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José Manuel Fernandes quer regressar no Contracorrente de hoje a um tema que já aqui tinha tratado, até porque a situação parece agravar-se a cada dia que passa. Falas do atraso do programa europeu de vacinação, não é verdade? Bom dia.
Bom dia. Exatamente. Eu acho que a primeira vez que falei do assunto foi em janeiro, agora o fiasco transformou-se num escândalo já de dimensões continentais. E há quem diga que a crise das dívidas soberanas da União Europeia tinha cometido erros que não se repetiriam. Agora foram provavelmente erros da mesma dimensão e quem diz isso eu começo a concordar com essas críticas. Acho que o que se está a passar é uma verdadeira humilhação. Nós estamos a ver o Reino Unido a regressar à normalidade e estamos a ver alguns países europeus a decretarem novos confinamentos, quer dizer, é surreal. Estamos a ver os Estados Unidos a baterem recordes diários todos os dias de vacinação, com milhões de pessoas a serem vacinadas, e na Europa estamos a ver os programas a serem suspensos. E já nem falo de Israel. Olhar para Israel é pintarmos a cara de preto, ficarmos enfunhados.
Israel é mais fácil, não é? É um país pequeno.
Acho que dizer que Israel é um país pequeno e que é fácil, é esquecer que Israel é um país cercado, é um país cheio de outras complicações. Eu nem vou discutir Israel. Eu vou só ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Vamos lá ver. Os Estados Unidos é aquele país que tinha à frente, como a gente costumava dizer, o grunho do Trump. Pelo menos era assim que todos o tratávamos. Pois bem, os Estados Unidos investiram, e estou a falar só de dinheiro público, no desenvolvimento das vacinas, contas do Financial Times, £27 por habitante. Foi esse o investimento dos Estados Unidos, um bocadinho menos que o Reino Unido, que investiram £29 por habitante. Eu estive aqui a fazer a conversão para euros, mas enfim, não interessa, porque tenho as contas também para a União Europeia em libras, e as contas para a União Europeia em libras dá, sabes quanto?
Não sei, diz-me.
Dá £4.
Muito diferente.
Dá seis vezes menos que contas do Financial Times. Tínhamos os populistas, os grunhos, os louros daqueles países que nós estamos sempre a gozar. Investiram seis vezes mais do que os nossos queridos dirigentes europeus. Só que os nossos, além de serem forretas, foram também regatear as encomendas, foram atrasar a assinatura dos contratos, enganaram-se nas empresas, porque andaram a contratar com empresas que nem sequer têm as vacinas prontas porque como eram francesas tinham que ser contratadas, mas atrasaram-se. Enfim, só um desastre. Só para dar uma ideia deste problema do dinheiro. Por exemplo, Israel achou que valia a pena pagar o que fosse preciso pagar para ter a vacina depressa. Portugal achou que não, achou que o que era preciso era comprar a vacina mais barata possível. Andou a negociar, a negociar, a negociar, a atrasar tudo. O resultado de facto foi que Portugal comprou a vacina mais barata. Mas com contratos que dão menos garantias e que garantem ritmos de entrega mais lentos e mais complicados, como já estamos todos fartos de saber. Por exemplo, no caso da vacina da Pfizer, já não vou para a AstraZeneca, iremos à AstraZeneca. No caso da vacina da Pfizer, Israel pagou $25. Os Estados Unidos pagam $20. A Europa fez um grande negócio e paga entre $15 e $19. Agora pergunto: foi assim tão bom negócio? O que nós estamos a poupar com a vacina é completamente irrelevante se pensarmos num só lockdown num grande país europeu. Ora, esse lockdown já temos em Itália. Aquilo que vamos poupar com a porcaria dos $3 ou $4 por vacina, já vai tudo por água abaixo com o lockdown de Itália. E então se tivermos agora um verão semifechado, como provavelmente deverá ser o verão europeu, vai ser um pesadelo económico. Isto é o custo das vistas curtas dos nossos dirigentes.
Mas quando falas dos nossos dirigentes, José Manuel, estás a falar de quem?
Ora aí está uma boa, mesmo uma excelente pergunta. O que está a acontecer é uma combinação de vários fatores que compõem a doença da Europa, mas poucos ou ninguém querem olhar verdadeiramente para esses fatores. Se eu pudesse escolher um deles, escolhia o seguinte: depois deste fiasco, eu, cidadão eleitor, cidadão contribuinte, se quisesse ver-se livre dos responsáveis por esta humilhação, o que é que fazia? Como é que fazia? Bem, não tenho resposta. Este é que é o problema, não tenho resposta. Primeiro, porque na União Europeia a responsabilidade é sempre difusa. Repara, quem é que negociou os contratos? Foi a Comissão Europeia. Mas quem é que mandou toda a Comissão Europeia? Foram os governos dos diferentes Estados. Eu demito quem? Demito a Comissão ou demito o Conselho Europeu? Conselho Europeu não posso demitir, porque o Conselho Europeu são os governos europeus. Não posso demitir todos de uma vez. E depois demitir a Comissão é extraordinariamente difícil, como toda a gente sabe. Aqui está o primeiro pecado. Eu não posso substituir um governo quando não gosto dele, que é a primeira regra de uma democracia. Quando quero substituir um governo, posso substituí-lo pacificamente. Na União Europeia, isso é impossível ou virtualmente impossível. O segundo pecado é o pecado da arrogância. Em Bruxelas, os burocratas acham-se superinteligentes, supercompetentes. Consideram-se a elite das elites. Vestem bem, ganham bem, comem bem, viajam bem. Na verdade, eu gostava de saber quantas vezes foram confrontados com a dureza da vida real, nomeadamente pagar um salário ao fim do mês. O seu mundo é muito mesquinho e muito protegido. Tudo ali vive numa espécie de bolha e ninguém tem de responder diretamente aos eleitores. Os eleitores estão muito longe, são chatos que têm os governos que tratem deles. O resultado está à vista. A burocracia mexeu-se devagar, não percebeu o essencial. O essencial é que na corrida às vacinas era preciso agir depressa, agir sem medo, correr riscos. É evidente que Israel correu riscos, o Reino Unido correu riscos, os políticos americanos correram riscos. E sentir a urgência e ter sentido de política.
E agora deixa-me acrescentar uma outra coisa, que é a questão com a AstraZeneca.
Sabes qual é a sensação que tenho? Acho que é a sensação de que se está aqui a ser usado uma espécie de bode expiatório. E grave, tudo o que se está a passar é grave. A vacina da AstraZeneca tem várias vantagens: é a mais barata, é a que está disponível na maior quantidade, é a que é mais fácil de dar pela questão da temperatura, porque exige temperaturas mais baixas. Portanto, é crucial para o programa de vacinação. Ora, neste momento, a Entidade Europeia do Medicamento, vão ter isso presente, não considerou que houvesse razão para suspender a vacinação. Não considerou. Ainda ontem explicou isso numa conferência de imprensa. Ora, o mesmo se sucedeu com as entidades científicas do Reino Unido e dos Estados Unidos e por isso, lá, a vacina continua a ser dada. Mas na União Europeia é o caos. E cada um para seu lado, cada um suspendeu a vacina de qualquer maneira, ao primeiro choque. Eu acho que é mesmo a procura de um bode expiatório, porque cada um puxa para seu lado. E isto é grave por quê? Porque na região do mundo em que há mais gente com medo de tomar a vacina, estão nas estatísticas. Há uma fobia às vacinas na Europa. É um medo irracional, eu quase diria um medo medieval. Em Itália havia partidos nas eleições que faziam campanhas contra as vacinas. Eu temo que muitas decisões que estão a ser anunciadas são mais políticas do que médicas ou científicas. Eu temo não, eu quase diria, tenho a certeza. Os próximos dias permitirão tirar isto a limpo. Não estou a dizer que isso se está a passar em Portugal, estou a dizer que pode estar a passar noutros países. Tudo o que li até agora não me convenceu que a vacina implique mais riscos do que outras vacinas. Pelo contrário, a não ser riscos políticos, pode haver uma guerra de fornecimentos que durar semanas e uma má vontade enorme contra a AstraZeneca. E por isso receio que se esteja a acrescentar um novo problema, o medo de tomar a vacina, ou mais medo de tomar a vacina, a um problema que já existia, que é o atraso da vacinação. Quanto mais olho para isto tudo, o que a União Europeia tem feito neste domínio, quanto mais olho para isto, mais problemas vejo. De facto, pensar que ser governados por burocratas sem rosto, como são os burocratas de Bruxelas, é melhor do que ser governado por políticos, dá muito que pensar. Porque os políticos nós podemos despedir e os burocratas não podemos. E isto é muito mau. A meu ver, ter este tipo de governação e achar que isto é a solução ideal para o futuro da União Europeia é mesmo um erro trágico neste tipo de construção que estamos a fazer. E se pensarmos a longo prazo na União Europeia, eu acho que pode ser mesmo um erro fatal.
Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa ou 98.4, no Grande Porto.