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Começa mais um Contra-Corrente em direto do Parque Eduardo VII, aqui na Rádio Observador. Esta quinta-feira vamos olhar também para esta escolha do Papa, que esteve esta manhã na Universidade Católica e um pouco melhor para o programa que tem durante o dia de hoje. Convido-o a participar no Contra-Corrente. Pode usar o 910 024 185 para enviar mensagens de voz ou inscrever-se para participar. Pode também deixar comentários nas nossas redes sociais. Está a partir de agora no ar mais uma edição do Contra-Corrente com o José Manuel Fernandes e a Helena Matos.
O Papa já teve esta manhã os primeiros encontros com jovens, mesmo se aquele que será, porventura, o momento mais importante vai acontecer aqui mesmo no Parque Eduardo VII, onde mais uma vez a esta hora se fazem já os ensaios para a tarde. Isto quando Francisco preside à cerimónia de acolhimento, que está marcada para às 17h45. Hoje de manhã começámos com jovens universitários na Universidade Católica Portuguesa. A seguir, esteve em Cascais, de onde sai agora, nas escolas ocorrentes. Mas a mensagem mais importante foi a que deixou na Católica de Lisboa, onde se dirigiu aos jovens e falou sobre as suas responsabilidades, assim como as responsabilidades dos católicos no sistema educativo. No Contra-Corrente queremos falar precisamente destes temas, talvez a começar por esta ida da manhã à Universidade Católica. José Manuel, que significado é que atribuis ao encontro e também ao que lá foi dito?
Bom dia, Carla, novamente. Olha, eu achei muito interessante o que se passou na Universidade Católica, quer pelo que disseram os mais jovens, aqueles que eram alunos da universidade, quer por alguns pontos daquilo que o Papa Francisco veio dizer. Deixa-me regressar a algumas palavras dele, que me parece são bastante significativas. Sobretudo a forma como ele tentou desinquietar, por assim dizer, os mais novos e dizer-lhes que isso fazia parte da mensagem do cristianismo. "Amigos, permiti dizer-vos, procurai e arriscai." Procurar e arriscar parecem coisas simples, mas hoje em dia não são. E não são simples porque muitas vezes prefere-se a segurança, o conforto, a ausência de risco. E nós muitas vezes tratamos os homens assim. Temos medo que às vezes os nossos filhos caiam e se magoem nos joelhos.
E que se sujem.
Que se sujem, que tragam um bocadinho de sangue nos joelhos, um arranhão, essas coisas todas. E ele vem dizer aqui um pouco o contrário, quer dizer, que não devemos ter medo de nos sentir inquietos. Ele citou Pessoa para dizer isso, que não devemos ter medo de pensar que tudo que possamos fazer não é suficiente, é sempre possível fazer mais. E também que, desse ponto de vista, a universidade tem papel importante, não apenas por dever chegar a mais gente, mas também porque ela não pode ser como uma semente que não germina. Portanto, esta imagem foi uma imagem que eu acho muito interessante. Se as sementes se preservassem a si mesmas, desperdiçariam completamente a sua força geradora e condenar-nos-iam à fome. E depois se os invernos se preservassem, não existia a maravilha da primavera e do verão. É preciso não ter medo. Nunca mais me esquecer que foram as primeiras palavras de João Paulo II quando chegou à janela, depois de ter sido eleito daquela forma tão surpreendente há já tanto tempo. Já lá vão mais de 40 anos. Ora bem, tudo isto foi dito no espaço de uma universidade católica e foi dito no sentido de dizer às pessoas que uma das tarefas mais importantes para os cristãos é a de recuperar o sentido da encarnação. Não no sentido do cristianismo ser uma ideologia. Ele chamou muita atenção para este fato de não poder haver fechamentos e antes poder maravilhar-nos com o mundo e com cada um de nós. Há uma forma, que vem quase no fim, como sabe, já falamos aqui uma vez do Caminho de Santiago, ele invocou o Caminho de Santiago para falar daquilo que era, hoje em dia trocam-se já o "ultreia" e a "et susea", mas ele deu o sentido do que era dizer essas palavras e que é coragem, força, anda para adiante. E eu acho que isso é muito importante. Coragem, força, anda para adiante. Ora bem, isto foi dito numa universidade católica com quatro estudantes muito diferentes que ali estavam. Um que inclusivamente está hoje no seminário, começou por estudar lá economia e está hoje no seminário. Outra que veio do Irão, outra que estuda filosofia e um quarto que não me estou agora a recordar. Eu acho que é muito relevante isso ter acontecido porque a universidade católica e o papel das escolas católicas no sistema de ensino português é indispensável e muitas vezes é subvalorizado. Nós tivemos já, nos últimos anos, uma espécie de campanha cruzada contra o papel dessas escolas. Foi quando houve uma levada a cabo por uma secretária de Estado, que hoje em dia é uma figura muito popular, porque aparece em televisão, que é a Alexandra Leitão, contra os contratos de associação. Eu já falei disso muitas vezes aqui. Já vou regressar a esse tema, porque já podemos fazer um bocado o balanço do que aconteceu E não foi bom. Aproveitando o facto do Papa ser jesuíta e já tendo falado aqui hoje de manhã sobre o papel de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, e da sua preocupação com a educação e o que sempre fizeram os jesuítas. Julgo que hoje há mais de 800 escolas jesuítas em todo o mundo. Não estou a dizer mal, penso que não, haverá por aí. Há universidades jesuítas e, em Portugal, durante muitos anos, os jesuítas desempenharam um papel importante na educação. Num momento crucial, em que isso era determinante para saber se Portugal poderia ou não entrar na carruagem do desenvolvimento, o que se achou mais acertado fazer foi expulsar os jesuítas. Falo do tempo de Marquês de Pombal. Espero que agora, com as obras que vão acontecer e a construção de um hospital novo em Lisboa para substituir o São José, seja possível recuperar aquele edifício onde está o São José e as pessoas possam visitar uma sala que lá existe, a sala da Aula da Esfera, que a maior parte das pessoas não tem ideia do que é.
Está no hospital?
Está no edifício do hospital, porque aquele foi o Colégio de Santo Antão, o primeiro colégio fundado pelos jesuítas em Portugal. A Aula da Esfera era a sua aula talvez mais conhecida, porque era onde se ensinava, entre outras coisas, cosmologia, e podia entrar não só os alunos que estavam no Colégio de Santo Antão, mas outros que vinham de fora, porque era o papel que Portugal desempenhava no mundo. Foi por lá que passou Pedro Nunes. Com a expulsão dos jesuítas, o Colégio de Santo Antão desapareceu, assim como a Universidade de Évora, que só voltou há muito poucos anos, menos de 50. Com a expulsão dos jesuítas, desapareceram todas as estruturas de ensino médio em Portugal que estavam a cargo dos jesuítas. Houve um grande retrocesso. Em nome de quê? Supostamente, em nome de um avanço, porque com o programa pombalino vinha o avanço. Mas não se faz avanço sem pessoas, e as pessoas que eram capazes de ensinar e que tinham essa cultura, naquele momento, em Portugal, eram os jesuítas. Isso voltou a acontecer numa escala diferente quando chegou a República e o anticlericalismo da República, que era muito anti-jesuítico. Os jesuítas eram sempre uma espécie de inimigos públicos número um, muito odiados. Nessa altura também voltaram a ser expulsos e fecharam-se os colégios. Fechou-se, por exemplo, o Colégio de Campolide, aqui perto, onde nós estamos, no Parque Eduardo VII, e fechou-se um colégio que ardeu há pouco tempo, infelizmente, num daqueles incêndios do verão de 2017, o Colégio de São Fiel, que não é um colégio qualquer. Foi lá que estudou Egas Moniz, o nosso único prêmio Nobel numa área da ciência.
Nós falamos sempre muito dos jesuítas e tem muito a ver, claro, com os rapazes, que era quem mais estudava na época, mas para as mulheres, a expulsão das ordens religiosas durante a Primeira República é dramática, porque as meninas não iam habitualmente à escola. Sobretudo em certos meios sociais, tinham aulas com freiras. Acontece que quando as freiras são expulsas ou proibidas de lecionar, as raparigas acabam a regredir na sua alfabetização. Ou seja, é antagónico o discurso com o resultado. Queria só dizer uma coisa em relação ao hospital que hoje conhecemos como Hospital de São José. Nós tínhamos um hospital no Rossio, o Hospital Real de Todos os Santos, que é destruído durante o terramoto de 1755 e, durante algum tempo, fica-se na dúvida se o hospital é passível de ser reconstruído ou não. Entretanto, acontece a expulsão dos jesuítas e toma-se a decisão de transferir todos os doentes do Hospital Real de Todos os Santos para o que tinha sido o colégio dos jesuítas, o que terá sido uma das procissões mais extraordinárias alguma vez acontecidas na cidade de Lisboa. Havia ali um vazio, aquele que tinha sido o grande colégio não tinha nada. Acabam por levar para lá os doentes, mas aquilo tinha sido certamente um dos melhores colégios, ou o melhor colégio existente em Portugal no século 18, com técnicas de ensino e materiais pedagógicos muito melhores que qualquer outro colégio em Portugal. O resultado não foi famoso. É uma coisa que convém ter sempre em mente, todos os governos: por mais que nós detestemos os professores ou que tenhamos reservas ideológicas ou filosóficas contra eles, não se consegue fazer nenhuma reforma no ensino se expulsarmos os professores. Portugal tem feito isso várias vezes e o resultado não tem sido muito famoso.
Sim, há, nomeadamente, por exemplo, um livro muito interessante do Jorge Boézio sobre o ensino da matemática. O ponto de partida do livro é: por que nós não temos prêmios Nobais, ou mais prêmios Nobais? Ele fala do fato de nós termos, por mais de uma vez, dado cabo do sistema de ensino que tínhamos com base numa agenda política. Queria voltar para a atualidade. Pedimos que o caso fique batido. Hoje em dia, o ensino religioso tem um papel, a Universidade Católica tem um papel, estão presentes. No entanto, continua a haver quem pareça determinado em limitar ao máximo esse papel. E quando foi essa a questão dos contratos de associação, na altura, voltando aos jesuítas, uma vez que o papa é jesuíta, os jesuítas tinham três colégios. Não sei se tinham mais. Os três colégios mais conhecidos.
São três.
São três. Tinham três. Agora são quantos?
Agora são dois, mas um deles tornou-se escola privada. Enfim, eu digo isto porque era provincial na altura, calhou-me essa batata quente para gerir.
Portanto, havia o Colégio de São João de Brito, é um colégio aqui em Lisboa, é um colégio elitista, sem dúvida nenhuma. É uma daquelas escolas que está sempre a lutar para ficar em primeiro lugar nos rankings. Portanto, é o Colégio São João de Brito. E depois havia um colégio com uma história muito particular, que era o Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso, que ainda hoje existe, onde havia um contrato de associação muito importante, uma escola profissional que ainda continua a existir, mas que levou um grande abalo. Estava numa região bastante habitada e, portanto, com muita diversidade e resistiu. E depois tinha ainda um outro colégio, que era o Colégio de Nossa Senhora da Conceição, perto de Coimbra, numa povoação chamada Cernache. Esse teve que fechar, esse não aguentou. Eu acho que vale a pena ver o que aconteceu. Os alunos tiveram que ir para outras escolas, perto, uma boa parte deles, para a escola pública de Condeixa-a-Nova. Ora bem, o Colégio de Nossa Senhora da Conceição ficava em 120º no nono ano. Não é um lugar de topo, é um daqueles colégios que tinha contrato de associação, não se pode usar o argumento que não tinha lá os pobres, porque os tinha.
Sim, tinha uma população heterogênea.
Heterogênea, diversificada, meio rural. Atenção, não é um colégio no interior de Coimbra, é um colégio no meio rural. Portanto, tinha todas essas condições para ser um colégio que tinha que ultrapassar as suas dificuldades. Ficava em lugar 120 e 180 no secundário. Ora bem, os resultados mais recentes da escola de Condeixa e ponto de tranquilo das crianças, 368 e 704. Portanto, a coorte de alunos que estudava aqui passou por uma escola que, infelizmente, não está tão bem. Curiosamente, o que aconteceu ao Colégio de Santo Tirso, o Colégio das Caldinhas, que perdeu os seus alunos mais pobres? Subiu no ranking. Eu diria, não há aqui grande surpresa, mas o que se percebe é que os alunos que deixaram de poder estudar lá, não ganharam, com certeza. Porque pelo menos teriam convívio com outras pessoas, com outros colegas, e isso é muito importante. Essa mistura é muito importante, e hoje mesmo vimos isso. Essa mistura é muito importante. Foi uma das mensagens dessas intervenções do Papa Francisco, foi importante falarmos uns com os outros e nos misturarmos. Aliás, ainda há pouco estava a falar precisamente disso, de nós sermos capazes de percebermos que uma das coisas mais difíceis é lidar com o que é diferente, sabermos integrar o que é diferente, percebermos a diversidade. E desse ponto de vista, termos um sistema educativo plural, e não apenas monolítico, termos um sistema educativo onde as famílias têm uma palavra a dizer e, portanto, não têm apenas que obedecer àquilo que são as determinações que vêm de cima para baixo, e sabemos até que ponto o nosso sistema educativo é centralizado, é muito importante. E temos histórico disso em Portugal, com as escolas católicas e dentro das escolas católicas, em particular, com as escolas dos jesuítas. Não devíamos repetir o erro da Primeira República, nem o erro do Marquês de Pombal, mas há sempre, permanentemente, essa tentação. E percebe-se, porque à conta de um discurso que eu continuo a ler, enfim, há artigos dos últimos dias, à conta da ilusão de que o Estado laico implica uma sociedade laica, que se acha que o Estado deve impor tudo e dominar tudo, quando o Estado deve ser facilitador no sentido de criar as condições para que todos tenhamos acesso a um futuro melhor, e não impor um futuro igualitário, no mau sentido da palavra, que é muitas vezes um futuro de igualar por baixo, em vez de puxar para cima. Quando aquilo que o Papa hoje nos veio dizer é que é possível sempre sonhar com mais e fazer mais.
E isso tem sido muito insistido, tem sido uma ideia que o Papa Francisco insistiu muito. O padre José Frazão, agora aqui nesse desabafo, foi o líder dos jesuítas portugueses. Apanhou este processo em que muitas escolas perderam contratos de associação e foi um labanão na forma como estas escolas serviam também as comunidades.
Sim, apanhei. Enfim, estava a meio, mais ou menos, do meu mandato. Antes de tudo, foi quase um ato sem pré-aviso. Praticamente, estas escolas tiveram que se reorganizar em dois, três meses, literalmente.
Aliás, quando esse governo tomou posse, estava a começar o ano letivo.
Exatamente. Não, foi anunciado mais ou menos a meio do ano e, portanto, o próximo ano letivo já teve que ter em conta a previsibilidade do encerramento ou do cancelamento desses contratos. Portanto, as escolas tiveram que se reorganizar. Essa escola de Cernache tentou
Transformar-se em escola privada. Ainda funcionou um ano como escola privada, suportada pelo próprio colégio, gratuita, mas não conseguiu vingar, porque a população ou não tinha meios, ou pelas distâncias, por vários motivos, enfim, todos juntos fizeram com que tivéssemos que decidir encerrar o colégio, porque a companhia já não tinha meios de suportar por mais tempo. Nas Caldinhas, aconteceu o mesmo processo. É uma das escolas do Colégio das Caldinhas, o Instituto Nuno Álvares, que era uma escola muito grande, com mais de mil alunos, e que também iniciou um processo de reconversão em escola privada, e portanto, com propinas, necessariamente, o que reduziu drasticamente o número de alunos e ainda está a lutar. Penso que irá vingar, mas neste momento, com os alunos que têm, com as propinas que pagam, ainda é uma escola deficitária. Com o tempo, acreditamos que vai superar essa crise.
Mas ainda está à procura do equilíbrio em termos de ranking, porque nos ajuda a medir, seja lá como for. Conseguiu manter os mesmos níveis?
Como dizia o José Miguel Fernandes, o Colégio das Caldinhas subiu os rankings porque os alunos são alunos mais seletos, de alguma maneira. Os pais podem pagar, eventualmente, com uma formação dos pais superior, e isso faz aumentar os rankings. Nunca foi uma preocupação, mesmo o Colégio São João de Brito, enfim, não quero defender aqui a causa, mas obviamente sabemos que é um critério muito importante para as famílias, para as escolas. Se disséssemos o contrário, seria falso. Mas mesmo o professor Pedro Valente, o diretor pedagógico, escreveu recentemente um artigo na Brutéria sobre os rankings e dá pra perceber que tem uma avaliação muito crítica e muito distanciada em relação aos rankings. É um elemento de avaliação das escolas, mas seria claramente um elemento insuficiente pra avaliar qualquer escola. Mas o que aconteceu nas Caldinhas é exatamente isso, é que, infelizmente, as escolas privadas em Portugal só podem ser oferecidas a famílias com posses pra as pagar. Isso cria uma clivagem social cada vez maior, quando nós pretenderíamos o contrário. Mas não temos cultura em Portugal, por exemplo, de mecenato ou de fundações, como por exemplo, há nos Estados Unidos, que são capazes de suportar esse tipo de escolas. Em Portugal, infelizmente, não. E portanto, qualquer ensino que não seja estatal, neste momento, tem que ser pago. Ora, tendo em conta a disponibilidade financeira das famílias, percebemos que é um universo muito reduzido e quando queremos criar uma educação que seja transversal e que possa ir anulando as clivagens sociais, no fundo, estas políticas o que acabam é por fomentar essas mesmas clivagens. Quando nós vemos os rankings, enfim, que são elaborados, como foi recentemente, no topo estão escolas privadas e depois vêm as públicas. Ao mesmo tempo, vem o outro elemento, que é da impossibilidade das famílias escolherem efetivamente a sua escola ou a escola para os seus filhos. E portanto, quem nasce num bairro desfavorecido da periferia de Lisboa, à partida, tem uma escola menos boa, porque reflete todas as dinâmicas, os problemas sociais dessa comunidade. E os pais não têm possibilidade de colocar os seus filhos, por exemplo, nas escolas melhores do centro de Lisboa. Temos um conjunto de elementos que acabam por estrangular, no fundo, um grande desígnio nacional que deveria ser, me parece, o da educação.
Sim. E cristalizar contextos socioeconômicos.
Cristalizá-los cada vez mais e criar diferenças cada vez maiores. E portanto, a distância entre as pessoas mais favorecidas economicamente ou as famílias e as menos desfavorecidas, parece que se alarga cada vez mais, quando o desígnio deveria ser de anular cada vez mais esse tipo de diferenças e dar verdadeiramente a liberdade às famílias poderem escolher a escola para os seus filhos. Enfim, há pouquinho, quando eu vi o papa na Católica, o que escrevi aqui foi: "E nós, o que é que queremos para o nosso país?" Estava a falar aos estudantes, estava a falar a uma instituição, mas me parece que é esta também uma questão que, se calhar, como comunidade política, enfim, acompanhando o nosso discurso político atual, a dificuldade de perceber verdadeiramente qual é que é o desejo que nós temos para o nosso país, qual é que é o nosso desígnio. Mais uma vez, como é que sonhamos como comunidade política? Parece que este sonho acaba por se diluir, quase por se dissolver na gestão meramente contingente dos problemas de todos os dias. Obviamente, eles têm que ser resolvidos, mas sem sonho, sem projeto, sem rumo, mais uma vez, o papa falava ontem, o barco pode andar à volta e não percebemos, de fato, qual é que é a trajetória. Parece-me que no campo da educação, infelizmente, na minha modesta opinião e talvez sem demasiado conhecimento, me parece que é um desses campos tão vitais para um país que não tem claro a sua finalidade, o seu fim. E, por isso, não consegue ordenar os meios adequados para esse fim. Este exemplo dos contratos da associação me parece que é um dos exemplos em que as decisões tomadas não servem um fim claro, que seria o da educação, efetivamente, mas servem eventualmente outros fins, não digo que não sejam legítimos, mas não me parece que sirvam esse fim, esse propósito da educação.
E, portanto, o barco anda ou os barcos andam à deriva.
Podem andar em círculo, de facto, à deriva.
À procura desse caminho que está a dizer Frazão. Vamos continuar a conversar, mas temos ao telefone o nosso outro convidado do Contracorrente de hoje, num horário um pouco adaptado também aos horários da Jornada Mundial da Juventude, o historiador Henrique Leitão, a quem agradeço o tempo de espera. Muito bom dia, Henrique Leitão.
Bom dia.
Como é que acompanhou estes apelos e os recados que o papa Francisco acabou por dar relativamente ao ensino dos jovens e ao valor da educação?
Eu gostaria de fazer primeiro uma pequena observação sobre estes dias extraordinários que temos estado a viver. Há muita coisa complexa a acontecer e já vou chegar directamente à pergunta que me fez. Há um aspecto exterior, que é o que se vê, esta alegria, os miúdos, a diversidade, as bandeiras, os cânticos, as danças. Há um primeiro contacto que é absolutamente impressionante e que o país progressivamente se vai rendendo. É assim todas as jornadas. As pessoas que já estiveram noutras jornadas, todas dizem que isto é sempre assim, é uma experiência única. Mas depois há um segundo plano, que é mais discreto, um segundo plano que até vai mais íntimo, que é o facto de para muitos destes jovens, este momento, estes dias, são dias muito importantes de decisões pessoais, decisões da vida, de decisões sobre compromissos que vão tomar, modo como vão viver a vida. E no fundo, responder à pergunta: "O que é que eu vou fazer com esta vida que tenho?" E portanto, há coisas muito profundas a acontecer e é uma espécie deste paradoxo destas jornadas. Não é um paradoxo, mas é esta antinomia, que por fora tem o aspecto de uma grande festa, mas tem um segundo nível, muito interior, em dezenas, centenas de milhares de jovens que estão a ponderar coisas muito sérias. Sobre o próprio evento, sobre as questões de pressão, o discurso de todos os vinhos. O Papa é sempre muito cuidadoso com a linguagem, tentando adotar uma linguagem que seja o mais eficaz possível nesta comunicação. Sobretudo das coisas que me lembrava, no discurso que fez falava aos universitários de serem mestres de humanidade, compaixão, desesperança, este contínuo desejo de uma sociedade mais justa. O entendimento que está aqui por trás, que é um entendimento antigo, mas é claramente o do Papa Francisco, é de que parte da explicação dos males do mundo tem a sua raiz na educação. A educação não promove, não esclarece, não ajuda à construção de uma personalidade, um modo de pensar e depois de uma organização social que seja mais adequada, mais humana. Depois as consequências vêm. Como o Papa disse em vários sítios, a construção de um mundo melhor passa necessariamente, não se pode fazer sem uma educação melhor, no sentido mais profundamente humano. O Papa voltou muitas vezes a isto. Interessantemente, acho que os jornais também deram realce a isto, e é verdade, valorizando estes aspectos da juventude, que aqui estão muito patentes. O facto de se sentirem inquietos, sedentos, desejosos de sentido para a vida, como o Papa citava com as famosas saudades do futuro, etc. Mas que tudo isto são a matéria com que se deve construir propriamente a educação. Esta cerimónia na Universidade Católica, a mais grande universidade do tecido educativo português, foi belíssima, mas foi muito importante por vários pontos de vista, não só para celebrar esta grande universidade e o trabalho enorme que tem feito pela cultura, pelo saber, pela ciência em Portugal, mas também porque, deste ponto de vista, inaugura agora propriamente o Papa dirigir-se aos jovens. Eu penso que a gente sabe isto, não queria perder muito mais tempo. O Papa tem esta grande ideia do pacto educativo global.
Sim. E falou muito nessa intervenção na Católica.
Exatamente, que lançou em setembro de 2019. A ideia que eu tenho é que como o pacto educativo global foi lançado mesmo nas vésperas da pandemia, depois nos anos a seguir caiu um bocadinho no esquecimento ou não foi tratado, não houve um follow-up adequado, parece-me a mim. Espero não estar a ser injusto. Mas agora, de alguma maneira, provavelmente está a ser recuperado, e é uma das grandes, obviamente, preocupações do Papa Francisco.
Ezequiel, uma das expressões que Francisco usou na Católica, creio que terá sido mais ou menos assim: "Que todos possamos chegar a maestros", falando do valor da educação.
Exatamente.
Em Portugal, como é que estamos nessa matéria, nesse objetivo e ambição?
Não estamos bem. Eu estava a ouvir o convidado anterior, quando entrei, só vi a meio, portanto, espero não ser injusto com o Padre José Frazão.
Com o Padre José Frazão, sim.
E não podia estar mais de acordo com tudo o que ele disse. Absolutamente de acordo, sobretudo com um ponto importante: o país ainda não se decidiu o que é que quer mesmo com a educação. O país ainda não olhou para o problema educativo como um problema absolutamente central para o país e para o futuro. E portanto, eu partilho as preocupações do Padre José Frazão e de muitas outras pessoas sobre este facto. É verdade que tem havido progressos, é verdade que tem havido retrocessos, mas Portugal tem uma história educativa complicada, não particularmente brilhante, é preciso reconhecer, mas nos dias de hoje é absolutamente crítico. No país, tudo depende de que educação estamos dispostos a dar aos nossos jovens, que qualidade de educação e que chegue a todos. E sobre isto, não há na sociedade portuguesa, e não tem havido, afinal nos últimos governos e certamente não deste, uma atenção e uma intensidade de trato como o problema mereceria.
Essa discussão, apesar de tantas declarações de amor ou de paixão pela educação, não é verdade? É um pouco estranho.
Mas é exatamente isso, são sobretudo declarações, porque quando vamos à prática, vemos que estamos ainda muito aquém. E no nosso caso, é muito fácil de fazer estas análises hoje em dia, porque no espaço geopolítico em que estamos inscritos, da Europa, do mundo ocidental, há indicadores disponíveis, quer nossos, quer dos outros países, que permitem comparar. E as comparações destes indicadores colocam-nos sempre em posições muito modestas, muito preocupantes e que, em minha opinião, comprometem muito o nosso futuro.
Henrique Leitão, muito obrigada por ter estado no Contracorrente. Um bom dia, agradeço a disponibilidade, não só por aguardar para entrar no Contracorrente, mas por ter sido interrompido também. Um bom dia. Helena Matos. Obrigada, obrigada, igualmente. Tanto temos falado em educação aqui no Contracorrente, Helena Matos. O Papa trouxe aqui alguma mensagem nova que mereça o teu destaque ou vem confirmar o tipo de preocupação que já há muito tempo tens chamado a atenção para?
Bem, eu acho que confirma. Nós temos de perceber que ele foi a uma universidade, a Universidade Católica Portuguesa, que foi inaugurada em 1967. Nestes dias, que tanto abunda por aí umas aventesmas tolas, escrevendo umas coisas sobre a ligação entre o Estado Novo e a Igreja Católica, convém que as pessoas se interroguem porque é que em Portugal a Universidade Católica só abriu em 1967. E, portanto, antes de começarem a escrever.
Por quê?
Porque o regime não confiava.
Demorou muito.
Salazar, apesar de colega e amigo de Cerejeira, não tinha com Cerejeira uma relação de cumplicidade. Tinha de modo algum, pelo contrário. E Cerejeira tinha como sonho fazer a Universidade Católica e teve que lutar por esse sonho contra Salazar. E a universidade só abre, só é reconhecida depois de Salazar morrer.
E já agora faço aqui uma ressalva e que é às mesmas ignorâncias ambulantes que andam por aí e que agora até se propõem retirar o nome do Cardeal Cerejeira e levar isso à Assembleia Municipal em Lisboa, aqui no topo. Eu acho que seria interessante perceber a luta que a Igreja Católica portuguesa travou, nomeadamente através do Cardeal Cerejeira, que era um homem extraordinariamente inteligente, sobre a influência das organizações juvenis nazis em Portugal, nomeadamente na mocidade portuguesa. Quando a mocidade portuguesa é constituída nos anos 30, 40. E, portanto, há depois uma disputa muito grande em Portugal, através de ingleses e alemães, para ganharem influência junto da mocidade portuguesa. E é óbvio que eles ofereciam aquilo que Portugal não tinha. Ofereciam meios para se fazer vela, para se fazer todo um conjunto de atividades. E os alemães, claro, estavam muito presentes e havia essa grande preocupação por parte exatamente do Cardeal Cerejeira, que os alemães, que eram muito ativos na sua propaganda, conseguissem ganhar influência junto da mocidade portuguesa. Essa luta, aliás, é muito interessante e há um grande acampamento da mocidade portuguesa a que não vai o Cardeal Cerejeira, exatamente para marcar essa posição e de procurar, de alguma forma, que os nazis que eram apologistas do paganismo, não ganhassem influência junto da mocidade portuguesa. Portanto, às vezes, antes de as pessoas dizerem umas coisas, convém que se leia. Os livros hoje estão disponíveis, são baratos, nós podemos todos ler o que quisermos. Ou mesmo fazer uma pesquisa na internet e fica-se a perceber mais algumas coisas. Portanto, voltando agora aqui. A Universidade Católica, de facto, só abre em 1967, porque o regime via com pouca confiança o crescimento do magistério de influência que poderia ter a Igreja Católica através de uma universidade. E note que boa parte da elite do Estado Novo e também da República, aí sobretudo com este seminaristas, é feito com gente que veio de uma outra instituição que a Igreja Católica tinha e que é talvez o maior elevador social do século XX, que era chamado os seminários, exclusivos para rapazes. E quando nós vamos ver onde é que estudaram boa parte das pessoas que estão à frente do Estado Novo e também de setores importantes da República, eles estudaram nos seminários que permitiram a muitos filhos de pobres, porque depois a maior parte deles não sentia qualquer vocação sacerdotal, mas ficavam com uma formação acadêmica ou escolar, que lhes permitia depois estudar. Portanto, aquilo que nós temos é perceber que a relação do Estado em Portugal com as escolas católicas, é óbvio que também há escolas de outras religiões, mas não tão expressivas, tem sido sempre de uma grande desconfiança Pauta-se por uma certa desconfiança. José Manuel já aqui referiu a questão dos jesuítas, mas não só. Vamos sempre assistir a essa desconfiança, vamos assistir na República, vamos assistir no Estado Novo e na democracia, digamos que tem dias ou que tem momentos. Já houve momentos de maior apaziguamento, mas agora estamos numa fase em que se acredita ou se quer fazer acreditar que o facto do ensino ser público é como no Serviço Nacional de Saúde, ele só pode ser prestado se for gerido e administrado pelo Estado. Por todo um conjunto de razões, sabemos que não deve ser assim, por uma questão de liberdade, mas também em Portugal, por uma questão de funcionalidade. Nós temos, neste momento, uma saída grande de alunos, sobretudo das classes sociais médias e mais altas, para escolas privadas, muitas delas religiosas e católicas, porque o ensino público, sobretudo pela conflitualidade laboral, não está a viver os seus melhores dias. Nós temos vários indicadores na sociedade que nos dão conta de quando uma sociedade está a caminho de se tornar mais autoritária, para não dizer outra coisa, porque às vezes isso também acontece. Um dos primeiros pontos é a perseguição ao ensino privado e no mundo ocidental o ensino privado é basicamente de escolas católicas, por exemplo, aquilo que acontece neste momento na Nicarágua, que é muito pouco noticiado, mas nós temos a intervenção policial, curiosamente em colégios de freiras. Na Nicarágua, os militares e a polícia têm ocupado colégios de freiras, acusando as freiras, coitadas, vá lá saber-se porquê, de fazerem lavagem de dinheiro. Não se percebe porquê, especialmente as freiras e não tanto os frades. Mas tem sido por aí. É claro, depois temos a figura do bispo Rolando Álvarez, que se recusou a deixar o país quando saiu aquele avião com 222 presos políticos. Ele recusou-se a deixar sair, o que fez com que fosse preso a seguir. Mas aquilo que nós vamos perceber, voltando a Portugal, é que num Estado que tem em geral um discurso político muito à frente da sua capacidade de execução, é um Estado que olha com desconfiança para aquilo que os outros fazem, propondo-se fazer tudo e mais alguma coisa, mas infelizmente para nós portugueses, não fazendo muitas vezes sequer aquilo que são os seus deveres e as suas competências únicas e exclusivas, e depois procurando intervir em setores em que há quem faça melhor. No caso da educação, nós sabemos, há esse historial da Igreja Católica de fazer bem e, portanto, não creio que tenhamos ganhado nada com esse espírito, umas vezes de perseguição, outras vezes de irritação com as escolas católicas. Penso que a Igreja Católica, não sei se perde ou se ganha, mas certamente que os alunos portugueses têm perdido. E isso nota-se particularmente, quer dizer, agora neste momento, e foi aqui explicada a questão das diferenças sociais entre os alunos que ficaram na escola, no Colégio dos Jesuítas, e aqueles que saíram. Mas eu acho que um bom exemplo desta desconfiança, para sairmos sempre daquela ideia do Marquês de Pombal a perseguir os jesuítas, a República, é pensarmos por que a Universidade Católica só abre em Portugal em 1967. Isso dá sempre conta de uma relação de desconfiança. Por outro lado, eu queria chamar também aqui a atenção para uma outra coisa, e que é as escolas católicas em Portugal, estou a falar ao nível das crianças e do ensino liceal, pautaram-se em alguns momentos por serem mais inovadoras do ponto de vista pedagógico, até porque tinham menos alunos, porventura também porque os seus professores, os seus diretores, circulavam no mundo das igrejas internacionalmente, e em algumas delas nós vamos ver adotar métodos de ensino mais modernos. Tem sido uma capacidade que têm tido. Não sei se a conseguirão manter neste momento, se a mantêm, não conheço, mas sei que nos anos 60, 70, era uma das coisas que caracterizava essas escolas. Elas também são diversas. Não é a mesma coisa estar no colégio de jesuítas do que estar no colégio de franciscanos. Portanto, essas escolas também são diversas. Aquilo que, sobretudo, eu procuro aqui chamar a atenção é que no ensino, modelos únicos são péssimos. No fim, não se aprende nada. Quer dizer, quanta maior diversidade existir, melhor. Parece-me que esta questão desta inovação pedagógica é um lado que talvez o nosso convidado possa até explicar melhor, mas é também muitíssimo importante. Mas, sobretudo, o que nós temos é um Estado que, voltando agora aqui ao presente, tem um discurso majestático sobre um ensino público que só pode acontecer em escolas públicas em nome de uma alegada igualdade que só gera mais desigualdade, mas depois cujas elites dirigentes vão colocar os seus filhos ou em colégios católicos ou, como era o caso da Secretária de Estado que acabou com estes acordos que havia com algumas escolas, na escola alemã. E depois temos escolas alemãs, escolas inglesas.
O Lycée Francais.
O Lycée Francais. E, portanto, é o clássico, é a elite a fazer discursos para o filho do povo, mas eximindo os seus queridos filhos a viverem tais experiências sociais. Portanto, acho que convém também que haja aqui mais alguma coerência e verdade.
E que a diversidade seja mais alargada. Vamos até Cascais, porque a nossa ouvinte Maria Esther quer participar, é psicoterapeuta. Bom dia, já é boa tarde, já passa do meio-dia. Tecnicamente, já é boa tarde, Maria Esther, bom dia.
Bom dia.
Quer juntar-se à discussão e já sei que viu o papa.
Sim, vi o papa. Eu trabalho mesmo no edifício na Avenida Marginal, junto à estação de Cascais e portanto tive a oportunidade de ver todas as preparações à chegada e à partida do papa, um lugar privilegiadíssimo.
Privilegiado. E a vila parou.
Sim, praticamente. Imensas pessoas, imensos estrangeiros, imensos jovens e menos jovens também, nos quais eu me incluo, porque já tenho 63 anos e vou tentar ser muito breve. Antes de mais, depois deste primeiro intróito, os meus parabéns a toda a Rádio Observador por todo o trabalho, não só que estão a fazer agora nas jornadas, mas por todo o vosso trabalho diário. Como eu tenho 63 anos, eu estou entre a Helena Matos e o José Manuel, em termos etários e temos várias coisas em comum em termos de percurso de vida, mas não vou agora entrar por aí, não é isso que eu queria sublinhar. Vou fazer duas declarações de intenções muito breves, vou tentar ser sucinta. Sou católica praticante de toda a vida. Licenciei-me na Universidade Católica, fui aluna do primeiro curso de Filosofia que abriu em Lisboa na Universidade Católica, de 1977 a 1982. Naquela altura, a licenciatura ainda eram cinco anos. Portanto, 10 anos depois da Universidade Católica ter iniciado os seus trabalhos em Portugal. Depois eu tive a oportunidade de também integrar esse percurso de vida dessa alma mater, a minha universidade. E já agora, só um pequeno detalhe curioso: o então aluno de Teologia do sexto ano, que se chamava Manuel Clemente, mas como já era licenciado em História pela Faculdade de Letras, pode ser meu professor e dos meus colegas em duas cadeiras e era curioso, depois assisti à ordenação dele como sacerdote e a todo o percurso dele. Portanto, é curioso ter alguém que hoje é cardeal patriarca e que fomos colegas nos corredores da Universidade Católica. O que eu queria sublinhar hoje, também tentando ser mais sucinta. Na alocução que o Papa Francisco fez do chegarmos a mestres, eu tive a oportunidade, como aluna finalista em 1982, de estar com o Papa João Paulo II na manhã do dia 14 de maio de 1982, que foi quando ele foi fazer uma missa no parque de estacionamento da Universidade Católica e benzer também a primeira pedra, tal como o Papa Francisco fez hoje. Mas ali foi a primeira pedra para o que é hoje o belíssimo edifício da Biblioteca João Paulo II. Há aqui uma união entre as mensagens papais de então, do Papa João Paulo II, esse apelo a sermos conscientes do rumo que queremos tomar nas nossas vidas para o mundo, para sermos alguém no mundo. E naquela altura, repito, 1977, a Universidade Católica Portuguesa foi, de facto, uma âncora, ou se quisermos, uma âncora no E, no caos, já que hoje também o Papa falou tanto do caos, no pós-PREC do ensino superior em Portugal, estava tudo completamente destruído. Não havia as universidades particulares que entretanto foram surgindo. E já naquela altura, e vou puxar a brasa ao meu curso de Filosofia, essa questão de nos desinstalarmos, de não estarmos sentados, de não estarmos acomodados, sempre foi uma mensagem passada ao longo de todo o curso. Não só por alguns professores que tive a honra e o privilégio de ter nesse meu percurso, cinco anos, mas no fundo, e tentando fazer aqui a ponte entre esta chamada de atenção do Papa Francisco depois do chegarmos a mestres, Jesus foi alguém que também na sua peregrinação na Palestina procurou desinstalar tudo e todos e ser tão perturbador, tão estimulador à diferença como Sócrates. Quando eu falo de Sócrates, o autêntico, o que viveu há 2500 anos.
O primeiro.
O primeiro, pois. Há 2500 anos em Atenas, que também ele se chamava a si próprio a tremelga, ou seja, o peixe que dá o choque, a alforreca, e que também dizia: "Precisamos de nos desinstalar". E tal como o Papa Francisco, o Papa João Paulo II disse: "Conheçamos a nós próprios", como estava escrito no templo deles lá na Grécia, como disse Sócrates: "Conheçamos a nós próprios e assim conheceremos ao outro, à natureza e a Deus". Portanto, desinstalar-nos será sempre fazer um caminho para o outro, para a construção e para a luz. E passados estes anos, 1982 para 2023, tendo eu concluído em julho de 82 o meu curso, mas há 41 anos, a mensagem destes dois papas que se desinstalaram e que se desinstalam, que caminham, que nos interpelam, continua a ser exatamente o mesmo. Mesmo no caso do Papa Francisco, em cadeira de rodas, ele desinstala-se, ele não deixa de caminhar, não deixa de vir pela segunda vez a Portugal, como ainda ontem no vosso trabalho sublinhavam, que ele não tem ido aos outros países, à Espanha, à Alemanha, mas vem à periferia, desinstala-se, seja numa cadeira de rodas, seja num Papamóvel, seja como for, ele desinstala-se e esse apelo para que nos desinstalemos continua a ser perene Como ontem o Papa também dizia, cesso aqui a minha comunicação. O Papa João Paulo II disse o mesmo no parque de estacionamento em 1982: "Está aqui muito calor." Penso que todos concordarão que o Papa seil abreviar o seu discurso. Portanto, eu agora também cesso aqui o meu discurso. Mais uma vez, muitos parabéns. Um resto de dia muito feliz. Muito obrigada.
Muito obrigada, Maria Ester. Um bom dia também pra si e obrigada pelas palavras de estímulo que nos deixa aqui e esta ideia, padre José Frazão, bem sublinhado o valor da diversidade do ensino. É isso que temos estado aqui a falar muito. Nesta altura, e depois desse processo difícil do fim dos contratos de associação, vê mais caminho aberto ou nem por isso?
Eu não gostaria de ser assim pessimista. Creio que o momento que vivemos, como dizia o professor Henrique Leitão, como país, no campo da educação em concreto, não será talvez o mais feliz, por uma grande conflituosidade que afeta uma classe muito relevante, sem a qual, de facto, não há ensino, que são os professores.
Portanto, estamos no caos e o apelo é para conseguirmos o cosmos.
Não sei se é o caos. Estamos numa fase, talvez não das mais felizes, que soma, se calhar, tantas outras também não tão felizes. Mais uma vez, a dificuldade é que parece que não temos um rumo. Para voltar às metáforas que o Papa nos recordou. Estamos no mar sem saber pra onde vamos. E aí, de facto, os interesses, as partes, acabam por falar mais alto do que um desígnio nacional que possa envolver o todo. Parece-me que sem essa diversidade, estas diferenças até de propostas, de escolas, de metodologias, de pedagogias, é difícil que o todo se enriqueça. Até porque num contexto cultural de tanta diversidade, insistir em projetos, em programas monolíticos, isto é, de uma linha única, é quase uma contradição com o próprio espírito do tempo. Às vezes a Igreja é criticada por não acompanhar o espírito do tempo ou estar atrás. Talvez seja, talvez não seja. Poderíamos falar sobre isso, mas a comunidade política também pode acabar por resistir a interpretar os sinais dos tempos. Num tempo de tão grande diversidade, o que o Estado tem a oferecer é apenas uma linha e não permitir outras linhas. Ou então, as que são permitidas têm que ser pagas e são muito caras. E voltamos ao que falávamos há bocadinho. Portanto, a diversidade tem que ser paga. Só que uma pequena franja de pessoas é que pode pagar essa diversidade. E, na realidade, o fruto dessa diversidade é aquela que é mais valorizada a nível global. Portanto, serão os mais habilitados para dar um contributo significativo e relevante à escala mundial, sendo que hoje a realidade é cada vez mais mundial. Portanto, a ausência de diversidade, se o Estado não favorece essa diversidade e tem apenas uma linha única para todos, e depois os que podem seguir outras são os que podem pagar, no fundo, há um conjunto de entorses que acabam por ter uma influência muito significativa no desenvolvimento do próprio país. E de facto, se a educação não é, que seja uma paixão, pode-se declarar. Alguns políticos declararam a educação como uma paixão, mas que se deem passos significativos do ponto de vista das decisões políticas, talvez esse seja o impasse que continuamos a viver. E isso tem reflexos no próprio país. O Papa vem desinstalar a juventude. Era bom que pudesse também dar um contributo a uma certa desinstalação da comunidade que somos como país, um certo desassossego, e voltamos àquilo que dizia há pouquinho, como país, o que é que queremos?
É importante ver várias figuras de um espectro político variadíssimo juntos a ouvir o Papa. Isso pode ter alguma influência.
Gostaria que ouvissem com disponibilidade. Obviamente, não vão receber lições de ninguém, têm a sua autoridade política, digamos assim, legitimada pelo povo, é bom que assim seja, mas gostaria que tivessem a disponibilidade de se por em causa, se for o caso, e de perceber como é que a coisa pública pode ser bem servida, porque no fundo é disso que se trata. A classe política é determinante para que a causa pública, a coisa pública, seja bem servida. Com as diferenças políticas, obviamente, que enriquecem, mais uma vez, esse próprio serviço. Agora, essa disponibilidade, eu gostaria que não fosse limitada depois pela ideologia, digamos assim. No fundo, uma ideologia, como é que eu a defino? A ideologia é uma verdade, é uma compreensão da realidade que se impõe sem ter que se explicar e sem estar disponível para se enriquecer e para dar, obviamente, com outras compreensões.
A fé também é isso.
A fé, se for uma verdade que se impõe sem ter que se explicar, é uma ideologia, de facto. Mas a fé não é uma ideologia. A fé liga-se a uma verdade, que para que seja verdadeira, tem que se expor, tem que expor as suas razões, tem que argumentar das suas razões, como diria São Pedro, a quem quer, na primeira carta de São Pedro, a quem quer que lhas peça. No debate político, o que parece é que muitas vezes esta capacidade de construir em conjunto, tendo como finalidade servir a causa pública, a coisa pública, parece que acaba por esbater nos interesses de parte. E mais uma vez, para usar esta linguagem que vem dos exercícios de Santo Inácio, não tendo claro o fim, acabamos por transformar os meios em fim. Os meios e os instrumentos que deveriam servir àquela finalidade tornam-se fins em si mesmos. E, portanto, é isso, começamos a andar à roda uns com os outros. Não quero alongar, mas seria muito bom, mas talvez seja desejar demasiado, que esta presença do Papa também favorecesse uma sociedade civil mais interventiva, diria quase mais combativa, sem termos medo dos confrontos que sejam obviamente pacíficos, respeitadores das regras democráticas e dos outros. Mas às vezes fica a percepção de que somos uma comunidade política, somos uma sociedade civil muito acomodada, muito pouco interventiva. As coisas acontecem, talvez depois resolvemos tudo na conversa de café ou nas redes sociais, uns a favor, outros contra, mas parece que pouco empenhados no desejo, no desassossego, na imaginação de uma possibilidade ou as melhores possibilidades para o nosso país. Porque de facto nós vemos que as condições são extraordinárias. Nós temos um património cultural, humano, espiritual, natural, extraordinário no contexto da Europa, em relação ao qual não temos que nos envergonhar, mas depois talvez como nos falte esse sonho e talvez essa capacidade coletiva mais unida, mais reforçada, mesmo nos seus confrontos e na sua diversidade, parece que vamos um pouco marcando passo. E é pena, sobretudo se essa lentidão afete sobretudo os mais desfavorecidos, no fundo. Os que não têm tantos recursos econômicos, os que vivem nas margens das cidades, os que vivem no campo, no interior de Portugal. E, portanto, se o país não cresce em todos os sentidos, não apenas no econômico, é sempre um grupo de pessoas, que é o maior, dos mais desfavorecidos, que são afetados. Esta também é a grande preocupação do Papa Francisco, toda a preocupação com a ecologia e com a fraternidade, é uma preocupação social. Isto é, há sempre um grupo de pessoas, ou de países, ou de comunidades que são afetados pela incapacidade de gerar e de cultivar, de cuidar do bem comum. No fundo, é isso.
José Manuel Fernandes, estamos quase a terminar o Contracorrente. Gostava de ouvir, será que o Papa Francisco e esta passagem por Portugal vai permitir que a discussão avance pelo menos algum passo?
Olha, espero que sim. Há uma coisa muito curiosa. Há coisas muito importantes. Primeiro que tudo, esta noção de que é necessário procurar, é necessário ter dúvidas, é necessário desafiar-nos a nós próprios, é necessário, como a sua autora fala, invocando a parábola de Jesus, se queremos descobrir a pérola, temos que ir mais longe, temos que ser mais determinados. E depois há um outro aspecto que me parece também muito importante e que tem sido uma constante destes discursos, mas é uma constante da mensagem da Igreja e que deveria ser, de certa forma, uma constante mensagem de nós todos naquilo que corresponde à nossa responsabilidade. Ele diz: "Não podemos esperar que nos deem tudo, nós temos que dar alguma coisa". Portanto, temos que nos empenhar. E há um termo que a Igreja usa muito e que o Papa Francisco usa muito, que é fraternidade. Ora bem, quem se recorda das três palavras da Revolução Francesa era liberdade, igualdade, fraternidade. Fraternidade caiu. Hoje em dia não falamos de fraternidade.
Falamos de solidariedade, se não me engano.
Falamos de solidariedade. Por quê? Eu tenho uma resposta que não é boa.
Qual é?
É que solidariedade não é conosco, é com o Estado. Delegamos isso no Estado.
Muda o nível, sim.
E muda o nível. Repare, fraternidade vem de irmão, de fraterno. A solidariedade é uma coisa mais abstrata. E eu acho que nós precisamos recuperar o valor da fraternidade sem achar que aquilo que, por exemplo, muitas instituições da Igreja fazem e que muitas vezes é desvalorizado como sendo assistencialismo, é muito mais do que isso. Quer dizer, há milhares de famílias portuguesas neste momento que estão a acolher peregrinos. Estão a fazê-lo porque querem partilhar, estão a fazê-lo porque querem ajudar, querem participar, querem muitas coisas diferentes. Não estão a cooperar nada, estão a fazê-lo por fraternidade. E as pessoas que lá vão correspondem a essa fraternidade. Mas isto é feito episodicamente. Há muitas outras instituições da Igreja que vivem dessa fraternidade, vivem dos voluntários. Nós estamos aqui a assistir a isto, estamos a ver o que isto representa. Discutir-se o que isto custou, aliás, a maior parte do que isto custou é numa infraestrutura que vai ficar para a cidade de Lisboa e para a cidade de Loures. Vai ficar para as duas estruturas. E não ter noção de que isto custou milhares de vezes mais, não digo milhares, mas muitíssimas vezes mais do que aquilo que foi o investimento público feito aqui, porque sem os milhares de voluntários, sem a fraternidade de todas essas pessoas, sem aquilo que, por exemplo, os restaurantes estão a fazer. Estão a oferecer, enfim, há um pagamento também.
Sem ter noção disso é não ter noção do que é este acontecimento e não perceber algo que é muito importante. Todas estas centenas de milhares de jovens que estão à nossa volta, vieram aqui para se encontrarem, para festejarem, para sorrirem, para estarem uns com os outros e para se desinquietarem, não apenas vir aqui para protestarem. Também é importante protestar, mas às vezes não basta protestar, é preciso fazer, participar. Eu acho que isso é uma das coisas que deve sair daqui e deve sair também, como julgo que foi aquilo que o Papa disse ao dirigir-se aos jovens na Universidade Católica, numa instituição de ensino, de educação, que é essa a mensagem que é necessário que as instituições de educação lhes passem.
Chegou ao fim este Contracorrente, um pouco fora do nosso horário habitual para acompanhar esta Jornada Mundial da Juventude e a visita do Papa a Portugal. Padre José Frazão, muito obrigada por esta maratona. O Parque Eduardo VII estava praticamente vazio, tem sido uma festa vê-lo a compor-se e a encher-se de gente. E amanhã, Nelson, há mais. Vamos voltar, outra vez de noite, com o jardim vazio e depois vamos seguramente vê-lo também a encher.
Sim, são as despedidas desta emissão especial da Rádio Observador, no que toca aqui ao Parque Eduardo VII, onde regressamos a partir das 16h com o Miguel Videira, com o João Miguel Santos e também com o Bruno Vieira Amaral, para mais uma edição da tarde em direto. A emissão regressa agora ao nosso estúdio, onde vamos ter notícias já de seguida com o Miguel Cordeiro e também com a animação da Filipa Duarte. Eu sou o Nelson Ferreira, despeço-me e agradeço também aos cuidados técnicos nesta emissão da Beatriz Martel Garcia, também a produtora Inês Santos e os conteúdos de vídeo que estiveram ao longo desta manhã a cargo do Tiago Couto. Amanhã, a partir das 07h, eu e a Carla Jorge Carvalho regressamos, e também o Júlio Magalhães, regressamos para mais umas manhãs 360 em direto do Parque Eduardo VII. Boa tarde, continuam com a Rádio Observador.