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Altura de conhecermos o tema do Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar para nós: 91 002 41 85, ou então também nos pode enviar a sua mensagem de voz por WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. Marcelo Rebelo de Sousa presidiu ontem ao seu último Conselho de Ministros, já que o mandato termina na próxima segunda-feira, quando António José Seguro tomar posse logo pela manhã. É pois tempo de olharmos um pouco para o que foram estes 10 anos de alguém que começou por se rever na imagem do presidente dos afetos, que nunca deixou de tirar inúmeras selfies, mas que se despede depois de dois mandatos marcados por três dissoluções da Assembleia e deixando um quadro político e partidário muito diferente daquele com que entrou em Belém faz agora 10 anos. José Manuel, bom dia. Foste muitas vezes crítico de Marcelo. Como é que prevês que a história venha a recordar estes dois mandatos?

Não sou historiador e a história tem que ser feita com alguma distância. Portanto, nunca pode ser feita no calor do momento. Mas a minha previsão é que o mandato de Marcelo seja visto não sei se como um ponto de momento de viragem, mas pelo menos como um tipo de exercício da presidência muito mais interventivo e muito mais presente do que aquilo que tinham sido os mandatos anteriores, quer dizer, sobretudo desde Ramalho Eanes, no quadro constitucional pós-revisão constitucional de 1982. Tu referiste aí as dissoluções, de facto, foi o presidente recordista de dissoluções, mas foi também o presidente recordista de vetos e foi seguramente o presidente hiperrecordista de comentários. Isso é um legado que eu diria, os constitucionalistas duvidam que seja exatamente este tipo de funções presidenciais que se esteja à espera de um presidente. E o balanço, se considerarmos como estava o país do ponto de vista político em 2016 e como está em 2026, ele hoje está, em muitos aspetos, menos governável. Passou por um período de melhoria econômica depois do ajustamento que foi feito nos anos anteriores. A economia portuguesa ajustou-se e agora está melhor. Não está de forma nenhuma brilhante, mas está melhor e isso foi mais fácil para os governos. Mas, em compensação, temos um sistema político estilhaçado, a que não é indiferente a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi atuando nesse sistema político. Não só através das dissoluções, como da forma como tornou pelo menos uma dessas dissoluções praticamente inevitável, como a forma como interveio, porventura até fora de tempo. Recordo o famoso discurso da tomada de posse do governo de maioria absoluta de António Costa. E nesse seu relacionamento nota-se, e mesmo nesta forma como foi trabalhando ou não trabalhando as leis. Ele, como eu disse, tem um número de vetos muito superior aos seus antecessores. Quer dizer, há um que é semelhante, que é o de Jorge Sampaio. Quer Mário Soares, quer Cavaco Silva vetaram muito menos diplomas, só pra teres uma ideia, os vetos políticos de Marcelo Rebelo de Sousa foram 45, Cavaco Silva 32, Mário Soares 37. Estamos perante uma forte presença desses vetos, mas curiosamente menos recurso ao Tribunal Constitucional, talvez por ele ser constitucionalista, e uma maior tendência para conversar em público com os governos. Isto é no mínimo discutível e eu creio que vamos ter um próximo presidente mais discreto. E há um aspecto que me faz enorme impressão, devo dizer, que é nós não ficarmos com registros escritos sistematizados daquilo que foram as suas intervenções. Havia um hábito na presidência de editar anualmente os discursos do presidente em livro, era fácil perceber o que eles tinham vindo a dizer. E no caso de Marcelo Rebelo de Sousa, isso não está, e às vezes nem é publicado no site da presidência, porque ele improvisa sempre em cima dos textos que leva escritos, acaba sempre por fazer improvisos, e isso cria um registro mais imperfeito daquilo que é a sua presença pública. Sobretudo porque muitas das suas intervenções mais marcantes não foram feitas nessas comunicações no 25 de Abril, no 5 de Outubro, no 10 de Junho, na mensagem de Ano Novo. Todos esses momentos, que são momentos habitualmente importantes da fala pública do presidente, tiveram porventura menos impacto que às vezes ele ser apanhado na entrada pra um colóquio, à saída de uma visita.

Num jantar com jornalistas estrangeiros.

Num jantar com jornalistas estrangeiros, a distribuir sei lá o quê, ora a sem-abrigos, ora a meter umas coisas num saco da banca alimentar. Em todos esses momentos ele fez discursos e intervenções, algumas delas marcantes, algumas delas não é marcantes, algumas delas que tiveram bastante peso político. É um mandato que eu creio que vamos ter que esperar pela história. Eu acho que mesmo quando olhamos, por exemplo, pro tema dos vetos, percebe-se que eles são muito centrados em alguns aspetos que têm sobretudo a ver com as suas convicções no que respeita a temas morais. O tema da maternidade de substituição, o tema da eutanásia, talvez o mais presente nos últimos anos. Temas desse género foram muito presentes, tem muito a ver com as suas convicções católicas. E depois, na parte mais política, houve momentos de algum choque, mas sobretudo quando ele entrou em rutura com António Costa. Aí é que se nota que há esse choque político maior e comentários mais ácidos, e também uma relação menos amistosa desde o princípio com Luís Montenegro, que tratou de forma muito diferente do que habitualmente se tratam os presidentes da República. Tentou passar-lhe o mínimo de informação possível, porque nunca se sabe o que Belém deixa sair cá pra fora, por assim dizer.

Sim.

Vamos falar um pouquinho disso tudo, porque é um balanço que eu creio que há aquela famosa frase de Fidel Castro, "A história me absolverá", eu penso que me absolverá, quando ele foi condenado, depois do assalto ao quartel, agora não me lembro o nome do quartel. Ainda antes de ser líder cubano. E no caso de Marcelo, não sei se a história o absolverá, se o condenará.

Faltará essa distância ainda.

Os portugueses veem-no com alguma benomia, mas daqui a uns tempos veremos também por comparação com o próximo. Às vezes, como se costuma dizer, bom de mim fará quem depois me virá. Veremos se também isso acontece com Marcelo.

Até já.