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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje fazemos as contas às sondagens e os seus efeitos na campanha e no voto. Participe até ao meio-dia, o número de telefone é o de sempre 91 002 41 85.

Nesta campanha presidencial, o sucesso é um local de risco. Primeiro foi Gouveia e Melo a cair, depois Marques Mendes e agora resta saber se a subida de Cotrim será afetada pela acusação de assédio que ficámos ontem a conhecer. A menos de uma semana das eleições, as sondagens estão ou não a criar percepções de vitória e de derrota que podem vir a influenciar os eleitores, Helena?

Isto tem de ser elencado. Quando estas eleições começaram, as campanhas, o ambiente, tínhamos sempre como marco aquelas eleições de 85, 86, aquela contabilidade que se percebe muito bem aqui no podcast da Rádio Observador. Como foi importante que Lourdes Pintasilgo se mantivesse na campanha para que Zenha não fosse quem ganhasse à esquerda. Ou seja, para a campanha de Mário Soares era fundamental que Lourdes Pintasilgo continuasse, não desistisse, para que Zenha não fosse, de facto, o mais votado, como provavelmente teria sido. E portanto, seria ele a ir defrontar Freitas do Amaral, o que porventura teria dado um resultado diferente. Depois, na Presidência da República. Mas agora, em termos de contabilidade, aritmética pura e simples, as contas ainda são muito mais complicadas. Se as de 85, 86 pareciam difíceis, estas são ainda mais complicadas. Aliás, Helena Garrido, que está aqui em estúdio, explicará isto depois ainda melhor. Penso que valerá a pena ler o artigo que ela tem hoje aqui no Observador, em que parece que há quase uma lógica perversa, que é como se cada um dos lados, e aqui estou a falar grosseiramente em direita e esquerda, mesmo sabendo que temos um candidato que anda ali no meio das duas coisas, que é o Gouveia e Melo. Mas é como se a estratégia, a tática de cada lado ajudasse a eleger o candidato do outro. Por isso é que agora se diz: "Não, votar seguro é votar Ventura, votar Cotrim é eleger não sei o quê." A lógica deixou de ser no sentido do voto útil, no verdadeiro sentido do termo, então eu vou deslocar o meu voto deste candidato para aquele, porque acho que tem mais possibilidades, para se tornar, de facto, uma espécie de ondas de choque. No programa que fizemos aqui a semana passada sobre o voto útil, usava aquela imagem daquele snooker, quando levam o taco pra uma bola pra depois ir pra outra bola. E a questão é que aqui eu acho que quem faz isso, que não é objetivamente algo que alguma vez me tenha passado pela cabeça fazer, porque não percebo nada daqueles jogos, mas eu acho que as pessoas quando tocam numa bola, têm na sua cabecinha onde é que a jogada os levará. Agora aqui, eu não creio que as pessoas estejam exatamente a fazer todos os cenários de onde é que poderá levar aquilo que acham que poderá ser o seu voto muito tático, muito inteligente. Para já, temos esta questão e eu acho que estas eleições ficarão, sem dúvida, marcadas por esta singularidade aritmética, que é óbvio que tem também uma explicação, que é o facto de termos três, quatro candidatos empatados em margem de erro e, portanto, tudo aquilo que se faça tem um impacto que não terá numas eleições em que exista um vencedor natural. Ou que se considere, ou que temos ali dois possíveis vencedores. Aqui tudo se torna muito diferente. Esta é uma das coisas. Depois temos uma outra questão, que é a própria forma como a campanha tem corrido e que, sobretudo com a questão de todas as campanhas terem algum tipo de acusações e de histórias e tudo isso. Agora, nós até vimos, por exemplo, é óbvio, podemos pensar, tivemos momentos de agressão, nós já tivemos campanhas onde vimos aparecer histórias complicadas, estou até a pensar em não em presidenciais, mas em legislativas, sei lá, notas com a cara de Sá Carneiro impressa, quando, por exemplo, nós vimos aparecer uma campanha que nunca percebemos muito bem o porquê, na candidatura de Cavaco Silva, que ele ganha para a Presidência da República, apareceu aquele candidato que não tinha mais nada pra dizer, era o Manuel... eu só me estou a lembrar do Manuel Coelho, mas não era esse o caso. Esse era outro. Aquele candidato que só queria falar da casa da colha de Cavaco Silva, como é que tinha sido construída, como é que não tinha sido construída. Não estava lá mesmo pra mais nada. Aliás, acho que seria um dia interessante investigar essa candidatura, como, porque apesar de tudo, uma candidatura precisa de assinaturas, precisa de algum tipo de retaguarda e que estava lá nitidamente com esse fim específico Que era desgastar o candidato Cavaco Silva, que mais e mais se sabe que era alguém que não gostava, não se sentia confortável em alguns debates onde as coisas fossem mais para esse campo, menos para coisas técnicas, sobretudo caráter econômico, social e político, que era aquilo que ele dominava e domina. Agora, nesta campanha, nós estamos num outro patamar ou num outro tipo de coisa. Eu pergunto-me se na próxima campanha eleitoral para umas presidenciais, nós só vamos ter como possíveis ganhadores dessa campanha, na minha opinião, ou temos mulheres funcionárias públicas, sem dúvida o perfil parece-me ser mais adequado, porque os homens têm sempre estas questões do assédio. É curioso, não se fala disso em relação às mulheres. Mas existe. E depois, também uma outra coisa que é a questão, como por exemplo, vimos nesta campanha Gouveia e Melo dizer: "Eu só tenho os meus rendimentos da Marinha". Portanto, qualquer pessoa que tenha passado um recibo verde, começa aqui a ter as suas coisas, até porque, por exemplo, nós durante muito tempo achávamos que ser advogado não tinha questões, porque imaginávamos que os advogados só iam à barra do tribunal, defender as pessoas. O problema é que hoje, até por questões que se relacionam com o particular funcionamento da nossa justiça, muita da atividade dos advogados não acontece em tribunal, acontece em escritório. E aí entra aquilo que a Helena, aliás, dizia, num país em que a palavra negócio é logo vista como muito negativa, temos a questão do ser advogado de negócios, é logo muito complicado. Isto acontece na campanha de Marques Mendes. E eu acho que só não aconteceu na campanha de Cotrim, porque Cotrim não foi visto inicialmente como um candidato que podia escalar, porque Cotrim esteve mesmo no mundo empresarial e, portanto, não estou a dizer que haja qualquer matéria, estou só a dizer que o senhor esteve nos negócios. E essa é uma das questões. Depois temos, por exemplo, agora estamos a ver aqui esta questão desta acusação em relação a Cotrim Figueiredo, não faço a menor ideia qual é o impacto que isto tem na campanha de Cotrim Figueiredo e, portanto, na dos outros, por consequência ou por reflexo, mas que é uma história que era conhecida, que não tinha sido considerada passível de ser divulgada porque a pessoa que fazia a acusação não queria falar. O Miguel Pinheiro aqui há pouco referia a passagem direta das redes sociais para as notícias.

E dizia que lhe parecia ser um caso único aqui na história das campanhas em Portugal.

Pois, quer dizer, no sentido em que já houve muita coisa que passou das redes sociais para as notícias, mas as pessoas falavam. Agora, o que nós temos aqui é a entrada numa campanha. Como é óbvio, as redes sociais também não são tão antigas assim. Portanto, o chegar a uma campanha. Eu acho que faz um pouco o papel que fez aquele candidato, que eu hei de indo aí procurar o nome, naquela eleição de Cavaco Silva e que estava ali unicamente com aquele fim, que era falar sobre os investimentos ou a casa que Cavaco Silva tinha construído no Algarve. Agora, que são coisas que não são passíveis, muitas vezes, de ser transformadas em notícias, mas que alguém depois as vem dizer. Aqui, esta entrada em campanha eleitoral tem características do ponto de vista noticioso diferente, até porque não tendo os jornais ou os meios de comunicação considerado que havia razões ou solidez suficiente para divulgar aquela história, nós vemos o próprio candidato a ser confrontado com uma pergunta e ao responder, ele cria a notícia. A partir daí, está criada a notícia. Portanto, isto é algo que futuros candidatos terão em conta. Aliás, temos também, e acho também que se tem de falar disso, um homem que porventura seria neste momento, estaria, na minha opinião, muito bem posicionado na campanha, caso tivesse candidatado. E não candidatou exatamente por causa disto que foi António Vitorino.

Daí mais relacionado com o que se passa com Marques Mendes.

Com Marques Mendes, num caso de autocontenção, por achar que a sua vida, não do ponto de vista dele, ele acha que está a praticar coisas ilegais, como é óbvio, mas por achar que em termos de uma campanha, a sua atividade depois dificilmente é explicável no ritmo frenético das campanhas. Eu acho que nós também temos de pensar que a forma como as campanhas estão a decorrer condiciona o tipo de candidatos que temos. Não estou a dizer que condicione bem ou condicione mal. Estou a dizer que condiciona aqueles que arriscam avançar. E nós sabemos, no caso de Vitorino, há aqui um caso de autocontenção, embora fosse o candidato preferido por largos setores do Partido Socialista e, porventura, mais transversal até dentro do Partido Socialista do que António José Seguro. Portanto, eu acho que temos estes pontos, a aritmética, a forma como a campanha decorre, que tem pouco a ver com os moldes anteriores e que pode levar a que estejamos a condicionar um determinado perfil de candidato. O perfil é sempre condicionado, agora é condicionado por outro tipo de circunstâncias. Aquele momento em que António Filipe saca daquela folha em branco para dizer: "Estes são os meus clientes", é um símbolo exatamente desta campanha. O que é que depois isto se pode traduzir em resultados eleitorais? E aí chegamos àquilo que me parece ser algo que provavelmente também nos pode vir a acontecer no futuro, que é ver um candidato que diz não quer saber disso para nada Que é aquilo que tem acontecido num conjunto de países, e depois vai se chamar a isto populismo, mas que é haver candidatos que exatamente se afirmam contra isto. "Não me interessa. A minha relação é com os eleitores, não tem nada a ver com isso." De alguma forma, nós tivemos isso em relação a outro tipo de acusações, por exemplo, o caso do André Ventura, e vimos como ele se tornou imune àquilo que era barrar o ataque da retórica. Agora não estou a falar destas eleições presidenciais, onde esse candidato já não precisa de nada disso. Ele é absolutamente imune ao que se diga dele. E tem tido um perfil espantosamente moderado.

Estás a usar o adjetivo de Cotrim Figueiredo.

Foi o André Ventura que levantou as suspeitas sobre o comportamento de Marcos Mendes? Não.

Não é.

Ou seja, nós estamos a ver.

Vai ser interessante perceber se André Ventura funciona não estando no centro destas polémicas.

Eu não faço a menor ideia. Mas estou só a constatar. Esse tipo de acusações veio forte, por exemplo, da parte de Gouveia e Melo, que era o candidato institucional, ou da parte de Cotrim Figueiredo, em relação a Marcos Mendes. Portanto, ninguém está no sítio em que nós esperávamos. E isto gera um enorme desencontro. E aí chegamos à outra parte, não me quero alongar muito mais, que é: nós temos de entender. Vocês sabem, minha formação é de línguas e literaturas, e a primeira vez que tive consciência de que nas presidenciais o que conta, ou o mais importante para perceber a relação do eleitor com os candidatos, é muito mais aquilo que nós aprendíamos, porque eu sou de uma geração que leu imenso Roland Barthes, sobre os diferentes tipos de discurso, e há sempre um discurso que é interessantíssimo, que é o discurso amoroso, do que tudo aquilo que eu sabia sobre política, que não é muito, mas apesar de tudo, é o padrão que geralmente se usa para analisar as candidaturas. Eu acho que a política e o discurso político serve para as legislativas. Para as presidenciais, nós temos de perceber o que é o discurso amoroso, o discurso da sedução, e o discurso do amor e de quem está apaixonado e de quem se desapaixona, que é a coisa mais terrível que existe. E por quê? Porque a eleição presidencial é uma relação fulanizada. Somos nós e aquele senhor ou aquela senhora. E tem de se estabelecer um vínculo emotivo entre nós e aquela pessoa. E tal como acontece no amor, nós podemos ter o vínculo agora e deixar de o ter daqui por uns anos, uns meses, uma semana. E aquilo que nos seduzia num dia, é precisamente aquilo que nos vai irritar daí a um tempo. Eu percebi isto naquela campanha que o Soares perde. E ele fazia as mesmas coisas que tinha feito no passado, e era como se as mesmas coisas não funcionassem. Era aquilo que o Barthes chamava o pequeno ponto no nariz, e que é: nós apaixonamo-nos por uma pessoa, tudo é maravilhoso, tudo é encantador, achamos graça a tudo, mesmo ao que não tem graça alguma. Perdoamos mesmo aquilo que é imperdoável. E depois há um dia que olhamos para a criatura e dizemos: "Mas ele tem um ponto no nariz." E a partir dali, é a desconstrução. E começamos a ver coisas que nunca tínhamos visto antes, e que não gostamos. E portanto, aí entramos na desconstrução do candidato. E aqui é exatamente a mesma coisa. Eu não estou a dizer que as pessoas estejam apaixonadas no sentido amoroso, erótico do termo, mas que há algo de sedução. Isso é óbvio. De enamoramento. Nós precisamos de nos enamorar daquela criatura, sobretudo para lhe dar aquilo que damos quando nos enamoramos de alguém, que é aquela indulgência. "Já sabe, aquelas coisas. Tem tanta graça. Disse isso. Olha que graça, mais ninguém dizia." Que é o que acontece. Mesmo quando, como aliás, acontece tantas vezes também na parte amorosa da vida, as outras pessoas dizem: "Mas olha, tu vê isto assim." Nada. E é exatamente como na política, quando depois mais tarde, as pessoas são confrontadas com alguns dos erros da opção que fizeram. "Mas por que vocês não me avisaram?" E os outros: "Mas nós avisamos, tu é que não querias ouvir." Não é isso que acontece na política? Quantas vezes: "Nós avisamos, nós dissemos." O caso mais extremo, agora saindo daqui, é o caso do PS com o Sócrates. As pessoas fartaram-se de avisar. E depois tivemos ali aquele momento extraordinário em que António Costa e outras figuras magnas do Partido Socialista fizeram que o Sócrates é que os tinha ao dabar. E o ao dabar não foi dito por mim. Quer dizer, que eu acho que é uma coisa absolutamente extraordinária. Agora regressando aqui às presidenciais, eu acho que é muito isso. E aquilo que nós temos aqui, neste momento, é: em que medida, e para acabar, é que nós vamos ter aqui alguns destes momentos ponto no nariz em relação a alguns dos candidatos, mas o momento ponto no nariz pode ser para os dois lados. É a pessoa reparar: "Não, afinal ele tem um ponto no nariz." Ou pelo contrário, "é só um pontinho no nariz, uma gracinha também. A Cindy Crawford também tinha um pontinho de nariz na bochecha, quer dizer, olha que gracinha." É isto. Tem a ver como é que se vai Em que sentido se vai valorizar aquilo que os outros estão a ver como negativo ou positivo. E por outro lado, e para acabar, aquilo que também eu acho que pode acontecer nesta campanha, para lá de tudo isto, que é algo que também ainda não tínhamos visto no passado. Os candidatos dizem sempre, por exemplo, o Ventura fazia imenso isso: "Porque eu estou contra as sondagens, e as sondagens, e vão ver, e eu vou lutar contra as sondagens". O Partido Comunista também diz sempre que está sempre derrotado nas sondagens, depois tem melhores resultados que as sondagens. Mas para lá disso, que eu acho que faz parte da retórica. E depois os que estão melhor das sondagens dizerem: "Não, isto é preciso ter em conta". É que nós estamos numa fase completamente diferente. Para já, podemos ter tido poucas sondagens, muito poucas sondagens. Hoje já sabemos que vamos ter uma, que em Portugal é um caso muito interessante, porque eu sei que Portugal é um país de tradição católica, mas nós temos uma grande fé nas sondagens da Católica, passe a publicidade, porque as temos como mais fiáveis, cientificamente falando. A Helena diz claro, quer dizer, são mais fiáveis cientificamente falando, agora se estão abençoadas, isso já não sei. Portanto, temos esta questão das sondagens, temos tido poucas sondagens e depois temos aqui algo que eu acho que vale a pena ser muito discutido e que é: nós temos tido barômetros, tracking poll, em que medida é que estas análises, que são feitas com amostras muito curtas, mas mesmo muito curtas, e em que ganhar, estar a ganhar ou a perder, está dentro da amostra da margem de erro, portanto, não significa nada. Mas como os títulos dizem está à frente, está atrás, está a cair, está a subir, em que medida é que isto pode, numa eleição em que o voto útil pode ser tão importante, criar percepções de vitória e derrota que podem vir a influenciar o sentido de voto. E, por fim, também o ânimo dos candidatos, que é uma coisa que não é despicienda, porque é fundamental, e das campanhas e tudo isso. Portanto, é disso que vamos falar nesta campanha.

E agora, depois de teres elogiado as sondagens da Católica, vamos ver como é que o António Gomes, que está ao telefone, reage a isto, não desconfias? António Gomes é diretor-geral da empresa de estudos de mercado e sondagens de opinião GfK Metris. Bom dia, António Gomes, bem-vindo.

Bom dia, foi só aqui para fazer esta, porque as pessoas dizem sempre, já terão ouvido: "Ah, vem a sondagem da Católica". Portanto, eu acho que é também uma questão de fé, não?

Bom dia.

Bom dia, António Gomes. Vê, e sobretudo nesta campanha, uma sobrevalorização das sondagens, não só na abordagem noticiosa, midiática, mas também na forma como os candidatos reagem a elas?

Eu diria que sim, mas por uma razão primordial. As sondagens estão a tentar, ou para as pessoas, para o eleitorado e no fundo também para nós, comentadores, jornalistas, tentam ser uma forma de esclarecer sobre o que pode acontecer. E a verdade objetiva é que já há algum tempo, se é que muito tempo, não temos umas eleições disputadas desta forma. E portanto, as sondagens, como eu dizia na semana passada, têm este fator de ajudar a interpretar a realidade, porque o eleitorado em geral pergunta-se: "Mas afinal, quem é que vai ganhar ou quem é que está em possibilidade de poder ganhar?"

São um instrumento muito importante quando há 11 candidatos e quando não há um óbvio vencedor, não é?

Exatamente. Nas legislativas, quando se pressente que partido A ganha a partido B, ou PS ao PSD, ou AD ao PS, as sondagens quase que validam aquilo que é uma interpretação que o eleitorado dá do que está a acontecer na realidade. E aqui estamos num cenário em que, com tantos empates, naturalmente há angústias e essas angústias trazem a procura de uma luz que ajude a esclarecer as pessoas um pouco melhor. E daí o protagonismo, diria que é mais, e sobretudo, por causa disso. Sendo que é importante perceber que também por isso elas acabam por ser, à sua maneira, protagonistas. Ou seja, acabam por ser em elas próprias, mais do que é comum, e nestas eleições assim parece, a terem um papel importante, porque não me recordo nos últimos tempos de haver uma campanha e tantos candidatos a fazerem referências às sondagens, de facto.

Sendo que apesar disso tudo que está a descrever, é uma campanha que tem tido muito poucas sondagens. Há alguma explicação para isso?

Eu acho que a questão de ser muitas ou poucas depende da interpretação. Admito que por decisões editoriais dos grupos de comunicação, eventualmente parece existir menos sondagens. Eu diria que esta semana haverá mais. Enfim, tenho ideia que haverá três ou quatro sondagens que vão ser publicadas. Talvez tenha faltado aquilo que as pessoas ou noutros atos eleitorais têm sentido, que é mais sondagens no decurso da própria campanha. Mas isso são decisões editoriais dos grupos de comunicação, objetivamente. Até porque há aqui uma gestão de expectativas sobre a segunda volta e, portanto, o timing para a realização destas sondagens está dependente de um fator que não é comum, que é vamos muito provavelmente ter uma segunda volta e, portanto, vamos gerir as sondagens que precisamos fazer e consequentemente publicar em função também dessa contingência.

Bom dia, Helena Matos, mais uma vez. O fato de termos tantos candidatos com possibilidade de passarem à segunda volta, de alguma forma torna a questão das sondagens não só mais importante, como até poder dizer-se que

Que podem ser determinantes na criação de imagens de possíveis derrotados.

Verdade. Derrotados ou vencedores.

Ou vencedores.

Exato, concordo. Há uma coisa interessante que é: as sondagens procuram ser uma fotografia da intenção de voto num determinado momento e o eleitorado reage àquilo que aparece das sondagens. Nas eleições, não forçosamente nestas, mas todas em geral. E há uma normal interpretação que o eleitorado dá relativamente ao quanto as sondagens lhes parecem adequadas àquilo que é a interpretação que dão da realidade. Está a me entender? E, portanto, as pessoas se acham que está a acontecer uma coisa que é diferente daquilo que as sondagens dizem, ou as descredibilizam, ou questionam se será tanto assim, se elas estiverem mais em conformidade. Mas eu acho, e isto é importante, o eleitorado percebe o que é uma sondagem, mas é sempre importante fazer a pedagogia. Eu na quinta-feira da semana passada, na Vixi e Suave com o Miguel Carapatoso, expliquei. É quase como se tivéssemos uma lupa à luz das sondagens de que mais falem, nomeadamente a Tracking Poll da TVI e CNN. Nós estamos a pegar numa lupa para tentar intuir diferenças que são mínimas entre cinco candidatos. E dei, inclusive, o exemplo de que se os resultados que estavam a surgir fossem arredondados, que até é uma recomendação dos manuais de estatística, com os arredondamentos, nós estávamos, de facto, dias e dias simplesmente arredondados. Toda a gente tinha 18, toda a gente tinha 19.

Todos iguais.

Todos iguais. Ora, isso faz com que as tais variações que havia, variações de décimas, e aí é importante fazer um pouquinho a pedagogia e manter sempre, por muito que custe, na lógica de que nada aconteceu, mas manter sempre o cuidado de dizer: "Estamos perante um empate técnico, sexta-feira. Não há nada a fazer".

Mas sabe que isso, para um jornalista conseguir fazer esse título, é pior que dizer que vamos ao dentista sem anestesia, não?

Eu acredito que sim.

Pois acredite.

Acompanhando as sondagens, certamente.

Mas diga-me uma coisa, António, quando olha com o seu olhar, o seu olhar para as sondagens é diferente do nosso, ou seja, para si não está a acontecer nada há quanto tempo?

Eu não lhe sei precisar, eu acho que nada de substantivo. Vamos lá ver, não podemos ser injustos. As sondagens têm um propósito. Estas, por exemplo, a Tracking Poll, têm um propósito que é apreciar a evolução da tendência de voto.

Exato.

Nós podemos fazê-la diariamente e podemos fazer todas as semanas, de duas em duas semanas. O aspecto mais relevante é ver o que as tendências nos dizem. Onde é que estava A e onde está agora. A mais um, sendo que um é o tempo que mediou entre.

Exato.

Ora bem, nessa interpretação das tendências, há coisas que nós temos que reconhecer. Se está candidatos, dando o exemplo de João Cotrim de Figueiredo ou o próprio António José Seguro, que há dois meses atrás não pareciam ter a dinâmica que têm e que hoje traduz. O que nós temos que fazer é também este step back, dar o passo atrás e dizer assim: "Bom, nós queremos muito que a campanha tenha influência, que haja alterações significativas no decurso da campanha", mas se nós colocarmos outra vez em perspectiva, não com uma lupa, mas com uma certa distância temporal, nós de facto constatamos que ao longo do tempo houve algumas variações nestas tendências e, portanto, não ficou tudo exatamente na mesma.

Sim, temos o Almirante a descer, Cotrim de Figueiredo a aumentar significativamente, o Seguro com uma subida consistente, mas isso acaba por não nos dar aquilo que nós gostávamos, que era antecipar a realidade, não é? Pois, encontram-se todos no mesmo sítio.

Imagine o gozo que dava a mim fazer hoje uma previsão e ela no domingo corresponder à realidade. A minha experiência de olhar para sondagens e de ter muitos anos, mais de 30 anos a fazer sondagens, é que precisamente existe neste momento uma singularidade na maneira como o eleitorado nos está a dizer como pretende votar no domingo, que deixa tudo em aberto. Eu acho que é preciso ter muito cuidado. Até porque eu intuo que possa acontecer no domingo aquilo que nós vamos todos dizer: "Ah, isto é uma surpresa". Mas não é surpresa nenhuma. Eu dizia ao Miguel Carapatoso: "É tudo possível. Todos os pares combinatórios que consigamos fazer."

Dos cinco, não é?

É isso, considerar, sim. Mesmo eventualmente uma perceção de que uma das candidaturas, há pouco dizia Govem Melo está em queda ou Marques Mendes aparenta mais dificuldade. Eu não concluo, francamente.

Exatamente.

Eu, com muitos anos de sondagens, digo-lhes, eu não me atrevo a excluir ninguém.

António Gomes, e um dia mau, como teve ontem, por exemplo, o candidato João Cotrim de Figueiredo. As sondagens nunca vão conseguir retratar ou conseguir antecipar o impacto que um dia como estes terá no próximo domingo?

Eu diria que, a não ser que haja sondagens que são feitas depois do dia de ontem.

Não há muito tempo.

Acabaremos no domingo, consoante o resultado que Cotrim de Figueiredo tiver, a especular sobre o quanto é que foi o impacto deste dia.

Sim, claro.

E, portanto, nós vamos chegar a domingo e se porventura ele não tiver um score correspondente àquilo que as sondagens estavam a dar nos últimos dias, vamos dizer: "Bom, de facto, foi aquele dia que foi marcante". Se isto não acontecer, interpretaremos. Agora, em tempo útil, ou seja, porque atenção Por vezes, um facto político, qualquer que seja, pode ter múltiplos efeitos. Não é líquido que o efeito de ontem tenha forçosamente produção de mobilização. Pode produzir surpreendentemente maior reação por parte dos apoiantes, no sentido de: estamos a ser atacados ou querem-nos prejudicar, então vamos nos mobilizar ainda mais. Não é claro, na lógica de intenção de voto e de mobilização eleitoral, o que ontem pode ter suscitado.

Desculpe interrompê-lo. Eu acho que, por exemplo, num candidato que tenha o seu eleitorado muito fidelizado, estou a pensar em André Ventura, uma coisa destas até poderia mobilizar. Num candidato que está a ir muito para lá do seu eleitorado, porque Cotrim está quase com quatro vezes mais, estamos a falar da tracking poll e das sondagens, pode não ter exatamente o mesmo efeito de mobilização, até pode desmobilizar.

Eu acho que a pergunta é brilhante. Eu não tenho resposta para ela.

Pois, por isso é que eu só faço a pergunta, porque se fosse para fazer a resposta, também não dava.

E é verdade, objectivamente, a assumpção, o ponto de partida parece-me ter toda a razoabilidade. Agora, se com 34 vezes a votação da base eleitoral que lhe está adstrita, isso significa que pode ter criado dinâmicas que podem lhe permitir resistir. E atenção que só o adjetivo resistir já pressupõe que o evento de ontem é visto como algo que pode ser negativo.

E pode não ser.

E pode não ser. As campanhas eleitorais já tiveram vários momentos que depois, como é normal, retrospectivamente olhamos para trás e dizemos: "A agressão a Mário Soares na Marinha Grande acabou por ser um ponto de viragem. O que aconteceu com André Ventura nas últimas legislativas pode ter tido algum tipo de efeito de mobilização". Ou seja, as campanhas eleitorais são férteis em, por vezes, momentos destes, cujo verdadeiro resultado só o conseguiremos intuir, ou melhor, entendê-lo melhor posteriormente. Está a entender? E não agora, porque agora o que nós assistimos é obviamente, volto a dizer outra coisa, que é importante perceber. Nós, você e eu, por motivos profissionais e obrigações, claro, estamos muito atentos ao que estes fenómenos significam e queremos imediatamente interpretar. O eleitorado demora mais tempo a interiorizar, afinal, o que é que aconteceu. Entende? Ainda há gente hoje que não sabe. "Mas passou-se alguma coisa com o Cotrim ontem, mas o quê? Em concreto." Este tempo que demora é um queridinho da velha máxima, "primeiro estranha-se, depois entranha-se". O que isso significa e que impacto tem naquilo que eu estou a pensar. Eu não me espantaria que haja pessoas que cheguem a domingo e que tiveram um conhecimento difuso daquilo que ontem foi visto como um dia mau de campanha para ele. Não sei, francamente não me atrevo a dizê-lo. Agora, admito que uma parte do eleitorado mais engajado no processo eleitoral tente, ele próprio, como nós, como jornalistas, como comentadores, tentar extrair consequências. E portanto, o que se viu ontem, e eu pressenti isso nas redes sociais, é uma polarização sobre afinal o que é que aconteceu e qual é o impacto. Defensores de um lado, críticos do outro, e portanto, é um dia em que Cotrim Figueiredo foi o protagonista da campanha.

E está-se a construir uma narrativa e um damage control. Não custava nada dizer isto em inglês, mas uma contenção de danos.

Exatamente. E vocês aí, os jornalistas, porque têm um conhecimento específico da máquina das candidaturas, conseguem mais facilmente interpretar se o módulo de piloto automático muda para precisamente controle de danos. E portanto, se há um gabinete de crise, isso significa que a própria interpretação que as candidaturas dão a momentos destes é porque precisam de reagir ou precisam de controlar os estragos. Ninguém sabe em que isso pode acontecer. Aliás, vocês percebem que das candidaturas, prefiro falar no plural, vêm sinais para a comunicação social, que é precisamente dizer: "Isto não tem tanta importância, afinal não foi isto que aconteceu".

E vai ser possível perceber o que poderá ter provocado mais danos, se a declaração sobre André Ventura, se a acusação de assédio.

Eu não consigo concluir. A declaração sobre André Ventura, inicialmente, a minha primeira interpretação foi que tem alguma componente tática subjacente, isto é, vê-lo, o João Cotrim Figueiredo, como político experiente, assumir isto tem algum significado, porque nós por vezes estamos a ver um pequeno fragmento de um filme. E portanto, eu tentei entender.

Por que ele terá dito aquilo.

Por que ele teria dito aquilo e qual era o alcance máximo de ele dizê-lo. Não consegui ainda perceber, ou melhor, ele próprio ao corrigir e dizer: "Se calhar não me fiz explicar", deu a entender que podia não ser uma ação tática ou estratégica e que podia não ter sido feliz na forma como quis dizer o que disse. O caso do assédio sexual, é muito complexo opinar sobre estas situações que não seja o seguinte. E não vou falar em meu nome, vou falar em nome daquilo que os estudos feitos noutros momentos eleitorais, em que procurámos ir atrás das consequências deste tipo de situações em campanha, como é que o eleitorado interpreta. Eu diria que a tendência do eleitorado é para conseguir perceber que há determinados acontecimentos em campanha que são feitos Ou seja, são aquilo que eles chamam de encomendas. De repente, vem o momento em que se vão pôr suspeitas relativamente a A, B, C, de vários níveis. Isto já acontece há vários atos eleitorais. Aliás, uma parte do eleitorado até tenta, porque há um certo voyeurismo português: "Eu estou para ver o que é que vem aí." Reparem, não é só nas eleições dos partidos, é nas eleições dos clubes, seja para o Benfica, para o Porto ou para o Sporting. Há sempre uma procura de: "Deixa lá ver se vocês vão contar qualquer coisa ou se vem aí um segredo que nós não sabemos." Mas há sempre um tema complexo que é o julgamento que as pessoas fazem sobre o significado que tem. E talvez atreva-me a dizer que as pessoas começam a dar sinais de algum desgaste da utilização destes artifícios de campanha, nomeadamente e sobretudo, relativamente a coisas que têm um tempo anterior expressivo. Vou tentar explicar. Se houver uma acusação sobre qualquer um dos candidatos de coisas ocorridas há 20 anos, as pessoas não percebem. A primeira reação tendencialmente é dizer: "Mas por que só vieram falar disso agora?"

Exato.

Imaginem que sobre um destes cinco candidatos não pagou um imposto há 20 anos. Isto tende a não ter qualquer razoabilidade. O que vai acontecer é: polariza. Os críticos vão dizer: "Aí está, eu sempre achei que ele não pagou impostos." E os apoiantes dizem: "Meu Deus, agora vão buscar coisas do tempo da escola primária." Há um tempo que é o tempo de admitir a razoabilidade do impacto do acontecimento. E há um tempo em que não. Agora, a própria situação, a natureza daquilo que está em cima da mesa requer algum cuidado, seja na defesa, seja na crítica, isso não importa. Já agora também lhes digo, e é uma opinião pessoal, causa mais tendencialmente, expressa uma crueldade, mas é a maneira como o eleitorado é mais sensível a argumentos que tenham a ver com cenários de abuso de uma posição dominante na política. Nós estamos a falar de uma eleição partidária, política. Se fosse uma acusação de que desviou dinheiro e apoderou-se de verbas no exercício de um cargo público, esse tem um impacto, porque essa é a falha da confiança máxima. Porque afinal estamos a pedir o meu voto para eu o ir votar e aquela pessoa não é digna, porque inclusive desviou dinheiro.

Mas essa escala de valores foi mudando ao longo da história ou é sempre assim?

É isso que eu ia dizer.

Peço desculpa interromper-te.

Não tem mal. Foi mudando ao longo da história e hoje a natureza do que se falou ontem tem, no contexto da sociedade portuguesa, ou pode ter contornos que nós não estamos habituados. E portanto, longa a dissertação para dar uma resposta estranha, que é: eu acho que nós nunca vamos saber. Se acharmos que Cotrim Figueiredo ficou prejudicado com o dia de ontem e se isso se concretizar no domingo, e já estou a pôr ses, porque pode não acontecer nada de todo, mas se acontecer, então vamos sempre voltar atrás e dizer: "Não, naquela terça-feira ou algo assim, algo aconteceu." Agora, qual o contributo de cada uma das dimensões, eu acho que vai ser muito difícil alguma vez descortinar.

Pois. Coincidiu, não é? Foram duas coisas muito fortes ao mesmo tempo. Igualmente fortes, não diria, mas que podem provocar danos.

Não é por acaso. Parece-me, reparem, parece-me só, não é por acaso, que obviamente a candidatura e os estrategas da candidatura estão focados no como dizia o Apple, que vai no controle de danos. E portanto, significa que há o reconhecimento tático de que é valorizado o que está em cima da mesa.

E é possível dizer que as críticas que foram feitas a Marques Mendes, as acusações do almirante, essas sim, tiveram impacto nas intenções de voto em Marques Mendes?

Eu tenho uma dúvida: tiveram impacto nas intenções de voto em Marques Mendes e em Gouveia e Melo também?

Pois.

Um dos temas críticos em política não é só o acusado, é o acusador.

Exato.

E nós estamos num cenário invulgar. Eu acho que esta é a grande mudança do paradigma. Nós estávamos habituados a ter um modelo bipartidário, onde em determinados momentos temporais havia uma primazia de uma força política sobre a outra e, portanto, o jogo construía-se muito, não numa bipolarização no sentido doutrinário, mas na verdade numa bipartidarização. Era AD ou PSD e agora o PS. Já está. Hoje estamos num cenário novo em que o efeito não do indeciso, mas de uma transferência de votos, é um efeito duplo. Ou seja, uma pessoa que votava há duas semanas num candidato e hoje vota noutro, esse efeito desta transferência de voto vale por dois. Por quê? Porque num cenário bipartidarizado, o que via-se através das sondagens não era transferências de votos diretos entre PSD e PS. Isso sempre foi raro. O que havia era nas franjas ao centro ou nas franjas marginais, a maior ou menor capacidade de mobilizar o voto e, em consequência, gerar as maiorias ou as vitórias que um e outro partido obtiveram. Agora, não. E portanto, agora o que acontece é: uma consequência sobre um candidato tem um efeito dominó sobre os demais, nomeadamente se houver uma transferência de voto direta. Logo, isto também é um aviso para dizer o quê? Para dizer que daqui até domingo Eu, pessoalmente, continuo a não excluir ninguém. Ouçam o que eu vos digo. Porque depois o que me vai aborrecer? Vai-me aborrecer que no domingo, se não for o cenário que muitos hoje intuem como sendo o mais provável, a maior causadora de todo este transtorno vão ser as sondagens.

Vão ser as sondagens.

Eu tenho que dizer: "Não". Eu disse isto na sexta-feira quando disse na Bicho e Soares e digo-vos hoje aqui. Eu continuo a achar que são cinco candidatos e o par que pode sair pode ser o mais provável, à luz daquilo que a gente intui que está a acontecer, ou o mais improvável. E cuidado que o improvável está dentro daquilo que é a realidade das intenções de votos manifestadas neste momento.

Ou seja, qualquer um dos cinco pode fazer um par para a segunda volta.

Pode, porque lá está a conquista de um voto significa eu ganho um e tiro um a um dos outros. Entendem? Enquanto que PSI e PS numas legislativas tradicionalmente, é certo que a partir de 2025, o Chega afirma-se como um terceiro partido, e eu acho que grande. E é importante perceber que este paradigma que estamos a ver testado hoje nas presidenciais, muito provavelmente vai acontecer nas próximas legislativas. Ou pode haver esse risco de passarmos a olhar para um sistema partidário que não é mais bipartidário.

É tridimensional, é muito mais difícil.

Sendo que o Chega tem, para nós, uma vantagem de interpretação que é cometendo a polarizar, a margem de transferência é vista como sendo menor. Não acontece nestas eleições presidenciais. Não pode chocar a ninguém que um eleitor que estivesse com Marcos Mendes e agora se transfere para Cotrim de Figueiredo, e hoje transfere-se de Cotrim de Figueiredo para Marcos Mendes, e apliquemos esta mecânica exatamente com Gouveia e Melo. Entendem?

Exato.

Haverá eleitores que dizem que vão votar António José Seguro, que é pouco provável que mudem. Da mesma forma, o mesmo acontece com André Ventura, mas é uma parte deles, não é a totalidade. André Ventura pode perder votos para Cotrim de Figueiredo, e entre Gouveia e Melo e Marcos Mendes, temos aqui uma situação em que há uma sobreposição significativa de potenciais eleitorados, onde um voto hoje votando de uma maneira e amanhã votando de outra, muda aquilo que é a dinâmica dos pesos relativos que estamos a assistir entre eles.

E isso pode alterar também a forma como os eleitores vão votar na segunda volta. Ou seja, todos os estudos que se têm feito agora nestes pares, nos possíveis pares, e como é que eles se vão alinhar numa segunda volta, perante as dinâmicas que se criarem no domingo, aquilo que sabemos agora pode não querer dizer nada.

Vou ser um pouco ousado na minha previsão, ok?

Vamos lá.

Eu acho que segunda-feira faz-se um reset, porque a partir de segunda-feira, consoante o par que passa, assim serão imediatamente os grupos de reflexão das forças partidárias e de protagonistas relevantes, a começar pelo primeiro-ministro, e não só. Irão obviamente interpretar qual o caminho que faz mais sentido. Hoje eu acho que houve momentos em que se pensou muito sobre a possibilidade das pessoas votarem nesta volta, a pensar na segunda. Começo a achar que esse território não existe. Isto é, dada a proximidade dos candidatos, o eleitorado não está para fazer duas contas. Está para perceber, afinal, quem é que pode passar. É a primordial preocupação neste momento. Não quem é que vai ganhar. Depois na segunda volta, logo veremos. Logo voltaremos a ter debates.

Mas essa pergunta "quem é que vai passar?" Significa o voto útil. Vou votar naquele que acho que vai passar.

É. Eu dizia antes para essa meia-noite, na sexta-feira, não o voto útil, mas a utilidade do meu voto. O voto útil é um voto tático. A utilidade do voto é: mas afinal o meu voto vai servir para quê? Por isso na altura enunciei com risco e disse que também é uma previsão ousada, mas conhecendo a mente das pessoas na lógica do consumidor e do eleitor, é natural que as pessoas procurem o refúgio de haver uma diminuição das escolhas. E portanto, estes dias desta semana seriam dias em que poderíamos ver alguns candidatos a perderem força e outros a ganharem força. Ainda é cedo, esperemos mais pro final da semana para perceber. Não esquecendo que as sondagens são protagonistas na formulação deste pensamento.

E hoje é terça-feira.

E pode acontecer uma variação tremenda. Chegamos a sexta-feira e as sondagens não dão todas exatamente a mesma coisa e está toda a gente muito confundida.

E é como estamos agora no fim desta conversa, mas muito útil. António Gomes, muito obrigada.

Muito obrigado.

Muito bom dia. Helena Garrido, isto é uma questão clássica. Até que ponto é que as sondagens influenciam os resultados eleitorais? Está a ser diferente nesta campanha e nestas eleições? A nossa memória geralmente é curta, mas parece que nestas eleições essa autocorrelação, como nós chamamos na estatística e na economia, é muito mais significativa. Ou seja, não conseguimos perceber se são as sondagens que influenciam o resultado, se é o resultado que acaba por influenciar as próprias sondagens, e este tipo de autocorrelação dificulta ainda mais qualquer interpretação no quadro atual. A grande diferença deste ato eleitoral, destas presidenciais, é que de fato, eu vou arriscar, diria que vai ser histórico chegarmos a domingo com empate técnico. Basicamente, aquilo que nós deveríamos estar a dizer, embora seja horrível, como jornalista, não gostamos nada de dizer, não está a acontecer nada, tem de estar sempre a acontecer alguma coisa. Nós, na prática Temos estado em empate técnico praticamente desde o início, como há pouco te dizia, Helena, eles têm vindo a reajustar-se, Cotrim a subir, Marques Mendes a descer, o almirante a descer, para depois, na prática, se encontrarem todos no mesmo sítio e estarem afunilados todos para a mesma zona da margem de erro. André Ventura terá sido aquele que tem mantido maior estabilidade, é também aquele que tem praticamente esgotado o seu eleitorado, pelo menos aquele que teve nas eleições legislativas. Marques Mendes, aparentemente, é aquele que está a conseguir esgotar menos, mas mesmo isso nós realmente não sabemos. É aquele que está a conseguir esgotar menos o capital da AD. Neste momento, metade dos eleitores da AD estão a dizer nas sondagens que não vão votar em Marques Mendes. Portanto, Marques Mendes, na prática, é aquele que tem mais margem de crescimento. António José Seguro tem vindo, em trabalho de formiguinha, a subir muito lentamente e temos assistido com grande perplexidade a um volte face de pessoas como Santos Silva, que fez declarações horríveis sobre António José Seguro, para agora vir dizer que é o final do túnel. E de fato, é preciso ter muita lata, mas Santos Silva tem nos habituado a ter muita lata.

O José Carlos César a apelar também.

Carlos César, apesar de tudo, manteve-se mais protegido e mais recuado. E de alguma forma, não sabemos se não esteve sempre ao lado de António José Seguro.

Teve sempre uma visão mais estratégica daquilo que é o futuro do partido. E, portanto, olha mais para o partido, no qual ele já não terá uma grande história e, portanto, olhando para o futuro.

E desse ponto de vista, Santos Silva é mais surpreendente, mas talvez se tenha deixado levar pelo seu ego, uma vez que achava que ele, de fato, era o melhor candidato.

Pois, como é óbvio. O chamado não se enxerga.

Exatamente. Para as presidenciais. Bom, neste domínio, o que nós podemos dizer? Estamos empatados, obviamente. As sondagens não estão a conseguir resolver a nossa ansiedade sobre aquilo que vai acontecer no domingo à noite ou no domingo pela madrugada. Vamos esperar também para perceber o que as duas sondagens, que de fato merecem esse nome de sondagens, para já, que são as sondagens realizadas pela Universidade Católica e pelo ICS nos vão dizer. Mas eu gostava ainda só de dar aqui alguns pontos em relação a esta campanha. E eu diria, correndo o risco de estar a ser traída pela memória, que é a campanha mais agressiva a que temos assistido.

Esta?

Esta.

Foi o defensor Moura.

Defensor Moura, sim. O que entrou na campanha para falar sobre a casa.

Não falou que se tenha dado muito por isso de outro assunto. Não estou a dizer que era esse o seu objetivo, mas que realmente lhe teve uma enorme falta de informação e de intervenção sobre outros assuntos.

Sim, nós nunca podemos colocar de parte que há candidatos que são colocados no terreno por razões táticas. Aliás, quando referias há pouco Mário Soares, Mário Soares confessa no livro do Joaquim Vieira, que até financiou a campanha de Maria de Lurdes Pintasilgo. E, portanto, hoje, não sei quantos anos depois, nós percebemos que quem votou Maria de Lurdes Pintasilgo, na prática, estava a votar a favor de Mário Soares. Há muito deste nevoeiro, que é especialmente interessante nestas eleições presidenciais, que nós só vamos compreender a posteriori. Neste momento, aquilo que nós percebemos é que é para dor de sal, que à direita se esteja quase a trabalhar para António José Seguro ser eleito e à esquerda se esteja basicamente a trabalhar um bocadinho com menos eficácia para que Marques Mendes ou o almirante sejam eleitos, mas estou a colocar aqui o almirante do lado direito e se calhar não é muito legítimo, até seria mais rigoroso colocá-lo como fora deste jogo partidário. Mesmo o fato de, como o almirante referiu, estas eleições presidenciais terem transformado quase como uma segunda volta das legislativas, em que todos apresentaram candidato e nenhum desistiu, agora já não vai a tempo. E depois também aquela estranha, aparentemente pouco inteligente estratégia de Jorge Pinto, pareceu estar ali para perder votos, quando era tão elogiado o seu desempenho, tão identificado com uma grande surpresa dos debates e de repente comete erros sucessivos, e nós nunca podemos dizer que somos mais espertos do que aquelas pessoas que estão a pensar a campanha e a estratégia da campanha. Portanto, vale sempre a pena colocar a hipótese de por que ele fez isso. Mas voltando à questão de uma das marcas desta campanha, é sem dúvida um ato eleitoral de luta na lama, e essa luta na lama é lançada por Gouveia e Melo, e Gouveia e Melo pode ele próprio, aliás, como o António há pouco da GfK referia, pode também ter sofrido danos de ter entrado por essa estratégia tão agressiva. É preciso recordar que André Ventura ensaiou isso logo no primeiro debate com Marques Mendes, atacou logo no fim do debate, fazendo com que Marques Mendes dissesse: "Eu tenho de responder a isso". Mas a partir daquele momento, André Ventura, que foi sempre o centro das campanhas até agora, desde que existe o Chega, foi o protagonista das campanhas, foi a personalidade que tinha sempre as declarações mais controversas, recuou e deu esse papel, parece ter cedido esse papel, a Gouveia e Melo, primeiro a Cotrim, que também entrou neste jogo, que vou designar como jogo da lama, e depois a Gouveia e Melo. Gouveia e Melo, de facto, atacou de forma muito agressiva e violenta e de uma forma muito difícil para Marques Mendes defender, levando não só em conta a história, a classificação de facilitador de negócios, que é uma expressão terrível e muito difícil de qualquer pessoa se defender, muito mais num país em que fazer negócios é visto como uma expressão negativa. Nós muitas vezes até usamos expressões mais softs, como realizou um investimento, que é uma coisa mais redonda, mais soft, para não usar a expressão fazer negócio ou estar num negócio. Mas esta agressividade do almirante é talvez uma das notas mais destacadas desta campanha.

Muitas coisas tenho pensado sobre o aparente, acho isso quase pagamento de André Ventura nesta campanha. Em alguns momentos, eu volto a repetir, moderação, sobretudo quando chegamos ao jogo das acusações. Não sei, se tendo ele mais ou menos assegurado uma passagem a uma segunda volta, não será um exercício para o tornar mais transversal junto de um eleitorado de direita. Imaginemos, um Ventura seguro. E portanto, aquele eleitorado de direita que pode ponderar não votar, pura e simplesmente, poder achar que: "Afinal, o Ventura o tempo já passou, o Ventura está mais moderado. Quem fez as acusações na campanha até foi o almirante, até foi o Marques Mendes, que depois andou a falar em ordinarices". Portanto, haver aqui uma caminhada para algo, que eu acho que está na cabeça de André Ventura e que não é de modo algum ser presidente da República, mas tornar-se como o líder apresentável da direita, que como todos os líderes no passado, teve a sua fase mais radical, mas que uma vez afirmado, então fica mais institucional.

Ele tinha, sem dúvida, de fazer essa transição se quer vir a ser primeiro-ministro. Agora, a razão pela qual a faz nesta altura, pode ser essa, como pode ser outra: trabalhar para a eleição de outro candidato. E aí temos de olhar para os candidatos que ele tem poupado. E o candidato que ele tem poupado mais é, sem dúvida, o almirante Gouveia e Melo, e nós temos de enquadrar isto também com uma série de mistérios não resolvidos, nomeadamente quando falamos do famoso almoço ou jantar que os dois tiveram.

Eu não percebo por que os dois não dizem que almoçam.

Eles disseram. O problema foi no debate, lembras-te? Eles ficarem um bocadinho constrangidos de falarem do assunto do tema do almoço.

Sim, exatamente, por que não se assume?

Por que não desvendaram esse mistério? É que é um bocadinho estranho. Levando-nos a colocar a hipótese, como André Ventura, é verdade, mais moderado com todos, mas aquele que ele de facto poupou mais, mesmo até no debate, no início, que estávamos no início de campanha, é sem dúvida Gouveia e Melo e de alguma forma também António José Seguro.

Nós temos ao telefone Mariana Lima Cunha, é uma das jornalistas do Observador que está a fazer a cobertura da campanha de Marques Mendes. E isto de andar a fazer campanha na estrada afeta a voz dos repórteres. Mariana, vamos ver se está a correr bem, e se não vai ser muito esforço da tua parte explicar-nos como é que Marques Mendes tem reagido e acusado ou não esta tracking poll que não lhe tem dado assim tanta esperança como outros candidatos.

É verdade, Carla, eu tenho que dizer que normalmente em campanha eu devia aceitar patrocínios de pastilhas para a garganta, porque é mesmo habitué isto acontecer.

Não podemos exigir muito de ti. Diz-nos então, se calhar vamos mais aqui ao osso da questão, depois do dia de ontem, sentes mais otimismo ali por parte da campanha de Marques Mendes?

Sim, a trapalhada e o deslize de Cotrim Figueiredo ontem, sobretudo ali a responder à questão sobre André Ventura e sobre a passagem à segunda volta, deu um boost de energia aqui à campanha de Luís Marques Mendes, de que Marques Mendes, de facto, estava a precisar, porque ele tinha passado os últimos dias, evidentemente Perguntas sobre a tracking poll da TVI e da CNN, que se torna quase uma personagem política e uma protagonista desta campanha. E ao sair todos os dias, acaba por fazer parte das perguntas dos jornalistas diariamente e acaba por ter um impacto anímico na campanha. Marques Mendes foi sempre lembrando que quando se tratou da corrida entre António Costa e Rui Rio, Rui Rio chegou numa altura, embalado por esses resultados da tracking poll, a aconselhar António Costa a ter humildade de reconhecer a derrota, e António Costa acabou com a maioria absoluta indesperada em mãos. E Marques Mendes tem lembrado sempre que os métodos da tracking poll não são os de uma sondagem tradicional, que a amostra é mais pequena e tem dito que diz isto não só por convicção, portanto, sugerindo que tem acesso a outros dados que lhe dizem que não está tudo perdido como esta tracking poll parece que indicia para o lado dele e que não está em risco de não passar à segunda volta. Agora, uma coisa é ter de estar sempre a defender nesse sentido, e os últimos dias foram muito passados nisso, ou seja, Marques Mendes começava cada comício, cada jantar, a dizer que não o desanimam, a pedir aos apoiantes que não desanimem também. Teve vários ministros a pedir que não se acredite no que os números das sondagens apresentam agora. Outra coisa foi começar com o presente que veio da campanha de Cotrim Figueiredo, porque Marques Mendes ontem bastou-lhe sentar-se a assistir aos cabos que estavam instalados do lado da campanha de Cotrim Figueiredo. E ele na verdade ontem só falou em dois momentos. Um foi de manhã, quando recebeu a notícia de que Cotrim Figueiredo tinha falado de Ventura e recebeu um briefing de quase toda a sua campanha.

Olha, ficámos sem a Mariana a responder.

Está em viagem.

Tiveste um cortezinho na rede, mas já está.

Dizia eu que Luís Marques Mendes ontem, por um lado, de manhã, teve logo a notícia de que Cotrim Figueiredo tinha dado aquela resposta sobre a segunda volta e focou logo a sua manhã em dizer que o voto em Cotrim é inútil. E depois à noite, o segundo momento em que falou conosco, ainda de tarde, num comício, ele voou muitíssimo o tom, chegou a dizer que esta aparente aproximação à direita radical, que é uma ameaça à democracia, que ele vai ter de fazer a defesa da democracia nesta campanha. Teve depois o António Galho também a fazer críticas duríssimas a Cotrim.

Mariana, deves estar numa parte da viagem com muitas dificuldades de rede. Vamos ficar por aqui. Obrigada, Mariana. Foi clara a forma como Marques Mendes está a gerir estes dias. As melhoras de voz.

Obrigada e boa viagem.

E boa viagem.

Ele fez esta publicação no Facebook e depois mandou alguém, aliás, pelos assuntos sobre os quais escreve e intervém, tem a Intervenção Cívica, que é o Manuel Castal Branco e que se passa muito pelas questões que temos muitas vezes ligadas às EP25 e não só. Ele também tem tido intervenção política. E é curioso porque ele faz uma publicação na qual ele escreve, e agora é mais simples se eu ler: "Uma tracking poll pode ter utilidade enquanto indicador de tendência, mas não pode ser tratada como uma sondagem fiável. O seu impacto mediático é inegável, mas a sua robustez estatística é limitada". Portanto, ele diz que não são instrumentos de medição rigorosa e transformaram-se mais num instrumento de produção de narrativa. Esta ideia das tracking poll como instrumento de produção de narrativa, parece-me que é algo que talvez fique daquilo que têm sido estas eleições. Agora aqui já sou eu a falar. E por outro lado, ele chama também a atenção para uma coisa. Ele diz que há 10 ou 15 anos era comum uma sondagem entrevistar mais de 1500 eleitores, o que permitia margens de erro inferiores a 2%. Hoje, é raro ultrapassar os 900 ou 1000 entrevistados, ou seja, margens de erro de 3%. A RTP fez em dezembro uma entrevista com 1200 entrevistados, o Expresso outra com 900. A tracking poll da CNN tem marcado a agenda política e penalizado Marques Mendes, enquanto beneficia Segura e Cotrim, assenta em 200 entrevistas por dia, num total que não ultrapassa 600. Isto significa uma margem de erro de 4%, ou seja, o valor apresentado pode variar 4% para cima ou para baixo. Fim de citação aqui destas observações, desta publicação do Manuel Castal Branco. E eu acho que reteria daquilo que ele escreveu, esta ideia, realmente, estatisticamente, a sua robustez estatística é limitada, mas o seu impacto mediático é inegável.

Olha, Helena, desculpa se calhar estar-te a tirar a conclusão, mas isso é um pouco aquilo que o José Manuel Fernandes tem falado muito nos últimos dias, a propósito de uma sondagem que André Ventura colocou nas suas redes, que aparentemente ainda não está reconhecida pela ERC, mas que serve como narrativa para a mensagem de vitória.

E não estou a dizer que o José Manuel Fernandes tenha dito isto, estou só a falar daquilo que a mim me parece, é até uma outra coisa, que é encomendar sondagens O que é muito diferente desta da Tracking Poll da CNN, porque no caso da Tracking Poll é uma base muito curta, entre 200, que é interessante para dar tendência, mas como nós temos aquela necessidade de fazer títulos, ao segundo dia estamos a dizer que o trem vence ou perde. Isso aqui é a tal produção de narrativa. No caso dessa sondagem do Chega, eu acho que poderá ser uma coisa diferente. Para ser considerada sondagem, ela tem que ser depositada na ERC. E também depende muito da forma como se pedem as sondagens, ou seja, com que bases, em que sítios, a que perfil de eleitores. Se eu encomendar uma sondagem com determinadas condicionantes, que porventura se nessas condicionantes for uma expressividade do meu eleitorado, por assim dizer, mas é uma sondagem e eu registro-a, obrigo os outros a falar dessa sondagem, que é manifestamente uma sondagem. Não estou a desmerecê-la enquanto sondagem, estou a dizer que as condições, ou as circunstâncias, ou o condicionamento que ela tem com determinado perfil, determinada amostra, pode levar a que o partido em causa ou o candidato em causa apareça muito favorecido.

Havia umas sondagens que o Chega publicava, que era de Faro só, do eleitorado de Faro, não sei se se lembram.

Por exemplo.

É claro que se usar só o eleitorado de Faro, conseguirá resultados muito mais favoráveis do que a nível nacional.

Claro, nós percebemos isso. É muito curioso. O uso de sondagens em Portugal, foi feita uma sondagem ainda antes do 25 de Abril. Encomendada no governo de Marcelo Caetano, mas era uma sondagem, não em que partido é que vai votar, como vocês devem calcular, mas era sobre as preocupações dos portugueses, o que os preocupava. Isso é um estudo muito interessante.

É aquela que faz a primeira página do Primeiro Expresso.

Não, a primeira página do Primeiro Expresso é uma outra coisa, é os portugueses que nunca votaram. Porque em Portugal o recenseamento não era obrigatório. Foi logo uma das coisas, felizmente, decididas a seguir ao 25 de Abril, é que o recenseamento ia ser obrigatório. Era uma sondagem sobre coisas do dia a dia. E depois, eu acho que há, e o tempo veio a confirmar que de facto a sondagem aconteceu, que é antes das eleições para a Constituinte, em 75. Terá havido uma sondagem que terá deixado claro que os portugueses não iam dar a maioria nem ao MDP-CD, nem ao Partido Comunista Português. Essa sondagem, que deve ter sido uns estudos feitos, claro, não era sondagem no sentido clássico do termo é que lhes demos hoje, mas terá sido determinante, por exemplo, para que os setores da esquerda militar afetos ao Partido Comunista começassem a pedir o voto em branco e a desvalorizar as eleições.

Ou seja, teve impacto na estratégia.

Teve impacto na estratégia. Estes estudos é claro que têm, as coisas são usadas dessa forma.

Mas deixe-me só dizer o seguinte: as sondagens e os estudos de mercado, digamos assim.

Pois, nós somos o país que gosta também do termo mercado.

Exato. Porque isto na prática é um estudo de mercado. Vou exagerar e espero não ser violentamente criticada e atacada. Se nós olharmos para cada um destes candidatos como produtos. Na prática, é isso que nós estamos a fazer, é ver qual é a preferência do eleitor. E isto é possível fazer com mais rigor. O que se está a passar neste momento? Não há dinheiro. E não havendo dinheiro, o que é que estão a reduzir-se as amostras das sondagens?

Não há dinheiro nos meios de comunicação social.

Nos meios de comunicação social, sim, há sítio onde há muito dinheiro. Estão a reduzir-se as amostras e a aumentar a margem de erro. E no caso do que se está a passar com a CNN, então é de custo mínimo para impacto máximo. A taxa de rentabilidade obtida, a rentabilidade mediática obtida pela poll da CNN é elevadíssima, porque é um barómetro, digamos assim, relativamente barato, com enorme impacto mediático. Agora, o que é certo é que nós, se quiséssemos e se tivéssemos recursos, poderíamos ter uma antecipação da realidade, e eu agora vou puxar a brasa para a minha sardinha, talvez assim os portugueses percebam a importância dos órgãos de comunicação social terem uma melhor situação financeira.

Eu sabia que esta conversa ia avançar.

Olha, leva também à conversa que temos com o nosso próximo convidado, João Félix da Costa, que é CEO da Giant Digital Growth. Bom dia, João Félix da Costa e obrigada por se ter juntado. Está um bocadinho antes daquilo que lhe tínhamos pedido. As campanhas fazem-se cada vez mais precisamente por aí, pelo digital e por esta necessidade de olhar também para os candidatos como um produto?

Claro. Eu estava a assistir a emissão e uma das coisas que achei interessantes e relevantes é esta ideia da luta na lama. Eu acho que isso é uma consequência precisamente do digital e das regras dos algoritmos, que privilegiam muito o confronto, a troca de posições, precisamente porque as pessoas reagem mais a conteúdos que os provocam, que os chocam, uns tomam partido de um lado, outros do outro. E por isso os algoritmos fazem isso mesmo E promovem essa luta na lama. Quanto mais chocante for, mais a possibilidade eu tenho de ter alcance e visibilidade nas redes sociais. Por isso, acho que isso é uma consequência direta da importância crescente das redes sociais e que se vai traduzindo de eleição a eleição em lutas na lama cada vez maiores e com mais intervenientes. Isso tem sido uma das coisas que têm acontecido nesta campanha.

Mas essas lutas na lama têm criado vantagem para quem as desencadeia? É verdade que os algoritmos funcionam por radicalização e por envolvimento emocional. Mas a questão é se é eficaz para este tipo de objetivos.

Eu acho que é eficaz, não diretamente. Muitas vezes o tema em causa pode não ser particularmente favorável ao candidato. Eu acho que o dia de ontem de Cotrim é um exemplo perfeito disso. Nós tivemos Cotrim como trending topic no X, no Google, mesmo no Google há uma explosão de pesquisas relacionadas com o seu nome. Eu acho que em todas as nossas timelines Cotrim esteve mais presente ontem do que nas últimas semanas todas juntas. O assunto não é favorável para ele, mas isso permitiu que ele alcançasse um público que antes nunca alcançaria, que os conteúdos dele não relacionados com estas últimas polémicas também saltassem e muito mais gente tivesse contato com eles, porque normalmente quando um candidato faz uma publicação normal aquilo que acontece é o algoritmo mostra aquilo à sua comunidade ou a quem tem mais afinidade com essa comunidade.

Fica na bolha.

As polémicas permitem sair dessa bolha e porventura falar com pessoas que nunca falaria antes. Portanto, eu diria que sim e Ventura tem provado muito que funciona.

Claro. Sim. De qualquer modo, bom dia, daqui Helena Matos.

Bom dia.

Em relação às redes sociais, as redes sociais são um bocadinho como aqueles medicamentos que se tomam e depois a determinado momento se começa a achar que têm muitos efeitos secundários, porque nós vemos, por um lado, como os candidatos estão presentes nas redes sociais, como beneficiam das redes sociais, como fazem conteúdos especificamente para redes sociais. Nós vimos, por exemplo, eu percebo tudo o que está a dizer em relação a Cotrim, mas por outro lado, vimos como Cotrim de Figueiredo usou as redes sociais para questionar, por exemplo, a sua exclusão de alguns momentos em televisão, a sua exclusão de acontecimentos, como algumas televisões não o tinham convidado para determinados momentos. Quer dizer, na prática as redes são instrumentais.

São um instrumento e esse instrumento tem quanto mais força, quanto maior for a nossa comunidade. E a comunidade, por exemplo, de Cotrim cresceu imenso desde que começou a sua campanha. Mesmo no último mês, Cotrim ganhou 70 mil novos seguidores no Instagram. Nós vemos candidatos como Marques Mendes ou Gouveia e Melo, ou não chegam, ou pouco ultrapassam os 20 mil. Cotrim hoje tem 200 mil seguidores no Instagram e isso já lhe confere uma força significativa, sabendo que as pessoas, pelo menos aquelas que forem mais próximas, vão lutar pelas suas causas.

Portanto, é o candidato com mais seguidores no Instagram, Cotrim de Figueiredo?

Não, o candidato com mais seguidores é André Ventura, que de fato tem uma realidade completamente diferente. No Instagram tem mais de 800 mil seguidores, comparando com os 200 de Cotrim, e isto significa que qualquer publicação de André Ventura tem imediatamente um alcance muitíssimo superior.

João Félix da Costa, daqui João Miguel Santos. Gostava de lhe fazer uma pergunta precisamente sobre o número de utilizadores. Sabendo nós que o alcance da comunicação nas redes sociais se faz muito à custa das interações com os utilizadores, o que nos pode dizer sobre a utilização dos bots, ou seja, utilizadores fantasma, para aumentar o alcance dessa mensagem? Os partidos e os candidatos utilizam essa ferramenta?

Para lhe responder essa pergunta, eu não sei se posso falar em bots. Nós sabemos, por exemplo, nas contas dos candidatos, a conta de André Ventura, pelo menos os relatórios mostram isso, há uma percentagem significativa de utilizadores que estas aplicações têm dúvidas se são legítimos ou não. E claro que aumenta, mas essa percentagem não chega. Eu diria que Ventura, em qualquer caso, tem uma expressão três vezes maior do que Cotrim nas redes sociais, pelo menos. E se calhar 10 ou mais vezes do que os outros candidatos, mesmo descontando essa utilização que terá ou não acontecido monetariamente Agora ou no passado.

Não há forma de saber.

Não há forma de saber quando é que aconteceu, só se tivéssemos a seguir desde o primeiro dia a conta do André Ventura.

Seria muito trabalhoso, sem dúvida.

Ou se nos dessem acesso à conta, porque depois há ferramentas que fazem a análise.

Exatamente.

João Félix da Costa, muito obrigada por ter estado no Contracorrente. Um bom dia para si.

Obrigado e um bom dia.

Bom dia, Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política. A campanha mudou ontem?

O tom da campanha mudou. Não sabemos ainda, nem conseguimos medir o impacto que estes dois momentos terão no resultado final. Há um primeiro momento que é, de facto, e o próprio hoje mesmo reconheceu isso, uma gafe absolutamente dispensável de João Cotrim Figueiredo. O próprio hoje, na terceira vez que reage ao tema, já reconheceu que esteve mal. Depois há um outro momento mais delicado, que é preciso ter também alguma prudência na forma como o abordamos, que é a questão da denúncia de um alegado assédio sexual. Faltam conhecer muitos dos contornos do caso, a própria queixosa não quis prestar esclarecimentos. É preciso gerir com pinças essa questão, porque estamos a falar de temas muito sensíveis e não sabemos como é que isto impacta ou não na campanha do Cotrim Figueiredo. Dependendo dos sentimentos de cada um em relação ao candidato, das percepções que existem em relação ao candidato, uns acreditarão na queixosa, outros acharão que tudo isto é uma tentativa de prejudicar o candidato.

A política suja, foi a expressão usada por Cotrim.

A própria candidatura do Cotrim Figueiredo tentou uma coisa que a meu ver é bastante arriscada, vou usar a sua expressão, arriscada, de relacionar isto com o governo quando faz questão de dizer governo e com a AD e com a campanha Luís Marques Mendes, quando faz questão de dizer, de revelar em comunicado que a pessoa em questão trabalha para um ministério do atual governo. Essa ligação foi feita, a candidatura do João Cotrim Figueiredo está a sugerir que há, de facto, uma campanha negra orquestrada por parte de gente ligada à AD e à campanha do Luís Marques Mendes. Não são esses os dados que nós temos. Nós conseguimos até agora reconstituir mais ou menos o caso e o que podemos dizer é que a pessoa em questão fez uma publicação num grupo que achava fechado e que essa publicação vazou e depois chegou às redes sociais e teve o impacto que teve.

Há também a questão de que o caso era conhecido há dois anos. O Pedro Castro estava a referir isso.

Não diria que o caso era conhecido há dois anos, mas estas acusações, estas alegações já existiam há dois anos. A pessoa em causa, nesse período de tempo, já teria sugerido que-

Mas em fóruns? Não se sabe

...internos, no partido. E na altura, a questão acabou por não ter nenhuma consequência. A pessoa não fez queixa e é importante sublinhar isto.

E até agora também ainda não, não é? Do que sabemos.

Mas é importante sublinhar isto, porque também temos que fazer alguma pedagogia. As pessoas que são vítimas de assédio, não sei se foi ou não o caso, não estão obrigadas a fazer queixa no momento a seguir.

Claro, não estamos desvalorizar.

Às vezes, esta ligação entre agora está a vingar-se porque é candidato, não. Há processos mentais que temos de respeitar.

Aliás, vimos muito isso no movimento Me Too.

Exatamente.

Não é desvalorizar, mas é tentar também perceber se o partido já tinha conhecimento ou se alguém do partido já tinha conhecimento, por que ninguém atuou?

Mais uma vez, havia conhecimento de que esta pessoa em questão se sentiu desconfortável em algum momento, terá feito um comentário, mas porventura não era sólido o suficiente, não havia uma queixa concreta. Foi uma coisa que ficou muito-

Foi desvalorizada

...não diria desvalorizada, mas ficou muito no ar, algum desconforto. A pessoa, entretanto, também saiu do grupo parlamentar de AD/EL, a vida seguiu. Não diria que o caso existia há dois anos. As alegações, em algum momento dessa coabitação entre os dois, existiram e ficou por aí. E agora surgem, aparentemente, num desabafo da própria, que até o momento não falou, não tem de falar, mas até o momento é importante dizer isso, não falou com os jornalistas, nomeadamente com o Observador. Também não apresentou mais nenhum documento ou indícios para lá daquilo que referiu no texto do Instagram. Estamos neste ponto. Não há nenhum dado novo em relação a este caso.

E este caso

Não somos nós mesmo que vamos avaliar, mas este caso mostra como uma campanha, uma ou várias, ou todo o percurso para umas presidenciais, pode mudar por causa disto. Se olharmos para o que era antes de ontem a campanha de Marques Mendes e a forma como reagiu primeiro àquela primeira declaração sobre a possibilidade de votar em André Ventura e depois esta que o acoça mais do ponto de vista até anímico, Cotrim, seguramente, tudo isto pode mudar.

Foco mais no primeiro momento, porque o segundo eu não consigo mesmo avaliar.

Não consegues mesmo avaliar. Aliás, já nos disseram aqui que isto pode até funcionar a favor do candidato Cotrim de Figueiredo.

Precisamente, na onda do que estávamos a falar de isto ser percepcionado como uma campanha negra contra o candidato. No primeiro momento, de facto, Cotrim cometeu um erro, que Luís Marques Mendes aproveitou imediatamente. Quer dizer, João Cotrim Figueiredo ganhou uma vantagem absolutamente inesperada nesta campanha, que foi aparecer à frente na sondagem diária que é feita pela TVI e pela CNN. Isso esvaziou a grande narrativa que Luís Marques Mendes trazia para esta campanha, que é: o voto útil à direita é em mim. Só podem votar em mim, Luís Marques Mendes, para garantir que há um candidato de centro-direita na segunda volta. Ora, quando João Cotrim Figueiredo aparece à frente das sondagens, isso torna a vida de Luís Marques Mendes muito mais difícil, porque às tantas as pessoas começaram a questionar se não seria mais útil votar em Cotrim do que votar em Luís Marques Mendes. Quando João Cotrim Figueiredo, numa infelicidade, admitiu que numa segunda volta votaria em André Ventura, isto reforça o argumentário de Luís Marques Mendes.

A mim o que me espanta não é que ele tenha dito que admitia votar em André Ventura, a mim o que me espanta é que ele tenha dito que admitia não passar à segunda volta. Isso é que me surpreende. Parece aquele momento da Feira da Golegã que ele teve no debate com o António José Seguro. Como é óbvio, ele tem de namorar o eleitorado do Chega. Claro, não é dizer que vai votar. Claro, também não podia dizer que ia votar no António José Seguro, como é óbvio. Mas a mim o que me admira, o que me espanta, parece que tinha chegado aqui ontem, é que ele tenha dito que não era ele que ia estar na segunda volta.

E o que terá justificado isso hoje, João Cotrim Figueiredo sugeriu que por já saber que circulava a tal história, estaria transtornado.

Nós temos uma das grandes gafes de um dos políticos mais eficazes em Portugal.

António Guterres.

Resultou de uma situação muito dramática. Mas sim.

Essa é uma justificação. Não temos motivos para duvidar de João Cotrim Figueiredo. Agora, conseguimos medir as reações do próprio. Quando faz essa primeira declaração sobre André Ventura, parecia-me que estava ali com alguma displicência até a falar aos jornalistas e com algum excesso de confiança, o que é algo que caracteriza João Cotrim Figueiredo. Depois, num segundo momento, quando fala novamente à comunicação social, até surge algo acossado, sugerindo que foram os jornalistas que interpretaram mal as palavras do próprio. Depois faz uma terceira declaração, já há um vídeo nas redes sociais, onde diz: "Bom, se calhar não fui muito claro." E agora diz que foi infeliz. Portanto, há aqui uma evolução na posição de João Cotrim Figueiredo que acho que pode ser resumida nessa ideia. Não correu manifestamente bem. Isto cria uma confusão que era perfeitamente dispensável. A campanha de Cotrim Figueiredo estava a correr muito bem, estava a ser muito competente, estava com o momentum do lado dele e tropeça nas próprias palavras. Hoje também não me parece, pelas informações que vamos tendo, que vá ser um dia também muito feliz, porque segundo sabemos, há sondagens que vão baralhar outra vez a hierarquização de candidatos nesta campanha. E olhando para aquilo que têm sido as reações de Luís Marques Mendes nos últimos dias, para os sinais que a campanha tem dado, para a confiança que Luís Marques Mendes tem mostrado, desconfio que a campanha do social-democrata terá indicadores que lhe dão algum conforto para uma eventual segunda volta.

Pois, porque nós temos aqui uma questão. Eu, por acaso, acho que a história da acusação de assédio pode, de alguma forma, favorecer Cotrim de Figueiredo ou minorar aquilo que são os impactos dessas declarações em quem é que ele votava na segunda volta. Acho isso, essa sua aselhice, por assim dizer. Ele, em termos de intervenções, tem momentos em que é muito bom e é muito bom, por exemplo, no contato com as pessoas, mas note-se que os debates não lhe correram particularmente bem e teve aquele momento Feira da Golegã, que é daquelas coisas, porque não foi só o António José Seguro ter encontrado declarações dele diferentes daquilo que ele estava a dizer, é que ele teve uma coisa que é muito difícil num estúdio de televisão, que é um segundo ou dois de silêncio, em que não respondeu. Eu sei, porque eu estava para comentar aquele debate e pensei que o homem tinha dado um chilique.

E mesmo a expressão facial ficou bloqueada.

Sim, que é uma coisa, quando eles ficam em silêncio, uma pessoa pensa: "Bem, e isto agora o que é que vai acontecer?" Portanto, eu acho que ele tem isso. Voltando àquilo que estava a dizer, eu acho que esta história da acusação do assédio pode não correr necessariamente contra Cotrim de Figueiredo. Por quê? Porque pode gerar um sentimento de alguma compreensão no momento em que esse tipo de acusações não está em alta. Ou seja, nós tivemos a primeira vaga em que havia acusações, estou a pensar noutros países, não estou a falar de Portugal E depois algumas acusações não tiveram a fundamentação que se esperava. Por outro lado, eu gostaria de recordar que em Portugal, esse tipo de movimento nunca teve qualquer tração. E não teve qualquer tração, porque algumas das pessoas que muito admiramos, política e socialmente, tiveram comportamentos deploráveis nessa matéria. E, portanto, nós mesmos, ou eu mesma, não estou a incluir aqui mais ninguém, vivemos nessa ambiguidade. Porque qualquer pessoa que está viva e que anda, por exemplo, no jornalismo, sabe e pensa. Contudo, admiro profundamente. Logo, em Portugal, por todo um conjunto de razões e também porque o mercado é muito pequeno, esse movimento nunca teve qualquer tipo de tração. A isto junta-se que, como sempre, neste tipo de acusações, em primeiro lugar, em países como Portugal, nos outros não posso avaliar, olha-se primeiro para quem está a acusar e depois para o acusado. E procura-se sempre explicar a acusação pela personalidade de quem acusa. Portanto, mais a mais, há aqui algumas fragilidades e eu acho que se pode gerar, se nós estivéssemos a falar de outro país, não seria assim. Em Portugal, eu não sei se isto não vai gerar um fenómeno de compreensão e até uma outra coisa que é: como se fala muito disto, não se fala da azelice política. Essa é uma das coisas. Agora, com isto tudo, Cotrim de Figueiredo não tem aquelas potenciais percentagens de eleitor que lhe dava a tracking poll, e note-se que não era uma sondagem, a tracking poll, não é o eleitorado fidelizado que o Ventura tem ali 20%. Mexa-se, vá para onde for, tem os seus 20%. Até pode ter um refluxo esofágico, 20%, não interessa.

Pode não, deve ter.

Eu acho que quando vi o ar de pânico do Pedro Pinto naquele dia, percebi, eles sabem que se o homem ficar hospitalizado e doente, perdem as eleições, quer dizer, perdem votos, eles não iam ganhar as eleições. Isso é outra coisa. Portanto, eu acho que em relação ao Cotrim de Figueiredo, há essa questão. Agora, e aí concordo completamente, que o Marques Mendes terá outras indicações a partir de outros estudos.

O que é normal.

Completamente normal.

Não há nenhuma conspiração aqui, é perfeitamente normal.

Claro, tal como aquela primeira intervenção do Luís Montenegro na campanha, nós depois percebemos o porquê, explicamo-lo a partir das sondagens, poderão também estar a acontecer.

Marques Mendes também é um político muito experiente. Experimentado e sabe que estas campanhas têm altos e baixos e a outra hipótese é ele próprio também não querer e conseguir não transmitir algum desânimo.

Deixe-me só dizer, porque pode ser interessante a nossa reflexão ainda sobre o João Cotrim de Figueiredo, acaba de concretizar a ligação entre a queixosa e o governo ao dizer que num órgão de soberania está alguém que publica mentiras. Portanto, se nós achamos que a campanha estava suja até aqui, acho que vai piorar muito.

Vai ficar monotónica com o Cotrim.

Esta frase é que o Cotrim de Figueiredo sugere que há uma ligação, uma causa e efeito.

Ou seja, o que é que ele quer? Ele quer obrigar o Marques Mendes a dizer que não tem nada a ver com isso.

Como é óbvio.

Sim, no fundo, é isolar completamente quem o acusa.

Ele quer criar um momento fora da Golegã para o Marques Mendes.

Sim, é isolar quem o acusa de assédio e responsabilizar, de alguma forma, dar a entender que é a campanha de Marques Mendes que é responsável por esta acusação.

Portanto, hoje é terça, temos quarta, quinta, sexta. Quiçá, pela primeira vez pensamos que acho que devia de dia de reflexão, não é tão mau quanto isso.

Dá-lhes um descanso a todos. E aos próprios.

E aos próprios, sobretudo.

E se calhar a precisar mesmo de um dia para refletir, Miguel Santos Garrapatoso. Isto percebemos, vão ser três dias muito intensos depois disto tudo.

Ele sorri.

Ele sorri. Nós também. Acabou o "Contra Corrente". Amanhã há um outro tema em análise. Até amanhã.

Até amanhã.

Até amanhã.