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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto pra nos dar a sua opinião a seguir ao jornal das 10, só tem que ligar pra nós 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Luís Soares.

E hoje sobre a "Magnifica Humanidade", "Magnifica Humanitas", a primeira encíclica de Leão XIV. Foi como se esperava sobre a inteligência artificial e também, como esperável, a primeira referência foi a "Rerum Novarum", de Leão XIII, a encíclica que fundou a doutrina social da Igreja. 130 anos depois, face ao que podemos ver como uma nova revolução industrial, o papa americano procura não só responder às dúvidas, ansiedades e desafios colocados pela inteligência artificial, como o faz também pondo toda a centralidade no homem e também nas suas imperfeições. É sobre tudo isto que vamos falar no Contracorrente de hoje e também sobre o que Leão XIV quis dizer quando falou de guerra e de paz. Bom dia, Zé Manel.

Bom dia.

Esta é uma encíclica surpreendente?

Surpreendente, não direi, mas eu creio que importante, seguramente. Repara, há aqui alguns aspetos que muito rapidamente penso que vão ficar. Primeiro que tudo, habitualmente, as encíclicas são os documentos doutrinários mais importantes da Igreja. São aqueles em que os papas vão procurando marcar a evolução da doutrina. Na Igreja, isso é particularmente importante, porque é uma instituição com mais de 2000 anos que se move, mas não se move como se move o mundo político, move-se com outros ritmos. E portanto, estas doutrinas, que muitas vezes são documentos relativamente longos, esta se for paginada em forma de livro, eu calculo que tenha perto de 200 páginas, não é sequer o programa de um partido. É uma coisa mais consistente, mais meditada, mais elaborada. Os papas mais recentes, os últimos papas, por regra, menos de um ano depois de chegarem ao Vaticano, faziam a sua primeira encíclica. Esta levou um bocadinho mais e aparentemente tem mesmo a marca de Leão XIV e era por isso também aguardada com bastante expectativa. Eu digo que tem a marca porque, por exemplo, ao ler as várias reações, nomeadamente na imprensa anglo-saxônica, há um aspecto que eu achei graça, que foi eles dizerem que em inglês está mais bem escrita do que é habitual, o que é o sinal que provavelmente foi escrita em inglês. É um papa americano, eu não troco que tenha acontecido assim. Portanto, foi escrita pelo próprio e em inglês. Não é apenas a tradução de uma encíclica escrita originalmente noutra língua. Nós quando lemos, por exemplo, a tradução portuguesa, ela foi traduzida a partir de uma outra língua. E isso creio que não é totalmente alheio ao fato de ele ser um papa americano, ser alguém que vem de um país que não apenas é um país capitalista, porque isso todos os papas vieram de países capitalistas, exceto João Paulo II, que veio de um país que na altura era socialista. Mas da pátria do capitalismo, por assim dizer, do mundo anglo-saxónico, de onde nasceu a primeira revolução industrial e agora onde está a nascer a terceira e a quarta, depende da cronologia que fizermos relacionada com a inteligência artificial. A sua preocupação, desde o princípio, claramente era tratar deste tema. Tratar deste tema, quer pela sua origem, quer pelo facto do próprio nome que escolheu. O Papa Leão XIII tinha escrito, lançado uma das encíclicas mais marcantes dos últimos 150 anos, a "Rerum Novarum". A "Rerum Novarum" é a encíclica que estabelece aquilo que se convencionou chamar a doutrina social da Igreja, mas é uma encíclica que também é importante por dois aspetos. Primeiro, sobretudo por fazer de alguma forma a condenação das soluções coletivistas, socialistas, mas ao mesmo tempo ser crítica do liberalismo. Não era uma doutrina, digamos assim, pró-capitalista no sentido tradicional do termo. A própria evolução da doutrina da Igreja no que diz respeito ao liberalismo e ao capitalismo vai evoluindo e porventura só abraça de forma, eu diria, quase entusiástica o capitalismo com João Paulo II e com a encíclica que marca o centésimo ano da "Rerum Novarum", ela chama-se precisamente "Centésimus Annus" e também é uma encíclica doutrinariamente muito relevante. A partir daí houve alguma evolução, como a encíclica de Bento XVI, "Caritas in Veritate", e também algumas encíclicas, mas aí mais viradas pra temas concretos, como por exemplo o ambiente do Papa Francisco. Eu creio que esta encíclica volta a este tema de uma forma bastante sofisticada, porque ela começa, de resto, por relembrar a evolução da doutrina da Igreja nestes domínios, portanto, remetendo para a "Rerum Novarum".Percebendo-se melhor porque este Papa escolheu o nome Leão XIV precisamente para retomar a herança de Leão XIII, que o reergueram. E eu creio que o aspecto mais importante, e vamos tentar falar um pouco melhor disso depois das 10 h, é até o próprio nome que é escolhido, porque tudo é feito em função da dignidade da pessoa humana. E desse ponto de vista, não é apenas um regresso àquilo que é a essência da doutrina da Igreja, é um recolocar ou relembrar que, no fundo, os limites da própria pessoa humana são mais fortes, são mais importantes do que a supermáquina. É uma doutrina que, de alguma forma, contraria o transumanismo, os super-homens, a ideia de que pondo um chip por trás da orelha, nós podemos ultrapassar a nossa condição humana, porque a própria condição humana é essencial. E há um aspecto que é relevante e que depois falaremos um pouco melhor nisso, que é: para a própria felicidade é necessária a infelicidade. Para a própria natureza humana e a dignidade humana, é precisa a dificuldade e o conhecimento dos limites. E até por causa disso, uma questão que às vezes aparece nos títulos, talvez de uma forma, porventura sugerindo que o Papa tinha ido mais longe do que realmente foi, e eu tive o cuidado de ler essa parte, é as referências à guerra e ao tema da guerra justa. Mas depois quando vemos, no fundo, é remeter também para aquilo que é um documento basilar, uma espécie de constituição da Igreja, que é o Catecismo da Igreja Católica. Mas falaremos disso tudo depois das 10 h, com a ajuda de quem percebe muito do assunto.

Até já, Zé Manuel.

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