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Muito bom dia, são 8h14, é hora de conhecermos o tema do "Contra-Corrente", que hoje é, de novo, mais curto. Começa às 9h, porque às 10h vamos acompanhar o segundo dia do debate do programa do governo. Carla. Na segunda-feira, o presidente Trump saiu da reunião do G7 no Canadá mais cedo do que o previsto, aparentemente para participar numa reunião do gabinete de crise. Desde então, a retórica do presidente dos Estados Unidos tem subido de tom. Avisou os habitantes de Teerão para deixarem a cidade e depois fez com que um ultimato aos aiatolás representaria rendição incondicional e o abandono definitivo do programa eleitoral. Entretanto, há mais navios norte-americanos a caminho da região e discute-se como e onde uma intervenção americana poderia fazer a diferença, mesmo considerando o aparente sucesso de Israel nestes primeiros dias de campanha aérea. É tudo isso que queremos falar no "Contra-Corrente" de hoje, um "Contra-Corrente", como dizia a Maria João, mais curto, vai para o ar logo depois do noticiário das 9h. Bom dia, José Manuel. A América entrar nesta guerra não é demasiado perigoso?
Perigoso é, mas vamos lá ver. O que está muito em causa nesta guerra, há duas questões que muitas vezes as pessoas debatem, o que está em causa nesta guerra. Se está em causa unicamente o programa nuclear iraniano ou se além do programa nuclear iraniano, está também o tema da chamada mudança de regime. Na verdade, eu creio que aquilo que preocupa Israel e os Estados Unidos, e preocupa também grande parte dos líderes europeus, as declarações dos líderes europeus apesar de não serem completamente síncronas, foram bastante no mesmo sentido, talvez com destaque para a declaração do chanceler Merkel, alemão, é de uma enorme preocupação com o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, que está no ponto de praticamente conseguir ter o material necessário e as condições necessárias para em semanas passar a ter armas nucleares. Isso é uma alteração radical do quadro da região e do mundo, porque uma das coisas que os aiatolás dizem não é apenas a sua vontade de destruir Israel, é darem a indicação de que a partir do momento que essa arma exista, nada garante que ela seja usada apenas nas ogivas de mísseis balísticos, como aqueles que têm sido disparados contra Israel nestes últimos dias. Mas se isso não funcionar, há outras formas de os fazer chegar a qualquer parte, e nós sabemos ao que eles se estão a referir. Estão a referir-se a eles poderem ser transportados por grupos terroristas, como de resto o Irão já demonstrou ser capaz de fazer usando os chamados proxies. Neste momento, talvez o mais ativo sejam os Houthis do Iémen. Portanto, há uma preocupação em fazer com que esse programa pare de vez. Está para parar desde 2003, já passaram 22 anos de controle. Tem sido muito controlado, mas nunca parou realmente. E neste momento, é isso que está em causa. E quando isso está em causa, há particularmente uma instalação que mobiliza as atenções, que é uma instalação iraniana em um sítio pouco conhecido chamado Fordow. Fordow é uma montanha, é um bunker construído no fundo de uma montanha, perto de uma cidade, nunca estive no Irão, mas uma cidade chamada Qom, que é uma cidade histórica, onde estarão as centrifugadoras que estão a concentrar o urânio. O urânio já estará concentrado a 60%. Dos 60% para os 90%, que é o salto necessário para o enriquecimento indispensável a uma arma nuclear, podem ser horas ou dias. É uma coisa já muito fácil, muito simples, já está quase. Mas esse armazenamento, ninguém sabe exatamente a que profundidade, mas poderá estar a 60, 70, 80 metros de profundidade. E a questão é saber como é que esta instalação é desativada ou destruída, se preferires. E aqui a questão que se coloca é que Israel tem algum equipamento para destruir bunkers em profundidade. Tem uma bomba chamada MOAB 84, que tem sido a que mais vezes tem sido usada designadamente em Gaza para destruir os túneis. Tem outra mais pesada, capaz de ir bastante mais fundo, capaz de chegar aos 35 metros, chamada BLU-109. Terá sido essa que foi usada na eliminação do líder do Hezbollah, Ashraf Nassrallah, em Beirute, aquele ataque que foi autorizado por Netanyahu ao telefone a partir de Nova Iorque, deves te recordar disso.
Sim, claro.
Mas não tem a única bomba que eventualmente poderia, numa ação rápida, neutralizar este lugar de Fordow, que é a chamada GBU-57F-B.
Certo.
E isto é uma bomba.
Os conhecedores perceberão.
Os conhecedores perceberão. Mas é só para ter ideia. É uma bomba que pesa quase 14 toneladas. É capaz de penetrar entre paredes de betão, rocha, até aos 60, 61 metros Mas só os americanos é que têm capacidade de a utilizar. Será a mais potente do mundo, nenhuma outra potência tem uma bomba parecida com estas e ela poderá ser lançada a partir de um tipo de avião que também só os americanos é que têm, que são os bombardeiros furtivos, os B-2. Os B-2 é aquele que parece uma asa delta. Agora, alguns desses bombardeiros até já se encontram na região. Eles foram movidos para Diego Garcia ainda há uns meses, mas a possibilidade desta bomba ser usada para destruir este local não está garantida e não se sabe se, em alternativa, Israel sozinho consegue ou não destruir Fordow e sem a destruição de Fordow, não se sabe se a missão das Forças Armadas israelitas, que é destruir o programa nuclear iraniano, fica ou não completa. Se consegue apenas atrasá-lo ou consegue destruí-lo por anos. E eu penso que é o que está em cima da mesa. É isso que está em cima da mesa e, ao princípio, havia a ideia que a administração Trump não estaria com muita vontade de entrar nesta operação, mas ao mesmo tempo também sabemos que Trump, tendo a perspectiva daquilo que parece ser neste momento, não é garantido que seja, mas parece ser neste momento uma vitória relativamente fácil, pode estar com vontade de, com riscos relativamente controlados, dar uma mãozinha a Netanyahu e conseguir uma ação que será um raid relativamente rápido, de apenas umas horas, aquilo que se for a ser feito pelos israelitas, não é impossível que eles consigam fazê-lo, mas é muitíssimo mais difícil, poderia implicar vários dias e operações de enorme risco, designadamente uma operação de comandos. É isso que está um pouco em causa. Agora, as reações a isto são interessantes, porque enquanto, por exemplo, o presidente Macron tem vindo a alertar para o risco de uma mudança de regime abrir uma espécie de caixa de Pandora, já o chanceler Merz tem vindo a dar a entender que não veria com maus olhos que Israel e os Estados Unidos levassem essa treta até ao fim, acabassem com o programa nuclear iraniano. Se isto depois resulta ou não numa mudança de regime, já é diferente, porque aí começou a discutir-se outro tema, que é saber se os israelitas queriam ou não também eliminar o aiatolá Khamenei, que é o líder do regime. Eles eliminaram já toda a cadeia militar abaixo. Numa primeira vaga, os principais líderes militares e os principais cientistas e dirigentes do programa nuclear. Depois, quando eles foram substituídos, particularmente na cadeia de comando militar, os novos líderes também, o que estava à cabeça, o número um da operação militar, também já foi eliminado. Mas em relação ao Khamenei, a única coisa que sabemos é que Trump, à maneira de Trump, já disse: "Sabemos onde é que está, não queremos matá-lo, mas tenha juízo". Aquelas declarações típicas do presidente dos Estados Unidos. Mas o que as informações têm dito é que a possibilidade de haver luz verde dos Estados Unidos para Israel eventualmente fazer essa operação, não terá existido. Isso já é algo diferente, já não estamos a falar apenas de eliminar um terrorista como foi nas Hala. Estamos a falar de um passo diferente e aí já a discussão é outra. Mas vamos falar disso tudo no "Contra-Corrente" curtinho de hoje. Menos de uma hora. Mas vamos tentar falar de todos os temas.
Exatamente, até já.