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Bom dia.

Qual é o saldo da Geringonça?

A Geringonça foi uma espécie de momento de glória da esquerda, e é isso que eu penso que consigamos talvez hoje analisar. Foi um momento de glória para a esquerda, mas um momento que reconfigurou completamente a esquerda. Ou seja, fazendo a pergunta ao contrário: como estaria hoje a esquerda em Portugal, sobretudo o Partido Socialista, caso não tivesse havido Geringonça? Há quem defenda que o Partido Socialista estaria em muito melhores condições, mas isso depois vai ser debatido durante o programa. E claro que os outros partidos também, nomeadamente o Bloco de Esquerda. Mas temos de entender o que aconteceu há 10 anos. Há 10 anos e um dia, precisamente a 10 de novembro de 2015, às 14h42, começava a ser assinado não o acordo, mas os três acordos que levaram o PCP, o Bloco de Esquerda e, é preciso também dizê-lo, os Verdes a firmarem os documentos que permitia dar uma maioria ao PS para governar. Entretanto, o governo de Passos Coelho cai no Parlamento e nós podemos perguntar: a Geringonça começou aí? Sim, de alguma forma, a Geringonça começou aí. Esses partidos comprometiam-se a encontrar uma solução de governo. Entrámos na fase em que verbos como reverter, dar, tornaram-se dominantes naquilo que era a linguagem política. Depois é curioso, porque já se sabe, o governo de António Costa toma posse a 26 de novembro de 2015. Pode perguntar-se também quando é que acabou a Geringonça. Aí há dúvidas se pode ter sido em novembro de 2020, quando o Bloco de Esquerda já votou contra o Orçamento de Estado e o PCP se absteve, ou se em outubro de 2021, quando ao votar-se o orçamento para 2022, o governo de António Costa acaba por cair, porque o orçamento não foi aprovado, porque o PCP também já votou contra. E isto levava a que, segundo o entendimento de Marcelo Rebelo de Sousa, tivéssemos de ir novamente para eleições. Mas esta palavra, Geringonça, que marcou a política portuguesa, vai levar a uma reconfiguração política completa. E é essa a grande pergunta hoje do Contracorrente. A esquerda nunca mais foi a mesma, ou seja, mudou radicalmente depois da Geringonça. E é curioso que eu faça essa pergunta mais para a esquerda do que para a direita. Por outro lado, temos aqui uma outra matéria, que é muitas das coisas que foram um compromisso na época de António Costa com os partidos que lhe permitiram viabilizar o governo, esses compromissos estabelecidos pelo então secretário-geral do Partido Socialista, em que medida é que nos afetam hoje ou não. Por exemplo, na questão das greves dos transportes, porque estava em cima da mesa a possibilidade da privatização da concessão de empresas de transportes. Portanto, quando continuamos a ver Portugal, ou mais precisamente a área metropolitana de Lisboa, parar por causa das greves nos transportes, temos de nos lembrar da Geringonça, por exemplo. E depois temos aquele que eu também acho que foi uma grande vitória de António Costa, sim, uma vitória daquelas que se pode considerar antológica, na minha opinião, não é ter conseguido governar, é ter conseguido governar convencendo o Bloco de Esquerda e o PCP, e já agora também uma boa parte do PS, que só se podia governar com contas certas. E portanto, uma das grandes conquistas da Geringonça foi esta espécie de mantra, que era sucessivamente repetido por António Costa, que as contas tinham de estar certas. E de alguma forma, levar o Bloco de Esquerda e o PCP a concordarem com isso foi uma espécie de revolução, no sentido copernicano do termo, em relação àquilo que era a perspectiva destes partidos e também de uma parte do Partido Socialista em relação às questões do equilíbrio orçamental e é um adquirido que ficou e que não parece que vá terminar. E depois temos também ainda o outro lado, que é, e afinal, o Partido Socialista, naquelas clivagens que apresenta hoje, é uma linha de fratura que vem do momento em que se assinaram estes acordos de viabilização de governo à esquerda e em que, de alguma forma, António Costa acabou com aquilo que eram as linhas vermelhas à esquerda. Em que medida é que o Partido Socialista, algumas das linhas de fratura que lhe encontramos hoje, nomeadamente entre o José Luís Carneiro e aqueles que se lhe opõem à sua esquerda, não é uma espécie de aquelas falhas sísmicas que vamos vendo, que começou a tornar-se mais evidente no momento em que foi firmada esta Geringonça e que agora, 10 anos depois, essa linha de fratura dentro do PS está mais expressiva que nunca. Portanto, eu acho que é mais que tempo de podermos falar da Geringonça.

É o que vamos fazer daqui a pouco, Helena. Até já.

Exatamente.

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