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José Manuel Fernandes quer hoje voltar a falar do coronavírus no Contracorrente, mas desta vez pra falar da forma como a China está a lidar com a epidemia.
É verdade. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Não sei se te lembras, na semana passada eu critiquei aqui a forma como o governo português estava a lidar com os riscos dessa doença. Foi precisamente quando o avião chegou da China e todos queríamos saber mais informação do que aquela que estava a ser dada. Até porque, basicamente, sem boa informação, sem transparência, os riscos são sempre maiores. Ora, eu acho que aquilo que se está passando na China é um bom exemplo, talvez um excelente exemplo disso mesmo.
Mas achas que a China não está a atuar bem? É que a China tem recebido elogios da Organização Mundial de Saúde.
Sinceramente, não sei muito bem por quê. Ou melhor, suspeito, mas neste momento começa a ficar claro que a China cometeu erros graves. E o principal desses erros, toda a imprensa internacional já está a falar disso, é que subestimou os primeiros sinais de alerta. Este é um comportamento típico, de resto, de um regime autoritário, de uma ditadura. Quando qualquer coisa corre mal, a primeira reação das autoridades é sempre tentar esconder o problema. Eu não sei se tu viste aquela série excelente que é o "Chernobyl", mas vale a pena ver, porque se percebe muito bem qual é a mentalidade das burocracias comunistas. Regra geral, das burocracias autoritárias. O seu primeiro instinto é sempre negar que existam problemas. E foi exatamente isso que começou por acontecer em Wuhan.
E achas que foi por isso que a polícia apareceu em casa do primeiro médico que deu o alerta?
Acho que não há muitas dúvidas sobre isso. O caso de Li Wenliang é, de resto, exemplar. Ele estava apenas a avisar alguns colegas pra terem cuidado, nada mais do que isso. Era, inclusivamente, uma rede privada, tipo um WhatsApp de colegas. Mas mesmo assim, ele só estava a dizer que tinha aparecido um novo vírus, parecido com o vírus da gripe de 2003. Foi o suficiente pra ser ameaçado, acusado de difundir falsos rumores, obrigado a calar-se e continuar a trabalhar nas mesmas condições. Portanto, se nessa altura, em vez de fazerem isso, estávamos ainda em dezembro, muito tempo antes de se falar da doença. Se nessa altura, as autoridades, em vez de o terem mandado calar, tivessem agido, tudo podia ter sido controlado muitíssimo mais cedo. E há muitas pessoas a dizerem que talvez pudesse ter evitado a dimensão que a doença tem, que, como nós já dissemos aqui hoje, pode levar até uma em cada 20 pessoas de uma cidade de 11 milhões de habitantes serem contaminadas. E o próprio Li Wenliang talvez não tivesse morrido, pois ele teve que continuar a trabalhar e acabou por ser infectado por um dos seus doentes.
Certo, mas quando reagiram, as autoridades chinesas foram impressionantes. A construção daqueles dois hospitais num espaço de pouco mais de uma semana, só mesmo os chineses é que conseguem.
Eu acho que esses elogios fazem, ao mesmo tempo, também um pouco de impressão. E vou explicar por quê. Os regimes autoritários conseguem sempre mobilizar meios que os regimes democráticos não conseguem num curto espaço de tempo. É muito difícil imaginar que outros regimes consigam fazer aquilo que, de fato, eles fizeram. Nesta altura, uma ditadura é sempre mais eficiente. Se quisermos dar um exemplo, Hitler também foi muito eficiente em construir autoestradas. Mas não nos podemos deixar iludir, porque é bom percebermos outras coisas. Primeiro, em Wuhan, tal como em Chernobyl, se a primeira reação não tivesse sido de negação da realidade, tudo teria sido diferente e tudo teria sido melhor. Se houvesse liberdade, se todas as pessoas pudessem falar umas com as outras livremente, todos teriam podido tomar precauções semanas antes de o governo ter decretado a quarentena. Isso é que era decisivo. E tê-lo-iam feito voluntariamente e não forçados. Depois, as coisas não estão a correr tão bem e de forma tão organizada como a propaganda nos quer fazer crer. Eu já vi algumas reportagens na imprensa internacional que mostram que estes hospitais novos têm imensos problemas e que ao lado dos hospitais novos há uma outra realidade aterradora, porque aquilo, de fato, é uma cidade gigantesca. Pior, ontem soubemos que um jornalista chinês que andava precisamente a colocar imagens dessa realidade no YouTube, reportagens sobre isso, sobre o que estava a correr mal, de repente, o que é que lhe aconteceu? Desapareceu.
E estás a falar de quem?
Estou a falar de, vou ver se digo bem o nome, Zheng Qiushi, que depois desses vídeos polêmicos, foi levado pelas autoridades pra aquilo a que se chama uma quarentena forçada. A família diz que ele está bem, o que quer dizer que a quarentena é, no fundo, uma prisão disfarçada. Além disso, ainda temos o caso de um outro médico, o médico Jian Yaliong, que foi o médico que denunciou o encobrimento da epidemia de 2003. Portanto, já não é a primeira vez que isso acontece. Em 2003, quando foi uma outra gripe, que apesar de tudo, não matou tantas pessoas como esta, também houve encobrimento. Esse médico, pelo sim, pelo não, já foi posto em prisão domiciliar. Tem mais de 80 anos, vê lá tu, mesmo assim puseram-no em prisão domiciliar. Portanto, pra quem quer mostrar que está tudo a correr bem, fazer desaparecer jornalistas, empreender médicos, pra mim é um sinal de que há medo da verdade, que há medo da transparência. Pior, os chineses normais estão a começar a perceber isso. Portanto, quando foi conhecida a morte de Li Wenliang, as redes sociais explodiram, literalmente, encheram-se de pedidos de liberdade de expressão. Houve uma espécie de revolta espontânea contra o governo, contra a censura e que apanhou, de resto, a censura completamente desprevenida.
Mas por pouco tempo.
É verdade, por pouco tempo, porque os chineses são rápidos. Umas horas depois, os censores já tinham feito desaparecer, literalmente, milhões de posts. Mas o importante aqui, eu acho que é notar que esta crise mostrou como é que um regime autoritário, um regime que funciona com base no medo, acaba sempre por ser um regime de mentira, que deixa os seus cidadãos mais desprotegidos. Há um aspecto também que é importante, repara, o todo-poderoso Xi Jinping ainda não apareceu. É impensável que num país democrático, o líder máximo não tenha dito nada, mas isto é muito significativo. Novamente, tal como em Chernobyl, também em Wuhan, a mentira comunista está a ter um custo muito elevado em vidas humanas. Por isso era bom que estivéssemos todos a criticar a China, em vez de estarmos de boca aberta só porque ela construiu um hospital em 12 dias. É que pras mais de 900 pessoas que já morreram, na verdade, esse hospital chegou tarde demais.
Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho, aqui na Rádio Observador e sempre em podcast.
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