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Altura de conhecermos o tema do Contracorrente desta sexta-feira, dia 27 de março. Para participar e dar a sua opinião em direto 91 002 41 85, ou pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, enviar o seu áudio para o mesmo número 91 002 41 85. Luís.

E hoje começa em Viseu mais um congresso do Partido Socialista, uma reunião magna que se esperava não fosse palco de grande tensão, depois de José Luís Carneiro ter sido reeleito como líder, com uma votação esmagadora, mais de 90% dos votos. Mas pode não ser assim tão simples ou tão calmo, porque começam a ouvir-se vozes a pedir outro tipo de oposição, mesmo que de momento ninguém pareça advogar uma grande radicalização, inevitavelmente vai-se discutir a posição do partido na eleição para o Tribunal Constitucional, assim como o dever ou não esticar a corda aquando da discussão e votação do orçamento do Estado do próximo ano. Numa altura em que por toda a Europa os ventos não parecem soprar de feição para os socialistas, queremos debater neste Contracorrente os caminhos que se abrem à esquerda moderada e à menos moderada em Portugal. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

O líder do PS vai ter um congresso menos tranquilo do que se esperava?

Tudo indica que sim. Quem viu a votação norte-coreana, ele não tem culpa, não tem de ter opositores, mas quem viu a votação norte-coreana achou que provavelmente ia ser um passeio no parque. É possível que não vão surgir adversários, algumas das vozes possivelmente críticas nem sequer vão estar no congresso, mas já se percebeu pelo ambiente que está a ser criado por algumas das figuras muito ligadas à anterior governação. Ele também foi um membro dos anteriores governos, mas estamos a falar de pessoas que para todos os efeitos tiveram, no período de vigência da geringonça, porventura mais destaque político, Ana Catarina Mendes, Mariana Vieira da Silva, que chegou praticamente a ser a número dois do governo de António Costa, Augusto Santos Silva, que foi presidente da Assembleia da República, Duarte Cordeiro, que foi durante muito tempo também braço direito de António Costa, mas na Câmara de Lisboa e depois foi ministro, o próprio Fernando Medina, todos eles têm vindo a falar e a mostrar que no lugar de José Luís Carneiro talvez fizessem um pouquinho diferente. O problema é que também nenhum deles é muito claro sobre o caminho diferente que podia ser e esse é, porventura, um problema que tem o Partido Socialista. É curioso que hoje, num artigo que cá está a ser muito falado, o artigo de Cavaco Silva, ele a sua altura sugere que os socialistas portugueses sigam o caminho da primeira-ministra dinamarquesa. A primeira-ministra dinamarquesa tem seguido um caminho, de facto, diferente de muitos dos seus companheiros de área política na Europa, designadamente no que respeita às políticas de controle da imigração. Também tem a famosa flexisegurança da Dinamarca, um mercado de trabalho mais flexível, mas depois com outras garantias. E aparentemente era uma história de sucesso. E em boa parte é. Acontece, no entanto, que houve eleições esta semana na Dinamarca e a Frederiksen ganhou, mas teve o pior resultado desde 1903 de um Partido Socialista na Dinamarca. É um quadro político muito partido, um quadro político habituado a negociações. Quem seguia minimamente aquela série que passou por aí há uns tempos, o "Borgen", tem noção disso mesmo, que aquilo tem que se negociar tudo, e é negociar tudo muito ao detalhe. Mas é também um quadro político que está em evolução. Essa partição dos partidos nos países nórdicos tinha muito a ver com aquilo que era a política do século XIX, no sentido de ser uma política alinhada por ideologias, por interesses, vamos chamar assim de classe. Havia setores que queriam mais mercado liberal, outros queriam mais mercado controlado, outros queriam mais proteção dos trabalhadores, outros queriam mais via aberta para os negócios. Isso foram muitas discussões que marcaram o século XIX e estes partidos, uns mais alinhados com os sindicatos, os mais alinhados com os partidos com influências religiosas, que houve muitos partidos democratas cristãos, cristãos sociais e por aí adiante. Esse mundo desapareceu um bocado e agora o que temos é um mundo muito mais fluido, em que os partidos, em vez de defenderem interesses específicos, quando o eleitorado é dominado, por um lado, pela classe média e, por outro lado, por algo que eu posso definir como interesses instalados, no sentido de que são pessoas que dependem do Estado e dependem de serviços públicos. Estou a falar de um eleitorado mais envelhecido, com uma porcentagem muito grande de pensionistas. E em vez de termos um interesse direto num certo tipo de ideologia para governar os estados, temos mais promessas de dar mais. Dou mais a ti, dou mais ao outro, dou mais ao coloutro. E isto não é um caminho que se tenha revelado fácil para os partidos tradicionais. Neste momento, em Portugal, quem está em maior dificuldade, até portanto na oposição, é o Partido Socialista. Alguns dos seus problemas são comuns ao Partido Social-Democrata, mas quando nós olhamos para aquilo que tem sido dito relativamente às propostas de José Luís Carneiro, designadamente por alguns destas figuras da oposição dentro do partido, não deixa de se ficar algo surpreendido. Há quem sugira, por exemplo, que o PS faça o balanço das suas políticas de habitação e que sugira políticas de habitação novas. O Partido Socialista, aquilo que fez em termos de políticas de habitação quando foi governo, foi uma fórmula absolutamente desastrosa, catastrófica, de regulamentação, subsidiação, achar que tudo se resolvia com habitação pública, novamente destruição do mercado do arrendamento. E será que o Partido Socialista tem coragem de dizer estas coisas? É que o Partido Socialista, de facto, apesar de ter um tipo de discurso semelhante ao PSD, nós vamos ter melhor saúde, nós vamos ter mais educação, é sempre mais. Nós vamos subir os impostos. Depois sabemos que todos eles acabam mais ou menos sempre por subir os impostos e por não conseguir entregar isto. A verdade é que, na prática, quando está no governo, faz contra-reformas, sobretudo nos tempos mais recentes. Houve períodos em que não foi exatamente assim, mas faz contra-reformas. Isso aconteceu, por exemplo, na área da saúde com o Mata Temido. Aconteceu na área da educação no anterior governo, que foi uma das áreas onde houve mais destruição de valor, sobretudo no ensino básico, nos últimos 10 anos. E isso é evidentíssimo naquilo que aconteceu aos alunos portugueses nos rankings internacionais, nas provas internacionais. E para já não falar, naturalmente, daquilo que eu já referi, da habitação, em que tudo ficou um bocadinho pior do que estava. Mas esta discussão, será que o Partido Socialista quer ter? E será que nós todos queremos ter? Por exemplo, hoje, voltando ao artigo do Cavaco Silva, falaremos muito dele seguramente, mas ele fala de reformas, a importância das reformas, as reformas estruturais. Como sabes, eu estou imensamente de acordo. Mas o problema é saber que reformas, porque reformas que são contra-reformas não nos servem. Reformas que são verdadeiras reformas, de facto, afrontam interesses instalados, mesmo que sejam interesses legítimos. Por exemplo, reformas da Segurança Social, de alguma forma, vão sempre chocar com expectativas, no mínimo. No entanto, para ser franco, o Partido Socialista até já as fez, algumas num bom sentido, outras num mau sentido, mas algumas num bom sentido, designadamente no tempo de José Vieira da Silva pai. Algumas coisas foram positivas, não foi tudo negativo. Nós hoje temos, por exemplo, um mecanismo de entrada na idade da reforma, que é dos mais realistas da Europa, digamos assim, ao contrário do que se passa em França, ao contrário também do que foi uma guerra na Itália, até mesmo aqui ao lado, Espanha não está muito diferente de nós. Portanto, será que isto vai ser discutido no congresso ou o que se vai discutir é menos portagens no interior, menos propinas e coisas que o Cavaco Silva critica no seu artigo de hoje. Bem, vamos falar um pouco de tudo isso com mais detalhe e também neste enquadramento europeu, falar um pouquinho dos outros partidos, do que está a acontecer à esquerda europeia. Houve eleições em França, há eleições para o mês que vem, para o mês que vem não, em maio, no Reino Unido. Houve eleições na Alemanha catastróficas para o Partido Social-Democrata Alemão também. Vamos falar um pouco disso tudo a seguir às 10h.

Depois das 10h. Até já.

Até já. 910 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador. Muito bom dia, são 08h28. Já a seguir atualizamos as notícias, logo depois, "E o Vencedor É".