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José Manuel Fernandes quer falar-nos hoje no Contracorrente das polémicas que envolvem Isabel dos Santos, mas para falar um pouco de Portugal, não é?
Bom dia. Exatamente. Já sabemos que Isabel dos Santos caiu em desgraça, pelo menos em Angola. Ela não deverá poder regressar tão cedo. Penso mesmo que se regressasse talvez corresse o risco de ir para a cadeia, como já aconteceu com um dos irmãos, ou meios-irmãos dela, até porque o governo do Luanda a acusa de ter lesado o Estado em mais de 1000 milhões de euros, não é pouco, em negócios relacionados com a Sonangol, ela foi presidente da Sonangol, e com a compra e venda de diamantes. Agora, como sabem, os bens dela em Angola estão arrestados, os do marido também, penso que também de um administrador, um braço direito dela, também. Portanto, está em dificuldades. Há mesmo a hipótese desse arresto se estender às empresas portuguesas. E as empresas portuguesas valem qualquer coisa como talvez 3000 milhões de euros, o que diz bem do pouco dinheiro que ela tem. Digamos que a filha de um antigo presidente de Angola começa a estar cercada. Mesmo assim, eu acho que é bom não esquecer que durante anos ela não mandou apenas em Angola, na prática ela era a mulher mais poderosa de Angola, como foi a mulher mais rica de África, como, e esse aspeto é o aspeto que me interessa agora aqui, o poder do seu dinheiro comprou, digamos assim, muitas boas vontades em Portugal, e eu acho que estou até a ser um pouquinho gentil com as palavras quando falo apenas de boas vontades.
Gentil? Por que estás a ser gentil? Que portas é que o dinheiro de Isabel dos Santos abriu em Portugal?
Algumas coisas foram, eu quase diria, naturais, porque comprou empresas que estavam em dificuldades, o exemplo melhor talvez seja o caso da Efacec. Mas depois também comprou para ela, ou para Angola, posições noutras empresas, apenas porque, nesse caso, era Portugal que estava em dificuldades, faltava capital. Foi assim que ela, por exemplo, e a Sonangol, entraram na Galp. A Galp é, não sei se ainda continua a ser, mas já chegou a ser a maior empresa portuguesa. Foi também assim que ela entrou no BPI. Felizmente, já saiu de lá depois de uma guerra longa e prolongada. Mas eu acho que, sobretudo, houve uma altura, no auge da crise, uma altura em que parecia que o dinheiro do petróleo angolano era inesgotável, que dava para tudo, e que parecia também que Portugal parecia estar completamente à venda. E os compradores que víamos por todo lado, muitos deles víamos sempre a sombra de Isabel dos Santos. Por isso é que eu digo que ela também comprou muitas boas vontades. E como o poder do dinheiro é imenso, às vezes a gente olha pra lista das pessoas que trabalharam ou ainda trabalham pra Isabel dos Santos e fica um bocadinho com a cara à banda, como se costuma dizer.
Em que sentido é que fica com a cara à banda?
Porque encontramos lá nomes que não esperávamos encontrar. Pelo menos eu não esperava encontrar. Por exemplo, como sabes, neste momento, depois de ter saído do BIC, o banco de Isabel dos Santos em Portugal, do BIP não, do BPI, o banco dela em Portugal é o EuroBic. Quem é que foi presidente do EuroBic até há bem pouco tempo? Um senhor chamado Mira Amaral, que foi ministro de Cavaco Silva. Quem é o atual presidente do EuroBic? O antigo ministro das Finanças de José Sócrates, Teixeira dos Santos. Portanto, duas figuras que não podemos dizer que sejam figuras menores de Portugal. Mas há mais. O homem que esteve a ser presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues, que dizia que se ia reformar, que ia ver ópera em dado barco, e que nos diziam que ia salvar a banca portuguesa, tem hoje uma quantidade enorme de cargos nas empresas de Isabel dos Santos. Por exemplo, ele é presidente do BFA, que é o banco angolano que ela controla, é administrador não executivo da NOS e mais uma série de outros lugares.
Mas José Manuel, duvidas da idoneidade do trabalho que eles fizeram ou que estão a fazer nessas empresas?
Eu acho que não é bem isso que está em causa, mesmo que no caso do EuroBic, o Banco de Portugal já disse que ia olhar mais de perto para o que se lá se está a passar, até por causa dos problemas em Angola. Para mim o problema é outro. É que desde sempre se soube que o dinheiro, o poder, os negócios de Isabel dos Santos não eram independentes do poder do seu pai. Não estou a dizer que tudo o que ela tem foi dado por José Eduardo dos Santos, até porque eu acho que ela é uma mulher que tem inteligência e capacidades acima da média. Mas todos sabemos como é que as coisas se passavam em Angola. Angola era uma cleptocracia. Era um regime infame, um regime que desviava ou roubava, chamemos assim mesmo pelo nome, milhares de milhões do país, trazia-os para o exterior, deixava o povo a viver na miséria, e esse povo ainda hoje vive e morre na miséria, com condições absolutamente infames. Isabel dos Santos foi apenas uma das beneficiárias desse regime, talvez uma das principais, se não a principal beneficiária desse regime, e muito do seu dinheiro não é dinheiro limpo, temos que ser claros sobre esse assunto. Mas, pelos vistos, esse dinheiro foi e continua a ser dinheiro muito tentador pra muita gente.
Mas já foi mais tentador.
Sim, ele já foi mais tentador, é um facto. Mas quando vemos estes nomes e os nomes das pessoas que ainda trabalham pra ela, percebemos como teve, porque nos recorda o passado, e como ainda tem poder. Por isso é o que eu digo, houve uns anos em que tudo parecia estar à venda em Portugal. Houve um tempo, e é bom também lembrarmos isto, em que até parecia que os principais órgãos de informação iam ficar todos nas mãos de angolanos. Não foi assim há tanto tempo como isso, foi há meia dúzia de anos apenas. E por isso é bom recordarmos que também houve quem resistisse e fizesse tudo o possível pra que isso não acontecesse. Apesar de tudo, o dinheiro de Isabel dos Santos comprou muita coisa, mas não comprou tudo, nem comprou toda a gente.
José Manuel Fernandes e o Contracorrente na Rádio Observador. Amanhã está de volta, encontro marcado depois do jornal das 20h.
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