesto legítimo, mas muitas vezes de pessoas que não percebem que elas são a própria empresa. Elas fazem parte da própria empresa e que a valorização da empresa é a valorização de todos os seus elementos, seja o empregador propriamente dito, seja o trabalhador, sejam as outras empresas que se relacionam com a atividade dessa própria empresa, os prestadores de serviços, aqueles a quem se compram bens e equipamentos e naturalmente aqueles a quem se vende no mercado. Tudo isso é a dinâmica da empresa. Por isso, nós, ao mesmo tempo que estimulamosDo lado do capital humano, ao mesmo tempo que estimulamos do lado da fiscalidade, depois temos de ter as regras de funcionamento da empresa que também sejam geradoras e potenciadoras da maior dinâmica empresarial. É por isso que nós falamos hoje muito da simplificação, é por isso que nós hoje falamos muito da digitalização, é por isso que nós falamos muito, o António Capouças falou disso, da relação do Estado com o cidadão, do Estado com a empresa, facilitando essa relação, tornando-a mais célere, mais expedita, tornando-a mais consequente também. O tempo da decisão é um fator fundamental da organização da empresa, do trabalho da empresa e do resultado da empresa, e também naturalmente das pessoas, muitas vezes. E portanto, a reforma que estamos a empreender de forma transversal no Estado visa este propósito. E as relações de trabalho. É verdade, as relações de trabalho são também um fator determinante para a consistência, a durabilidade e a intensidade de um projeto de desenvolvimento económico. Nós não temos nenhum fetiche com as leis laborais. O que achamos é que um país que tem a 38ª lei mais rígida em 39 analisados pela OCDE, um país que tem hoje, efetivamente, como em vários momentos da sua história, mas mais um momento marcadamente onde se pode afirmar pela sua localização geoestratégica, um país que se pode afirmar pela capacidade tecnológica do seu povo, das suas estruturas, um país que tem uma fiscalidade amiga do trabalho, um país que está na linha da frente deste processo de simplificação e digitalização. Aliás, as empresas bem sabem, fomos o primeiro país na Europa a criar e colocar em funcionamento a carteira digital da empresa. E quando falamos disto parece que é mais um soundbite. Não, a carteira digital da empresa é o local onde as empresas têm a sua informação de base, nomeadamente na relação com o Estado, e nós queremos que depois possa ainda ser mais ampliada essa capacidade, e que lhes vai garantir muitas horas, mas muitas horas mesmo, de poupança de trabalho administrativo para se poderem concentrar no trabalho produtivo, eminentemente produtivo. É isso que a carteira digital proporciona. Proporciona que os senhores empresários ou as suas empresas, quando se candidatam, por exemplo, num concurso público, não tenham que andar sempre com a mesma documentação, sempre atrás de si. Não, está lá e o Estado tem a obrigação de ir lá buscar, ponto final. Aliás, o Estado já é detentor da maior parte dessa informação. O que já por si só tem sido, eu diria, um erro crasso não concretizar um princípio que está na lei desde 2014, que é o Estado não tem o direito de pedir às pessoas e às empresas aquilo que já tem na sua posse. E quando pede informação, deve pedir uma única vez e por um único canal. Mas diria eu, para não me perder, que as relações laborais também são aqui um fator importante. A forma como o trabalho se organiza. Não temos nenhuma pretensão de retirar direitos a ninguém. Nós temos é a pretensão de cada um exercer os seus direitos da forma mais equilibrada possível para todos sermos beneficiados do resultado final. Se nós tivermos leis laborais mais dinâmicas, as empresas serão mais suscetíveis de poderem ser também elas mais rentáveis. E o nosso ecossistema económico, mais capacidade para atrair ainda mais investimento. Investimento com maior confiança, maior estabilidade. É por isso que nós queremos que a nossa legislação laboral, sem nenhum tipo de revolução, acompanhe os sinais dos tempos. Eu fico manifestamente preocupado, não é por ter algumas pessoas à porta dos sítios onde vou a protestar em nome da sua central sindical, não é por isso. O que eu fico mais apreensivo é se nós não tivermos a capacidade todos de perceber que há algumas coisas que nós podemos fazer que se vão traduzir em benefício de todos. Uma economia moderna, competitiva, não pode ter um modelo de proibição do outsourcing, aquilo que os senhores fazem todos os dias. Creio que não haverá aqui nenhum empresário que não utilize a especialização de outras empresas para determinadas tarefas para as quais não está diretamente vocacionado e que isso seja um elemento fundamental da nossa economia. Podemos modular este regime? Podemos, com certeza. Não podemos é ter uma lei laboral, ou não devemos ter. Poder, podemos, mas não devemos ter uma lei que faça uma proibição. Quando digo poder, podemos, mas não devemos, nós também podemos concluir para nós que crescer a 1,5% ou a 2% ao ano é o máximo do nosso desempenho. Poder, podemos, mas não devemos, porque nós temos capacidade para crescer 3,5% a 4% ao ano e de forma consecutiva, como já mostrámos na nossa história recente, e como a situação económica internacional neste momento nos abre portas para podermos ainda acelerar mais. E por isso eu digo-vos, eu sei que nem todos temos a mesma opinião, mesmo nesta sala, mas não tenho dúvidas, vale a pena aprofundar esta discussão e vale a pena criar instrumentos que facilitem as boas relações de trabalho e que facilitem o aumento dos salários em Portugal. O banco de horas, já agora, por acordo entre empregador e trabalhador, é então outra daquelas medidas que está a ser apresentada por muitos protagonistas da discussão em termos públicos como se fosse um grande retrocesso. Um retrocesso que passa por isto, passa por o empregador poder acordar com o seu trabalhadorCom três dias de antecedência, ainda por cima, com duas horas limite adicionais e 10 semanais, dizer: "Olha, tu podes trabalhar mais duas horas hoje ou esta semana, porque nós temos uma encomenda que surgiu agora, porque há guerra noutro sítio, porque outra empresa tinha e não conseguiu cumprir a encomenda. Nós agora temos essa oportunidade, podemos entrar nesse mercado, podemos ir mais longe, precisamos deste reforço. Eu depois compenso daqui a duas semanas, quando a encomenda estiver pronta e tu descansas o período correspondente. E se daqui a meio ano eu não te conseguir dar as horas de compensação que são devidas por esse trabalho suplementar, eu então pago essas horas e pago-as com uma majoração precisamente equivalente à primeira hora do trabalho suplementar nos termos gerais". Sinceramente, alguém acredita que isto é um retrocesso civilizacional e que é o âmago da contestação e da rejeição a estas alterações? Eu aproveito, já que se discute a indústria e que isto na indústria também é importante, para deixar aqui essa nota. E depois dizer-vos uma última coisa para perceberem e para também cumprir a minha obrigação de esclarecimento, qual é a nossa estratégia, o que estamos a fazer no país. Porque a fiscalidade, a reforma do Estado, as relações laborais não são o princípio e o fim de tudo. São apenas mais alguns eixos de intervenção. Nós estamos a intervir de forma muito profunda no sistema educativo português. Talvez ainda não se tenha percebido com a profundidade merecida, mas nós estamos a intervir profundamente, valorizando o ensino do zero até ao ensino universitário, criando condições para que as nossas crianças comecem o seu processo formativo e educativo depois do nascimento, nas creches e nos jardins de infância. Um elemento preponderante, porque isto tem valor económico. Está comprovado que as sociedades que apostam mais no ensino pré-escolar são mais competitivas economicamente passado algum tempo. Isso está provado, não é um palpite do governo e do primeiro-ministro. Isto é assim mesmo. E quando nós fazemos esta aposta, nós estamos a agir estruturalmente, estrategicamente para o futuro. E depois quando valorizamos todos os ciclos de ensino e conciliamos uma aposta num ensino superior de qualidade, vocacionado para não deixar ninguém para trás naquilo que é a sua vocação e também o seu mérito. Na semana passada criámos duas novas universidades em Leiria e no Porto. Em Leiria, na sequência do desenvolvimento do trabalho do Instituto Politécnico de Leiria e no Porto, uma universidade técnica também no encalce do trabalho do Instituto Politécnico do Porto. Braga, o senhor presidente da Câmara fez aqui um traço muito concreto e simultaneamente responsável e otimista relativamente à estrutura social desta cidade, deste concelho, desta região. Há uma coisa que ninguém tem dúvidas. Um dos pilares do desempenho desta região e deste município, para poder hoje ter os níveis de empreendedorismo, de diversificação económica, de pujança económica, foi a Universidade do Minho. Ninguém tem dúvidas disso, creio eu. E, portanto, esta aposta é também uma aposta fundamental. Mas estava eu a dizer, criámos duas novas universidades, valorizando as instituições de ensino superior. Criámos novas regras para a ação social do ensino superior, para garantir que os alunos portugueses, os jovens portugueses, tenham condições para aceder à sua formação de acordo com aquele que foi o mérito do seu desempenho durante os 12 anos de escolaridade e para não acontecer aquilo que acontece ainda hoje, infelizmente, que é muita gente ter vocação, ter mérito, trabalhar até muitas vezes com algum espírito, ou muitas vezes mesmo com espírito de sacrifício para obter os melhores resultados e depois não vai para as faculdades que merece, cujo resultado lhe permitia, porque não tem dinheiro ou não tem dinheiro para pagar a habitação, não tem dinheiro para pagar despesas complementares. Portanto, temos um novo ciclo de ação social direcionado para garantir a progressividade do apoio e para garantir que há uma especificação entre o apoio e o sítio onde a pessoa se candidata a poder ir para o ensino superior. Porque não é a mesma coisa, o apoio não tem que ser igual para um estudante que vem para Braga, para um estudante que vai para Lisboa. As condições são diferentes. Então, se estivermos a falar de Bragança ou de Viseu para Lisboa e para o Porto e para Braga, já. Eu não sei se este sinal de luz é para eu me calar, porque já estar a falar muito. Se é, eu vou já terminar. Se é uma outra perturbação, vamos aguardar que com o talento técnico que é característica de Braga, isto ainda se resolva a tempo dos demais oradores não terem este pequeno, ligeiríssimo incômodo. Mas portanto, estava-vos a dizer, tomámos essas duas opções, mas ao mesmo tempo alocámos 500 milhões de euros para o desenvolvimento de projetos em 400 escolas profissionais, 400 centros de ensino profissional. E ao mesmo tempo, alocámos mais 34 milhões de euros para o próximo ciclo de ensino, precisamente 2026, 2029, profissionalPorque nós queremos que, ao mesmo tempo, possamos levar mais longe a nossa capacidade de aprofundar cientificamente o nosso conhecimento, de investigarmos, de inovarmos, mas não perdermos os operacionais, aqueles que no dia a dia são responsáveis para que o nosso desempenho seja precisamente um desempenho de atingir as melhores performances. E portanto, cumprindo aquilo que vos estava a prometer, que era aproveitar este sinal de luz para me despedir, o que eu estava a dizer em termos finais era mesmo que daqui deste dia de cimeira, de encontro, pudesse efetivamente sair uma visão e uma cultura ainda mais vencedora, ainda mais otimista, ainda mais mobilizadora para que todas as forças sociais do país e económicas colaborem e não se deixem, de alguma maneira, contaminar por algum pessimismo ou negativismo, que é muito natural, estes tempos acabam por colocar. Eu repito a ideia. Não vamos ser nós que vamos mudar neste momento, muito menos sozinhos, toda a conflitualidade política e comercial que há no mundo. Mas vamos ser nós os responsáveis por daqui a alguns anos olhar para trás e concluir se fizemos tudo aquilo que poderíamos ter feito nesta altura para podermos ser mais eficientes no futuro. Vamos ser nós que vamos poder concluir se um país que está a crescer mais do que a média da União Europeia, um país que tem as finanças públicas equilibradas, um país com uma excelente localização, insisto muito neste ponto, um país com vocação tecnológica, um país que tem a experiência de quase nove séculos de ter pontes com todos os pontos do globo, o que é hoje uma vantagem competitiva brutal, porque hoje toda a gente fala, a Europa fala da diversificação dos mercados, mas ninguém melhor do que Portugal na Europa sabe fazer isso, consegue fazer isso. Ainda hoje, não sendo a economia portuguesa uma das maiores da Europa, mostrou nos últimos 20 anos como é que, pressionada por dificuldades de financiamento, pressionada por uma ajuda externa, pressionada por um conjunto de compromissos que a obrigavam, que obrigavam a nossa nação a fazer coisas que nem sequer correspondiam àquilo que nós queríamos, mas que tinham que ser feitas, como é que nós conseguimos fazê-lo com um caminho que nos trouxe a termos hoje quase pleno emprego, a termos hoje empresas que, ou individualmente ou em consórcios, podem colocar-se no mercado e serem competitivas com empresas das economias mais desenvolvidas. E, portanto, como é que nós nos colocamos hoje? Como é que nós, já agora, mesmo para acabar, como é que nós podemos aproveitar um novo ciclo de desenvolvimento à escala europeia que nos vai obrigar a sermos também mais competitivos para podermos ter projetos mais vencedores e a termos, neste ganho de escala, a disponibilidade para estarmos juntos uns dos outros e muitas vezes para termos parcerias internacionais. Portanto, eu desejo-vos bom trabalho. Digo ao senhor presidente da Associação Empresarial que nós não vamos conquistar Espanha do ponto de vista territorial, mas queremos conquistar Espanha e outros países do ponto de vista comercial. Queremos mesmo. E aliás, falar em Espanha é mesmo daqueles onde também me parece que temos muito trabalho para podermos fazer. É o nosso principal parceiro comercial e é um mercado que está aqui ao lado e que também merece uma participação de empresas portuguesas muito maior. Já tive ocasião de dizer isto em Espanha e digo isto também aqui em Braga. Bom trabalho.
Luís Montenegro, o primeiro-ministro, na abertura da Cimeira da Indústria, que decorre até ao final da tarde aqui no Teatro Circo, em Braga. Helena Matos, o primeiro-ministro aqui a reiterar a necessidade de Portugal avançar com uma reforma do mercado laboral e também a sublinhar a necessidade de Portugal ter uma visão e uma cultura vencedora, a tal ponto que Espanha que se cuide.
Essa parte eu creio que é o otimismo indispensável. Agora, realmente, uma frase que ficou: "nós não temos nenhum fetiche com as leis laborais". Isso é uma das afirmações de Luís Montenegro. E ele afetou uma parte significativa da sua intervenção a explicar exatamente as leis laborais, o propósito. Centra-se muito na questão do outsourcing, na questão do banco de horas, por exemplo. Vê-se que é uma das preocupações que tem, o sentido de explicar, de que seja percetível o porquê, a necessidade efetiva dessa reforma laboral, dessa mudança laboral. Depois, é interessante também, explicou também a questão das alterações fiscais ao rendimento do trabalho e do que o governo já tem feito nessa parte. Depois, é interessante, a dar de mento, e eu acho que poderá ser curioso, a questão da referência, do peso da Universidade do Minho, da importância da Universidade do Minho na mudança do perfil empresarial da região. Isso para nós, vamos ter todo o conjunto de painéis ao longo do dia, onde como tu fizeste questão de frisar há pouco, temos uma presença de pessoas que vêm do mundo da universidade com pessoas que vêm do mundo das empresas, poderá ser um dos aspetos que eu acho que nós procuraremos também desenvolver durante o dia de hoje. Ou seja, esta ideiaQue eu acho que teremos de perceber ao longo do dia, que o mundo empresarial nesta zona não seria hoje o que é sem a Universidade do Minho. É claro que outras pessoas destacarão outras coisas. O Manuel Fernandes, que esteve lá dentro a ouvir a intervenção do Luís Montenegro, provavelmente destacará outras, mas se me pedisses para fazer um título, eu fazia com: nós não temos nenhum fetiche com as leis laborais.
Muito bem, está feito o comentário à intervenção do primeiro-ministro na abertura desta cimeira da indústria, a partir do Teatro Circo em Braga, debatemos o setor da economia portuguesa. É aqui que está a decorrer essa cimeira da indústria organizada pelo Observador em parceria com a Associação Empresarial do Minho. Um evento que decorre até ao final do dia, onde queremos perceber como é que o país também se pode reindustrializar. Faz sentido falar do regresso da indústria? O que perdemos enquanto sociedade quando trocamos, por exemplo, a indústria pelos serviços? E o que podemos ganhar com este interesse redobrado pela indústria? Helena Matos, tens resposta para estas perguntas?
Não, por isso é que estou aqui.
Ah, bom.
Então, não fizemos a cimeira por isso mesmo. Desculpa.
Esperava que tivesses pelo menos indícios de resposta.
O que eu sei, como é óbvio, mas também isso não tem profundidade alguma, é que o perfil da sociedade industrial que fomos, nós fizemos, de facto, a tal transição. Passámos de uma sociedade muito marcadamente industrial para uma sociedade de serviços e hoje talvez estejamos a procurar reequilibrar. Não no sentido de ninguém volta ao que foi, mas no sentido de dar uma outra centralidade à indústria e que ela deixe de ser vista como aquilo que eu já referi esta manhã, a tal mácula na paisagem. Repara, havia sempre aqueles desenhos nas escolas, sempre que pedia às crianças para representar a poluição, lá vinha a tal fábrica, a tal chaminé, como algo de negativo. Hoje em dia as fábricas também já não são assim, a indústria já não é isso. A indústria hoje é muita tecnologia e teremos de perceber exatamente que tipo de sociedade é essa e também como é que isso impacta na vida dos cidadãos. Porque uma das coisas, eu acho que gostaria muito de conseguir perceber isso ao longo do dia de hoje, é que na indústria, e já nem estou a falar daqueles anos fascinantes, de grande crescimento económico, os anos 60, 70 na Europa, mas mesmo também hoje, que é uma das coisas que parece, sem dúvida em relação aos anos 60, 70, 80 do século passado, que é a progressividade, ou seja, a possibilidade para quem trabalhava, e não estou a falar em cargos de direção, estou a falar no chão de fábrica mesmo, a possibilidade de evoluir parecia ser a progressão muito mais rápida, não apenas em termos salariais, mas também em termos daquilo, do know-how que incorporava. E também em termos da sua própria produção, da sua própria perspectiva.
E realização até pessoal, não é? Profissional.
Por exemplo, o Ferraz da Costa, apenas para acabar, que é alguém que esteve sempre ligado à indústria portuguesa, em dado momento referia com esta passagem, neste abandono da indústria, tornámo-nos extraordinariamente dependentes. Nos últimos anos, de uma maneira perigosa, da atividade turística. Se tivéssemos mantido a continuidade de uma atividade industrial em setores que se fossem modernizando à medida que o mundo ia evoluindo, estávamos hoje bastante melhor. Eu gostaria de perceber, não apenas a questão da fundamentação de afirmações deste gênero, mas o seu impacto, de facto.
Muito bem. Vamos ter a oportunidade de ouvir vários convidados até ao final do Contracorrente, até bem perto do meio-dia. O primeiro convidado é João Pinto, diretor da Católica Porto Business School. Muito bom dia, bem-vindo ao Contracorrente. Neste dia magnífico de sol.
Fantástico.
Fomos brindados pela meteorologia. João Pinto, o que é que Braga e o Minho têm de tão especial no que à indústria diz respeito? Por que há aqui tanta indústria?
Efetivamente, Braga e o Minho, para mais lata, têm um tecido empresarial único em Portugal. A nossa escola, a Católica Porto Business School, nasceu ligada a um tecido empresarial norte, que é um tecido empresarial inovador, exportador, numa base forte de empreendedorismo, de inovação. E eu diria que, no final do dia, é aqui no Minho que está o coração da indústria em Portugal. Tem características únicas e de referência a nível nacional.
O facto de estar próximo de Espanha justifica isso?
Eu não sei se é a proximidade de Espanha. Eu diria que se calhar é mais a distância face à concentração das grandes empresas, empresas de serviços que nós temos em Portugal, que tendencialmente se foram movendo e deslocando para Lisboa. E com isso, a indústria no norte do país teve que inovar, teve que se reinventar, teve que se tornar flexível. E também tem a ver com a cultura e com o tipo de pessoas que nós temos no Norte, que são muito inovadoras, muito resilientes, e isso é claramente uma característica importante destas pessoas.
Estamos de regresso para a segunda parte do Contra Corrente, hoje a partir do Teatro Circo em Braga, a propósito da Cimeira da Indústria que decorre aqui neste edifício do centro da cidade minhota. José Manuel Fernandes, olhando aqui para esta região percebemos que há muita indústria. O diretor da Católica Porto Business School, João Pinto, já nos deu aqui algumas indicações do que poderá explicar ou que poderá ajudar a explicar o porquê de haver aqui tanta indústria. Tu que andaste a estudar esta região, o que é que tens a dizer sobre a indústria minhota?
Mais do que estudar, eu acho que aquilo que é muito importante é uma coisa que penso que foi dita esta manhã aqui na sessão pelo presidente da Câmara de Braga, que é: há aqui qualquer coisa de cultural e que é diferente. Eu devo dizer que tenho vindo a Braga muitas vezes ao longo da minha vida. E houve uma altura em que estive até um período longo sem vir a Braga, ia a outros sítios, mas não a Braga. E depois voltei aqui, o que estive a ver foi, está para me fazer 11 anos, e de repente notei uma cidade que se tinha transformado muito radicalmente, que não tinha apenas uma universidade, porque há muitas outras cidades portuguesas com universidades e algumas até estão bastante decadentes. Foi uma coisa que eu notei ao andar pela rua num fim de semana, que de repente há pessoas novas, há carrinhos de bebés.
Braga é uma cidade muito jovem, não é?
Portanto, é uma cidade jovem que se está a multiplicar. É um sítio onde ficas com a perceção de que não depende do Estado, de Lisboa, dos poderes públicos. É evidente que Braga transformou-se radicalmente, no mínimo, transformou-se radicalmente nas últimas décadas. Às vezes nós achamos que está tudo igual, mas quando damos um período de intervalo, vemos que está diferente. Os indicadores de Braga são muito impressionantes. Nós estamos a falar, por exemplo, só aqui do concelho, de um concelho que representa 3,2% das exportações portuguesas, do terceiro ao quarto, enfim, depende das métricas, concelhos exportadores. Tamelcão ainda exporta mais do que Braga, mas Braga está logo em seguida, depois daqueles concelhos grandes do país. É um concelho e um distrito que nós associamos muitas vezes à indústria têxtil. É evidente que a indústria têxtil continua a ter muito peso. Mas, por exemplo, há outra indústria que aqui é fundamental, que é a metalomecânica. E nós, sempre que fazemos perguntas sobre como é que se explica a grande reviravolta da economia portuguesa no pós-troika, a resposta habitual é o turismo. Mas é uma resposta insuficiente, incompleta, porque verdadeiramente, ou melhor, complementarmente, há um grande salto no que diz respeito à indústria metalomecânica, sobretudo à indústria metalomecânica e à capacidade exportadora desta indústria.
Que é pesada por natureza, mas também é muito volumosa no negócio, não é?
Sim, é uma indústria que tem muitas vezes uma qualidade técnica muito grande, porque só isso é que a permite competir. Não são mega empresas, no sentido de ser uma group mãe, mas é uma rede de muitas empresas muito especializada em alguns setores. E quando nós olhamos também para outros indicadores, eles são muito impressionantes. Por exemplo, para se ter uma ideia, a população residente aqui no concelho de Braga cresceu 7,6% desde 2017 para cá, um bocadinho menos de 8%. A população empregada, o número de trabalhadores cresceu quase 20%.
20%?
20%. Não é aquilo que temos, de repente, uma zona que está a inchar com a população. Não, temos uma zona que está a inchar com trabalhadores. Portanto, quase metade das pessoas que chegaram aqui, as pessoas vêm com famílias, quase metade vieram para trabalhar ou chegaram à idade do trabalho. O crescimento das exportações entre 2018 e 2023 foi de 67%. É absolutamente brutal. Isto quando o volume de negócios cresceu 40%, mas tudo isto são valores muito acima das médias nacionais e que mostram que há aqui uma cultura, de facto, diferente. Ainda há pouco aqui o diretor da Escola de Negócios da Católica me disse uma coisa muito interessante, que era: aqui as empresas são empresas sobretudo familiares, em que os CEOs pensam na geração seguinte e não apenas naquilo que às vezes as pessoas dizem, no quarter seguinte, no trimestre seguinte, no resultado seguinte da bolsa. Não, pensam naquilo que vão deixar aos filhos. Isto tem dois lados, que é o lado de pensam a longo prazo, mas também há, às vezes, um lado de dificuldade de dimensão, que isto não agrega, não junta. Nós quando falamos do distrito de Braga, aqui um pouco mais alargado, estamos a falar de um distrito que só na área do têxtil tem mais de 5000 empresas. Mais de 5000 empresas é o sinal, não estamos sequer a falar de PMEs, estamos a falar, em muitos casos, de coisas que são micro, são coisas muito pequenas.
Estas empresas nós só ouvimos falar delas, como dizia a Ana Marques há pouco, quando descobrimos que afinal produzem peças ou componentes ou partes para grandes marcas.
Para grandes marcas. Mas repara, isso é bom, mas tem um lado negativo. E o lado negativo é: é nas grandes empresas, quando as empresas ganham dimensão, que conseguem fazer duas coisas, que é, por um lado, pagar melhor, as grandes empresas pagam melhor que as pequenas empresas, e, por outro ladoMuitas vezes conseguem ir para mercados, não apenas com base nas encomendas, mas também naquilo que vão conquistando. Para já não falar na sua capacidade para terem áreas de inovação substantivas. Apesar de tudo, há uma coisa que penso que a nível do país é onde funciona melhor, que é a ligação com a universidade. Aquilo que acabaste de dizer que é a falta de dimensão para ter o lado de investigação e desenvolvimento, tem sido compensado com uma ligação à universidade, o que também é muito relevante.
Muito relevante. Vamos ter a oportunidade de explorar essa ideia daqui a instantes com o Luís Aguiar Congeria, que é o presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, e que nós na Rádio Observador conhecemos muito bem, porque ele é um ás do programa "Fora do Braga". Já vamos explorar essa ideia. Temos aqui conosco o Ramiro Brito, que é o presidente da Associação Empresarial do Minho. Bom dia. As exportações aumentaram e muito nos últimos anos aqui em Braga, diria de quase todos os setores da economia, mas depois tivemos aqui algumas alavancas. A Universidade do Minho, os politécnicos que contribuíram, fala-se menos, mas contribuíram de uma forma bastante estrutural. Eu devo dar-vos um exemplo muito importante para isto. Os politécnicos, quer o IPCA, quer o IPVC, têm programas hoje de fornecimento direto de mão de obra para as empresas. E depois as universidades, que não são tão públicas, mas por exemplo, como a Universidade Católica. Ou seja, Braga e a região do Minho com a Universidade Católica, com a Universidade do Minho, com os politécnicos, se juntarmos a isto o INL, por exemplo, temos aqui uma espécie de condições excepcionais para depois criar valor. E a economia portuguesa e a economia do Minho é sobre isto, é sobre criar valor, valor que seja transacionável e que seja vendável para fora.
Diga-me uma coisa, e o problema da dimensão? Isto ainda é um tecido, sobretudo com pequenas e às vezes microempresas, mas nós temos a percepção de que para dar saltos era importante ter empresas com outra dimensão. Como é que isso está a acontecer?
De facto, o Minho não é diferente do resto do país. Nós em Portugal temos 99% de empresas PME. Obviamente que no Minho temos empresas mais pequenas. Eu acho que isso se foi transformando ao longo do tempo e esta transformação ocorre, na minha opinião, por duas vias. A primeira via é a internacionalização. A internacionalização propicia o crescimento e muitas vezes até a própria agregação de empresas. Porque, como é evidente, quando nós vamos para mercados externos, eu dou sempre este exemplo, nós em Portugal, eu não quero mencionar nomes para não referir sensibilidades, mas aqui no Minho temos grandes empresas, que se calhar no mercado brasileiro não são grandes empresas, no mercado americano então, seguramente não são grandes empresas. No Minho, nós temos feito isto, e isto também é um dos propósitos grandes da AIMinho, eu não estou a arrogar para a AIMinho o papel determinante nessa circunstância, mas esta necessidade de agregação e de ganhar escala, focada e centrada, e esta parte centrada no valor acrescentado. Nós percebemos que nós não vamos competir com países onde a massificação da produção é impossível de atingir. Portanto, o nosso segredo está sempre no valor acrescentado.
Estão sempre em permanente processo de criatividade e criação de valor.
Criação de valor. Como é que, por exemplo, uma indústria como o têxtil, que neste momento, felizmente não há décadas, que tem uma fortíssima concorrência, primeiro da Ásia e depois também mais recentemente até do outro lado da Europa, como é que uma indústria dessas, hoje consegue, sem concorrer como concorria há 50 anos, que era pelos salários, concorrer para ser competitiva, para criar valor e para ser mais produtiva?
No fundo, tem que ser inovadora. E o segredo está aqui. A indústria tem que ser inovadora e tem que trabalhar, eu não gosto de dizer nichos de mercado, mas áreas do mercado têxtil mais específicas. No caso da indústria têxtil, nos últimos 20 anos, aqui na região do Minho, e aqui sabemos que o têxtil está mais ali na zona do Vale do Ave. No caso da indústria têxtil, nos últimos 20 anos, assistiu-se a uma especialização da indústria. Ou seja, percebemos que não seria na massificação de produtos indiferenciados que iríamos conseguir competir. Então especializamo-nos em criar produtos específicos de valor acrescentado, novas tecnologias de produção de tecidos, novas tecnologias inclusive, introdução de tecnologias produtivas no chão de fábrica. Há uma alteração muito substantiva dos métodos produtivos no chão de fábrica da indústria têxtil aqui.
Nós ficamos sempre com aquela ideia, isto é uma coisa, se calhar, vista de Lisboa, que é: "Mas porque é que nós não temos uma Manco? Manco está na moda, mais empresas". Ou uma Zara. A Zara é aqui do seu quintal.
Do outro lado da fronteira.
Duas horas e meia de automóvel.
Eu acho que teve a ver com o caminho que a própria indústria têxtil seguiu ao longo do tempo. Eu dou um grande exemplo da Inditex. Se olharmos para a Inditex, a Inditex foi uma indústria que nasceu produtiva e passou a ser meramente agregadora. Ou seja, hoje em dia a Inditex praticamente não produz, ela compra produção. Essa evolução não houve na indústria têxtil aqui, pelo menos nessa escala. Ou seja, a Inditex apostou tudo na criação de marcas e em cadeias produtivas completamente descentralizadas, percebeu claramente o seu espectro territorial.
Tem ali nos Campos de S. Tiago grandes, em A Corunha, por exemplo.
É verdade, mas o último número que eu tenho na cabeça é que a Inditex produz menos de 10% daquilo que comercializa. Repare, a Inditex comercializa muito.
Onde se ganha mais dinheiro é na escala.
Eu sou um fã incondicional do valor. E sou por quê? Porque o valor tem uma grande vantagem. O valor torna-nos menos suscetíveis de estarmos expostos a realidades como as que vivemos hoje, de alterações da conjuntura internacional, em que as primeiras indústrias a serem afetadas são as indústrias massificadas, sobretudo na Europa. As indústrias que dependem de fatores de produção de quantidade, são as primeiras a ser afetadas, porque as suas cadeias de logística são imediatamente afetadas, a cadeia de fornecimento de produtos de matérias-primas são afetadas. Quando estamos no valor, aquilo que nós vendemos é outra coisa, é o conhecimento, é o produto que depois há de ser massificado. Isso é um fator de diferenciação grande. Aconteceu, por exemplo, no calçado. Eu não sei se sabem, hoje em dia, também não queria fazer publicidade, mas a Nike, acho que ninguém leva a mal. A Nike tem uma nova tecnologia, umas novas sapatilhas, etc. Tem uma sola que foi integralmente pensada e desenhada no Vale do Ave e foi exportado o conhecimento para a Nike, hoje é uma patente da Nike.
Não foi aquela da maratona, do record da maratona?
Não.
Mas nasceu aqui mesmo?
O centro de desenvolvimento. Aquilo, no fundo, é uma alteração da forma como a sola é construída, é fabricada. E esse desenvolvimento do produto em termos de conhecimento foi feito aqui. Depois aquilo acabou por ser exportado e comprada a patente. Eu acho que nós temos que dar o passo nisso. Por exemplo, nós temos que evoluir substancialmente em registo de patentes. Nós temos muito valor que sai da nossa economia regional e da nossa economia nacional e que deixa de ser nosso por uma questão jurídica ou técnico-jurídica, porque nós não temos maturidade ainda empresarial para perceber que registrar uma patente é balizar o valor num período de tempo que pode ser um valor acrescentado muito grande. O próprio registo de patentes, se pensarem bem, apesar de hoje estar mais generalizado, não é uma prática assim tão comum na economia portuguesa. E nós temos imensas coisas que somos nós que inventamos.
E isso não acontece por quê? Por mentalidade dos empresários, porque há um obstáculo?
Olhe, desde logo, e eu sou empresário, portanto, estou a falar da minha comunidade, é uma crítica quase a mim próprio também, desde logo por alguma iliteracia na área. Há, de facto, uma necessidade de criar literacia e tradição nessas ferramentas de gestão, de perceber onde é que, de facto, o valor está. Portugal sempre se focou muito em criar e focou-se muito pouco em proteger o que cria. E nós quando criamos e não protegemos o que criamos, corremos o risco de ou ser absorvido por outra indústria ou dispersar-se no mercado. Portanto, isto tem, desde logo, uma base cultural, se quiser, uma base cultural nas próprias empresas que tem que ser alterada.
Falou há pouco das adversidades e das vulnerabilidades da indústria. A guerra na Ucrânia e agora esta instabilidade no Médio Oriente tem afetado o tecido empresarial minhoto e aqui de Braga?
É assim, nós somos afetados como todas as indústrias são afetadas. Como é evidente, há setores que são mais afetados do que outros, mas isto é um bom exemplo daquilo que eu lhe dizia, de estarmos na cadeia de valor relativamente protegidos em relação a isso. Se falar com indústrias de manufatura intensiva ou de cadeias logísticas intensivas, elas dizem-lhe já, e como é entendível, que o preço do petróleo tem um efeito brutal na sua cadeia de produção. Mas, por exemplo, se falar em indústrias de criação de valor na área das tecnologias, eles dizem: "Para nós é relativamente irrelevante", do ponto de vista produtivo. Claro, depois tem implicações sociais, enfim, isso é outra dimensão. Nós somos afetados como os outros, mas eu acho que o Minho e Portugal, pela sua dimensão, nestas circunstâncias, pode se diferenciar do resto do mundo, porque pode estar menos exposto. Agora, claro que se falar em indústrias de logística, todas as indústrias que estão reféns de cadeias de fornecimento ou expedição, essas são imediatamente afetadas. Sabe, o pior que há é a economia, ou pelo menos o pior que há para um gestor, é incerteza, é a imprevisibilidade. Vou-lhe dar uma nota que acho que é interessante. Aqui há uma semana, uma empresa aqui da região dizia-me que o preço do fornecedor lhe era dado, e era fornecido com uma validade de quatro horas. Agora, vamos nós pensar, como é que nós conseguimos fechar um ciclo de negócio em quatro horas? É impossível. É impossível fechar o ciclo. É como os semicondutores, que se fala tanto. As pessoas às vezes não percebem o impacto disso. Semicondutores tem um impacto muito grande. Nós recebemos na área da tecnologia, que é a infraestrutura, orçamentos de 24 horas. Mas qual é o negócio que nós estruturamos, pensamos, apresentamos, implementamos e fechamos em 24 horas?
Seja como for, a verdade é que o mundo começa a trabalhar assim.
Certo.
Se o mundo começa a trabalhar assim, nós temos que trabalhar assim.
É um caminho que temos que fazer, mas nós neste momento ainda não temos maturidade empresarial para ele.
E maturidade regulatória, organismos públicos, autorizações, por exemplo.
Eu acho que nós depois temos todo um processo que é extremamente complicado de dizer para as empresas. Ser empresário em Portugal, não é só no Minho, é em Portugal. Eu digo muitas vezes, como é evidente, levem isto num tom de alguma brincadeira, é um ato quase de loucura, porque depois nós temos uma série de coisas, de pequenas coisas, pequenos processos.
Por exemplo, nós tivemos aqui hoje o primeiro-ministro a falar da lei laboral, a falar das universidades, enfim, da reforma do Estado, ele não falou muito, mas a referir a reforma do Estado, onde é que estão os principais nódores?
Olhe, eu digo-lhe, desde logo, a legislaçãoNo que diz respeito à dimensão da fiscalidade, já sabemos que ela não promove o crescimento, é o contrário. À parte disso tudo, eu começava pelo ponto um: ela tem que ser entendível. Imagine que estamos aqui a jogar um jogo de cartas e eu não sei as regras. Como é que eu consigo jogar consigo? Não consigo. O enquadramento e a estrutura fiscal é completamente impossível de entender. Esse é o primeiro ponto. E é impossível entender porque há demasiadas camadas. Há demasiadas camadas. Nós, no século XXI, ainda discutimos, por exemplo, no imposto sobre os combustíveis, que se tribute IVA em cima de outro imposto. Vamos esquecer, para já, o impacto numérico, económico, vamos pensar no impacto meramente procedimental. Como é que nós temos os impostos sobre impostos? As pessoas, quando veem os impostos aumentar, não percebem o alcance daquilo que, de facto, está a acontecer. E a legislação fiscal, não tenho ilusões, é tão difícil de entender para o comum cidadão, como é difícil de entender para o empresário. O empresário, hoje em dia, mesmo com rocks, talks, CFOs, tem uma dificuldade muito grande em conseguir entender isso. Mas a reforma do Estado, que eu não gosto só de dar más notícias, eu via como um grande sinal para o país. Vamos ter aqui o Gonçalo Matias à tarde, que é o ministro dessa tutela. Eu acho que é uma tarefa hercúlea, mas temos que começar por algum lado. Se pensarmos num caso muito concreto, uma indústria que queria investir 2000 milhões de euros, não em Sines, agora falo-se em Sines, mas perto de Sines, e o timeline que lhe deram para ter o processo, chamemos assim burocrático, determinado, foram dois anos. Se nós pensarmos que um dos fatores mais diferenciadores do investimento é o timing, imagine que quer chegar a um país, dizer: "Eu tenho aqui 2000 milhões de euros, quero investir no país", e nós dizemos: "Ok, aguarda dois anos que nós já te respondemos." Esses atrasos estão a ser praticados aqui no Minho, também? No Minho, nós literalmente só conseguimos contornar esses atrasos atalhando. Como assim? Nós queremos mesmo é conhecer o atalho. Eu digo o atalho. Nós temos, felizmente, uma rede de autarcas muito ativa, que tenta ser, e bem, um catalisador e um canalizador de investimento. Isso, permitam-me o termo e desculpem-me a frieza do termo, mas isso é atalhar. Ou seja, nós temos presidentes de câmara que, e bem, pegam literalmente nos projetos e tentam levá-los a bom porto. Mas depois temos agências, APAS. Só que as empresas não podem ficar de mãos atadas. É isto que nos diz, não é um crescimento estruturado. Quando nós atalhamos, não é estratégico, estamos a ser tugas. Eu tenho aqui uma dúvida, que passa pelo seguinte: quando, sobretudo estrangeiros vêm investir nesta zona ou fazem parcerias e têm certamente muitos contactos, o que é que eles mais valorizam? Porque poderiam ir para a zona de Lisboa, para a zona de Sines, poderiam ir para qualquer outra cidade. O que é que eles valorizam? É encontrarem custos mais baixos em matéria de instalações, é a mão de obra, é a tranquilidade, é ser uma zona que está muito próxima de grandes centros, já aqui foi referido o centro da Inditex em Arteixo, ou por exemplo, outros centros industriais. Nós temos aqui em Braga, mas se formos para Paços de Ferreira, temos a questão dos móveis, temos a IKEA, temos essas coisas a comprar ali e a produzir ali. O que faz alguém, eu estou a perguntar mais estrangeiro, mas também alguém que não é daqui pensar: "É neste sítio que eu vou fazer a minha empresa." Eu acho que há imensas dimensões nisso, mas eu vou-lhe tentar transmitir isto de uma forma o mais literal possível. Primeiro, eles valorizam os centros de conhecimento. Hoje em dia, eu diria que em todo lado nós procuramos isto, procuramos mão de obra qualificada, que nos possa ajudar a crescer. E existe.
Está a ser uma boa discussão. Estamos, nesta altura, a ouvir o Ramiro Brito, presidente da Associação Empresarial do Minho, que nos está a dar conta aqui das dificuldades ou de algumas dificuldades.
E das vantagens. A grande questão, ou seja, não é grande nem pequena, foi a questão que eu coloquei, portanto gosto dela, é: por quê? Por que alguém escolhe investir aqui? Estava a dizer porque tem mão de obra qualificada. Existe essa mão de obra qualificada? Temos mão de obra qualificada, temos aqui um bom exemplo de universidades que estão de portas abertas para integrarem. A Católica de Braga é um excelente exemplo disso. Temos uma rede de universidades e politécnicos que está de portas abertas para receber as empresas e integrar as suas necessidades na sua própria cadeia de formação. Isto é um superpoder que Portugal tem explorado tão pouco. Não é a primeira pessoa que já o refere aqui hoje, essa possibilidade das universidades trabalharem a sua formação. Orientadas para os mercados. Orientadas para os mercados. Faz todo sentido se nós pensarmos. Quando uma pessoa se vai formar, vai se formar com que objetivo? Com o objetivo de ter um emprego, ter uma carreira. Se nós orientarmos a formação para os mercados, estamos a criar melhores condições para que isso de facto aconteça. Mas temos aqui outro fator que é muito importante, e permita-me puxar aqui a brasa à minha sardinha aqui no Minho, e que eu acho que é muito importante, que é o que eu lhe disse há pouco tempo. Há uma proximidade grande
Do poder local, para ser também ele um catalisador de investimento. O que significa que quando os investidores pretendem investir, têm agentes políticos com capacidade de decisão que podem ajudar a tornar esse processo mais simples. E depois, eu sendo minhoto, não posso deixar de dizer, não que o resto do país não tenha, mas o Minho tem sempre duas coisas espetaculares que é a comida e o vinho. Portanto, acredito que isso também possa ser relativamente diferenciador.
Muito bem. Recebe bem que o diga Luís Aguiar Correria, o presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho.
E de Ciência Política.
E de Ciência Política e os ouvintes do Observador que me entendam bem, porque ele é membro do programa Fora do Baralho.
Ele é muito bem recebido em Lisboa.
Sempre. E também aqui na Rádio Observador, desde já com uma sugestão aqui indiretamente deixada pelo Ramiro Brites, criar uma unidade temática ou didática dedicada ao registro de patentes. Parece que os empresários minhotos precisam registrar mais as suas patentes, Luís. Juntar-se à discussão agora não
Estava a pensar nos argumentos que me esqueci de dar aqui em cima da mesa.
Esquecemos sempre.
Podes dizer aqui.
Não é só fazer patentes. É fazer patentes e depois comercializá-las. As patentes são o primeiro passo. Aliás, digamos, qualquer investigador no seu gabinete consegue até ter ideias patenteáveis. Mas depois, claro, é preciso o resto, que é portanto criar patentes que sejam relevantes para a indústria e que sejam escaláveis. E esse é um lado que ainda é preciso melhorar.
Tem sido muito sublinhado aqui ao longo da manhã o papel da academia, como elemento alavancador de uma indústria que tem crescido muito nos últimos anos aqui em Braga e na região Minho. Que papel tem tido a Universidade do Minho como motor da economia?
Deixe-me só acrescentar o Luís Montenegro na intervenção, a certa altura destaca a questão da universidade e considerar que de alguma forma a universidade vem mudar o próprio perfil ou integrar-se nessa mudança de perfil da indústria que aqui desenvolve.
Isso é evidente. Há vários casos de sucesso. O maior e mais conhecido e internacional é o caso da Bosch. Tem aqui uma parceria com a Universidade do Minho, estamos a falar de centenas de milhões de euros de investimento, também apoiados pela União Europeia, e que resultou em imensas patentes e resultou até numa melhoria da imagem de Portugal junto das grandes empresas alemãs. Portanto, nesse aspeto eu diria que especialmente a nova ESBE em Lisboa, por causa da sua capacidade de atração de estudantes alemães, e nós aqui por este trabalho com a Bosch, contribuímos imenso para a melhoria da nossa imagem. Esse é o lado mais visível, mas não é só isso. Quando nós vemos, por exemplo, uma coisa que se fala muito neste momento, que é a questão da crise da habitação e da possibilidade de resolver isto do ponto de vista tecnológico, que é com aquelas-
As casas de modular.
As casas de modular e por aí fora. As grandes, se calhar, Ramiro, corrija-me se eu estiver errado. As melhores empresas estão aqui em Braga, e todas elas colaboram muito ativamente com a Universidade do Minho e têm aliás várias associações em que entram quase como joint ventures. Isto é um mau nome, porque isto tem ênfase, mas uma espécie de parcerias público-privadas entre as universidades.
Mas quando é que nós vamos ver essas casas? Há gente lá dentro.
Já existem. Eu vou-lhe dizer, a MSH apresentou a semana passada, não quero errar no número, mas qualquer coisa como 400 habitações em sistema de industrialização de construção para arrendamento a preços regulados. Regulados, a preços acessíveis. Em Barcelos. Era aquilo que eu dizia na minha intervenção inicial, de que há uma dimensão da atividade empresarial que resolve problemas sociais. E este é um bom exemplo disso.
Sim.
Mas isso só é possível a preços reduzidos porque o processo produtivo está industrializado. Se usássemos processos tradicionais, teríamos os mesmos custos de produção.
E isso é uma questão de inovação tecnológica, porque essas casas acabam por ser, se quisermos, de melhor qualidade, porque são feitas em unidades fabris. A nível arquitetónico, podem ser boas e feias, boas ou más como todas, isso não altera. E de facto consegue-se melhorar a qualidade, baixando imensos custos, isso é definição de progresso.
E crescem muito de preço, porque eu por acaso, ao pé da minha casa em Lisboa, um sítio por onde passo para ir para o Observador, tenho visto crescer dois blocos ou três de habitação desse género.
Agora, em Guimarães construíram aquele edifício junto à universidade. Aquele edifício junto à universidade, a estrutura de fora ficou em uma semana, oito pisos ou sete pisos.
Uma semana?
Porque aquilo é um Lego. O António Carlos explicaria este muito melhor do que eu, seguramente. Ou o José Teixeira. Mas aquilo no fundo-
Ou da Casa.
Sim, ou da Casa. O José Teixeira explicaria melhor.
Só uma pergunta: estas empresas já estavam no setor da construção aqui?
Sim, já. São empresas enormes na área da construção e que, lá está-
Mas deram o salto.
Através da tecnologia conseguiram internacionalizar-se e alterar os processos produtivos.
Mas vamos dar mais um exemplo, está bem? Diz diretamente respeito e aliás, o Ramiro contribuiu imenso. Nós aqui na Escola de Economia e Gestão e Ciência Política, estamos em parceria com várias empresas
Tem um papel importante a desenvolver uma nova escola de formação executiva aqui no norte, a que chamamos UMinho Exec. Novamente, é uma joint venture, uma parceria público-privada entre o setor público e privado. Vão investir milhões de euros.
O objetivo é formar pessoas?
Formar pessoas adultas, porque estamos a falar de formação executiva.
Para gerir a empresa.
No fundo, é ajudar a que a questão da literacia funcione, mas também desenvolver produtos novos. Uma coisa que me deixou ainda um bocadinho surpreendido aqui na cimeira, numa apresentação que o Carlos Silva fez, é que, a nível de comparação internacional, a nível de gestão, as nossas empresas estão bastante abaixo dos nossos parceiros. A nível de qualidade de gestão. Isto é absurdo, com a quantidade de excelentes escolas de gestão que nós temos em Portugal, que estamos sempre com os rankings e por aí fora. Temos a Nova no top 10 do ranking da Financial Times. Mesmo nós, universidades e empresas, temos claramente problemas a nível de gestão.
Não será efeito da própria estrutura empresarial? Nós temos muita gestão que não é gestão profissional, por razão da própria estrutura familiar. O gestor profissional, apesar de tudo, a empresa tem que ter alguma dimensão.
Mas talvez possa mandar o gestor familiar para essa escola.
Deixa-me pegar nisto, que isto era das coisas que eu queria ter dito e não disse. Que é esta questão da escala. Já sabemos que empresas com escalas maiores são mais produtivas, mas mesmo assim, quando nós comparamos empresas de igual dimensão, Portugal com o resto da Europa, empresas que tenham 300 trabalhadores, e comparamos com uma empresa de igual dimensão em França ou na Holanda, nós ainda assim somos menos produtivos. Isso explica alguma coisa, mas não explica tudo. Há claramente aqui margem para melhorarmos.
Deixa-me fazer outra pergunta que eu tenho engatilhada há muito tempo para te fazer a ti, em particular. Tu não cresceste nesta cidade, vieste para esta cidade.
Certo.
A cidade onde cresceste não se pode dizer que tinha o dinamismo desta. O que é que explica essa grande diferença? Ou mesmo a universidade onde estudaste com aquela onde agora ensinas. Deixa-me responder.
É uma pergunta difícil. Coimbra está imobilizada. E Coimbra vive no seu passado. Eu acho que essa é a grande diferença. Coimbra vive no seu passado e Braga vive a olhar para o futuro.
Está a ver só, é uma resposta cultural.
É isso.
Posso só revelar uma coisa? Talvez também a qualidade de vida. Eu lembro quando o Zé mandou-me um e-mail com imagens da casa, que não sei se ainda está lá. A casa em que estava aqui em Braga e estava contente porque tinha conseguido uma casa-
E recebia o mesmo salário que receberia se estivesse em Lisboa.
Isso é particularmente importante para funcionários públicos como eu, que recebo exatamente o mesmo salário que receberia em Lisboa.
Claro. E a casa era bem bonita.
Mas eu ia dizer outra coisa. Qual é a pergunta que estavas a fazer?
A pergunta é por que razão a universidade é diferente.
Já sei o que ia dizer. Alguns dos melhores amigos do meu pai, amigos de irmos de férias juntos, tratavam-se uns aos outros por doutor. Professor, não. A tradição em Coimbra não é chamar professor. Professor é da escola primária. Portanto, é doutor. Os melhores amigos, mais íntimos, tratavam-se uns aos outros por doutor. Aquilo é uma sociedade verdadeiramente hierárquica e verdadeiramente presa às tradições. E as tradições são ótimas quando nos permitem usá-las para fazer coisas novas. Mas, de facto, vive-se ali preso. Eu acho que Coimbra vive muito disso e vive de uma certa imagem que é a universidade, é o hospital e dali não passa. Aqui em Braga não é assim.
Está um bocado cristalizado.
Está tudo cristalizado. Muito bem, temos dois minutos, João Manuel. Queres encerrar o Contracorrente de hoje?
O que eu queria, sobretudo, chamar a atenção é, voltando a um ponto que eu referi aqui no princípio. Nós, comunicação social, muitas vezes somos muito lisboacêntricos. Não é só litoralcêntricos, é lisboacêntricos. E cada vez que se sai de Lisboa e nos afastamos do Terreiro do Paço, percebemos que há um país com um dinamismo diferente, às vezes também com problemas. Se formos para o interior, encontramos outro tipo de problemas também diferentes. E Braga é um exemplo, mas não é o único. Há mais outros sítios, sobretudo ao longo do litoral, mas há outros locais onde, até pela distância aos centros de decisão, se percebe que por atalhos ou sem atalhos, as coisas têm que ser resolvidas e não se fica apenas à espera de ajudas, orientações, caminhos. E desse ponto de vista, como eu referi, Braga é um bom exemplo, mas Braga deve servir para boa parte do resto do país perceber como é que algumas coisas podem funcionar. E não serem apenas problemas. Na introdução, ao princípio, na sessão, o presidente da Aiminho disse que a associação, que é uma associação relativamente nova, não surgiu para fazer caixas, mas para gerar apoios. E gerar apoios, no fundo, significa criar massas críticas para que as mudanças possam acontecer. E nós temos muito uma cultura portuguesa que é, antes de mudarmos qualquer coisa, já estamos a dizer que não é possível mudar. Uma cultura que é muitas vezes, por exemplo, a tomar riscos. Há esse problema da gestão, mas há uma diferença que eu notei ao longo da minha vida, que é, há uma diferença também entre o gestor e o investidor. O gestor muitas vezes é alguém que minimiza o risco e o investidor é alguém que aposta no risco. As universidades resolvem o problema de termos bons gestores, mas não resolvem o problema de termos investidores, no sentido de pessoas que gostem do risco. Pelo menos eu não sinto isso.
Pode ser uma coisa que me vem agora à cabeça e pode ser um disparate completo, não tive tempo para amadurecer a ideia, veio mesmo agora à cabeça.
Vamos assumir o risco.
O João Manuel está a falar de passarem a vida a dizer-nos que não podemos fazer. Quem passa a vida a dizer que não podemos fazer são juristas. Se calhar a explicação é essa, é o peso da faculdade de Direito da Universidade de Coimbra tem aquele peso mesmo muito grande.
Gosto muito dessa resposta.
É, de facto.
Ainda bem que assumiste o risco. Luís Aguiar, muito obrigado. Obrigado também ao Ramiro Brito e ao João Pinto. Temos de fechar o Contracorrente. Regressaremos aqui a partir das 14h ao Teatro Circo, em Braga, onde está a decorrer a Cimeira da Indústria. Passem por cá.